Jornal Página 3
Coluna
Marisa Fernandes
Por Marisa Zanoni Fernandes

DE ONDE VIEMOS? QUEM SOMOS? ONDE ESTAMOS? PARA ONDE VAMOS? COMO QUEREMOS IR?

 
 

As questões iniciais fazem parte da experiência provocativa a quem visita ao Museu do Amanhã no Rio de Janeiro. Ir ao museu é como fazer terapia – ao sair, a sessão continua a te inquietar e você se permite refletir com e além do que viu e sentiu.

Nas narrativas simbólicas e objetivas do museu há um pressuposto básico: estamos intimamente conectados. É o hoje que define e afeta o amanhã.  Como parte indivisível do universo, com nossas ações afetamos e somos afetados de inúmeras formas.

Deste modo, para buscar responder o presente: onde estamos – recorro a dúvida, pois me parece que faz parte desta realidade, não haver respostas claras! É fato, estamos envoltos por incertezas, desesperanças, desequilíbrios ambientais, sociais e existenciais. Não raro, vivemos paradoxalmente: liberdade x escravidão; justiça x vingança; desejo x apatia; vida x morte; abundancia x miséria; conexão x solidão.

É tempo, resgatando Orwel (2009), de “duplipensamento” e de “verdade móvel” – o homem ao se tornar cada vez mais um instrumento, transforma a realidade de acordo com seus próprios interesses e funções. Dito de outro modo, a verdade não é mais um julgamento objetivo acerca da realidade, ela é provada pelo consenso de milhões e guiada por interesses.

Somos capazes de abrigar simultaneamente duas crenças contraditórias e acreditar em ambas. Construímos armas para assegurar a paz; investimos em policiamento armado para ter segurança; preconceito, machismo, misoginia, xenofobia, lgbtfobia, para nos proteger do outro – diferente. É sem dúvida, tempo de crise econômica, ética e ambiental. Sobretudo, porque vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno – conceito criado por Paul J. Crutzen (1995), mediante a escala de destruição do meio ambiente, o extermínio dos ecossistemas, em que o homem começa a destruir suas próprias condições de existência no Planeta. Era de individualidade extrema, de nacionalismos, moralismos, de ascensão do conservadorismo que toma o poder no mundo e, no Brasil, não por acaso Bolsonaro e Doria, crescem com popularidade inimagináveis. É tempo de eugenia – limpar a cracolandia; retirar a força “invasores”; clamar pela ditadura – sob a égide do bem contra o mal, dos bons contra os maus.   

Para onde vamos? Talvez ao tomarmos consciência desta realidade (onde estamos), poderíamos pensar que o homem está se desumanizando, rompendo os laços mínimos de civilidade, ou seja, está basicamente se tornando autodestrutível: ambientalmente e nas relações sociais. Basta imaginar que a utilização das armas termonucleares, que existem, poderia acabar com toda a civilização.

Entretanto, quando olhamos para o sorriso das crianças, para a fé inabalável de muitos pais, educadores e o exemplo de tantos que resistiram e continuam a resistir na esperança de um mundo sustentável, de paz e solidariedade, que avança fronteiras e se irmana com todos os povos, tornamos a acreditar na decência humana.

Neste sentido, volto ao Museu do Amanhã e desvendo caminhos que conduzem interativa e amorosamente a um reencontro com quem somos: “[...]vivemos em uma sociedade e pertencemos a família, grupos e comunidades que nos identificamos. Cada cultura possui um repertório de comportamentos comuns, renovados pela história e por experiências coletivas. Fazemos as mesmas coisas de maneiras sempre distintas. Sensações, emoções, gostos, crenças, linguagens e costumes formam um imenso caleidoscópio da riqueza cultural e dos povos. Somos humanos porque formulamos e compartilhamos ideias capazes de transformar a realidade em que vivemos. ” (Fragmentos da experiência de alguns espaços do museu – livre tradução) 

Assim, podemos encontrar indicadores que ajudam pensar:  como queremos ir?  É ainda no museu que reflito sobre o planeta, que inverto a lógica das perguntas e da linearidade do tempo, pois ao final, volto ao começo – de onde viemos? E como uma explosão cósmica, me vejo mais claramente – carbono, hidrogênio, oxigênio, fósforo, cálcio, me vejo planta, animal, rios, florestas, me vejo parte indivisível do universo.

