“Oi, Sônia? É a Déte, cheru!”. Essa frase provavelmente já foi ouvida por muitos moradores de Itajaí, Balneário Camboriú e região. Dita pela famosa personagem Déte Pexera, que está comemorando 10 anos de existência. Interpretada pelo multiartista Heleno Rizzih, Déte estará em cartaz neste domingo (17), às 20h, no Teatro Municipal Bruno Nitz, justamente com a turnê que celebra seus 10 anos de história. O Página 3 conversou com Rizzih, que relembrou como tudo começou e o que ainda está por vir – aqui já fica um spoiler: ele nunca quer deixar de interpretar Déte.

Como tudo começou
Rizzih relembrou com a reportagem do jornal que Déte surgiu de forma totalmente despretensiosa – há exatos 10 anos, ele estava morando em São Paulo, após deixar o elenco do musical ‘O Sonho do Cowboy’, onde interpretou por quatro anos Madame Margot.
“Fui para SP achando que tinha que ir para o sudeste para ‘acontecer’. Estava morando lá por seis meses, com saudade de casa, fui dormir com um texto na cabeça, peguei a primeira peruca que tinha em casa e gravei um vídeo. Foi a única coisa sem pensar que fiz e deu certo… foi a Déte, e foi o que me projetou, me trouxe de volta para Santa Catarina. Foi a vida me puxando pelos cabelos e mostrando que o sucesso não depende do Sudeste”, diz.
O artista comenta que ‘foi muito poético’ estar em São Paulo e fazer sucesso em sua cidade natal, Itajaí, justamente imitando o sotaque ‘pexero’ que é tão característico do litoral catarinense.

“Na época, se me dissessem que o sucesso seria através disso, eu não acreditaria, mas faz todo o sentido do mundo. Várias vezes eu postava sobre o sotaque, eu falava disso em poemas antes da Déte surgir. Eu já fazia voz brincando, sempre fui entusiasta da nossa cultura, com grande admiração por artistas daqui, da cultura itajaiense em si. Hoje vejo que a Déte levou Itajaí para o mundo, Itajaí passou a ser muito mais presente no imaginário do que costumava ser”, acrescentou.
Rizzih e Déte
Rizzih conta que o primeiro vídeo de Déte foi postado no dia 01/09/2015 e um mês depois fez a primeira apresentação em uma casa de shows… e desde então não parou.
“Eu aceitei me apresentar sem ter nem frase de show escrita, em uma semana escrevi texto, não sabia se ia dar certo e… estamos aqui 10 anos depois! Foi o gol da minha vida”, afirmou.
Hoje, ele vê que sua relação com Déte já vai muito além de apenas interpretá-la e vê que é algo ‘muito separado’ e até mesmo real.
Rizzih comentou que as pessoas nem sempre conseguem ‘separar’, mas que ao mesmo tempo não conseguem enxergá-lo em Déte.
“Eu também separo. É uma ligação à parte que tenho com a Déte. Converso com ela antes de entrar em cena, há uma simbiose, por isso eu sumo quando ela entra em cena. Quando me reconhecem na rua, mesmo sem estar como Déte, perguntam das filhas dela, do marido, não chamam pelo meu nome, perguntam da Déte. Ela alcança para além da montação (quando está vestido de Déte)”, disse.
“O maior feito da minha vida”
Questionado pelo Página 3 como é ser um homem gay e ter feito tanto sucesso ao interpretar uma mulher justamente em uma região -infelizmente- reconhecida por ser bastante homofóbica, Rizzih diz que é um grande orgulho.
“A Déte é meu maior orgulho pelo símbolo cultural, mas como Heleno, é o maior feito da minha vida. Afinal, um artista que atingiu no teatro um público de mais de um milhão de pessoas, um homem gay vestido de mulher… o que pode ser mais revolucionário do que isso? Agradeço tanto que a vida me puxou de volta, porque é minha missão fazer história em Santa Catarina. Eu, Mané Darci e Maricotinha (comediantes que também retratam a cultura catarinense) somos os três expoentes fortes do Estado. Eles são meus amigos queridos, já fizemos inúmeros festivais juntos e poucas pessoas me fazem rir como eles”, pontuou.
“Quero fazer a Déte para sempre”

Rizzih confessou também que não imaginava chegar nos 10 anos de trajetória de Déte e que três meses depois do primeiro vídeo postado estreou no Teatro Municipal de Itajaí.
Na época ele achava estar ‘no céu’ e gravou um documentário, onde citava que ‘independente do que aconteça, a Déte já fez história em três meses’.
“Me falavam de 15 minutos de fama, como se eu fosse um menino com peruca na cabeça e não um ator. Eu achei na pandemia que tudo ia acabar, tive medo de ser só a Déte, que não reconhecessem minhas outras vertentes… e hoje vejo que quero fazer a Déte para sempre. Se eu duvidava de chegar até aqui, agora quero seguir. O teatro é minha vida, o palco é minha vida, quero fazer isso até morrer. Meu sonho é ficar velho em cima do palco, e tenho certeza que vou fazer Déte para sempre porque ela já virou patrimônio histórico, vai atravessar os tempos. Acredito que num futuro muito distante vão usar ela em estudos, as professoras vão recorrer para mostrar aos alunos o nosso sotaque, a nossa cultura, pois infelizmente estão sumindo. A Déte é a memória, meu grande feito de eternização do nosso sotaque e costumes”, explicou.
Pluralidade artística e futuro
Por fim, Rizzih citou ainda sua pluralidade – apesar de Déte ser seu grande projeto, ele ainda tem (muitos) outros lados – compõe, canta e escreve. Inclusive se define como um artista inquieto, tanto que isso se reflete em Déte, que recentemente teve o visual alterado.

“Sou um criador, vazo pelas outras expressões também, preciso muito compor, cantar, sempre estou em festivais de música autoral (inclusive já venceu o Festival de Balneário Camboriú), estou indo para meu segundo livro agora, já lancei três álbuns… criar é o sentido da minha vida, mesmo. Acabamos de estrear a turnê de 10 anos da Déte, virão músicas novas e um segundo livro… tenho um universo de coisas para fazer e me sinto com mais gás do que quando comecei aos 23 anos… é o momento mais efervescente!”, completou.
