Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Caroline Cezar

Anti-nada #princesas

Minha caçula ganhou um livro infantil sobre Frida Kahlo, com ilustrações charmosas pra contar de forma simples a história da artista mexicana. As páginas são cheias de balõezinhos e observações, e há uma coisa que soa incômoda: um selo na capa, "coleção antiprincesas" e um "tchau vou embora" para uma personagem vestida com saia de cinderela, saindo de cena na primeira página, para explicar o título da coleção.


Sempre que alguém chama a caçula Madu, desde os 2 anos, de princesa, ela responde que "não sou princesa, sou Madu". Na verdade ela costuma dizer isso pra qualquer adjetivo, apelido, ou coisa que queiram lhe chamar. Nunca ensinei isso. Nunca doutrinei resposta. Nunca disse, "você não pode ser princesa, porque princesa é um estereótipo da sociedade que atende a padrões machistas". Vez ou outra, ela responde que "não sou princesa, sou RAINHA", e isso também não ensinei.


Confesso que quando leio as histórias clássicas mudo umas frases, tiro os "para sempre" do foram-felizes, faço perguntas truqueiras. Essas histórias são sim, cheias de signos, dizem que temos que apertar o pé pra caber no sapato ideal, que a única coisa que nos acorda do sono profundo é um beijo de príncipe, que o feliz para sempre está incondicionalmente ligado a um homem e um casamento, que lugar de mulher é a cozinha etc etc. Sem drama, é só localizar o contexto histórico para entender o contexto cultural, não é difícil entender por que foram escritas dessa forma. Elas marcam uma época, "antigamente era assim, e até hoje em alguns lugares ainda é", pronto, ferramenta. Não é abominável, é fato. Não é uma prisão, é um retrato, algo pra se ver de fora, observar.


Podemos sempre trazer algo a mais, outras referências, outras histórias, outras conversas, nossa própria conduta enquanto humanos, tudo serve de elemento para que as próprias crianças, inteligentes que são, contextualizem e tirem as PRÓPRIAS conclusões. Concluir pelo outro não é ensinar liberdade. A "moral da história" que soa sempre tão bondosa e inofensiva, é ensinar a ser tendencioso e opinativo, a ter só uma visão, excludente, julgadora, limitada.


A gente se acostumou com a negação, com a restrição, com o que não pode, com apontar o erro, a falha, a falta. Para afirmar uma posição eu preciso negar a outra e isso não é avanço, é atraso, patinação, andar do mesmo jeito com outra roupa.


Se eu não quero ser princesa, preciso ser anti-princesa? Será que para ser uma coisa preciso ser ANTI-alguma coisa? Se eu sou ANTI, não estou excluindo o outro, diminuindo o outro, discriminando o outro, que está em processo, tem outras bagagens, outras referências, que VÊ COMO PODE? O vegetariano radical que faz cara feia para o prato alheio é um exemplo de respeito absoluto a todas as formas de vida? Um carnívoro não é uma forma de vida? Ahimsa, não-violência, inclui "o outro" e suas escolhas, sejam elas frutos de consciência ou da falta de. Amai ao próximo, disse Jesus, e ele certamente não estava se referindo ao "nosso time", ou "só os de camisa azul".


Ao invés de mandar a coitada da Cinderela, perdida que já está, sair de cena, porque não chama ela pra roda, mostrar como é bom ser livre e andar com as próprias pernas, dançar, criar e brincar com o que temos? Não podemos excluir nenhuma história, não devemos excluir o outro, em todo mundo reside a beleza. Olhemos para a consciência maior que nos permeia e nos une, indistintamente. Honremos o que nos fez e nos faz, tudo que nos rodeia, o que vemos e o que não vemos. E que possamos nos relacionar de sagrado para sagrado.

Escrito por Caroline Cezar, 29/11/2016 às 10h47 | carol.jp3@gmail.com

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