Ainda, nesta conexão e buscando respostas ao questionamento: como queremos ir?  Em uma parede leio: “Nossas ações, por menores que pareçam, são capazes de mudar o mundo. A cada momento fazemos escolhas sobre o nosso modo de vida. Se nos conectarmos com o planeta e uns com os outros, seremos uma ponte para um futuro sustentável.  Cada um de nós faz o seu amanhã. E juntos fizemos os nossos – os amanhãs que queremos. ”

A visita ao Museu do Amanhã me fez enxergar mais longe (apoena, termo de origem tupi-guarani: aquele que vê além do horizonte). Há luz mesmo em meio ao ofuscamento do momento, para vê-la é necessário que nos movimentemos de forma corajosa e humanitária, assim como o Sol e a Terra são finitos, nossa reação pode assegurar a nossa infinidade. 

Comecemos hoje os nossos amanhãs! Para isso, é necessário voltar a “oca e ao churinga” (último e espetacular espaço do museu) e transmitir às futuras gerações o conhecimento e os gestos mais preciosos da humanidade. É como cantar a Canção da Vida e recuperar a capacidade de amar, de criar e viver em harmonia com o Planeta e todas as formas de existência do mundo.

créditos imagem: Totens do Antropoceno (disponibilizada no site do Museu do Amanhã do Rio de Janeiro)

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 19/06/2017 às 17h39 | marisazf@hotmail.com

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O BRASIL AO AVESSO

 

 

“TEM QUE SER UM QUE A GENTE MATA ELE ANTES [ ...]”

Um turbilhão de sentimentos invade meu âmago e acredito de todo povo brasileiro em meio as notícias que afetam o coração da democracia e desafiam a nossa lógica. Entre gravações, áudios, flagrantes e prisões, máscaras caem e novos protagonistas entram em cena sob o comando (estranhamente) da Rede Globo.

 Para aqueles que proclamavam que a corrupção era invenção e prática de um partido - o PT- hoje talvez, o sentimento seja de abandono e de orfandade -  afinal, perderam os personagens santos proclamadores da ética e da anticorrupção. Parte significativa da população foi levada a olhar o cenário político por apenas uma perspectiva:  incitadora de ódio e da divisão de classes.  Esta perspectiva também levou a crença que as cores verde e amarela e a bandeira do Brasil pertencia a um grupo social e, sobretudo, que a solução de todos os males seria banir o partido e o governo da presidente Dilma.

 Para aqueles que apontavam que a raiz dos problemas da corrupção está alicerçada na cultura e no sistema político brasileiro, afetando cotidianamente governos e a governabilidade, portanto, histórica e sistêmica – talvez o sentimento seja de certo conforto, pois neste cenário, encontram  visibilidade das suas crenças, particularmente, quando olham  para o número de partidos políticos envolvidos, para os  homens públicos defensores dos interesses privados, num mecanismo em que os financiadores ditam a agenda do parlamento e do governo com grave ofensa à República.

 No entanto, hoje o sentimento de todo brasileiro não pode ser revanche. É preciso construir um sentimento de pertencimento, de união de esforços e jamais aceitar a conduta antirrepublicana e criminosa, como a revelação do áudio da gravação autorizada pela Justiça em que o povo brasileiro ouviu o Senador Aécio Neves do PSDB, dizer " tem que ser um que a gente mata ele antes de delatar. ”

 Não há mais tempo para divisões do povo brasileiro, não há mais espaço para ideias massificadoras da mídia, dos que defendem a concentração de riquezas, de figuras públicas que estão a serviço do capital privado e do seu próprio bolso. O sistema democrático foi e está cotidianamente sendo golpeado – não podemos ficar calados, mediante aos defensores da ditadura, da exclusão social das diferenças, dos usurpadores dos direitos básicos que tem ampliado a pobreza e a violência social.   Não há mais espaço para repetir expressões e inundar as redes sociais com piadas e (des) informações que revelam o que não sabemos ou preferimos não saber.  

