Luiz Carlos Caetano: histórias do Pontal Norte, da cidade e da infância em Balneário Camboriú

O pescador aposentado Luiz Carlos Caetano, 67 anos, nasceu, cresceu e vive até hoje no Pontal Norte de Balneário Camboriú.

Inicialmente vivia mais pro centro, na Rua 1201, mas hoje está na Rua Albatroz, no Ariribá, com a esposa Rosaleta, que é casado há 45 anos e tem dois filhos e três netos. Ele relembra os tempos antigos, com memórias afetivas da praia central sem ser poluída, a fartura na pesca e o racismo que vivenciou por ser negro: bailes fechados de acordo com a cor da pele.

Cidade era só mato, poucas casas

Nasci em Balneário,
dia 05 de abril de 1953.

Toda minha família era daqui,
sempre todos daqui.

Era totalmente diferente,
a cidade era só mato.
Não existia nada, né,
nem casas.

Eu morava na 1201,
no Pontal Norte.
Na Albatroz estou desde 1965.

Tinha um ribeirão aqui,
e a gente pescava.
Cansei de pegar peixe ali.

Não sei como vai crescer mais,
não tem pra onde, né?
Já está lotado de prédio.

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Vendinhas e vendiam fiado

Não tinha mercado.
Eram vendinhas,
e vendiam fiado
(risos)

Comprava peixe,
comida seca.

Muito peixe

Peixe tinha bastante.
Eu me aposentei como pescador.

No rio ali, a água era limpa,
o Rio Marambaia cortava toda a cidade,
saía na Praça Tamandaré e ia até a 2200.

Não tinha outra coisa pra fazer,
a profissão era a pesca.
A gente ia lá puxar rede.

E no nosso tempo
tinha que fazer a rede.
Hoje tu compra ela pronta.

Meu sogro pegou muita lagosta.
Dava muita tainha também.
Lembro de 1973, um lanço muito grande.
Ou a gente comia peixe,
ou não tinha nada.
Minha mãe fazia tainha assada.
Não tinha muita banha.
Era peixe, aipim, batata.
Comida da terra.
Era um tempo muito bom.

Infância e brincadeiras

Era muito diferente.
Meus netos hoje é muita tecnologia.
Eu nem gosto de celular,
não sei usar.

Brincava de bolica,
bilboquê,
carrinho de bambu pra ir buscar o peixe.
Colocava um prego no bambu e o balaio.
Buscava o peixe lá
no canto da praia,
na Barra Sul.

Todo mundo se conhecia,
a gente respeitava os mais velhos.

Se não cumprimentasse,
mesmo não conhecendo,
apanhava quando chegava em casa.

Falavam ‘teu filho passou por mim
e não cumprimentou’
e ia pro pau.

Nadavam nus porque não podiam chegar molhados em casa

Brincava na praia.
Era tudo deserto.
Pra tomar banho
a gente tirava a roupa.

Porque se chegasse em casa
molhado, o pau pegava.
Apanhava mesmo.
(risos)
Era uma beleza.

Carros na praia

Os carros passavam na praia,
na areia mesmo,
e a gente fazia buraco pra eles caírem,
porque assim ganharíamos dinheiro
(risos)
Corríamos pra ajudar.

Sinto falta da liberdade.
Naquele tempo não precisava polícia.
Hoje acabou o respeito.

Luiz Carlos Caetano e a esposa Rosaleta

Autoridade na escola

Estudava no Laureano Pacheco.
A professora era autoridade.
Apanhava bastante (risos).

Ela pegava a mãozinha tua aqui
e batia com a régua.
Sinto saudade, era bom.

Hoje está uma pouca vergonha.
Não respeitam os professores.

Cinema na Tamandaré

A cidade começou a crescer.
Fizeram cinema, era na Praça Tamandaré.
Enchia de gente.

Festas e religião

Muitas festas aconteciam
aqui na Igreja São Sebastião.
Agora está bonita,
mas era velha, de madeira.

Faziam muitas barraquinhas,
tinha pipoca, quentão, pinhão, paçoca.
Enchia de gente.
Eu sou católico, casei na igreja.

Teve a Julifest depois também, foi muito boa.

Baile de branco x baile de negro

Baile tinha, mas a gente não tinha dinheiro.
Tinha baile de negro e baile pra branco.
O baile de branco, era de branco.
O de negro, era de negro.
Tinha essa divisão mesmo.
Branco não podia dançar no baile de negro e vice-versa.
Podia entrar pra olhar, mas não podia dançar.

Pontal Norte, Balneário Camboriú

Pai da namorada não aceitou

Eu passei por racismo também.
Em 72 minha mãe alugou uma casa,
onde hoje é o ‘Hospital de Olho’,
para uma família de Cascavel.
Apareceu uma moça e eu comecei a namorar com ela.
O pai dela descobriu e foi embora.
Nem ficou mais.
Disse ‘negro com a minha filha eu não quero’.
E foi embora.

Tudo está a mesma coisa,
nada mudou.
Só ilusão que o racismo diminuiu.
Tudo furada.

Baleias que encalharam na praia

Teve a baleia que encalhou na praia.
É uma história que todo mundo lembra.
Encalhou uma no centro
e outra perto do Hotel Fischer.
Ficaram lá até morrer.
Todo mundo foi lá ver.

Troca por terreno e luz

A cidade cresceu, né.
É o futuro.
Hoje um terreno aqui custa R$ 700, R$ 800 mil.
Na minha época com uma vaca, um bezerro gordo,
comprava um terreno.
A gente fazia troca.
Meu pai uma vez
trocou energia elétrica com uma mulher
por metade dinheiro
e metade em linguiça e carne seca (risos)

Teve linguiça por muito tempo…

“Pra tomar banho, tinha que tirar a roupa, pra chegar seco em casa” – Luiz Carlos Caetano

“Negro com minha filha não quero” – Luiz Carlos Caetano


Por Renata Rutes
Edição Caroline Cezar
Diagramação Fab Diniz