Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Caroline Cezar

Uma coisa de cada vez

Compartilho texto de Gabriel Salomão, professor e pesquisador que estará em Balneário Camboriú conosco para duas palestras no próximo fim de semana (no final do texto, tem link pro evento). Gabriel tem fala clara, simples e acessível para trazer a riqueza de olhar para a criança como um ser humano capaz e inteligente, uma descoberta incrível se aplicada na prática. Parece bobo, mas é necessário uma completa reestruturação de nossas crenças e paradigmas para que passemos a observar mais e interferir menos. Enquanto pensamos que estamos ajudando, impedimos a criança de se desenvolver plenamente e em liberdade, que é muito diferente da ausência de limites ou de deixá-la "se virar" em todas as situações. Ser adulto é um aprendizado, e o quanto antes descobrirmos isso, maiores nossas possibilidades, como gente, e como humanidade.

 

"A criança nos ensina muito. Montessori descobriu, pela observação da criança, que existe uma diferença fundamental no tipo de esforço mais comum na infância e o mais recorrente na maturidade. A criança trabalha para o desenvolvimento interior: ela faz o humano dentro de si, e para isso usa daquilo que existe no mundo. Já o adulto usa daquilo que tem dentro de si para trabalhar pelo desenvolvimento do mundo. Os dois trabalhos são nobilíssimos e fundamentais para a civilização. O da criança, entretanto, é base para tudo mais, e é o tipo de trabalho menos compreendido.

Nós temos dificuldade para entender que a criança precise colocar e tirar, e colocar de novo, por vezes sem conta, uma peça de roupa. Ou que precise subir e descer degraus por muitas vezes seguidas. Nitidamente, a criança não preza pela eficiência externa de seus esforços: não é possível que ela queira algo com o mundo, pois se quisesse cumpriria o trabalho de subir uma escada uma só vez, e não precisaria repetir o esforço cinco ou dez vezes seguidas. Acontece, portanto, que deve haver algo além daquilo que vemos acontecendo com a criança. Algo interior e invisível.

Somente considerando o trabalho interior e invisível é que podemos compreender as características dos esforços infantis. Uma das mais evidentes dessas características é a capacidade da criança de fazer apenas uma coisa de cada vez. Alguns de nós, adultos, nos orgulhamos de sermos multitarefas. O mito da capacidade humana para as multitarefas já caiu faz tempo, é inconsistente e já não tem apoio sério de nenhum lugar. Mas os navegadores com muitas abas e os celulares com muitos aplicativos nos convencem de que podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo. Duas? Quatro. Oito.

O problema é que não podemos. Pessoas que tentam ser multitarefa reduzem sua produtividade quase pela metade. A criança faz somente uma coisa de cada vez, e por isso entrega-se completamente ao que está fazendo. Podemos aprender com elas.

É tristemente comum observar famílias nas quais os adultos não têm tempo com as crianças, embora estejam em casa, e não estejam trabalhando. Sentam-se para conversar, jogar ou brincar com as crianças, mas o fazem com o celular ao alcance da mão. E ensinam à criança que ela não é tão importante assim. Que a qualquer distração dela, a qualquer demora, a qualquer risco de tédio, recorrerão à tela. Ao menor sinal de que deverão estar somente presentes com as crianças, sem fazer exatamente nada, escondem-se. É comum, tentador e recorrente.

Ficar presente com a criança pode ser monótono para o adulto, que vê pouco prazer na repetição. Pode ser bobo, porque os desafios dela são simples demais para nós. Pode ser angustiante, porque temos tanto para fazer. Pode ser aterrador, porque naqueles minutos temos de conviver de forma integral, profunda, e isso nos força também a enxergar algo de nós mesmos que faz tempo não víamos.

É dificílimo estar presente, fazer uma coisa só, entregar-se a cada minúscula tarefa com seu ser inteiro. Fernando Pessoa tem um poema belo sobre isso, que vale recordar:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. É bastante para pedir a alguém, não é? E, sim, é muito pedir a um adulto incapaz de foco que comece a focar justamente na presença integral para a criança. Isso é demais. Por isso, abaixo, o que sugerimos é um passo a passo para que aos poucos seja possível para você entregar “tudo quanto és” à criança pequena. Explicamos em cada ponto como isso faz parte da formação de um profissional montessoriano e como pode ser perfeitamente adotado por qualquer adulto que deseje viver melhor com crianças.