É necessária a reação:  delatemos, enfrentemos – antes que nos matem!

Imagem: José Guadalupe Posada - El Jicote (1871)

 

 

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/06/2017 às 15h04 | marisazf@hotmail.com

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“MAS VÓ, VÃO MATAR JESUS DE NOVO?” A Páscoa com olhos de criança

Se há algo que gosto muito é valorizar e ouvir atentamente as expressões, interpretações e os questionamentos das crianças. Minha memória guarda inúmeras histórias, pois considero que gente pequena tem um modo muito especial de ver o mundo dos adultos.
 
Nestes dias de comemorações de Páscoa lembrei-me de um garoto de quatro anos que voltara da escola e muito preocupado queria saber da avó se seria Páscoa novamente. Ao respondê-lo - afirmando que sim - ela observou que ele saiu da sua presença cabisbaixo, com ar de preocupação e certa tristeza. Então, ela o indagou: - por que estás preocupado com isso? Ele respondeu: - mas vó vão matar Jesus de novo?
 
A expressão do pequeno pode até nos fazer rir, no entanto, quero levar a sério e me solidarizar com a sua preocupação. Quero me aproximar da sensibilidade deste menino: a passagem bíblica da morte de Jesus é para mim a mais intrigante e mobilizadora história cristã. Justifico minha escolha por dois aspectos: o primeiro porque nela vejo cenas tão presentes no nosso cotidiano, o segundo, porque me identifico com as causas assumidas por Jesus e sobretudo, porque não gosto de ver injustiças.
 
Assim, se observarmos o comportamento humano daquele tempo, parece impossível que o mesmo povo que acolhe Jesus, em poucos dias o abandona e o troca por Barrabás e, como em um ato de confusão e instabilidade mental, o ama e o odeia na mesma intensidade. A possível falta de capacidade de discernimento daquele momento, me parece que chega até nossos dias e como grande tempestade nos provoca dificuldades de enxergar a verdade dos fatos.
 
A morte e a prisão servem de livramento. Não importa o que o sujeito fez, não importa o fato, o que importa é que alguém seja “crucificado” e, assim, continuamos matando Jesus quantas vezes forem necessárias para nos sentirmos mais puros, menos pecadores.
 
Nos tempos de Jesus não havia a capacidade de informações dos dias atuais, no entanto, há semelhanças nos modus operandi da justiça dos homens na premissa – alguém tem que ser crucificado – assim, a humanidade se livrará dos pecados e do mal e a ordem estará reestabelecida.  
 
Neste cenário de morte recorro novamente às crianças, pois são elas que povoam a minha mente e o meu coração como se fossem luzes de esperança, são elas que nos abordam com incomodas perguntas e nos deixam órfãos da lógica das respostas. É fato que não estamos habituados a pensar sobre muitas coisas, apenas repetimos o que nos disseram, temos rituais que se tornam nossas verdades absolutas – sem a chance de qualquer questionamento.
 
Na perspectiva desta gente miúda acredito na capacidade de mudança, de crença e ressureição de um novo tempo, não como um milagre, (se bem que ele seria bem-vindo), mas como um esforço coletivo de autocrítica e de consciência que se distancia do sentimento de vingança que apenas enche os corações de ódio.
 
Acredito na capacidade de reinventarmos uma nova e equilibrada ordem que talvez precisa se voltar à cena da morte de Jesus e se espelhar em alguns exemplos contra majoritários daquele povo – entre eles - Maria e Verônica que se compadeceram, choraram e nunca abandonaram a Jesus, sobretudo, porque abriram-se para outros olhares, outras perspectivas de justiça antes de meros julgamentos.
 
Que a Páscoa nos traga esta convicção: vale a pena ouvir as crianças, vale a pena ver com olhos de criança e romper com padrões e estereótipos de comportamentos que tem gerado morte. É preciso sair do lugar comum, pois o momento exige mais solidariedade, mais amorosidade e mais gente que ama a verdadeira justiça.
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 13/04/2017 às 18h32 | marisazf@hotmail.com

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Letargia Social: reflexões acerca da violência

A violência na sociedade é histórica e se apresenta com diferentes faces, trazendo dor, sofrimento, culpa e patologizando o comportamento e as relações entre os sujeitos.

