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Balneário Camboriú, 24 de Julho de 2014
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A glória e a maldição da herança de Tim Maia



Por Fernanda Brambilla

Carmelo Maia leva o sobrenome do dono de uma das vozes mais marcantes da música brasileira e, com ele, a glória e a maldição da herança de Tim Maia. "Eu levo o peso do Sebastião nas costas", diz sobre o pai, intérprete de hits como "Gostava tanto de Você" e "Azul da Cor do Mar". Em meio aos discos de ouro e platina que exibe em casa, há também uma pilha de processos. Por isso, não dispensa a terapia que segue há 11 anos, desde a morte de Tim. Aos 34 anos, Telmo - como o pai sempre o chamou - quer iniciar carreira artística, provavelmente como ator. "Ser filho dele abre portas, mas quero estudar, oportunismo não combina comigo." Nesta conversa com a reportagem, por telefone, há duas semanas, Carmelo fala de processos, planos e da biografia de seu pai feita por Nelson Motta.

- AGÊNCIA ESTADO - Ser filho de Tim Maia é um peso para você?

- CARMELO MAIA - É um fardo muito grande que carrego, levo o peso do Sebastião nas costas. Sou hipertenso desde os 25 anos e tenho síndrome do pânico. Não saio da terapia. Quando meu pai morreu, deixou 400 processos. Aí quando você vê essa dívida, pensa: e agora, que não tem mais Tim Maia pra fazer show e pagar, como eu faço? Hoje são cento e pouco, uns 30% disso. Eu não pedi pra nascer e jamais quero que meus filhos herdem o que eu herdei. Vivo há 11 anos do que ficou. Sinto falta dele toda hora. 

- AE - Como você definiria seu pai?

- CARMELO - Um cara hipersentimental. Era um parque de diversões Excesso em tudo, irreverente. Ele viveu à frente de muita gente É como a "Bíblia". Esse é Tim Maia.

- AE - Mas e quando ele usava drogas?

- CARMELO - Mudava da água pro vinho. Não que seja um lado positivo, mas as drogas estimularam a criação dele. Ele tinha uma visão muito além do alcance. Mas ao longo da carreira, a cocaína pesou. No fim, ele não era mais tão criativo. Mas o dom artístico é dele. E é ímpar.

- AE - Como era o Tim Maia pai?

- CARMELO - Foram minha avó e minha tia que me criaram. Elas me deram uma chance de sobrevivência. Meu pai era severo. Não me deixava beber nem cerveja. Quando eu ia visitá-lo, muitas vezes ele estava com alguém bebendo, mas ficava de olho. Uma cervejinha no sapatinho? Nunca. Eu escondia a latinha atrás do sofá, mas se ele ouvisse aquele "tsc" de abrir...Carreira artística então, nem pensar. Quando funk virou moda, eu quis ser MC, mas ele não quis saber. Gritava: "Vai estudar, moleque!’ Mas ele acreditava que o sobrinho tinha talento. Vivia falando: "Escuta, Ed Motta, você tem que ir estudar canto, estudar harmonia." 

- AE - Com o livro ("Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia", de Nelson Motta, de 2007), detalhes polêmicos da vida de seu pai foram expostos. Faltou algo?

- CARMELO - Faltou o que o Nelson não contou, mas que não vende, porque não é polêmica. Tudo o que o Nelson contou é verdade, mas quem lê pensa que o meu pai foi um cara sem conteúdo. Mas as pessoas não sabem que ele não brigava por brigar, ele tinha princípios. Achavam que ele roubava, que ele era louco. Mas isso foi uma parte da vida dele. Adoram meu pai porque acham o máximo um cara que transgride as regras. Um cara que faltou a muitos shows e, quando voltava, era casa cheia. E olha que ele falava merda pra c....

- AE - O que diz para quem leu o livro? 

- CARMELO - Houve uma parte da vida em que ele não era o Tim Maia, era o Sebastião. Ele roubava carro, roubava comida, e um dia foi pego. Mas não é perversidade. Depois de muitos anos, ele voltou aos Estados Unidos. Quis fazer o mesmo caminho que fez com o carro que ele roubou. Acho que o livro poderia ter abordado mais o lado humano dele. Isso é pincelado, se você não prestar atenção, acha que é um cara de conteúdo vazio. Dói muito ouvir "Tim Maia era um filho da p..." Ele fretava ônibus para crianças carentes e trazia ao apart-hotel ou ao estúdio, para a garotada curtir, ir à praia. Era sempre um terror, o pessoal do prédio achava que era arrastão.

