Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Caroline Cezar

"Comer é um gesto autônomo"

A frase da mulher ficou rodando na cabeça.
Depois que assimilei, tudo que entendia por "introdução alimentar" caiu por terra. Percebi que não era a protagonista, e aí foi possível deixar fluir.

O saber nos dá a volta, acreditamos que se nos informamos direitinho tudo vai funcionar. A teoria é perfeita, tudo encaixa, é possível planejar os mínimos detalhes e ainda se achar o bom da boca. "Eu sei o que é melhor pra meu filho, eu sei quando ele deve comer, e quando deve começar, e ele vai fazer de tal jeito -complete com alguma sigla da moda-. Isso é fofo, muito americano, mas na prática não funciona.

O saber é importante para dar uma direção, provocar reflexões, mas cada caminho é individual.

Já tinha filho faz tempo. E achava que tinha sido bem livre toda essa construção. Mas sempre temos a desconstruir.

A caçula começou pelas bananas. Na verdade, a casca das bananas. Quando vi, ela estava com uma na mão, roendo de ponta cabeça. Logo pensei: "livre, mas nem tanto, isso pode fazer mal". Esse "livre mas nem tanto" me acompanha e volta e meia aparece.

Resolvi deixar pra ver no que dava. Ela comeu um tanto daquela casca. Fiquei olhando, de longe e consegui ver outra coisa. Parecia que ela ia experimentando com uma sabedoria ancestral, instintiva, meio bicho, muito filhote, e ao mesmo tempo cuidadosa, curiosa, sem nenhuma pressa ou ausência. Ela realmente experimentava com todo corpo, todos os sentidos conectados. Momento presente, momento maravilhoso. Não tive coragem de interromper.

Foram muitas cascas de banana. Sem veneno, banana do quintal, ficava só vendo até onde ia. Percebi que era muito mais fácil para um bebê segurar banana com casca, e assim ia, um pouco de casca, um pouco de fruta. Opa, casca também é fruta! Só essas conclusões rebuscadas, o auge do simples (risos).

Pesquisei receitas com casca de banana. Propriedades da casca da banana. Utilidades da casca da banana. Descobri maravilhas. A partir da iniciativa de um bebê de uns cinco meses que foi deixado livre, mas tanto. Livre tanto, porque livre-nem-tanto é pouco. Somos possibilidades.
Dali pra frente começou a brincadeira.

A partir dela, e de suas iniciativas, eu pesquisava em mim o que tinha de inexplorado, ou o que estava parado numa gaveta. Eu tinha medo. Eu desconfiava da sabedoria dela. Eu achava que estava sendo irresponsável às vezes. Eu sabia pouco sobre bananas. Eu ficava na dúvida. Colecionava condicionamentos, de todas as formas, conteúdos, larguras e profundidades.

Mas na experiência isso rapidamente desaparecia.

Toda vez que ela propunha, a partir da própria ação, algo inesperado, novo, inédito, eu tentava segurar minha reação e observar. Sem cara. Sem boca. Sem julgamento. Sem "aaaah, você está comendo", ou "aaaah, você comeu com casca". Sem "cuidado, você vai morrer engasgada". Confiança plena.

Fazia tanto tempo que eu não era livre tanto. E já ia treinando outra.

Começamos a olhar para a experiência da família à mesa. Quando surgia um impulso de "isso não pode", refletíamos sobre bebê ser gente, ser integrante, e como seria desagradável alguém chegar em casa e receber um "não é pra você". O que não era saudável pra um não era pro outro, como isso podia melhorar? Olhamos para nossas opções e nossa integralidade. Pra como essa prática ia se alargando pra casa da vó, pras tias, pra cesta de Páscoa da bisa que vinha com ovos de codorna. Pra pequenos cotidianos que faziam todo mundo pensar junto, amar junto, olhar para as atitudes individuais e coletivas. Açúcar é pior ou melhor que discussão à mesa? Restrição é mais traumático que bala de goma? Vamos de abundância ou vamos de escassez? Engatinhando íamos encontrando nosso centro, experimentando sensações muito novas.

Mesmo com toda oferta e apetite da família, mesas postas, almoços longos, o bebê só queria experimentar e brincar com a comida. "Mas que coisa, hora de comer não é hora de brincar!" Uai! Por acaso tem hora de brincar? E por acaso, comer exige seriedade? Não podemos estar descontraídos e relaxados? Não pode rir, fazer piada? Mas distrair pra encher a pança, vale?