Partindo desta premissa, parece que o atual contexto social exibe sua face mais espantosa: de um lado, o encurtamento das fronteiras ou a planificação do mundo nos permitem comunicar-se, relacionar-se com uma velocidade incrível e de outro, nos distanciamos física e emocionalmente e temos sérias dificuldades de convivência – não é por acaso que uma empresa japonesa produz parceiros virtuais (a esposa virtual para solitários) um “holograma”, substituto das relações pessoais.

Nesta tela, na mesma velocidade que conhecemos as mazelas da vida social e da violência cotidiana - proferidas e preferidas pelos meios de comunicação que tem batido recordes de audiência com essa pauta – nos tornamos indiferentes ao outro.

Das palmadas às grandes guerras me parece que há algo em comum: a dureza e a brutalidade dos seres humanos e do seu processo de civilidade. Laços de civilidade - aí ou aqui - bem próximos de nós, estão sendo rompidos ou até mesmo nunca foram construídos. Isso ocorre boa parte das vezes porque reproduzimos um modelo social perverso, pouco solidário, fato este desencadeador de uma verdadeira letargia social.

Pelas suas características e tomando como referência alguns estudos do campo da psicologia e da psicanálise é que escolhi chamar este contexto de letárgico.

Observo que a violência, tem deixado marcas indeléveis em crianças, jovens, adultos e idosos. Entre outras, destacam-se: a perda de confiança no outro (se o cotidiano da criança está submisso à intolerância, ao rancor, a reações agressivas imprevisíveis, sua capacidade de ligação é prejudicada); a insegurança emocional; medo e retração; apatia – influenciando diretamente nas amizades; sentimento de culpa e baixa autoestima; dificuldade de concentração; estresse emocional – estado de alerta constante. Se a violência for o modelo recorrente, a criança e ou o adolescente podem aceitar a violência como algo natural e replicá-la nas suas relações.

Portanto, se desejamos uma sociedade vivaz e civilizada, o primeiro passo é repudiar com veemência todas as formas de violência, sejam elas entendidas como recursos educativos ou como forma de redimir conflitos.

Neste norte, é preciso combater a violência em todos os ambientes sociais, no entanto, quero destacar aqui dois contextos: o escolar (foco na escola da infância) e o familiar, pois são estruturantes e portadores de grandes responsabilidades com o cuidado e educação dos pequenos.

Para combater a “cultura da violência” é necessário participar não apenas das chamadas “campanhas pela paz” – não basta usar uma roupa branca como símbolo. É preciso condenar radicalmente o uso de castigos físicos sejam eles moderados ou não, por exemplo, “cadeirinhas do pensamento” (tão comuns nas escolas infantis), são formas de humilhação confundidas com formas disciplinares. Portanto, geradoras de violência e isso é inaceitável em um ambiente que tem a função precípua de cuidar e educar.

Infelizmente, essas formas de violências poucas vezes são questionadas ou criminalizadas. Por isso, trago à baila um recente julgado do poder judiciário da comarca de Balneário Camboriú em que o magistrado condenou o município ao pagamento de indenização por danos morais em razão de agressão física (chineladas nas costas em uma criança de 2 anos), cometida por uma por uma professora de uma creche municipal. Mesmo sendo um caso isolado, a condenação e o valor arbitrado, talvez sirvam como alerta e como chamamento para uma ordem mais humana e civilizada entre as pessoas e os vários contextos sociais.

Não podemos aceitar ou praticar nenhuma forma de violência, ela apenas gerará mais violência, pois como lembram Maturana e Verden-Zöller (2004) o SER humano que um humano chega a ser, vai se constituindo ao longo da vida humana que ele vive.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 28/03/2017 às 16h20 | marisazf@hotmail.com

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MULHERES: um rosto, uma história, uma luta e muita esperança

A vida e o cotidiano das mulheres são marcados profundamente pela herança histórica e cultural que, em boa parte das experiências e relações humanas, tendenciaram e continuam tendenciando à construção de uma imagem do gênero feminino hierarquicamente subjugada e inferiorizada.