 

Dedique-se à atividade que seu corpo executa
Na formação do professor, aprendemos a medir cada gesto e a contar nossas palavras, para que nada desnecessário, excessivo ou exagerado transborde de nós, atrapalhando a criança. Isso nos conduz à atenção total à ação presente – é o que nos impede de derrubar materiais e chutar tapetes diariamente. Na sua vida, você pode começar esse treino enquanto lava louças, cozinha, caminha em um corredor do trabalho ou escova os dentes depois que todo mundo dormiu. Enquanto faz isso, não escute músicas, não assista a vídeos, não curta publicações. Respire, relaxe e perceba o que acontece, o que você faz, o que suas mãos fazem, o que seu corpo sente. Simplesmente note, sem se preocupar ou tentar mudar nada, perceba. Escolha uma ação para começar, e gradativamente aumente, até que todo o seu dia seja preenchido por essa forma de atenção.

Aprenda o silêncio
Uma das principais lições do método Montessori na escola é a Lição do Silêncio. Ocasião nobilíssima, a Lição do Silêncio só é possível em uma sala na qual a calma reine constante. Por sua vez, isso só é possível se houver um professor capaz do silêncio pacífico. Dê-se cinco, depois dez, e quem sabe um dia quinze, minutos diários para ficar em silêncio. Nesses minutos, que devem ser seus, não olhe o celular (deixei um cronômetro gentil contando o tempo, e não olhe para ele), e não faça nada. Sente-se, respire, e escute. Escute primeiro os sons da rua, depois os do seu corpo, e depois as emoções e os pensamentos. Da mesma maneira que você não controla os sons da rua, só deixa que venham e vão, faça isso com o que surge de você. Não prenda os pensamentos. Deixe que venham e vão.

Escute profundamente e fale para diminuir o sofrimento
Com frequência, Montessori se referia à sua pedagogia como uma forma de cura de feridas inconscientes da criança. O professor que desejasse curar, precisaria saber observar. Uma das formas mais compassivas de observação é ser capaz de ouvir profundamente. Ouvir profundamente é escutar sem precisar responder. Escutar para compreender, para conhecer o outro, e para enxergar o que existe de mais precioso no outro. O coração do sofrimento e do amor. Escutar em silêncio, escutar respirando, escutar presente. Escutar assim é um presente. E depois, quando for nossa vez de falar, há uma grande escolha que podemos fazer sempre, em toda situação da vida: podemos falar para aumentar ou para diminuir o sofrimento (nosso, do outro, da criança, do mundo). Montessori citava Dante quando pedia que contássemos todas as nossas palavras. Isso é difícil de fazer. Mas você pode pensar no que vai dizer. Intervalos menores que um segundo, depois de alguma prática, são suficientes para a construção de respostas mais positivas, mais cheias de compaixão e vida, menos cheias de muralhas e impedimentos, e mais preenchidas por esperança e fé na capacidade infinita da criança.

Montessori tem, sobretudo, uma grande vantagem: funciona. Porque é uma pedagogia científica, testada em todos os lugares do mundo, por mais de um século, hoje ela já foi refinada a um ponto elevadíssimo, e funciona. Repetidamente comprovada pela ciência, mas mais que isso, pelos sorrisos e pelo brilho nos olhos das crianças, Montessori nos oferece esperança de um mundo melhor. Fazer um mundo melhor não precisa ser fácil. Só precisa ser possível. Nós todos podemos nos esforçar profunda e constantemente se soubermos que um incrível objetivo pode ser alcançado, ainda que o caminho exija de nós a humildade de tentar de novo infinitas vezes, como só a criança sabe fazer.

Que sigamos a criança como a um líder. Que ela nos aponte uma resposta, e que nós possamos enxergar. Põe tudo quanto és no mínimo que fazes. Atenta ao teu corpo. Aprende o silêncio. Escuta profundamente. Fala com amor. Entrega tua presença aos menores entre nós, que eles se mostrarão os maiores sobre a Terra.


Para saber sobre os detalhes da vinda de Gabriel Salomão em BC, clique aqui.


 

Escrito por Caroline Cezar, 19/05/2017 às 08h08 | carol.jp3@gmail.com

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