Jornal Página 3
Conheça o Cidade Caminhável um projeto que pode mudar a face de Balneário
Daniele Sisnandes

Ruas arborizadas, calçadas padronizadas e com acessibilidade, além de espaços urbanos que valorizem a interação entre pessoas. Parece teoria, mas esses são alguns dos conceitos do projeto Cidade Caminhável, em fase de finalização, e que será apresentado ao Conselho da Cidade nesta semana.

No começo deste mês o Página 3 Online recebeu um recado de um leitor preocupado que preferiu não se identificar. Ele questionava a execução de uma obra na Rua 902 que aparentava ser consequência de um erro de projeto, porque avançava sobre a rua.

A reportagem procurou a prefeitura e descobriu que o trecho estava trazendo características de um grande projeto que começou a ser desenvolvido em março e que deverá mudar o conceito de uma das regiões mais movimentadas da cidade.

A responsabilidade de concepção ficou a cargo de dois servidores de carreira, com mais de 25 anos de prefeitura cada um: o arquiteto Sérgio Baggio e a socióloga Rosana Sebold.

O projeto

O arquiteto explicou que o urbanismo caminhável é baseado no conceito da caminhabilidade, ou walkability, e que começou a ser discutido amplamente na conferência Walk 21, em Melbourne, no ano de 2006.

Quatro anos depois, 25 países subscreveram essa metodologia para começar a aplicá-la, por isso ela ainda é pouco difundida no país e pode, a princípio, causar estranheza. Isso porque não estamos acostumados a algumas das interferências que são propostas, pois desaprendemos a conviver por medo da criminalidade e achamos que os carros têm preferência na ocupação dos espaços públicos.

No urbanismo caminhável o conceito dos passeios respeita de verdade os pedestres, sem suprimir a vegetação. O objetivo é criar recantos, espaços de descanso e interação, além de calçadas que se adaptem aos cenários urbanos, avançando, em caso de necessidade, sobre áreas que antes eram reservadas ao estacionamento de automóveis, evitando assim que o pedestre tenha que recorrer à rua para caminhar.

“Hoje em dia as cidades ficaram violentas e o ser humano começou a se retrair para dentro de suas casas, shoppings... e os espaços urbanos ficaram meio que voltados para outras coisas, não o convívio humano”, comentou o arquiteto.

O perímetro piloto

O arquiteto explica que a metodologia indica a escolha de um determinado perímetro, em vez de diluir o conceito pela cidade. Dessa forma será mais fácil para concentrar investimentos, avaliar o impacto e necessidades de possíveis ajustes.

O perímetro piloto em Balneário Camboriú compreende 18 ruas, num total de 175mil m2, entre Avenida Brasil, Rua 1500, 3ª Avenida, Rua 902 e Avenida Central.

Nessa região, a arborização das ruas criou situações impraticáveis para o pedestre, com raízes tomando conta dos estreitos passeios, além de descaso arquitetônico de algumas construções que criaram obstáculos para o transeunte.

A área é de intensa movimentação. Para dar uma ideia, só nos finais de semana circulam pela região da Igreja Santa Inês e camelódromo cerca de 15 mil pessoas. O ir e vir é constante, inclusive nos dias de semana, por causa da atividade comercial das redondezas.

No perímetro piloto foram contabilizadas 626 vagas de automóveis e 145 de motos. Parece muito, mas a capacidade está completamente esgotada, considerando a falta de rotatividade e a concentração de empreendimentos.

Com todas as intervenções imediatas, a prefeitura estima perder 32 vagas de estacionamento. “É em torno de 5%, porém vamos criar uma nova dinâmica para o pedestre, será convidativo fazer o percurso a pé”, reforçou.


 A metodologia

O arquiteto Sérgio Baggio e a socióloga Rosana Sebold

Baggio explica que a metodologia do urbanismo caminhável é desenvolvida em nível internacional. Nela há nove critérios de avaliação da caminhabilidade que devem ser avaliados in loco.

A pontuação vai de 0 a 5. Para ter uma referência do máximo de qualidade, a Secretaria de Planejamento definiu como 5 o trecho do calçadão ao lado do edifício Dalcelis, na Rua 1200.

“Fizemos todo o levantamento, avaliando rua a rua. Tem que caminhar, avaliar, sentar, fazer uma análise crítica e aí vamos apontando as medidas necessárias para melhorar a pontuação daquela rua, dentro daqueles nove critérios. Cada rua tem a sua pontuação e as medidas que possam melhorar a pontuação para chegar o mais próximo a 5, que é o parâmetro limitador”, explicou Baggio.

Ações agora e no futuro



A metodologia do urbanismo caminhável indica ações imediatas, de médio e longo prazo.

Depois da avaliação das ruas, o poder público vai traçar ações para melhorar a pontuação e aí entra a parceria dos moradores para ajudar a identificar e executar as mudanças dentro das novas normas.

Os pontos amarelos são as ações imediatas, em sua maioria, árvores bloqueando a passagem ou espaços abandonados, com acúmulo de vegetação, por exemplo.

Conforme o arquiteto Sérgio Baggio, um desses pontos era o local da foto que motivou essa reportagem, na Rua 902. “Privilegiamos manter a vegetação, ali não houve perda de vaga, mas em outras situações, para privilegiar a vegetação e fazer um projeto qualificando o entorno, vamos perder umas vagas de estacionamento”, adiantou.

Outros locais de destaque já identificados serão os pontos de ônibus - que deverão receber melhorias de concepção, além de pontos de conflitos de grau elevados no trânsito (geralmente esquinas), que serão avaliados em parceria com o setor responsável.