Essas marcas ligadas ao patriarcalismo, as tendências religiosas e a sociedade de consumo, estruturam uma representação da imagem da mulher no mínimo esquizofrênica: incapaz e frágil; santa e prostituta; rainha do lar e única responsável pelos filhos; o corpo padrão /prazer do outro - são alguns exemplos destas representações que povoam mentes e norteiam as interações.

Incorporamos estas representações e as traduzimos desde a tenra idade nos papeis sociais, nas brincadeiras e brinquedos estereotipados, nas canções, nas propagandas e no corpo idealizado do consumo. Os resultados são, entre outras tantas questões, a naturalização da misoginia e objetificação do corpo feminino, o que tem gerado profundas feridas nas meninas, mães, avós, netas e filhas, portanto, em todas mulheres das diferentes gerações abrimos chagas difíceis de curar. Durante séculos o corpo (sobretudo da mulher), foi reprimido em nome da fé e das conveniências. Hoje, continua sendo visto como “corpo-rascunho” que precisa ser moldado, enquadrado no padrão de beleza e de satisfação de uma sociedade que tem se mostrado pouco sensível e muito resistente à construção da igualdade de gênero.

Logo, se refletirmos sobre a construção da identidade dos sujeitos e considerarmos que o ato de ser mulher não é apenas um ato biológico, mas uma construção social, não precisaríamos assistir, em pleno século XXI, as discussões de gênero que centralizaram o debate em torno dos planos de educação, em que grupos exigiram e, infelizmente conseguiram, a retirada de qualquer referência à palavra “gênero” nos documentos que irão nortear por uma década a educação das crianças e jovens. Estes episódios, podem parecer comuns, no entanto, revelam o nível de preconceito e o medo da igualdade de gênero que ainda estão incorporados no discurso de muitos grupos sociais conservadores e o que é pior - acabam se tornando reforçadores dos processos de violência que as mulheres são vítimas.

Portanto, o fenômeno da violência contra as mulheres, situado nas cenas rotineiras são fortemente marcados pela assimetria frente aos polos de poder masculino e inúmeras vezes banalizados pelos governos, pela mídia, por grupos religiosos e pela sociedade de modo geral que é guiada a naturalizar o sexismo, pois dificilmente haveria violência se fossemos capazes de construir o conceito de alteridade do feminino.

Neste caminho trilhado, é claro que avançamos e temos conquistas, no entanto, cabe lembrar que estas sempre foram tecidas com dor e lágrima, por mulheres e homens que se permitiram pensar e agir em outra direção. A militância feminista, sobretudo, criou condições para o reconhecimento e visibilidade da gravidade do preconceito e discriminação feminina e continua sendo um movimento social que tem papel crucial na defesa de direitos e de igualdade de gênero.

Neste norte, lutar pela igualdade de gênero é, sem dúvida, uma questão de Direitos Humanos e de justiça. Não é possível pensar uma sociedade desenvolvida econômica e socialmente, sem repensar as relações entre homens e mulheres, sem construir as mesmas oportunidade e direitos, sem pensar em estratégias de empoderamento das mulheres e, especialmente, daquelas que vivem à margem da sociedade, pois segundo relatório do FNUAP, (Fundo das Nações Unidas para Desenvolvimento da População) proporcionalmente há mais mulheres pobres que homens: a pobreza é feminina. Visar o equilíbrio de poder e a distribuição de renda entre homens e mulheres é um fator estruturante da cidadania - permite que homens e mulheres sejam protagonistas e autorregulados na tomada de decisões e gerenciamento das suas vidas pessoais e profissionais.

