Dona Bela, 93 anos: lembranças de plantação na Ilha das Cabras e pioneirismo na cidade

Izabel Rodrigues Simas, 93 anos, conhecida como Dona Bela, nasceu e mora até hoje em Balneário Camboriú.

Lúcida e com lembranças afetivas da cidade, ela recorda a época que a família tinha plantação na Ilha das Cabras e ia a pé para o colégio, o primeiro da cidade. Casou-se com o soldado da Segunda Guerra Mundial, José Simas, morador de Tijucas e falecido há 29 anos, com quem teve três filhos, Maurício (o conhecido Escova, músico e ex-funcionário da Secretaria do Meio Ambiente), Maria Helena e Mário César. Dona Bela tem seis netos e quatro bisnetos, e afirma o quanto sua história foi bem vivida e é feliz em Balneário, apesar de ver que a cidade hoje “é outra”.

família toda de Balneário e região

meu pai era conhecido como Vô Maroca
e sou neta do José Francisco da Silva
mas na época chamavam ele José Manduca
Manduca era apelido, e sobrenome era Silva
ele morreu com 105 anos

o meu vôzinho nasceu em Porto Belo
de Porto Belo ele passou pro Pinho
ele levou a minha mãe dentro de um cerão
pro Alto do Baú, com seis anos pra frente
minha mãe começou a criar os irmãos
meu vô era serrador não calçava um calçado
tinha os pés tudo marcado com o machado

depois que separaram Itajaí de Camboriú
tinha um engenho de serra
e ali ele ainda serrou muita madeira
chegava em casa cansado

eu nasci bem no centro
mais ou menos onde fica 
o Supermercado Imperatriz
na época a Marinha não aceitava
fazer casa perto da praia

minha mãe também viveu muito
durou 104 anos
morou comigo até o final da vida na Vila Real 
agora moro no Nações rua Uganda
tive 10 irmãos 
estou viva e o mais moço também

Publicidade
Publicidade
Publicidade

brincadeiras de criança

minha mãe fazia
as nossas bonecas
bordávamos olhos cabelo boquinha
eram coisas feitas à mão
fazíamos boi-de-mamão com a cera
do mel de abelha as garrinhas do
goiá (caranguejo) eram os chifres
aproveitava as coisas do mar
com as de casa
e assim brincávamos
era o nosso Natal, festas

só entrávamos no mar
junto com o pai ou a mãe
de noite quando tinha lua bem bonita
porque não tinha luz
brincávamos bem no baixinho
molhava as pernas 
sentava dentro da água
mas deus o livre alguém ver
a gente de bíquini
nunca coloquei bíquini 
minhas irmãs também não

tempos de escola

nós ia pela linha do telégrafo na escolinha
chamávamos de picada do arame
lá aonde entra para a Estrada da Rainha
de quem vem de Itajaí pra cá

foi a Dona Nina Mingotti a nossa professora
lembro do livro tinha versinhos
umas coisas bem bonitas

nós ia de onde nós morávamos 
perto da primeira caixa d’água
tudo dali até a praia era do meu pai
ali nós crescemos
eu sofria muito da bronquite
ainda hoje sofro
e meu pai me levava às vezes de bicicleta
eu tinha 5, 6 anos

capinávamos antes de ir pra escola
tinha tudo marcado o quanto trabalhávamos
tomávamos banho nos vestíamos
quando voltávamos descansávamos um pouco
a mãe fazia suco de mel (água e mel)
almoçava e não tinha descanso
pegava a enxada de novo

como era a estrutura da cidade

quando nós íamos de volta da escola pra casa
tinha um lugar que chamava as areias
era areia mesmo areia solta
ali tinha um homem que chamávamos de tio
era marido da Sinha Marica
a areia era muito quente e ele deixava preparado para nós
uma jarra de barro com suco de laranja

passávamos as areias todas
tinha um lago com uma figueira
chamavam de Poço do Jacaré
e criou-se um jacaré lá
lá tinha um caminhozinho que o pai fez
areia quente e umas rosetas com ganchinho

Dona Bela (direita, de amarelo), o filho Maurício e a mãe dela, Vó Chica.

