Butecanis Editora Cabocla: livros artesanais e autonomia no publicar

“Cada vez que eu compro uma linha de pipa e leio ‘453 metros’ penso: quantos quilômetros de livros será que já costurei?” Daniel Rosa dos Santos, criador da Butecanis

Por Caroline Cezar

Daniel Rosa dos Santos é contador de histórias, escritor, ilustrador e criador da Butecanis Editora Cabocla, editora cartonera de Camboriú-BC-Itajaí, que confecciona livros feitos à mão. “Na falta de outra tecnologia, use o facão”, recomenda Dani, fiel ao estilo faça você mesmo.

Parece bobo, mas a consistência do trabalho mostra que Daniel está para a brincadeira: a ideia é desmistificar, aproximar, lembrar que para ser escritor, basta escrever, e que publicar pode ser simples, acessível.

“Na gaveta você não existe. Não tem essa de esperar ser descoberto, ficar milionário, virar um grande escritor. Se você quer seu texto na rua, põe na rua. Fica mais fácil de alguém ler”.

Como começou a Butecanis?
Fiz o primeiro livro artesanal em 2013. Consegui encadernar e tudo e fiz uma logozinha, como se fosse uma editora. Um pouco antes, em 2011, eu publiquei, de maneira convencional Quando Cai o Rio do Céu, e ficou aquele monte de livro em volta de mim, mesmo se tivesse dinheiro não faria aquilo de novo. A Beth reclamando ‘tira esses livro daqui, pô de novo esses livro no meio do caminho’ e os livro pra cá e pra lá. Tem aquelas questões de gráfica, que exige “no mínimo tantos” e quanto mais você faz, mais barato fica, “aproveita e leva 500”. Mesmo 200, 100 livros, acho bastante coisa. E olha, eu dei muito livro, mas levou uns dez anos pra acabar.

Eu ganhei um desses aí (risos).
Primeiro pensamento é ‘vou fazer tantos livros, a tantos cada um, tantos mil em mercadoria’, mas não rola né, pouco circula, tem uma galerinha que consome livro, mas é uma galerinha, não tem essa vazão toda. Talveeez se tiver um esquema de distribuição, alguém trabalhando pra isso, uma outra coisa que não existe, funcione. Aí fiquei nessa nóia de fazer menos, comecei a perguntar pra um, pra outro, fiz umas oficinas lá no Caracol, o instituto do Cristiano Moreira (na época em Navegantes), tinha o Eduardo Moreira, falecido, que fazia alguma coisa, ‘faço com prego’, ele me disse (risos). Depois rolou um encontro com umas editoras cartoneiras de Santos, outra do Rio, que vieram com aquela coisa de tem que ser assim, do catador de papelão, tem que comprar lá, não catar muito… toda uma história. Achei legal, mas esteticamente não era o que eu queria, e ainda assim era cheio das regras, pensei ‘vou ficar na minha’.

Você foi investigando, sem muita pressa
É, há uns anos eu já vinha nessa de fazer livro artesanal. Em 2013 achei um formato, fiz uns caderninhos, forrei, costurei, pus uma capa mais grossa, aí levei mais um ano pensando -sou devagar né- ‘será que vou conseguir imprimir na folha certinho pra costurar? Aí quando eu fiz, nossa inventei a roda, genial, me empolguei, fiz um videozinho, editei e botei no youtube. Ali foi a primeira vez que veio na minha cabeça, “será que tem algum vídeo que ensina a fazer livro artesanal?” (risos)

Tinha cinco mil vídeos (risos)
Tinha cinco MILHÕES de vídeos (gargalhadas)

Bom, mas valeu a jornada de descobrir o teu jeito de fazer
Sim, bem isso, o massa que todos esses anos investigando desenvolvi o meu método, que no fim não vi ninguém fazer. Depois de um tempo eu vi um livro cartoneiro do Enzo (Potel, de Itajaí), na Casa Aberta, bem diferente daquela coisa de não pode ser assim, não pode ser aquilo, ele pegou e fez como quis. Isso me deu um estalo de “é arte né, foda-se as regras” e aí a Butecanis deslanchou.

Primeiro publicando textos teus
Sim. Aí numa oficina que fiz com o Ronald Augusto, de Porto Alegre, mostrei pra ele um livro pequenininho de um conto meu que tinha feito. Porque a minha ideia era isso, ter um cartão de visitas, um jeito de mostrar o que eu escrevia, porque se você fala ‘lê aí um texto meu’ e entrega um xerox, fica lá o xerox esquecido num canto perdido, ninguém lê… se for num livrinho, bonitinho, tem mais chance.