Mediante a realidade, as comemorações relativas ao Dia Internacional da Mulher – 8 de março, exigem ampliação do debate e ações que assegurem novas práticas sociais. Exigem mudança cultural e esta não virá por um passe de mágica ou por uma homenagem com flores. Virá por uma persistente busca de equidade e por este fato, deverá ser um exercício cotidiano de envolvimento de meninos e meninas, de homens e mulheres em práticas educativas de respeito e solidariedade, de construção de identidades sem hierarquização e, nesta tarefa, não tenho dúvida que as mulheres deverão ser protagonistas desta nova ordem social. Afinal, somos, como lembra Cora Coralina, “aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores”. Viva todas as feministas - MULHERES que um rosto, uma história, uma luta e muita esperança.

Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 07/03/2017 às 16h20 | marisazf@hotmail.com

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"A creche não é cabideiro"

: a volta à escola como um processo de ambientamento para crianças e famílias

A provocação do título inicial, emprestada do pedagogo e desenhista italiano Francesco Tonucci, objetiva refletir sobre as representações e práticas que temos sobre o ingresso ou retorno das crianças à escola.

As mudanças que tanto desejamos na educação necessitam que os pais e a sociedade compreendam que a escola é um espaço complementar na tarefa de cuidar e educar seus filhos. Devem identificar as funções de cada um destes contextos (família e escola), trabalhando de forma compartilhada e corresponsável, ou seja, jamais na ideia, muito presente hoje, de substituição de papeis, ou de “cabideiro” – depósito. A escola e família são dois contextos fundamentais para desenvolvimento e para trajetória de vida das pessoas.

Se partirmos desta compreensão, o período que antecede a entrada ou o retorno à escola deverá ser de muito diálogo entre o ambiente educativo, os pais e, particularmente, entre estes e a criança/aluno. Pais seguros, bem informados sobre o funcionamento da escola, da organização física e pedagógica, terão condições de auxiliar seus filhos e de apoiá-los de forma qualitativa: sem ansiedade e medos, encorajando-os a lidarem com o novo ambiente – que afinal deverá apenas ser novo e não desconhecido. O desconhecido pode causar medo e o novo expectativas/desafios.

De modo geral, devemos ter uma atenção especial com à educação infantil, pois é o primeiro ambiente extrafamiliar da criança. Esta experiência é complexa não só para a criança, mas também para os pais. Portanto, antecipar e preparar este momento com os pais e as figuras de referência da criança (avós, cuidadores), é uma tarefa que as escolas devem ter como prioridade, pois eles serão os mediadores da transição casa – escola.

Definir um período para o ambientamento é um ato de respeito à criança e de reconhecimento dos seus direitos – de ser acolhida, amparada e apoiada no processo de ampliação da sua rede social. Quando um filho vê sua mãe chorando ao deixá-lo na creche/escola qual a leitura que fará do ambiente? Terá segurança? Não ficará ansioso? Ou quando um pai precisa “fugir”, esconder-se do filho pequeno, sem se despedir ao deixá-lo na escola - como a criança reagirá ao ver-se sozinha com “estranhos”? Certamente, estas situações podem gerar sentimentos de abandono e impactarão nos relacionamentos que terá na escola, no tempo de choro, no tempo de aceitação do espaço e nas interações com as múltiplas situações do ambiente coletivo, bem como na construção do sentimento de pertencimento (aspecto estruturante da vida em sociedade) e, é claro, no seu desempenho geral.

Há, no meu entendimento, um descaso com o processo de entrada na escola dos pequenos. O sofrimento gerado para os pais e, em especial, para as crianças é desconsiderado, há inclusive mães que aproveitam este momento para efetuar o desmame, a retirada da chupeta, das fraldas, acrescentando situações novas que conturbam ainda mais o momento. Ainda, há uma crença que o choro é apenas “manha”, que chorar faz parte do universo infantil. O choro é uma linguagem entre tantas, é uma forma de comunicação, portanto, não podemos admitir que crianças chorem prolongadas horas e dias na escola sem que possamos acolhê-las e, isso lamentavelmente tem sido o som e a tônica, quase naturalizada, em muitas escolas da infância no início das atividades.