trabalho era roça e pesca

o trabalho era na roça e pesca
nós nos criamos na roça
serviço pesado
plantávamos tudo que aparecia
arroz feijão mandioca 
a maioria era pra nós comermos
porque naquela época não tinha mercado

peixe tínhamos à vontade
secava e tinha muito

tinha engenho de açúcar e farinha
íamos de pé de madrugada
era atrás da rodoviária
tinha bezerro porco galinha
graças a deus nunca faltou nada

vendíamos açúcar
cera marcela capim de colchão palha de milho
levávamos de carroça pra Itajaí
fazíamos um dinheiro vendendo

plantação na Ilha das Cabras

nós íamos muito na Ilha das Cabras
lá tinha um poço de água doce
eu me lembro muito bem desse pocinho
sempre nós ia
onde aquele homem fez a casa 
onde botou as cabras
ali não era terreno liso tinha pedra
a gente plantava aipim amendoim feijão
nós colhia uma porção de coisas da ilha também
feijão nós colhia bastante

meu vô ia junto
estendíamos uma manta
e descansávamos tranquilos
íamos de canoa 
essas que puxam rede na praia
meu pai pescava 
enquanto ele fazia isso
eu a mãe e as crianças 
tirávamos os caranguejo 
o goiá e também íamos pra ilha
dava umas tarrafadas 
dava peixe bom

chamam de Ilha das Cabras
mas pra nós sempre foi a
Ilha de Camboriú
aqui era a Praia de Camboriú

– publicidade –

quando ficavam doentes

tinha um senhor lá na Itapema
que fazia homeopatia
Ia de carroça lá
depois um senhor Luiz Pereira
que fazia uns remedinhos
mas eu já era grande

espanhola x coronavírus

no passado teve a espanhola
meu vozinho veio da mata
pra avisar que não era pra sair de casa
que tivesse paciência 
abandonasse a roça
entendo o que tá acontecendo agora
por isso vivo dentro de casa

pai inventava muitas coisas

meu pai e o irmão dele
faziam canoas
eram canoeiros conhecidos
meu pai também era muito inventor
ele cantava Terno de Reis
e uma vez inventou de fazer um teatrinho
o Teatro do Seu Maroca
esticou uma corda de fora a fora
dentro de casa e tentou andar em cima
ele também tinha um campinho de futebol
ele era muito divertido
era o nosso divertimento
ele montava cavalo era chamado pra matar boi cabrito
era brincalhão era conhecido por isso
os bailes eram na nossa casa
tinha um amigo que tocava sanfona
cantávamos juntos
meu pai que nos ensinou a dançar
se vestia de Papai Noel também
ele adorava brincar mas na hora 
que ele estava pra isso senão

Dona Bela e Vó Chica no casamento do filho/neto Maurício

segunda guerra

lembro quando os soldados
vieram aqui na costa
eles pousaram aqui
no Hotel Marimar
na saída da praia era de madeira
nós trabalhávamos lá também
lavava louça ajudava com o que podia

meu marido era soldado
veio como soldado da Guerra
era de Tijucas veio pra cá
e ficamos juntos

fizeram uma casa pros militares
naquela época não existia cimento
fizeram com barro e mel do tanque
que escorria das barricas do açúcar dos engenhos

trabalhou com alemães

vinham muitos alemães pra cá
eu trabalhava com eles
me levaram pra trabalhar com eles
em Blumenau também

trabalhei numa casa lá
por muito tempo
cuidava de uma criança

meu patrão era neto
dos homens que a minha mãe
trabalhou quando era menina

Dona Bela e o filho Maurício na escadaria da Basílica de Nossa Senhora Aparecida

pioneirismo

meu marido trabalhou
no posto Esso
na frente da Casas D’Água
foi o primeiro posto da cidade
morávamos ali do lado

o meu irmão foi o primeiro padeiro da cidade
ele aprendeu a ser padeiro lá em Camboriú
ele trazia correspondência também
porque não tinha Correios
ele fez a escolinha e por cinco anos
nunca saiu do primeiro aninho (risos)
meu pai comprou uma baita vara
e disse pra professora dá-lhe 
e não adiantou
aí ele pegava o pão e entregava
a Dona Rosinha do Correios de Camboriú
ensinou ele a ler e escrever alguma coisa

ele cresceu, não quis trabalhar com nós na roça
trabalhou na estrada de ferro em Blumenau
casou e fez uma padaria
fazia pão de casa rosca de polvilho
tinha um engenho
a padaria dele foi a primeira e aí ele vendeu
pro Alvim Bauer que dá o nome pra avenida
e se tornou o principal padeiro da cidade

… e a cidade mudou

e quando a gente se deu conta
a cidade tava mudada
foi uma vida difícil
mas gostosa também


Por Renata Rutes
Edição Caroline Cezar
Diagramação Fab Diniz