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Raridade, uma mulher chefia um clube uruguaio de futebol
Teledoce.

ALEX SABINO, ENVIADO ESPECIAL
MONTEVIDÉU, URUGUAI (FOLHAPRESS) - A sede social do Rampla Juniors FC, uma casa pintada de verde na rua Grécia, no coração do bairro do Cerro, em Montevidéu, estava fechada na sexta-feira à tarde. Pela janela, era possível ver a coleção de troféus, quase todos vencidos pelo time feminino ou pelas categorias de base.

O único título masculino foi o Campeonato Uruguaio de 1927, quando estava presente o capitão Pedro "Índio" Arispe, ouro olímpico com a seleção em 1924 e 1928.

"Ele morava na mesma rua que eu vivo. A filha dele ainda está lá", diz Isabel Peña, 70, quando a porta se abre.

Ela conhece todos na região e no clube. Tem 40 anos de trabalho no Rampla e, antes disso, era torcedora.

Já organizou festas, eventos sociais, foi diretora do futebol feminino por 23 anos e gerenciou a administração.

Houve um tempo que dava café da manhã, almoço e jantar a quatro jogadores que vinham do interior. "Era tudo do meu bolso. O Rampla não podia pagar", lembra.

Neste ano, ela se tornou a única presidente mulher de um clube de futebol de primeira divisão na América do Sul.

Isabel aplica no Rampla o mesmo princípio que vale em sua casa e não muito visto no futebol. Não gastar mais do que arrecada. Isso significa dizer "não" aos mesmos atletas que recebe sempre com beijos antes de cada jogo.

"Não que eles não mereçam. Merecem. Formam um grupo maravilhoso. Mas não temos como pagar. Lutamos para manter o salário em dia porque eles são trabalhadores e vivem disso", afirma.

"Eles queriam prêmios por resultados contra Nacional e Peñarol. Isso não podemos. O clube não tem condições e a obrigação deles é ganhar."

Sua ascensão à presidência teve início em 2015, quando o Rampla, cheio de dívidas, precisou de socorro. Isabel fez parte de comitê que assumiu a agremiação e levantou US$ 100 mil em um mês para manter o time.

Ela foi uma das que bateram de porta em porta para pedir ajuda. Quando o dinheiro foi obtido, era hora de montar uma nova diretoria.

Por consenso no comitê, foi alçada a vice do presidente escolhido, o sindicalista Juan Castillo. Neste ano, o mandatário renunciou para ser secretário-geral do Partido Comunista Uruguaio. O cargo caiu no colo de Isabel.

"Quase todos me receberam bem. Recebi incentivos de outros dirigentes e de pessoas da AUF [Associação Uruguaia de Futebol] que me diziam: 'vamos Isabel, você não está sozinha'", lembra.

Ela precisou do apoio. A cada dois meses, eram 3 milhões de pesos de déficit (cerca de R$ 300 mil) a serem cobertos. Com ajuda de simpatizantes, empresários e da AUF, encontrou recursos.

A prioridade é sempre pagar o elenco, mas a presidente precisou buscar acordos judiciais para encerrar os processos contra o clube. Alguns ficaram mais caros porque os presidentes anteriores sequer contrataram advogados para defender o Rampla.

"Até o final do ano vamos terminar esses pagamentos. São 250 mil pesos por mês [cerca de R$ 25 mil]", afirma.

Isabel passa de um assunto para o outro em segundos. Pode ser para contar como obteve acordos na Justiça para livrar o clube de dívidas ou os pães que traz para os "assados" do elenco, que acontecem todas as semanas na larga churrasqueira que ela ajudou a construir na sede.

Pode ser a reunião que terá horas depois com empresários interessados em uma parceria para investir na categoria de base ou o trabalho que teve para convencer um atleta do profissional a não deixar a equipe para atuar na segunda divisão argentina.

No meio de tudo isso, ainda tem reuniões na AUF, para pedir mais dinheiro, e com o comando da polícia, para solicitar que o preço da segurança nos jogos no estádio Olímpico seja mais barato.

Ao chegar em casa, começa o trabalho de costureira, que vai até as 4h da manhã.

BALAS

A violência de torcida lhe traz dor de cabeça. Em maio, o Rampla venceu o clássico contra o Cerro pela primeira vez depois de nove anos.

No dia seguinte, em jogo das categorias de base, um barra brava do Cerro sacou revólver e atirou contra o técnico da equipe principal do Rampla, Luis "Ronco" Lopez. Acertou o pai de um atleta. Duas semanas depois, a sede do clube foi alvo de disparos.

"O futebol é vítima de todos os problemas sociais e foi invadido pelas drogas, pelo crime e pela violência. Eu tive de pedir para os torcedores do Rampla que não revidassem, porque descobri que já havia plano de vingança. Não é porque há criminosos que devemos ser também."

Sua ideia inicial era permanecer no cargo até o final deste ano, mas há quem defenda que ela fique até junho de 2018. Não lhe faltam planos.

Fazer reforma da sede social e recolocar em funcionamento a piscina para que seja usada por todos do bairro.

Reativar o futebol feminino, seis vezes campeão nacional nas décadas de 1980 e 1990. Poder ampliar o que o clube já oferece: aulas de

música e tango, comemorações para crianças e reformar o estatuto para dar às mulheres mais poder na agremiação.

A única coisa que ela promete é não se afastar. Cita o irmão Juan Peña, ex-jogador e ex-dirigente do Rampla que, internado no hospital, chora por não poder ir ao estádio.

"A mulher tem de ser atuante no futebol. No Rampla, sempre foi. Eu estarei por aqui. Em um clube como este, é preciso a presença de gente e sempre há o que fazer. Mesmo que seja lavar o chão da sede."

Algo que, Isabel deixa claro, também já fez. 


Sábado, 16/9/2017 6:53.


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