João Vicente e José Lima: cunhados dividem memórias sociais, da pesca e política

A história de João Vicente, 79 anos, pescador nascido em Balneário Camboriú Eletricista aposentado pela Celesc, onde trabalhou por 25 anos, se cruza com a do baiano de Alagoinhas, José Lima Souza, 93 anos, cunhado de João Vicente, e que trabalhou na primeira equipe da COMPUR.

Os dois moram na Vila Real: João desde sempre e José desde que casou com a irmã dele, Euflorzina, falecida há 14 anos (e a quem ele diz que não esquece nenhum dia – ‘me deixou um vazio, era a coisa mais querida’). Os dois relembram com nostalgia dos tempos antigos da cidade, quando Balneário tinha fartura de peixe e outros frutos do mar, todos se conheciam, havia poucos prédios e o município não era ‘focado só nos poderosos’, como define João. João Vicente e José Lima: cunhados dividem memórias sociais, da pesca e política

Baiano em Balneário

Eu não sou de Balneário,
começa o baiano José Lima Souza, 93.
Eu sou do Estado da Bahia, de Alagoinhas.
Eu fui pra Apucarana, no Paraná, 
morei em outras várias cidades lá também,
e em 1966 vim pra cá.

Meu primeiro patrão aqui
foi o Zé Martins, era construtor.

Comecei morando no centro,
atrás de onde é hoje a Igreja Assembléia de Deus.
Eu pagava aluguel,
trabalhando com o Zé Martins,
ajudei a construir a casa dele,
onde depois foi o Supermercado Vitória,
e hoje é a Loja Milium.

Lagoa atravessava
a cidade

Quando cheguei aqui, 
na época era bem diferente, 
a cidade estava no começo. 

Tinha uma lagoa 
desde o Hotel Pires até o Marambaia, 
tinha mais de 30 ‘metro’ de largura, 
eu pescava, caçava, tinha frango d’água.

Depois a cidade foi crescendo,
foi apertando… hoje em dia,
aquela lagoa de 30, 40 metro,
tem menos de 10. 
É uma galeria,
o Rio Marambaia.

Peixinho dali pra cá

Por isso que qualquer chuvinha 
invade a cidade,
onde tinha 30, 40 metro, 
hoje passa menos de 10.

Na Praça Tamandaré,
onde hoje faz aquela volta,
não tinha Rua 10, ali atrás, 
era a lagoa. Tomava conta de tudo.
Eu me debruçava e ficava olhando,
ficava passando peixinho dali pra cá.
Tinha um cineminha ali,
domingo enchia de gente.

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Cria da Vila Real

João Vicente, ‘esse é meu nome completo mesmo,
assim mesmo, João Vicente’, nascido, crescido e até hoje
na Vila Real.

Sim, minha família é toda daqui.
Eu nasci e me criei aqui.
Meus pais são de Camboriú.

Não tinha essa ganância.
Tinha pinheiro, cafezal.
Tomava banho no rio, 
era tudo limpo.
Aprendi a nadar aqui.

Balneário mudou

Nossa Balneário está difícil, 
mudou muito.
Hoje só tem poderoso.
É praticamente outra cidade.

Quem viveu Balneário
naquela época
e vive hoje
é outra cidade.

Nossa praia,
nadar até a ilha.
Olha hoje.

Pesca desde os 13

Naquela época, pra tu trabalhar
era com a pesca, eu pesco desde os 13.
Não era rede, era espinhão”.

Pescava muita corvina,
tinha a época da tainha.
Dava muito peixe.
Agora nem chega mais tainha.

Eu sou pescador profissional, 
tenho minha carteira e tudo.

O que eu gostava mesmo
era da pesca submarina.
Eu acho que a pesca
vai se acabar.
Pra mim, vai se acabar.

Baleia que
encalhou na praia

Visse essa semana
o elefante-marinho?
Esse leão-marinho,
tu coloca rede na água,
ele começa a puxar, rasga a rede,
e come os nossos peixes tudo. 
É um bicho grande, né. 
Pode afundar a bateira.
Teve a baleia também né…
Entrou pra história.
Muitos tentaram tirar ela dali,
puxando, mas ela morreu.
Triste que ainda acontece,
em Itajaí que arrancaram o rabo de uma esse ano.

Ostras no Rio Camboriú

As minhas filhas eu criei
nesse rio nosso aqui ó.
Tirando ostra, tinha muita ostra.
Hoje não tem nenhuma ostra no rio.

Eu vendia pro Restaurante
Poço das Pedras.
Minha primeira casa
eu construí com esse dinheiro
O dinheiro das ostras.

Eu trabalhava na Celesc,
e saía de bicicleta
para o horário de almoço,
chegava às 11h, comia rápido
e mergulhava para
pegar as ostras.

E olha o nosso rio hoje.
Você comeria uma tainha daqui?
É só sentir o cheiro,
e não vão arrumar isso aqui nunca.

Camarão e lagosta também

Camarão aqui era reveria,
né, seu Zé?

Aqui não tinha lagosta, 
mas no mar sim. 

Na época tinha só um posto salva-vidas, ali na altura do Imperatriz, na 2000.

Nós ia ali atrás da ilha matar lagosta,
era 40kg, 50kg.
Vendia por R$ 2 mil o quilo
Sabe quanto é que tá hoje?
90 real o quilo.

Esse negócio de Coronavírus

Bateu esse negócio de coronavírus, né? A gente tem que tudo andar entocado, com medo. Tem que ficar dentro de casa, né? Nunca vi nada assim, o que é que a gente vai fazer, né? Antes a gente andava por tudo.

Vendinha e cigarro

Ah, nega, comércio era só vendinha.
Tu chegava, ‘me dá uma cachaça’.
(risos)
Vendiam fiado.
Era assim, se eu, com oito, dez anos, 
pegasse um cigarro, o tapa comia.

Cigarro era difícil,
meu pai fumava cachimbo.
O fumo chegava todo enrolado,
era de corda.
Eu ia comprar,
vendiam tranquilo mesmo pra criança.

Bailes pela cidade

Ah, tinham muitos, né seu Zé?
Sim, lembro de um perto da rodoviária,
da rodoviária da Avenida Central.
E tinha um fim de semana festa dos brancos
e no outro a dos negros.

Quando era dos brancos, os negros não iam.
Tinha essa separação.

Higino João Pio, eleito pelo povo

Os prefeitos eram indicados por Camboriú.
O primeiro, eleito pelo povo,
foi Higino João Pio.
A morte daquele homem,
foi a palavra dele.
Ele não sabia dizer não.

Eu morava ali perto do centro,
na Rua 401.
Um dia ele vinha da prefeitura, 
morava ali perto do Calçadão,
tinha o Hotel Pio,
e eu vi um senhor falar
‘Pio, minha mulher está passando mal
tem que ir no hospital, ganhar neném’,
e ele desceu do carro e mandou o motorista dele
levar ela. Que prefeito faria isso hoje, minha filha?

Seu Zé trabalhou na COMPUR

Eu trabalhei na COMPUR,
17 anos, na primeira equipe.

Naquela época era como dar a mão
pra uma criança, pra dar os 
primeiros passos.

Eu fui o primeiro pedreiro deles,
no tempo do Seu Meirinho.

Naquela época a prefeitura 
também era pequena.

Nós ia socorrendo um ao outro.

“O primeiro prédio”
Seu José Lima


Por Renata Rutes
Edição Caroline Cezar
Diagramação Fab Diniz