Você entregou e o Ronald leu
Sim, ele leu e gostou, “nossa que legal, faz um pra mim, quanto tu cobra?” Sei lá, nunca tinha pensado nisso, aí fui ver custo e coisa, e fiz pra ele. Dali saiu a coleção Coice de Porco, muito por conta do Ronald, que gostou e pediu. Aí comecei a convidar também, uma galera das antigas, porque queria ter outros autores, já imaginou chegar numa banquinha e botar só livro meu? ‘Eu escrevi, eu imprimi, eu costurei, eu pintei a capa, eu fiz tudo e se quiser eu até leio pra ti’ (risos). Aí foi, só nessa coleção Coice de Porco tem 18 títulos, quatro são meus. Depois foi indo, chegando gente interessada, experimentando os formatos, descobrindo um jeito mais fácil, mais bonito, que dure mais. Cada vez que eu compro uma linha de pipa e olho ‘453 metros’ penso: quantos quilômetros de livros será que já costurei? Muitas mil impressões, livro de um, livro de outro e aqui estamos.

Com vários títulos e autores
Sim, uns 20, 25 autores diferentes, alguns com mais de um título publicado. Só o Demétrio Panarotto (Floripa), tem uns três, mais esse que saiu agora (Cerzindo e Cozendo). Aí tem o Ronald Augusto e a Denise Freitas, de Porto Alegre, o J. Basilista de São Paulo, Paulino Jr, de Florianópolis, Tio Ale, lá de Paranaguá, recentemente o Didiê, daqui de BC publicou, o Osíris (Duarte), de Floripa… Hoje tem várias pessoas que vem procurar, se interessam por publicar artesanalmente.

Como funciona pra publicar na Butecanis?
O autor entra em contato, manda o material, faço um orçamento, e vamos acertando os detalhes, cor de capa, como quer e tal. Faço um mínimo de dez livros. Mas não reviso texto, não edito, não leio original, o projeto vem pronto, são pequenos ajustes na edição e tá feito. Também não vou te lançar no mercado nem te transformar em um grande escritor milionário (risos)

Ah, não? Poxa vida.
Se a pessoa quer publicar é simples, mas isso é uma coisa que confunde, a galera acha que tá em filme americano: ‘nossa sou um grande escritor, vou ser descoberto pela editora, vão me lançar, vou ficar milionário’. Cara, a minha editora não vai fazer isso, primeiro que nem tem editora desse jeito no Brasil. É muito raro um escritor aqui ser contratado, descoberto… Por exemplo em Santa Catarina tem o Carlos Henrique Schroeder, de Jaraguá do Sul, o cara é um gênio, chegou nesse nível de ser contratado por editora, mas é uma coisa pra poucos, precisa ser muito bom e muito empenhado, um caminho árduo, tu lê os textos dele e tá explicado, mas é uma exceção. Nenhuma editora tem dinheiro pra te pegar, te pagar. Vejo a Butecanis como parceira, não vou te lançar, vou te dar uma mão pra conseguir publicar mais barato, pro teu material chegar em alguém, pra não ficar na gaveta, na pastinha do computador. Senão fica lá o resto da vida, nenhum hacker vai invadir teus arquivos, te ler e dizer “nossa fulano vem cá, tu é demais, te descobri”. Ou o texto tá circulando ou simplesmente não existe… as pessoas lêem se tá na rua.

E você demorou pra colocar seus textos na rua?
Escrevia desde sei lá quando, uma vez ganhei um prêmio na escola, um destaque na sétima, oitava série sei lá…ali pensei ‘óh que legal escrever’. Mas dali até uns vinte e poucos anos eu até escrevia mas rasgava, jogava fora, achava que não escrevi como tem que ser escrito e tal… Anos depois trabalhava numa escola contando história, e fiz uma oficina de literatura com um cara de Porto Alegre. Ele disse uma coisa que fez muito sentido: ‘literatura é pra você escrever o que quiser, inventar, não é pra fazer confissão, discurso, se quiser até pode mas a brincadeira é inventar’. E ali comecei a publicar, fiz o fanzine em 2002, saía a cada dois, três meses. Eram textos, contos, um desenhinho… esse fanzine que chamava Butecão Tosco foi o embrião do que virou a Butecanis. O primeiro livro, que publiquei em 2011, era um texto que tinha escrito em 2008: veio a enchente, não podia sair de casa, meu deus né, o que vou fazer? Daí saiu o livro da enchente (Quando Cai um Rio do Céu), ganhei um prêmio da Funarte e publiquei, dali surgiu o dilema de fazer pequeno.

Foi a única vez que você publicou dessa maneira?
É, e é o jeito que a maioria no Brasil vai publicar.

Hoje tem muita coisa na internet também né?
É, eu sou meio devagar pra internet.
Dá pra publicar mas é muito né, tanta informação que tu nem sabe pra onde olhar. Por isso que acho essa ideia do artesanal boa, você entrega na mão das pessoas, provável que ela vá ler. Mas se quer ficar rico, vai fazer outra coisa, arte no Brasil não dá dinheiro. Mas quer ser lido? Assim tá sendo lido, chega na mão de um aqui outro lá…. e é isso de entregar na mão de qualquer um mesmo.

