Jornal Página 3
Entrevista com a zen budista Cláudia Dias Baptista de Souza

Por Caroline Cezar & Luciana Altmann

"A gente quer estar na unidade" (Monja Coen)

Cláudia Dias Baptista de Sousa, ou simplesmente Monja Coen, como é conhecida, é zen budista, e dos 70 anos que completa nesse 30 de junho, 34 foram meditando e ensinando.

 Com inúmeras passagens de uma vida intensa - profissão estressante, uso de drogas, tentativa de suicídio, prisão, e depois, anos de monastérios e retiros espirituais, Monja parece que aprendeu a lidar com suas experiências e hoje compartilha de maneira "viral" -ela é uma comunicadora de massa- ensinamentos com base no equilíbrio, respeito, auto-observação e olhar compassivo. Sua dica prática é: respiração consciente.

 No início do mês, Monja Coen esteve em Balneário Camboriú a convite do BC Shopping para uma palestra gratuita, e minutos antes conversou com o Página3.

É a primeira vez em BC?

Eu vim uma vez, há muitos anos, para uma escola de yoga, fiz uma palestra e fui embora, nem conheci Balneário, vi o mar do apartamento, de manhã cedo comi pinhão frito, uma delícia...é a memória que tenho de Camboriú.

Você é uma monja urbana.

Sim, moro em São Paulo.

Como é essa prática? Viver em centros urbanos, palestrar em centros urbanos, shoppings...

Pois então. A primeira vez que fiz meditação em um shopping foi em Nagoya, no Japão; era um evento, levaram imagens dos templos, uma exposição de arte sacra. E havia um canto para que as pessoas tivessem alguns minutos de prática meditativa; eram vários monges e monjas, nos revezávamos, e cada grupo podia ficar cinco minutos. Tinha uma fila imensa... Achei aquilo fascinante, porque a gente descobre que pode meditar em qualquer lugar. Claro que nós precisamos ter condições específicas se quisermos uma prática meditativa mais profunda, mas para ter uma iniciação… Porque tem que ser sua vida, onde você está que você medita, se eu só vou meditar quando estiver na montanha, num templo, em determinadas circunstâncias, é muito restritivo, só para algumas pessoas, enquanto que a capacidade meditativa é para todos nós. Em qualquer lugar você pode acessar a um olhar que é mais profundo para a realidade.

Mas você precisa passar por uma limpeza, um treino, ou algum processo, para adotar essa prática de maneira mais eficiente. Ou não?

É, primeiro as pessoas precisam QUERER conhecer alguma coisa, ou podemos dizer, conhecer a si mesmo. É a mente conhecendo a própria mente. Algumas pessoas chegam a ter interesse por práticas meditativas por sofrimentos, dificuldades, outras por curiosidade, alegria, questionamentos, o que é a vida, o que é a morte, existe deus, o que é deus, são perguntas que todos nós, qualquer um de nós, tem ao longo da vida… o que acontece é que escutamos 'não falem disso, não pensem nisso, vamos brincar, vamos fazer outra coisa, um joguinho, deixa isso pra lá…' E o que a gente estimula é: "QUESTIONE-SE". Esse questionamento é humano, é da nossa natureza, nós precisamos saber, nós queremos saber, e a prática meditativa é um caminho para acessar essa sabedoria. Eu acredito que deveria ser feita em todas as escolas, para crianças desde a pré-escola, em níveis diferentes, um pouquinho, mas eu acho que é uma capacidade humana que precisa ser restaurada, reconhecida… e não apenas em lugares fechados, ela é aberta a todo ser humano, e pode ser feita em qualquer lugar. Em São Paulo tem um prédio enorme que se chama Copan, tem pessoas que se sentam lá em cima e fazem meditação uma vez na semana. E tem uma aluna minha que toda sexta-feira tem um grupo de meditação que cada semana senta numa praça no meio de São Paulo, no meio da confusão, do barulho… muitos vão de bicicleta, que já tem essa ideia de usar meios de transporte menos poluentes, sentam no chão, fazem uma roda e meditam.