- AE - Como é ser o único detentor dos direitos do Tim? 

- CARMELO - Todo mundo quer gravar Tim Maia. Todas as propagandas querem usar música dele. Mas pagar por isso é bem diferente. E tem um preço. Hoje tem uma demanda de gente falindo que quer usar música de graça. Mas eu não posso baratear valor. Surtiria um efeito enorme. Muita gente quer gravar Tim Maia de forma independente. E como é que eu vou controlar isso? Tem neguinho que quer gravar de graça, gravar por merreca. O David Byrne fez isso. Pensou "Ah, esse cara é desse país de merda, não vai ficar sabendo’. Ele que pensa. Mandei notificação. Mas já cansei de autorizar para cinema, bandas. (O filme) "Cidade de Deus" é um exemplo. Levou a musicalidade do meu pai para fora.

- AE - Você se lembra de como recebeu a notícia da morte de Tim Maia?

- CARMELO - Eu curtia a minha vida como qualquer jovem. Só fui ter noção desse peso aos 22 anos. Quando ele morreu, a ficha caiu. Não tive tempo de luto. Tive que entrar no estúdio e gravar o Soul Tim, acústico que vendeu mais de 250 mil cópias. Até a respiração dele eu escutava lá. Era como se estivesse presente. 

- AE - Quais as suas últimas lembranças dele?

- CARMELO - No fim da vida dele, ele já estava sem cocaína, sem uísque, e ficou muito chato. Era outra pessoa. Acordava às 6h, que nem quartel e tinha hora pra tudo. Com as drogas, ele era mais divertido.

- AE - Você guarda tudo o que era dele?

- CARMELO - As roupas eu já tirei da minha casa. Mas os discos estão todos comigo. Além disso, guardo aqui o microfone que ele usou pra gravar todos os discos. Ele cantou a vida toda no estúdio com ele. Pra mim, esses objetos têm muito valor. Lá que ele colocava o vozeirão.

- AE - E precisa lidar com burocracia? 

- CARMELO - Fiz faculdade de Direito para entender essa seara que está ao meu redor. É besteira achar que isso dá dinheiro. Se desse pra viver de direitos autorais, não estava tentando uma carreira. Hoje Tim Maia vende, mas e amanhã? Já passei dias inteiros em audiências representando Tim. Ele era como uma galinha, tinha os pintinhos na asa. Centralizava tudo, não delegava funções. Tinha muitos processos e um monte de advogados Um pra vigiar o outro. E mesmo assim teve apartamentos, carros e até bilheteria de show penhorada.

- AE - O que acontecia?

- CARMELO - Ah, ele começou a ficar malandro. Pedia pra avisarem se o oficial (de Justiça) aparecesse. Aí, em "Vale Tudo", entrava o coro e ele saía de fininho.

- AE - O que falta para a vida do Tim Maia virar filme?

- CARMELO - Vai ser um docudrama. Exatamente como no livro. Mas esse assunto eu deixo para os advogados. É uma disputa entre produtoras, não vou me meter. Quando sair, vou acompanhar de perto, como sempre faço com tudo o que diz respeito ao meu pai, com diretor ou gravadora. Deixo em contrato: se eu não gosto, não aprovo. Comigo não é só comercial. 

- AE - Dizem que Tim Maia pressentiu a morte. Você concorda? 

- CARMELO - Parecia até que sim. Em dois anos, fez quatro CDs. Começou num consumo acelerado, comprou apartamento. Nos anos 90, ele foi hospitalizado por causa de gangrena no testículo. Eu fui visitá-lo e ele ficou irado quando me viu de camiseta preta. Cismou: "Pô, Telmo, tá querendo me agourar? Como é que você aparece de preto?"

- AE - Seus filhos sabem do avô deles?

- CARMELO - Telmo tem 3 anos e sabe que o avô era cantor, reconhece fotos. Até distribuí na escola dele um CD do Tim para os coleguinhas dele.


© Página3
Sexta, 27/3/2009 6:45.


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