Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Ana Paula Góis

Massinha: pode misturar as cores?

Perto dos dois anos de idade, minha filha ganhou massinhas de modelar... Uma caixinha, com 12 cores. Abri, brinquei, fiz alguns bichinhos e objetos, amassei, enrolei tudo novamente e entreguei as 'cobrinhas' à ela.... depois de uns minutos de brincadeira lá estavam elas, todas misturadas e com a mesma cor (a filha de uma amiga disse que é cor de cocô, eu acho que é cor de terra).

Um outro dia, arrumei outra caixinha de massinhas e entreguei à ela, mas desta vez com a advertência:

- Não misture as cores héin?

As cores ficaram puras (!?!) por um tempo até que foram misturadas outra vez.
Desde lá foram várias tentativas, e quando percebi que ela misturaria de qualquer forma, passei a entregar uma cor só... assim ela não misturava!
Dois anos se passaram e as massinhas continuaram fazendo parte do nosso dia a dia, e sendo fonte de várias observações.

Outro dia fomos a papelaria, e voltamos pra casa com mais uma caixinha cheia de cores. Ela abre a caixinha, tira o saquinho que vem lacrado e me entrega solicitando:

- Abre pra mim? Pode dar tudo que não vou misturar as cores tá?

Meus olhos encaram aquele pequeno ser outra vez e novos horizontes se abrem. Pra mim, pra ela e pro nosso relacionamento como seres individuais; e a resposta vem:

- Pode misturar se quiser, elas são suas!

Horas depois, ela recebe uma amiguinha em sua mesinha e logo alcançam a caixa de massinha. A amiga abre a caixa, tira uma cor pra ela mesma e uma cor pra minha filha... escolhe também mais duas cores e deixa sobre a mesa. Enquanto distribuía as 'cobrinhas', a amiga pontuou:

- Vamos brincar, mas não vamos misturar as cores! E a resposta:

- Pode misturar se quiser. São minhas!

Os olhares se cruzam brilhantes e incrédulos e a brincadeira segue livre e autônoma.

Várias indagações surgem a partir das massinhas: É muito difícil conseguir deixar a criança livre! Como é difícil para mim como adulta (!?!) respeitar a liberdade de criar conceitos e valores que cada individuo carrega consigo, principalmente quando este indivíduo é meu filho e/ou quando este conceito ou valor está impresso no meu registro como única verdade.

- Não arranque a flor! - Se quer comer a nata tem que comer o pão! - Não misture a massinha! - É assim que se brinca! - Deste jeito é mais legal!

E assim, nomeando, pontuando e direcionando tudo para o caminho que cremos ser o ideal, vamos perdendo a oportunidade de observar e aprender com nossos pequenos mestres!

Paz e observação!
Por uma humanidade fraterna!

Escrito por Ana Paula Góis, 29/07/2017 às 07h50 | conviteecia@hotmail.com

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