Defendo que o período de ambientamento deveria ser obrigatório. Estar no currículo, calendário escolar e no calendário de férias dos pais. Digo isso, porque é necessário que os pais e a escola reservem e dediquem tempo para este importante momento. Preparar inserções gradativas no novo ambiente, alternar tempo de presença dos pais, preparar o ambiente escolar com algumas referências da família, da cultura da criança, (fotografias, objetos pessaois), prever encontros entre pais e professores antecipadamente, terem momentos de diálogos sobre a criança, sobre o ambiente escolar, também auxiliará nesta transição que poderá ser menos dolorosa e, acima de tudo, mais humana e respeitosa com os pequenos, com suas famílias e com os professores.

O desconhecimento da importância do início ou retorno à escola pode ser então percebido quando nos perguntamos: quantas oportunidades os pais tem para falarem das suas angústias, do sentimento de culpa em deixar seu filho na escola? Quantas vezes a escola convidou os pais para entrarem na sala de aula? Quando compartilham suas experiências de paternidade com outros pais? O que a escola informa sobre seus professores? Como preparam a chegada das crianças e dos alunos?

A falta destes momentos de diálogo e conhecimento podem levantar alguns alertas:

- conhecer a escola apenas no momento da matricula e no primeiro dia de aula – gera insegurança e falta de informação para passar a criança;

- não conversar e não conhecer os futuros professores – gera ansiedade;

- fazer a inserção abrupta - não reservar tempo para esta transição, como por exemplo, tirar férias, organizar a agenda, para estar disponível – gera sentimento de abandono;

- chorar ao deixar a criança – passa a mensagem que o lugar não é bom;

- deixar a criança chorando na escola – gera sofrimento, pois ela deve ser amparada, ser acalentada;

- exagerar nas formas de despedida – sair, voltar, ficar escondido na escola “olhando de longe”- gera dúvidas e insegurança sobre o ambiente.

Entrar na sala, no espaço educativo é importante, principalmente para os bebês, mas a presença deve ser planejada bem como o papel que os pais irão desempenhar ao permanecerem na sala. A presença em sala deve progressivamente ser alternada e não pode gerar dependência da criança e sim apoio à sua capacidade de se relacionar com outros pares. É certo que ao tempo em que os pais e os professores vão familiarizando-se entre si, vão criando vínculos, a criança se beneficiará muito.

Qualquer pessoa quando entra pela primeira vez em um ambiente sente-se de certa forma insegura, desconfortável, precisa rapidamente buscar referências físicas e afetivas para permanecer naquele lugar. Com a escola e a criança não é diferente - ela representa para criança um novo e desconhecido contexto. Precisa construir laços e sentimento de pertencimento. Por isso a importância que damos a antecipação e planejamento deste momento, evitando experiências negativas que influenciarão na autonomia, confiança e aprendizagem da criança.

É necessário reconhecer e respeitar a individualidade de cada criança, pois cada um tem seu tempo de ambientamento, no entanto, há sinais e comportamentos que revelam se a criança não está ambientada: chora em demasia, não se alimenta, não explora os espaços, não se relaciona com outras crianças, fica apática por períodos muito prolongados. É preciso então investir neste tempo, os professores e os pais precisam registrar estes fatos e comportamentos, de forma tranquila corresponsabizar-se no apoio à criança, respeitar seus desejos, importar-se com seu choro, suas falas, seus desejos, valorizar os seus sentimentos bem como acreditar na sua competência para a ampliação do processo de socialização.

Precisamos refletir sobre o conceito de adaptar-se – significa aceitar uma estrutura já defina, moldar-se a ela – ligada a ideia de cabideiro. Já ambientar-se - significa fazer e sentir-se parte do contexto. O ambiente e as pessoas estão, neste conceito, implicados com o sujeito, por isso, são organizados para apoiar esta transição. A inserção de uma criança na escola, ou o retorno à escola, requer cautela e uma organização que leve em consideração tanto as crianças quanto as suas famílias, sem esquecer que cada sujeito experimenta os próprios apegos, limites e possibilidades.

O “cabideiro” deixemos para as velhas práticas educativas. A escola ideal precisa ser exercida hoje e um bom começo - fará toda diferença.

"A creche não é um cabideiro”- Tonucci
Escrito por Marisa Zanoni Fernandes, 01/02/2017 às 15h41 | marisazf@hotmail.com

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