Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

"A creche não é cabideiro"

: a volta à escola como um processo de ambientamento para crianças e famílias

A provocação do título inicial, emprestada do pedagogo e desenhista italiano Francesco Tonucci, objetiva refletir sobre as representações e práticas que temos sobre o ingresso ou retorno das crianças à escola.

As mudanças que tanto desejamos na educação necessitam que os pais e a sociedade compreendam que a escola é um espaço complementar na tarefa de cuidar e educar seus filhos. Devem identificar as funções de cada um destes contextos (família e escola), trabalhando de forma compartilhada e corresponsável, ou seja, jamais na ideia, muito presente hoje, de substituição de papeis, ou de “cabideiro” – depósito. A escola e família são dois contextos fundamentais para desenvolvimento e para trajetória de vida das pessoas.

Se partirmos desta compreensão, o período que antecede a entrada ou o retorno à escola deverá ser de muito diálogo entre o ambiente educativo, os pais e, particularmente, entre estes e a criança/aluno. Pais seguros, bem informados sobre o funcionamento da escola, da organização física e pedagógica, terão condições de auxiliar seus filhos e de apoiá-los de forma qualitativa: sem ansiedade e medos, encorajando-os a lidarem com o novo ambiente – que afinal deverá apenas ser novo e não desconhecido. O desconhecido pode causar medo e o novo expectativas/desafios.

De modo geral, devemos ter uma atenção especial com à educação infantil, pois é o primeiro ambiente extrafamiliar da criança. Esta experiência é complexa não só para a criança, mas também para os pais. Portanto, antecipar e preparar este momento com os pais e as figuras de referência da criança (avós, cuidadores), é uma tarefa que as escolas devem ter como prioridade, pois eles serão os mediadores da transição casa – escola.

Definir um período para o ambientamento é um ato de respeito à criança e de reconhecimento dos seus direitos – de ser acolhida, amparada e apoiada no processo de ampliação da sua rede social. Quando um filho vê sua mãe chorando ao deixá-lo na creche/escola qual a leitura que fará do ambiente? Terá segurança? Não ficará ansioso? Ou quando um pai precisa “fugir”, esconder-se do filho pequeno, sem se despedir ao deixá-lo na escola - como a criança reagirá ao ver-se sozinha com “estranhos”? Certamente, estas situações podem gerar sentimentos de abandono e impactarão nos relacionamentos que terá na escola, no tempo de choro, no tempo de aceitação do espaço e nas interações com as múltiplas situações do ambiente coletivo, bem como na construção do sentimento de pertencimento (aspecto estruturante da vida em sociedade) e, é claro, no seu desempenho geral.

Há, no meu entendimento, um descaso com o processo de entrada na escola dos pequenos. O sofrimento gerado para os pais e, em especial, para as crianças é desconsiderado, há inclusive mães que aproveitam este momento para efetuar o desmame, a retirada da chupeta, das fraldas, acrescentando situações novas que conturbam ainda mais o momento. Ainda, há uma crença que o choro é apenas “manha”, que chorar faz parte do universo infantil. O choro é uma linguagem entre tantas, é uma forma de comunicação, portanto, não podemos admitir que crianças chorem prolongadas horas e dias na escola sem que possamos acolhê-las e, isso lamentavelmente tem sido o som e a tônica, quase naturalizada, em muitas escolas da infância no início das atividades.

Defendo que o período de ambientamento deveria ser obrigatório. Estar no currículo, calendário escolar e no calendário de férias dos pais. Digo isso, porque é necessário que os pais e a escola reservem e dediquem tempo para este importante momento. Preparar inserções gradativas no novo ambiente, alternar tempo de presença dos pais, preparar o ambiente escolar com algumas referências da família, da cultura da criança, (fotografias, objetos pessaois), prever encontros entre pais e professores antecipadamente, terem momentos de diálogos sobre a criança, sobre o ambiente escolar, também auxiliará nesta transição que poderá ser menos dolorosa e, acima de tudo, mais humana e respeitosa com os pequenos, com suas famílias e com os professores.

O desconhecimento da importância do início ou retorno à escola pode ser então percebido quando nos perguntamos: quantas oportunidades os pais tem para falarem das suas angústias, do sentimento de culpa em deixar seu filho na escola? Quantas vezes a escola convidou os pais para entrarem na sala de aula? Quando compartilham suas experiências de paternidade com outros pais? O que a escola informa sobre seus professores? Como preparam a chegada das crianças e dos alunos?

A falta destes momentos de diálogo e conhecimento podem levantar alguns alertas:

- conhecer a escola apenas no momento da matricula e no primeiro dia de aula – gera insegurança e falta de informação para passar a criança;

- não conversar e não conhecer os futuros professores – gera ansiedade;

- fazer a inserção abrupta - não reservar tempo para esta transição, como por exemplo, tirar férias, organizar a agenda, para estar disponível – gera sentimento de abandono;

- chorar ao deixar a criança – passa a mensagem que o lugar não é bom;

- deixar a criança chorando na escola – gera sofrimento, pois ela deve ser amparada, ser acalentada;

- exagerar nas formas de despedida – sair, voltar, ficar escondido na escola “olhando de longe”- gera dúvidas e insegurança sobre o ambiente.

Entrar na sala, no espaço educativo é importante, principalmente para os bebês, mas a presença deve ser planejada bem como o papel que os pais irão desempenhar ao permanecerem na sala. A presença em sala deve progressivamente ser alternada e não pode gerar dependência da criança e sim apoio à sua capacidade de se relacionar com outros pares. É certo que ao tempo em que os pais e os professores vão familiarizando-se entre si, vão criando vínculos, a criança se beneficiará muito.