Isso é bom para divulgar, "contaminar" a sociedade, mas efetivamente funciona?

Claro que isso não é tudo, a gente precisa ter uma experiência mais profunda em meditação, acessar alguma coisa mais profunda para poder transmitir isso, o que acontece nos retiros... e os retiros devem ser em lugares nem muito claros, nem muito escuros, nem muito quentes nem muito frios, que tenham o mínimo de estímulos para que você possa adentrar no mais íntimo do seu íntimo. Mas depois disso, em qualquer lugar. Podem estar tocando música, pulando, dançando, se você quiser acessar esse estado, você sabe o caminho. Eu não chamaria de purificação, chamaria de diminuir o excesso de estímulos.

Será que por isso é tão difícil de meditar, é um hábito difícil de manter, apesar de se falar muito bem dos benefícios da meditação? É devido à quantidade de estímulos que recebemos no dia a dia?

É, nós estamos constantemente sendo estimulados, quando você fala "vou parar esses estímulos" você pensa, e agora o que eu faço? Teve uma moça que me disse ontem quando estávamos descendo, "não tem música no elevador"... mas não precisa né. Você pode ficar em silêncio e é gostoso ficar em silêncio, você não precisa ficar estimulando a mente o tempo todo, ela é estimulada o tempo todo, ela é incessante e luminosa. E nós criamos uma fantasia a respeito do que é meditação, como se fosse uma coisa que 'eu vou ficar fora da realidade', e não é isso, é você ficar completamente dentro, ficar mergulhada, eu me torno o lugar onde estou, eu SOU essa realidade na qual estou vivendo, eu me misturo com, eu me torno uma pessoa comum, eu não me separo, eu não sou "um ser que medita", eu sou um ser humano tão mesquinho, tão ínfimo, tão tolo como qualquer ser humano, e posso também acessar níveis de plena consciência como qualquer ser humano, mas vão ser escolhas minhas. E para essas escolhas eu preciso de outros estímulos. Estímulos neurais. E esses estímulos tem que ser constantes...por que as pessoas vão à igreja, pelo menos uma vez por semana? Para manter o estímulo neural acontecendo. Por que a meditação também tem que ser feita em grupo e não sozinho? Porque você precisa do estímulo neural da convivência. Porque você precisa dos ensinamentos? Porque são estímulos neurais, você pode ter o evangelho, a bíblia, os sutras budistas, a cabalah, inúmeras possibilidades, esses textos sagrados são estímulos neurais para você entrar num outro nível de consciência, e se você pára de estimular, desaparece.

Você precisa da frequência, da repetição…

Sim, por exemplo, os muçulmanos, eles fazem questão de fazer cinco preces por dia, porque você esquece do sagrado. Você esquece do princípio pelo qual está regendo sua vida, então cinco vezes por dia vou fazer reverência pra me lembrar, mas tem uma coisa, se ela ficar mecânica não adianta mais. Meditação mesma coisa, se eu fizer por obrigação ou mecanicamente, ela perdeu o valor. Eu tenho que estar presente e prestando atenção no que estou fazendo. A oração a mesma coisa, eu acho muito interessante, que a gente possa rezar essa oração inteiramente na oração, todos os mantras, todas as preces, tudo aquilo que é repetitivo, é feito pra te dar presença, se mecanizou, virou bobagem. Eu conheci um professor, um monge, que de tempos em tempos mudava a caixinha de lixo da sala dele, as coisas a sua volta, para ter consciência do que está fazendo, não apenas repetir mecanicamente.

Sobre a ideia equivocada da meditação, as pessoas acham que vão adquirir poderes especiais, deixar de ter emoções...

Aliás, se a pessoa vem e me diz, "ah, fiz uma meditação e Buda apareceu pra mim', eu digo 'ai que medo'. Porque é uma fantasia mental, se ele está fora de você, aparecendo para você, você está divagando, não está tendo um encontro verdadeiro… Existe até essa palavra no budismo, 'se encontrou Buda, mate Buda', porque se você encontrou ele em algum lugar que não é em você, que não é a percepção de que cada partícula, cada molécula é o sagrado manifesto, perigo...você está dividindo, é a divisão, eu e o outro. E a divisão é o que a gente chama de diabo. A gente quer estar na unidade.

