Antônio Jorge de Borba: lembranças da Praia de Camboriú, turismo e causos da época

Antônio Jorge de Borba, 67, é conhecido por muitos como Jorginho. Casado com Avelina Mafra de Borba há 41 anos, nasceu na Praia de Camboriú, onde cresceu e mora até hoje.

Jorginho é filho de Maria de Borba (falecida em 1969) e Manoel Jorge de Borba (falecido em 1960) e trabalhou desde a infância junto com a mãe no Hotel Pio e Restaurante San Remo. Possui lembranças vívidas do desenvolvimento do turismo na cidade, além de ‘causos’ da época, como a experiência com a Mulher da Capa Preta, um fantasma da praia central. Ele também gerenciou o Correios por vários anos, auxiliando o órgão a ter uma sede própria em BC, na Avenida Brasil.

Nasci aqui,
na Praia de Camboriú,
em 30/09/1952.
Na época tudo ainda
pertencia para Camboriú.

Nasci no Bairro dos Pioneiros,
atual Pontal Norte,
mais ali na Avenida do Estado,
perto do antigo Hospital Santa Inês.

Morei também perto
de onde hoje é a Academia Municipal.
E também onde hoje é o edifício Morada do Sol,
na Avenida Atlântica.

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Trabalho era agricultura e turismo

A minha mãe, Maria de Borba,
começou a trabalhar no Hotel Pio,
e me levava junto.

Ela morava em Camboriú,
trabalhava com agricultura,
se casou com o meu pai e veio
para a Praia Brava,
depois para a Praia de Camboriú.

Na época era comum os jovens
se mudarem para São Paulo,
ou para Joinville,
para tentarem uma vida melhor…
mas eu nunca deixei Balneário,
nunca me afastei.

Os carros passavam na areia,
o trânsito era pela praia,
tinha muita areia.

Fui morar na Praça Tamandaré,
no antigo Restaurante San Remo,
a Justiça permitiu que a gente morasse lá.

Minha mãe trabalhava lá, até fechar
na temporada de 61, 62,
foi demolido, construíram o Edifício San Remo.

Depois disso, começamos no Hotel Pio,
que era do primeiro prefeito eleito por voto popular.

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Hotéis fechavam durante o ano

Alguns hotéis fechavam,
só abriam para a temporada.
tinha uns quatro, cinco hotéis,
abriam só outubro, novembro,
até o final do verão
o próprio Hotel Pio era só pernoite.

Eles reabriam em julho,
e aí chamavam alguns funcionários,
porque desde aquela época,
tinha um certo movimento no inverno.

Minha mãe trabalhou em muitas temporadas,
no Hotel Balneário Camboriú também,
no Miramar de madeira, primeiro hotel da cidade.

Ela era da área da alimentação,
e eu ia junto com ela,
trabalhava como garçom,
ajudava como podia.

Para a época, bastante movimento

Tudo é relativo,
na época considerávamos que tinha
bastante movimento.

Lembro do Hotel Pio,
que fazia fila, principalmente no fim de semana,
para o restaurante, que também recebia
público externo.

Era comum o almoço começar
11h30 e ir até 16h, 17h.
Tinha fila que descia lá na Central.

Na época era muita gente,
não tinha tanto hotel e nem tanta rua.

Hoje pode ser que
não seja tanta gente,
mas para a época recebíamos
muitos visitantes.

Pontos de pesca eram demarcados

Durante o ano, a gente pescava.
Todo mundo ajudava a puxar rede,
principalmente na pesca da tainha.
Tinha muito peixe, era uma fartura. 

Em cada área da praia,
pescava um grupo, uma família.
E o pessoal respeitava.

Cada um tinha o seu trecho,
no Pontal Norte, Centro, Barra Sul….

Entrou para a história a pesca
de 23 de maio de 1973,
lá no Pontal Norte,
dado oficial foram 15 mil tainhas,
mas diziam que tinha muito mais.

Lazer era cinema e praia

Tinha o cinema da Tamandaré,
e também os cinemas de Itajaí,
eram três.

Mas as nossas brincadeiras
eram mais na praia, à noite.
A gente brincava de
esconde-esconde,
íamos na água.
sabe como era criança

adorávamos, brincávamos
entre os vizinhos
e eu tinha 13 irmãos,
era muito bom.

Para voltarmos pra casa
minha mãe ameaçava,
ela dizia ‘olha, a polícia vai vir aí’

A gente espiava, quando via
que não vinha ninguém, continuava

mas aí ela ameaçava de outro modo,
dizia que as pessoas que morreram
afogadas na praia
iam vir pegar a gente.

Olha, o homem (ou a mulher)
que morreu na praia, vai vir pegar vocês
mas o maior medo era da polícia, de ser preso,
não tinha nada a ver, mas tínhamos medo.

Foi DJ nas festas particulares

Eu gostava muito de som,
e fui DJ
me chamavam pra tocar
nas festinhas,
dos meus 16 aos 19 anos.
não podia faltar valsa para
os pais dançarem,
e a Jovem Guarda, Roberto,
Erasmo, Wanderleia,
Beatles, Rolling Stones,
Jackson 5,
eu tinha mais de mil discos.

A Mulher da Capa Preta

Quando saíamos do Hotel Pio,
era muito tarde, e não tinha
iluminação na praia
eu tinha uns 14 anos

às 20h não dava mais
pra ficar na praia
diziam que as pessoas que morriam
na água iriam vir buscar as crianças.

tinha um cachorro nosso
que ia nos acompanhar,
e era comum minha mãe dar passos
mais largos do que o meu, e ela dizia
não olha pra trás, não olha pro cachorro
mas eu, criança, olhei.

eu vi o cachorro avançando em algo
cada vez que ele avançava, uma mulher
dava uns passos para cima, com uma capa preta
para se defender do cachorro

era escuro, eu era criança,
mas a imagem da Mulher da Capa Preta
eu tenho até hoje
ela dava uns saltos para cima

só vi uma vez,
não sei se era mesmo uma mulher,
ou uma sombra.

mas eu vi,
quem me desmentir tem que ter
propriedade pra falar, porque eu vi.

Sonho de estudar e Correios

Eu tinha um sonho de estudar,
por isso parei de trabalhar nos hotéis.

Estudei no Laureano Pacheco,
no João Goulart quando abriu,
vinha aluno até de Camboriú.

Sou bacharel em Direito pela Univali,
cursei Contabilidade e Administração também.

Comecei no Correios quando abriu,
em 1976, a agência era na Alvim Bauer
era só eu e mais outro entregador,
dividíamos as cartas pela cidade

Cinco anos eu trabalhei na rua,
era tudo a pé,
eu era da Central em direção
a Barra Norte,
e meu colega da Central
pra Barra Sul.

Fiz também a prova pra Marinha,
eu tinha 22, 23 anos,
assim conheci a minha esposa,
que era professora e me ajudou a estudar.

Passei em terceiro, fiquei um mês
e saí, porque era muito trabalho e eu
havia conseguido a vaga no Correios.

Eu queria ser gerente, era minha meta,
e ocupei o cargo por 35 anos,
até me aposentar em 2011.


Por Renata Rutes
Diagramação Fabi Diniz