E a fase durou um ano, leite do peito como base, experimentações de todo tipo com comida. O dia todo. Chão sujo. Brincadeira, investigação, reflexão. Cansaço. Em momentos de crise aparecia o livre-nem-tanto xingando a mãe e dizendo que essa criança vai ficar desnutrida, irresponsável, tá brincando com coisa séria. Mas clareava o dia e vinha a disposição, a alegria de viver, a energia evidente das novidades. Saúde é mais que ausência de doença e sim, dá pra medir gente pelo tanto de alegria. Deixa outros gráficos e pesos e medidas pra lá.

Naturalmente o interesse pelo prato foi aumentando, e nossa segurança em relação a isso ficando mais inteira, e de boa, todo mundo come. Se está doente e precisa ficar três dias sem comer, respeita-se. Se o corpo acha que precisa direcionar essa energia pra outra coisa, assim é. Se está zangado e não tem vontade de abrir a boca, jejua. Comer é um ato voluntário. Comer é prazeroso. Comer é sábio. Comer livre-tanto, agir livre-tanto, é revolucionário, e ser revolucionário não é levantar bandeira, é só o ato de confiar em si mesmo. A verdadeira conexão.


* A mulher autora dessa frase é Fabiolla Duarte, que ministra o Colher de Pau aqui em BC nos dias 1 e 2 de julho, a convite de Amaroelo. As provocações dela foram fundamentais nessa construção de liberdade! É uma alegria que ela esteja aqui. Recomendamos! 

Escrito por Caroline Cezar, 29/06/2016 às 10h05 | carol.jp3@gmail.com

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"Quem pariu Mateus que embale"... Será?

A humanidade caminha junta e evolui junta. Porém para que a vida evolua, para que continuemos crescendo como seres humanos e como animais, é necessário que a espécie evolua. E, para que a espécie evolua, o conhecimento é transferido de geração para geração sem que nós possamos interferir nisso. Quer seja da nossa vontade ou não, cada bebê que nasce já nasce com o conhecimento de uma humanidade inteira e, a partir deste conhecimento adquirido vai desenvolver novos conhecimentos e sendo assim, se tudo correr bem, será mais 'esperto' que seus pais.

Precisamos parar de olhar para nossos filhos como bebês ou crianças ou adolescentes. Precisamos olhar para nossos filhos como a nossa evolução. Como sementes de versões mais evoluídas de nós mesmos. Não estou falando do meu olhar para o meu filho e sim do meu olhar para todos os filhos. Uma vez que somos humanidade, que formamos um grupo, não existe meu filho ou teu filho, existem nossos filhos. A humanidade caminha junto e é obrigação de cada um de nós, pais ou não, olhar para cada criança como uma semente transformadora dotada da melhor seleção genética que a natureza pode fazer.

Assim, confiando na capacidade da raça humana, e nos entendendo e aceitando como um grupo, cuidaremos de cada filho, de cada criança de maneira excepcional. Não é o filho dela que ela carrega nos braços. Não é pelo filho dela que ela trabalha tanto. Não é pelo filho dela que ela parou de trabalhar fora. Não é pro filho dela que ela oferece doces no lugar de histórias. Não é o filho dela que está sendo espancado ou que está espancando, é o nosso filho!

Pequenos gestos como oferecer uma carona para uma mãe que ainda vai longe, respeitar a individualidade de cada criança, contar boas histórias, conversar, dar bons exemplos, oferecer companhia, dar uma ajuda financeira, conhecer uma escola, são gestos que ajudarão a formar uma sociedade mais justa, mais humana e mais amorosa.

Você faz o que pode pelo seu filho? Você se esforça para que não lhe falte nada? Você o protege do frio, do calor e da fome? Faça também pelo filho do vizinho! E se você não tem filhos, faça pelo meu. Cada um de nós, pais, mães, amigos, conhecidos e desconhecidos é responsável por cada criança. Assim como reciclamos nosso lixo, plantamos uma árvore, usamos nossa bicicleta, tudo pelo nosso planeta, cuidemos também das nossas crianças.

Porque não é sobre os meus filhos, é sobre os nossos filhos, os filhos da humanidade!

Por uma humanidade mais fraterna!
Paz e Bem.

Escrito por Ana Paula Góis, 14/06/2016 às 09h27 | conviteecia@hotmail.com

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Humanizar não é pouca coisa e vai muito além da sala de parto!