O que você usa pra fazer o livro?
Impressora de casa, papel sulfite, uso o marfim pra não refletir muito, fica parecido com o papel pólen, -já tentei comprar papel pólen, os caras me ignoraram (risos), nem pra responder “não vendemos pra você”, nada (papel suzano aí vocês, um dia vou ficar famoso e vocês vão ver hahaha) e papelão, papel cartão, tinta, linha…

O que você faz é também um movimento de resistência, é não se encaixar no sistema pronto e formatado, isso agrega um valor único. Se a pessoa vai te procurar é porque meio que entendeu essa ideia.
Total. É pensar de outro jeito, uma relação mais direta, entre quem escreve, quem edita, quem lê… isso é o que interessa, o resto é consequência. A gente nasceu nesse lugar de pensar o mundo assim: sucesso, quantidade, produção em série e acho que a gente vem nessa desconstrução. Já vimos que não deu certo aquilo lá, ou se deu certo pra mim pelo menos não interessou, vai pega tudo pra você e me deixa aqui com meus papelão.

Sem excessos.
Sem excessos. Tenho até uma caixa lá escrita ‘estoque’, só pra brincar porque tem cinco, seis livros dentro. Quando tem uma feira em tal lugar, ou alguém pede, vou produzir… não faz sentido fazer estoque, deixar aquele monte de livro parado.

E você não está sozinho né? Tem um circuito fora do circuito, como na música autoral certo?
Sim, tem muita gente boa. Aqui perto tem o Gaudencio Gaudério, que é o Fernando, de Santa Maria (RS), da Vento Norte Cartonera, que tem um trabalho bem massa e tem contato com as editoras cartoneras de vários países, ele que organizou a exposição com os livros que foram pra Europa -que parou de circular por causa da Covid, mas passou por Portugal, Espanha- e participam 50 editoras cartoneras do mundo todo. Tem o Marcelo Barbosa, da Candieiro Cartonera lá de Caruaru, a gente se encontrou uma vez e agora vai sair uma coletânea chamada Letras de El Carton que ele bolou: cada um fez um texto com o tema solidariedade, aí juntamos todos e cada um produz uma tiragem na sua editora. Vamos trocando as ideias, distribuindo. De editora também tem a Micronotas, da Katherine Funke, de Joinville, que faz livros convencionais mas tem uma parte que é bem à mão, costurada. Tem a Caia Ponte do Marcelo Labes, que também faz um modelo diferente, mas todos são muito artesanais no modo de selecionar os textos, de se relacionar. E são umas editoras que estão publicando coisas que se os caras das editoras grandes tivessem o tino de procurar… tem coisa genial, genial. Eu parei de ler coisa de fora de tanto que tenho que ler as daqui, nossa tem muita coisa boa mesmo. Acho que às vezes a galera perde, fica esperando ser descoberto, ou procurando best seller. Olha em volta, publica de qualquer jeito, publica aí, bota isso pra circular.

Você faz oficinas também né, ensina, tem essa intimidade com as crianças…
Sim, desde 2001 trabalhando com criança, contando histórias, já fiz várias oficinas, sobre escrita, construção de livro… O que tento fazer nesse espaço é desmistificar um pouco essa coisa, livro é uma coisa muito massa e ele tá na mão, não tá num altar lá no alto, ele tá na mão, em cima da mesa, pode pegar, folhear… A própria ideia do escritor: quem é um escritor, quem tá publicado? Tá publicado quem publicou, quem se bancou, mas escrever todo mundo escreve, se aprendeu a ler e escrever tu é escritor…

E assim você vai plantando sementes
Eu lembro que uma vez fiz uma oficina lá no Caic em Itajaí pra duas turmas, dois dias seguidos. Teve dois meninos que voltaram no dia seguinte pra fazer de novo. Eu tinha dado a dica ‘faz com o que tiver, se não tem computador, usa uma letra de forma caprichadinha, tira xerox, duvido que a professora não vai dar um jeito de ajudar se vocês estiverem fazendo um livro”. Passou um tempo e a professora veio me dizer que tavam fazendo quase um por dia, até vendendo pro pai de um, pai do outro pra pagar o xerox. Pronto já valeu, semente plantada, arte é que nem pescar no mar, joga o anzol de vez em quando um pega. E aqueles dois se ligaram, é só fazer e eu tô cheio de ideia pra botar no papel. Essa é a ideia, tanto da editora quanto da oficina, “faça você mesmo”, e na falta de tecnologia mais sofisticada faça a facão, faz com o que todo mundo tem à mão.

Inclusive os recursos de linguagem
Sim, a própria linguagem, o acesso que tem à palavra, usa o que tem, não precisa ser erudito, vamos desmistificar tudo, senão vai ficando tão importante tão importante e fica cada vez mais longe, distante. O negócio é dar um jeito disso circular.

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