As rampas são um problema à parte. O Planejamento identificou no perímetro (os pontos em azul) necessidade de intervenção em praticamente todas as esquinas. Conforme Sérgio, isso acontece porque em nenhum dos pontos havia rampas dentro das normas de acessibilidade vigentes no país.

Em desenvolvimento

Quando a reportagem teve acesso ao material em desenvolvimento, a equipe da Secretaria de Planejamento estava começando a trabalhar na concepção das melhorias. Já havia alguns croquis, mas tudo em fase de estudo. O próximo passo é fazer os projetos específicos de intervenção.

É um trabalho minucioso, pois está considerando área por área e olhando além do passeio. “É a questão da urbanicidade, da qualidade ambiental, da melhoria da segurança, porque vai ter que melhorar a iluminação”, complementou Baggio.

E o arquiteto continua. “Não é apenas executar passeios de acordo com a norma técnica, não. O Cidade Caminhável é um projeto que vai além, analisa o entorno, as atividades que se desenvolvem, comerciais e de serviço para qualificar a região”.

O objetivo maior é a humanização. Em áreas onde o passeio é muito estreito e há potencial de uso, como na frente do Colégio Energia, a prefeitura desenha a implantação de pequenos espaços de uso coletivo, que podem vir a ser pequenas praças ou até academias ao ar livre.

“Melhorar a questão das pessoas se sentirem atraídas a caminharem por aquelas ruas, interagirem com outros naquele espaço. Meio que voltar ao ser humano quando ele usava mais o espaço público. Hoje ele usa para se locomover de A a B, ou a pé, ou de bicicleta, ou de carro. O objetivo é chegar no trabalho, ou no shopping ou ir para casa e a ideia é que você comece a resgatar a interação social que existia na rua, de as pessoas conviverem, se encontrarem, conversarem nas esquinas”, sublinha o arquiteto.

Na Rua 900 - um dos principais acessos de pedestres ao camelô e igreja - o município estuda melhorar a qualidade dos equipamentos públicos, com passeios mais largos e padronizados, criando assim uma melhor fluidez ao caminhante.

Orientação

Ao que parece, além de indicar melhorias e executar mudanças, a prefeitura terá que trabalhar também a conscientização. O estudo inicial revelou muito descaso com o espaço urbano: falta de lixeiras ou instalações no meio do caminho, inexistência de calçadas e abandono de áreas que poderiam ser compartilhadas.

Reportagem teve acesso ao levantamento feito pela prefeitura: desleixo e alternativas arquitetônicas que prejudicam a mobilidade.

Nos fundos da igreja, uma calçada estava tomada por mato, impossibilitando a passagem e contribuindo para a insegurança. Muitas situações como estas foram identificadas e receberão sugestões de melhorias.

Baggio e Rosana também identificaram em frente à igreja a falta de uso dos paraciclos, enquanto diversas bicicletas estavam cadeada junto à cerca. Outro exemplo de falta de esclarecimento e que pode ser revertido com informações.

Qual é o plano para a execução?

O perímetro piloto tem sérios problemas de acessibilidade. Deficiências históricas, que nunca receberam a devida atenção. Mesmo sendo de conhecimento de todos e causadores de dificuldades e até insegurança, superar esses problemas não será uma tarefa simples, porque exigirá divisão das responsabilidades.

O arquiteto Sérgio Baggio acredita que dentro de três meses os projetos para o piloto estejam definidos. Só depois disso será possível estimar investimentos por parte do poder público, mas Baggio lembra que as intervenções não são de grande porte e não quer dizer que vão refazer tudo, são detalhes que farão com que a região mude de cara.

Ele disse que como há muitas calçadas em mau estado, o município aproveitaria para indicar aos proprietários a adequação ao passeio dentro das normas NBR e ABNT. Não há projetos mirabolantes. As calçadas seguirão o padrão já estabelecido, para execução em concreto e com piso podotátil.

O setor de aprovação de projetos da Secretaria de Planejamento também trabalhará afinado, condicionando a liberação de atividades mediante regularização do passeio.

“Isso não estava acontecendo, por isso os novos projetos já terão o passeio adequado (como o da Embraed, ao lado). A fiscalização de obras vai estar atenta e vai intimar os responsáveis que estiverem em desacordo”, explicou.

 

Olhando para frente

O secretário de Planejamento, Edson Kratz, defende que o tema é muito importante para a cidade e vai requalificar uma região, mas também trazer um novo olhar sobre o espaço urbano.

O perímetro piloto é só o começo. O Planejamento já estuda um segundo perímetro, que compreenderia 12 ruas: da confluência da 3ª Avenida, Avenida do Estado e Central chegando até o perímetro piloto. Essa segunda área teria 125mil m2, o que resultaria em um total de 300 mil m2 de área avaliada.

“Ali a gente detecta problemas que vamos encontrar em toda a cidade. Passeios, árvores que estão sobre passeio de largura reduzida. Queremos aumentar a quantidade de árvores, poderíamos em parceria com o Fumtran reduzir em algumas ruas a quantidade de veículos e criar peatonais (onde o pedestre tem preferência), ampliar passeios com qualidade urbana diferenciada, com vegetação, áreas de convívio, são projetos que vão evoluindo”, defende o arquiteto.

Baggio acredita que depois da fase piloto iniciada, o conceito possa se irradiar pela cidade. “É um projeto de médio e longo prazo, o objetivo final é qualificar o município inteiro, mas isso você não faz em um ano, dois anos…”, conclui.


Esta reportagem foi publicada na edição de junho do Página 3 impresso. Para ficar informado de tudo bem antes de cair na internet, faça como os assinantes e clique aqui.


Terça, 4/7/2017 8:24.


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