Puxando esse gancho da divisão, como você vê essa situação no país, esquerda, direita, ódio para todo lado…

É a polaridade, mas não temos mais meio de campo. Cadê o meio de campo? Acabou, só tem defesa e ataque. Mas aí a bola não chega, ninguém faz gol, o que está faltando no Brasil é encontrar esse equilíbrio, esse eixo...mas às vezes é através do desequilíbrio que se encontra o equilíbrio… E estamos numa coisa muito feia né, se você concorda comigo você é meu amigo, se não corto-lhe a cabeça…

Mas essa situação não reflete só a política, e sim a sociedade de forma geral não é? Por exemplo, no evento do empoderamento do bem do shopping, teve um monte de elogios e um monte de reclamações, de quem queria ver a monja e não conseguiu lugar…

Coitadinhos, eles queriam ver… ou seja, shopping tem que fazer um local maior (risos). Uma vez eu fui fazer uma palestra em Brasília, que tinha tanta gente que tiveram que montar uma tenda com um telão, ou seja, se você pode, você atende mais pessoas. Sempre que tem uma reclamação nós temos que ouvi-la. A gente não gosta de crítica, a gente gosta de elogio, mas na hora que vem a crítica é importante ouvir, por que estão criticando? Será que isso é meu? Posso melhorar? Às vezes não pode, às vezes quem critica tem um olhar defeituoso pra realidade, mas sempre é bom procurar ouvir, talvez algo que que não tínhamos percebido, as condições que podem melhorar.

Popularidade em alta, você é uma comunicadora de massa do amor.

É que vocês não estão sabendo que eu estou bombando na internet, vocês já viram o canal Mova? É muito impressionante isso.... Começou com minha neta, que quis ter o bebê em casa, e foi ter no meu templo, que é um pouco maior. E o marido dela, o pai da criança, faz vídeos com uns amigos, tem essa empresa chamada Mova. E como o bebê nasceu em casa, ele ficou um mês lá com o bebezinho, e começou a ouvir minhas palestras. Pediu para gravar, e fez uma coisa linda, porque eles são artistas né, e são jovens, e falam de jovem pra jovem… Então saio na rua, a juventude vem me trazer coisas, comentários, me reconhecem… Eu tenho 70 anos, não faria esses vídeos, mas eles fizeram, porque são profissionais, colocam coisas curtinhas, sabem que o menos é mais, e alcançaram a juventude pra levar essa linguagem que todos entendem, que é a linguagem do coração. Aí quando vou fazer a palestra, lota.

Sobre o nascimento do bebê, minha mãe comentou que viu um vídeo que você comentou sobre esse acontecimento e que sentiu muito medo… ela ficou super impressionada, que 'monja também tem medo'.

Nossa, que aflição, aquela cabecinha vindo e voltando, e boquinha dela ficando meio roxa, eu falava, manda esse bebê sair por aí de uma vez… rezei tudo que eu sabia (risos). Existe coisas na vida que são assim, eu posso interferir, eu não posso mexer no bebê nascendo porque eu nunca vi… e a parteira diz, você não pode mexer no bebê enquanto a cabeça não sair, não pode puxar. E eu não posso fazer nada, eu rezo. A oração nos dá impressão de estar participando e facilitando alguma coisa; e aí tem a fé né...eu acredito que isso ajude. A enfermeira disse que ia me levar nos próximos partos, para rezar junto.

Mas trouxe essa questão porque as pessoas costumam colocar o monge, o professor, ou alguma referência que elas tem, em algum lugar muito distante, difícil de alcançar… E onde não se sente nada, medo, raiva, dor… É como se nunca estivéssemos prontos "para ser como o monge" enquanto tivermos essas emoções.

