Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

MULHERES: um rosto, uma história, uma luta e muita esperança

A vida e o cotidiano das mulheres são marcados profundamente pela herança histórica e cultural que, em boa parte das experiências e relações humanas, tendenciaram e continuam tendenciando à construção de uma imagem do gênero feminino hierarquicamente subjugada e inferiorizada.

Essas marcas ligadas ao patriarcalismo, as tendências religiosas e a sociedade de consumo, estruturam uma representação da imagem da mulher no mínimo esquizofrênica: incapaz e frágil; santa e prostituta; rainha do lar e única responsável pelos filhos; o corpo padrão /prazer do outro - são alguns exemplos destas representações que povoam mentes e norteiam as interações.

Incorporamos estas representações e as traduzimos desde a tenra idade nos papeis sociais, nas brincadeiras e brinquedos estereotipados, nas canções, nas propagandas e no corpo idealizado do consumo. Os resultados são, entre outras tantas questões, a naturalização da misoginia e objetificação do corpo feminino, o que tem gerado profundas feridas nas meninas, mães, avós, netas e filhas, portanto, em todas mulheres das diferentes gerações abrimos chagas difíceis de curar. Durante séculos o corpo (sobretudo da mulher), foi reprimido em nome da fé e das conveniências. Hoje, continua sendo visto como “corpo-rascunho” que precisa ser moldado, enquadrado no padrão de beleza e de satisfação de uma sociedade que tem se mostrado pouco sensível e muito resistente à construção da igualdade de gênero.

Logo, se refletirmos sobre a construção da identidade dos sujeitos e considerarmos que o ato de ser mulher não é apenas um ato biológico, mas uma construção social, não precisaríamos assistir, em pleno século XXI, as discussões de gênero que centralizaram o debate em torno dos planos de educação, em que grupos exigiram e, infelizmente conseguiram, a retirada de qualquer referência à palavra “gênero” nos documentos que irão nortear por uma década a educação das crianças e jovens. Estes episódios, podem parecer comuns, no entanto, revelam o nível de preconceito e o medo da igualdade de gênero que ainda estão incorporados no discurso de muitos grupos sociais conservadores e o que é pior - acabam se tornando reforçadores dos processos de violência que as mulheres são vítimas.

Portanto, o fenômeno da violência contra as mulheres, situado nas cenas rotineiras são fortemente marcados pela assimetria frente aos polos de poder masculino e inúmeras vezes banalizados pelos governos, pela mídia, por grupos religiosos e pela sociedade de modo geral que é guiada a naturalizar o sexismo, pois dificilmente haveria violência se fossemos capazes de construir o conceito de alteridade do feminino.

Neste caminho trilhado, é claro que avançamos e temos conquistas, no entanto, cabe lembrar que estas sempre foram tecidas com dor e lágrima, por mulheres e homens que se permitiram pensar e agir em outra direção. A militância feminista, sobretudo, criou condições para o reconhecimento e visibilidade da gravidade do preconceito e discriminação feminina e continua sendo um movimento social que tem papel crucial na defesa de direitos e de igualdade de gênero.

Neste norte, lutar pela igualdade de gênero é, sem dúvida, uma questão de Direitos Humanos e de justiça. Não é possível pensar uma sociedade desenvolvida econômica e socialmente, sem repensar as relações entre homens e mulheres, sem construir as mesmas oportunidade e direitos, sem pensar em estratégias de empoderamento das mulheres e, especialmente, daquelas que vivem à margem da sociedade, pois segundo relatório do FNUAP, (Fundo das Nações Unidas para Desenvolvimento da População) proporcionalmente há mais mulheres pobres que homens: a pobreza é feminina. Visar o equilíbrio de poder e a distribuição de renda entre homens e mulheres é um fator estruturante da cidadania - permite que homens e mulheres sejam protagonistas e autorregulados na tomada de decisões e gerenciamento das suas vidas pessoais e profissionais.

Mediante a realidade, as comemorações relativas ao Dia Internacional da Mulher – 8 de março, exigem ampliação do debate e ações que assegurem novas práticas sociais. Exigem mudança cultural e esta não virá por um passe de mágica ou por uma homenagem com flores. Virá por uma persistente busca de equidade e por este fato, deverá ser um exercício cotidiano de envolvimento de meninos e meninas, de homens e mulheres em práticas educativas de respeito e solidariedade, de construção de identidades sem hierarquização e, nesta tarefa, não tenho dúvida que as mulheres deverão ser protagonistas desta nova ordem social. Afinal, somos, como lembra Cora Coralina, “aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores”. Viva todas as feministas - MULHERES que um rosto, uma história, uma luta e muita esperança.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 07/03/2017 às 16h20 | marisazf@hotmail.com

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