Qualquer pessoa quando entra pela primeira vez em um ambiente sente-se de certa forma insegura, desconfortável, precisa rapidamente buscar referências físicas e afetivas para permanecer naquele lugar. Com a escola e a criança não é diferente - ela representa para criança um novo e desconhecido contexto. Precisa construir laços e sentimento de pertencimento. Por isso a importância que damos a antecipação e planejamento deste momento, evitando experiências negativas que influenciarão na autonomia, confiança e aprendizagem da criança.

É necessário reconhecer e respeitar a individualidade de cada criança, pois cada um tem seu tempo de ambientamento, no entanto, há sinais e comportamentos que revelam se a criança não está ambientada: chora em demasia, não se alimenta, não explora os espaços, não se relaciona com outras crianças, fica apática por períodos muito prolongados. É preciso então investir neste tempo, os professores e os pais precisam registrar estes fatos e comportamentos, de forma tranquila corresponsabizar-se no apoio à criança, respeitar seus desejos, importar-se com seu choro, suas falas, seus desejos, valorizar os seus sentimentos bem como acreditar na sua competência para a ampliação do processo de socialização.

Precisamos refletir sobre o conceito de adaptar-se – significa aceitar uma estrutura já defina, moldar-se a ela – ligada a ideia de cabideiro. Já ambientar-se - significa fazer e sentir-se parte do contexto. O ambiente e as pessoas estão, neste conceito, implicados com o sujeito, por isso, são organizados para apoiar esta transição. A inserção de uma criança na escola, ou o retorno à escola, requer cautela e uma organização que leve em consideração tanto as crianças quanto as suas famílias, sem esquecer que cada sujeito experimenta os próprios apegos, limites e possibilidades.

O “cabideiro” deixemos para as velhas práticas educativas. A escola ideal precisa ser exercida hoje e um bom começo - fará toda diferença.

"A creche não é um cabideiro”- Tonucci
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/02/2017 às 15h41 | marisazf@hotmail.com

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Qual o valor dos profissionais da educação?

Inúmeros caminhos podem ser escolhidos para responder esta pergunta. Entre eles, poderíamos recorrer a nossa memória afetiva e relembrar a vida de estudantes: rapidamente encontraremos uma professora ou um professor que marcou positivamente nossas vidas, que nos ensinou mais do que ler e escrever – deu-nos referências e instrumentos para enfrentar nossos medos, descobrir nossas potencialidades, foi uma inspiração para definir a profissão ou até mesmo foi o ouvido certo para o desabafo, o colo acalentador para choro, a mão segura para os primeiros passos, o ouvido atento e estimulador para as primeiras palavras, a orientação ética para compartilhar brincadeiras, tarefas e convivência coletiva. Sob esta ótica, parece impossível mensurar o valor destes profissionais que apontam caminhos, despertam a sede de aprender, de conviver e se tornam o elo imprescindível de civilidade e de humanidade.

Do ponto de vista econômico: James Heckman prêmio Nobel de Economia (2000), apontou que a educação é crucial para o avanço de um país e, quanto antes chegar às pessoas, maior será o seu efeito e mais barato ela custará. Heckman destaca que tentar sedimentar num adolescente o tipo de conhecimento que deveria ter sido apresentado a ele dez anos antes sai algo como 60% mais caro. Neste horizonte, investir na educação e, fortemente na da primeira infância é economizar!

Os recentes episódios desumanos no sistema carcerário revelam um equívoco irreparável nas políticas de governo: os municípios quadriplicaram seus gastos com segurança, na última década, e mesmo assim as cidades tem se tornado mais violentas. Pesquisa recente mostrou que as prefeituras que investiram em guardas municipais passaram a gastar menos com medidas preventivas mais eficientes, como programas sociais e escolas em tempo integral em bairros, com jovens mais vulneráveis à violência. Portanto, do ponto de vista da eficiência e resultados nas ações para segurança pública, é visível que se reduz a criminalidade com investimento na Educação. Os presídios estão superlotados a um custo muito superior ao que lhe daria dignidade em uma escola integral na infância.

A lógica da política neoliberal e conservadora resistirá a estas observações e, certamente, fará esforços para destacar o “custo” dos profissionais da educação e, assim, enfraquecer ou congelar os investimentos ao argumento da economicidade, contrariando e subestimando as pesquisas e as inúmeras experiências de países que alavancaram seus processos de desenvolvimento justamente porque investiram forte e coerentemente os recursos na educação e, sobretudo, nos seus profissionais.

Apesar da obviedade incontestável que a educação é o caminho mais eficiente para o processo de humanização, ou seja, para melhores índices de saúde, segurança e desenvolvimento econômico e cultural, o caráter do reajuste menor aos educadores de Balneário Camboriú em relação aos outros servidores, denota a política de desvalorização da melhor prática para um governo que quer bons resultados.

Equivoco ou não, o óbvio precisa ser revistado, pois em momentos de crise econômica, ética e moral há uma tendência da tradição hegemônica em precarizar as reflexões e naturalizar, por exemplo, as diferenças que existem entre o que se paga a um professor e demais profissionais com a mesma formação - “os professores brasileiros ganham menos que outros profissionais do setor público do país, bem menos que seus colegas de outros países de renda per capita equivalente, possuem uma estrutura de carreira pouco estimulante a permanecer na profissão.” (PINTO, 2010). O reajuste concedido aos servidores e a diferença nos percentuais (8,77% de reajuste para servidores gerais e 7,64% para o magistério) denota que o governo inicia seu mandato desprestigiando a Educação, o Magistério, pois os índices do Piso Nacional são apenas balizadores do mínimo a ser concedido.

Assim, esperamos novos tempos e novas ideias, com esforços e práticas que revelem cotidianamente o real valor que os profissionais da educação tem para nosso rico município!

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/01/2017 às 13h40 | marisazf@hotmail.com

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