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Maior mostra de arte do mundo começa com obras que refletem medo e paranoia
Divulgação.

SILAS MARTÍ, ENVIADO ESPECIAL
KASSEL, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - O ronco dos helicópteros no céu e o avanço dos carros pretos em direção à praça vigiada por policiais dão mais peso a uma frase estampada na fachada do museu -"estar em segurança é assustador".

Na abertura da Documenta, em Kassel, na Alemanha, os discursos de políticos rodeados de guarda-costas e diretores desta que é a maior mostra de arte contemporânea do mundo pareciam uma performance a sublinhar o clima distópico das obras montadas na Friedrichsplatz.

Um enorme templo de andaimes construído no formato do Partenon pela argentina Marta Minujín e forrado de livros banidos por regimes políticos do mundo todo domina o gramado diante do museu que teve o nome escondido atrás do letreiro do turco Banu Cennetoglu.

Logo ao lado, uma torre parece estar pegando fogo, com nuvens de fumaça que jorram pelas janelas, um trabalho do romeno Daniel Knorr.

É mais violento e literal esse lado alemão da mostra, aberto há uma semana. Numa decisão controversa, o polonês Adam Szymczyk, à frente da 14ª Documenta, desmembrou o evento que ocorre a cada cinco anos na Alemanha, estreando em Atenas, em abril, a sua primeira etapa.

Enquanto a capital grega tem obras ancoradas em partituras musicais, que refletem aos sussurros a crise dos refugiados e o estado catastrófico da economia ali, Kassel articula até o fim de setembro um arsenal de trabalhos sangrentos, espelhando o lado mais trágico do curto-circuito político e diplomático que varre toda a Europa.

De pé, na mira de quatro rifles, a guatemalteca Regina José Galindo ilustra com o corpo esse clima de medo e paranoia. Em sua performance, ela se esconde numa sala com aberturas nas laterais por onde passam os canos das armas. O público então observa a artista pelo visor das metralhadoras, como um alvo frágil e indefeso.

Outros corpos vulneráveis e violentados ressurgem, aliás, numa série de obras, entre elas os destroços de um barco de refugiados encontrado na ilha grega de Lesbos, que o mexicano Guillermo Galindo pendurou do alto de uma galeria, e a poderosa investigação sobre a morte de Halit Yozgat, jovem alemão de origem turca assassinado há mais de uma década em Kassel por uma gangue de neonazistas.

O coletivo britânico Forensic Architecture mostra ali uma reconstituição acústica dos disparos, na tentativa de provar que um policial que estava na cena do crime nada fez, denunciando a indiferença das autoridades em relação a crimes de ódio no país.

Num plano menos literal, há ainda uma obsessão com corpos fora do padrão. A travesti chilena Lorenza Böttner, que teve os braços amputados depois de um acidente na infância e passou a fazer pinturas com a boca e com os pés, é alvo de uma sala especial onde estão alguns de seus quadros e retratos de uma exuberância perturbadora, entre o sexy e o grotesco.

Uma série de filmes do polonês Artur Zmijewsky também trilha a linha problemática entre a dor e o fetiche. Ele retrata pessoas que perderam braços ou pernas andando, subindo escadas e fazendo exercícios, na tentativa de dissecar o que chama de "corpos marcados por um erro".

Levando essas reflexões sobre o corpo ao limite da barbárie, o filme da dupla Véréna Paravel e Lucien Castaing-Taylor entrevista Issei Sagawa, um japonês que comeu o corpo de uma estudante que assassinou em Paris e depois desenhou uma história em quadrinhos, com riqueza de detalhes anatômicos, dos cortes que fez na carne da vítima.

Essa coleção de corpos vitimados também funciona como ponto de partida de outra ala da mostra. Na Neue Galerie, onde está o maior número de trabalhos da Documenta, uma série de peças históricas investiga as origens do romantismo alemão e como a estatuária clássica grega, do corpos e templos em proporção áurea, virou a matriz de uma estética europeia, destrinchando as bases de uma relação de exploração entre a Alemanha e a Grécia.

No fundo, essas obras forjam um manifesto contra a herança brutal de impérios colonialistas, lembrando, por exemplo, as raízes do racismo com uma cópia do Code Noir, leis que regeram o tráfico negreiro em colônias francesas.

Esculturas de bronze roubadas do Benin e agora na coleção de museus europeus também contrastam com estátuas de mármore que o alemão Carl Friedrich Echtermeier fez no século 19, alvíssimas senhoras simbolizando cada potência europeia.

ESPETÁCULO TORPE

Esse mea-culpa, que às vezes beira a ingenuidade, também volta os holofotes para a história da Documenta, uma exposição criada na década de 1950, das cinzas do pós-Guerra, como espécie de motor cultural e econômico de uma nova civilização turbinada pelo Plano Marshall.

Suas primeiras edições, aliás, mostraram trabalhos dos artistas que Hitler considerava degenerados e que depois despontariam como estrelas de um mercado nascente.

Um trabalho monumental da alemã Maria Eichhorn, com inventários de obras desses artistas confiscadas pelos nazistas das casas de colecionadores judeus, acentua ainda mais os longos tentáculos dessa culpa alemã.

"O grande desejo dessa Documenta era dar uma noção de realismo que incorpora um conhecimento profundo das estruturas subterrâneas da produção de arte", observa a polonesa Monika Szewcyk, que também organiza a mostra. "E é claro que a economia não é algo divorciado da política nem da cultura."

Nesse sentido, outros trabalhos da exposição orquestram uma segunda camada de autocrítica, dando ares metalinguísticos ao evento.

Um palco vazio montado numa galeria pela dupla francesa Les Gens d'Uterpan e bailarinos comandados pela cipriota Maria Hassabi a rastejar diante de holofotes pela antiga sede dos correios de Kassel parecem denunciar as pretensões de espetáculo torpe e lucrativo que regem mostras dessa natureza.

São luzes que parecem acender na hora errada, quando todos já saíram de cena. 


Quinta, 15/6/2017 6:25.




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