E não é. Sentir nós sentimos tudo, o que se faz com o que sente é a diferença. Ninguém pode negar sentimentos, emoções, elas existem e são da nossa natureza. O que faço com elas, é que muda. Se eu vejo uma coisa terrível, fico indignada...mas qual a ação que faço? Se eu puder interferir, interfiro, não sou apenas observador da realidade, sou atuante, transformo minha realidade com uma ação, uma presença, um gesto… Eu gosto muito do professor Mario Sérgio Cortella, ele diz que quando entra no avião pergunta pro piloto se ele tem medo… se o piloto disser que não tem medo ele não entra, porque só aquele que tem medo vai prestar atenção nos detalhes, vai verificar todo equipamento. Preciso saber se tudo está funcionando. O medo é importante, com ele vem o cuidado, porque pode não dar certo, pode dar errado, dar um problema. Será que esse bebê sai ou não sai, será que preciso chamar um táxi, será que preciso fazer algo? Não, porque quem conhece disse que está tudo bem, então vamos rezar, e confiar na pessoa que tem a experiência.

Dica prática para lidar com as emoções?

Respiração consciente. Postura correta, alinhamento da coluna vertebral, alinhamento da cervical, e consciência respiratória. Isso faz a transformação, é a chave de ouro, respiração. Qualquer emoção, qualquer coisa que vem com você, a respiração muda, e se você está consciente disso você realinha, respirando conscientemente, para poder tomar a decisão correta. Não só pra ficar alinhadinho, é para fazer alguma coisa depois.

Eu estava conversando com meu filho, que tem 25 anos, e perguntei se ele estava feliz, e a resposta dele me deixou surpresa. Ele me disse: 'como assim felicidade, como vou estar feliz vivendo nesse sistema opressor, nesse mundo de desigualdades sociais, não tem como ser feliz nesse mundo'. Aquilo me deu uma tristeza (risos), meu filho não é feliz. E sim, a gente vê tudo isso que está acontecendo, mas como lidar?

A gente tem que fazer alguma coisa a respeito. Se eu só vejo e não faço nada, eu vou ficar realmente muito triste. Tenho que me envolver num trabalho que acho que está fazendo alguma modificação, se eu ficar só em casa dizendo que nada presta, isso é infelicidade total. Se não está bem, o que eu faço? Que ação eu tomo? Eles foram fazer um filme, vou me ligar a pessoas que estão fazendo algum trabalho voluntário, vou escrever, vou conversar, reunir meus amigos, vou me manifestar nas ruas, mas sempre sem violência. Nós sentimos o que está a nossa volta. A gente fala que o ideal do bodsatvana, que é o ser iluminado, não é que ele atravessa e vai pro lado da sabedoria e da paz e fica de boa com o mundo enquanto o mundo está se acabando. A proposta é: eu nunca fico desse lado, eu vou buscar as pessoas e levá-las pras lá, e não paro até que a última pessoa tenha atravessado, até que todos sejam felizes, enquanto todos não estiverem não tenho felicidade plena...

Somos um.

Sim, então seu filho está dizendo que ele é um bodsatvana, que ele tem a sensibilidade para a realidade do mundo, ele não se isola. Não é que ele é infeliz, ele tem um questionamento social, ele precisa ter uma ação social, que lhe dê tranquilidade de estar fazendo alguma coisa… Ele é a mudança, a pessoa tem que perceber isso, nós somos a transformação que nós queremos no mundo, temos que assumir isso, vestir isso... não está bom? Vai ficar melhor porque eu estou presente. Eu aprecio cada instante da minha vida porque estou sendo a transformação que eu quero, e nao achando que os outros vão fazer. Não tem outros, tem nós. Tem muita dor, muito sofrimento, mas tem muita coisa bonita. E ninguém está dando visibilidade ao bem, você liga a televisão, olha pra banca de jornal, só terror, e as pessoas boas onde estão? Esse é o empoderamento do bem, tem que deixar o bem visível, senão nós vamos achar que não há esperança. 


 


Sexta, 7/7/2017 7:45.


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