Jornal Página 3
Ala jovem tucana deve apoiar denúncia contra Temer
Divulgação PSDB.
Daniel Coelho.
Daniel Coelho.

RANIER BRAGON E ANGELA BOLDRINI
BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apesar da decisão da cúpula do PSDB de manter o apoio a Michel Temer, o grupo de deputados federais que foi derrotado na tentativa de aprovar o desembarque imediato vai votar a favor da denúncia que a Procuradoria-Geral da República deve apresentar nos próximos dias contra o presidente.

Chamados de "cabeças pretas" por terem em sua maioria menos de 40 anos, os cerca de 15 deputados -de uma bancada de 46- têm o apoio de alguns colegas mais velhos e contam com a inclinação do líder da bancada, Ricardo Tripoli (SP), e do presidente do partido, o senador Tasso Jereissati (CE), de não exigirem posição pró-Temer.

Pela Constituição, uma denúncia criminal contra o presidente só pode prosperar mediante o voto de pelo menos 342 dos 513 deputados. Caso haja esse apoio e o Supremo abra o processo, Temer é afastado do cargo.

Um dos líderes do grupo é Daniel Coelho (PE), 38, que despontou como uma das apostas da nova geração tucana ao superar de forma surpreendente o PT e chegar em segundo lugar na disputa à Prefeitura do Recife, em 2012.

Outros expoentes são Betinho Gomes (PE), 42, que integra a Comissão de Constituição e Justiça, Mariana Carvalho (RO), 30, segunda-secretária da Câmara, e Carlos Sampaio (SP), 54, um dos mais experientes.

Dos sete titulares do PSDB na CCJ, pelo menos Betinho Gomes e Fabio Sousa (GO), 34, são abertamente favoráveis ao desembarque do PSDB do governo e votos certos a favor da denúncia.

"Enquanto eles [governo] estão pensando em crise, nós estamos pensando num projeto pro país", diz Sousa.

"Tenho o cuidado de saber o conteúdo da denúncia, mas a menos que venha algo absurdo, é muito difícil que a gente vote para não haver investigação", afirma Gomes.

Segundo ele, as redes sociais ajudam a explicar a diferença de posição entre deputados mais jovens e mais velhos. "O contato direto com o eleitor via redes sociais talvez dê essa percepção mais rápida para a ala jovem. Os mais velhos, talvez por terem passado por muitas crises, querem agir com mais cautela."

A resistência ao desembarque foi capitaneada, entre outros, por parlamentares e aliados do governador Geraldo Alckmin (SP), 64, e do ex-presidente da sigla, Aécio Neves (MG), 57, alvo da Lava Jato.

Alckmin e seu grupo estariam de olho no apoio do PMDB a eventual candidatura em 2018. Aécio, no apoio dos peemedebistas para barrar sua cassação no Senado. 

Manter um governo 'morto' seria negar história do partido, diz deputado do PSDB

Um dos líderes dos "cabeças pretas" do PSDB, o deputado federal Daniel Coelho (PE), 38, afirma que, embora não seja definitiva, a decisão de manter o apoio a um governo "morto" contraria a história do partido e o afasta dos anseios da sociedade.

Pergunta - Como o sr. e o grupo mais afinado ao sr. encaram a decisão do partido de manter o apoio a Temer?

Daniel Coelho - A condução feita por Tasso [Jereissati, presidente do partido] e [Ricardo] Tripoli [líder da bancada na Câmara] tem sido correta e adequada, eles têm ouvido a todos, a gente não nega que tenha havido uma maioria. Ou seja, não foi uma decisão arbitrária. Mas foi uma decisão equivocada, para o país e para o PSDB. E que dificilmente convencerá as pessoas de que há diferença na conduta do PSDB para a conduta do PT, do PMDB. É uma decisão que vai de encontro aos princípios que fundaram o partido. Quando Mário Covas e Franco Montoro fundaram o PSDB, era num momento de desmoralização do governo Sarney e do PMDB. E a frase que simbolizou a criação do PSDB era "longe das benesses e próximo ao pulsar das ruas". Essa tese inicial de conexão com a sociedade fica enfraquecida com essa decisão de ficar em um governo que já está morto.

Quem são os responsáveis por essa decisão equivocada?

Não acho que é o caso de apontar os responsáveis. A decisão é coletiva.

Mas é fato que o grupo de Alckmin e Aécio foram determinantes.

Se quiser simplificar, pode dizer que a maioria deles opinou por isso, mas não houve totalidade.

Qual é, na sua visão, a consequência dessa decisão para o partido?

A decisão não é permanente, o jogo está sendo jogado. Alonga a crise e faz com que o Brasil deixe de avançar. O PSDB está perdendo uma grande oportunidade nesse momento de mostrar na prática o que é um novo modelo de política que pede o mundo, não só o Brasil. O mundo está pedindo não mais alianças da política, mas alianças com a sociedade.

Deputados planejam deixar o partido?

No momento, ninguém está falando em deixar o partido. Até porque está havendo tolerância interna. Tasso e Tripoli acham que os dois grupos não têm unanimidade e estão abrindo o debate, não estão fazendo uma condução parcial ou manipulando decisões.

O PSDB decidiu manter o apoio a Temer para não perder o apoio eleitoral do PMDB e para salvar Aécio?

Não acho correta essa avaliação, porque acho que os assuntos do Senado têm outra lógica. Se a decisão foi tomada por alguma perspectiva de aliança para 2018, é um erro estratégico. Do ponto de vista eleitoral, é uma aliança com a política e um divórcio com a sociedade.

Qual a sua opinião sobre as acusações contra Aécio?

As acusações são sérias, ele precisa ter o direito de defesa e precisa se defender. É evidente que ninguém ficou feliz com um líder importante do partido sendo acusado dessa forma. Eu fiz campanha pra ele, militei junto com ele, e espero que ele consiga esclarecer os fatos.

Como o sr. votará na provável denúncia contra Temer?

Havendo uma denúncia e um pedido de investigação, votarei para que haja investigação. Se ele for inocente que ele prove. Arquivar sem esclarecimentos dos fatos seria uma medida seletiva, que é o que mais critico na oposição.

Mesmo que haja orientação contrária do partido?

Não acredito que vá haver orientação contrária. Isso seria a negação da própria história do PSDB.


Sábado, 17/6/2017 6:51.




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