Para mudar o mundo precisamos:

Empoderarmo-nos de amor ao próximo;
Respeitar os nascimentos;
Mais gestações conscientes e menos por acidente;
Libertarmo-nos do patriarcado;
Mais ocitocina natural;
Conectarmo-nos a nós mesmos;
Compreender que o que realmente necessita um bebê não se compra;
Percebermo-nos mamíferos;
Amar a nós mesmos;
Criar com apego;
Paternar;
Cuidar de nossos filhos;
Restaurar o paradigma original;
Ver em cada criança o mundo inteiro que necessita ser amado;
Re-evolucionar;
Nutrir os lares;
Ressuscitar a mãe que matou o patriarcado;
Libertar os filhos das próprias sombras;
Fortalecer a paz desde o útero;
Informar-se e educar-se para escolher com liberdade;
Por a vida no centro;
Gestar;
Parir!

tradução livre. autor desconhecido.

Escrito por Ana Paula Góis, 06/06/2016 às 10h30 | conviteecia@hotmail.com

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Mães imperfeitas

Todas essas homenagens. E fotos, e declarações. Bonito, efêmero, parcial.

A minha filha do meio me trouxe um cartão cheio de elogios, agradeci cada um do fundo do meu coração. Depois de algum silêncio, pedi a ela o bônus:

- Aqui tem muitas qualidades héin? E dos meus defeitos, qual você destaca?
- Hmmm, um só?
- Sim, qual o seu 'preferido', o top da lista?
- Hmmm, acho que essa mania de descontar nos outros quando alguma coisa te irrita?
- Sim, esse aparece bem, merece o destaque. Mais um, vai.
- Quando você acorda virada querendo fazer tudo ao mesmo tempo e quer que eu faça também.
- Pode ser, nem vou argumentar. Mais um?
- Acho que tá bom.

Agradeci. Rimos.


Ilustração Inês d'Espiney
 

Um grande avanço na vida de qualquer pessoa é conseguir rir das falhas e limitações. Isso nos torna tão mais humanos e reais, tão mais liberados pra vida! Sempre tive uma postura exigente comigo e ao meu redor, e não sei de verdade se isso mais ajudou ou atrapalhou, mas vejo que qualquer passado-presente-futuro fica muito mais leve quando deixamos de lado todo esse orgulho e perfeccionismo pra relaxar um pouco nos papéis.

E tem uma pegadinha danada implícita nessa troca: nós pensamos que relaxar é perder o controle, ficar desatento, dormir no ponto; e é bem ao contrário: o relaxamento nos põe mais confortáveis, mais observadores que condutores, mais no fluxo: atenção não é tensão, atenção é presença, unidade, e na unidade estão o que chamamos de qualidades e o que chamamos de defeitos, os momentos que consideramos lindos e os outros que tentamos evitar, o que achamos que acertamos e aquelas atitudes que nos fazem sentir péssimas, "lá vou ter que começar todo meu programa de zen budista do zero, não consegui mais uma vez".

Olhar pras situações e pras nossas tendências e características como elas se apresentam faz enxergar, muda padrões, ilumina, transforma, liberta. Faz ficar engraçado e a gente pode rir, mesmo que de início pareça tudo muito feio, triste e desolador. Eu recomendo a todas as mães aceitarem suas lindas homenagens mas que isso nunca se torne um peso a carregar, uma imagem a manter: sejam imperfeitas. Fiquem de saco cheio. Gritem, se precisarem, corram pra dentro do mar, do mato, do escuro. Saiam de si pra reecontrarem-se. Fiquem à vontade nos seus papéis, isso não vai fazer de vocês uma deusa romântica da maternidade, mas quem quer viver uma mentira? Meio humana, meio deusa, e há beleza no caos, há beleza nas sombras, há beleza verdadeira em se expor aos ventos, e ao que a vida nos apresenta.

Escrito por Caroline Cezar, 09/05/2016 às 08h46 | carol.jp3@gmail.com

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Licença! #maispresença

Ultimamente escutamos e discutimos politicamente a questão das licenças maternidade e paternidade, que no Brasil são irrisórias em termos de reais necessidades. Os países desenvolvidos há muito descobriram que pais presentes nos primeiros dois anos de vida de uma criança reduzem drasticamente índices de criminalidade e violência.

Em paralelo à luta de alguns representantes para aumentar esse tempo, podemos nos auto conscientizar que não existe folga nessa tarefa, o que existe é se deparar o tempo todo com nossas faltas e falhas, com nossas crenças, com nossos medos e o que tá lá, bem escondido debaixo do tapete. O cansaço faz parte, e reclamar do cansaço faz perder mais energia. Portanto, na real na real, não existe licença, e mesmo que você receba uns dias pra ficar em casa, o trabalho com a criança é infinitamente maior. Uma construção diária, cotidiana, que vai garantir bases sólidas ou pilares de areia na formação de um novo ser. Nem pai nem mãe, ninguém está de férias, estamos sendo exigidos ao máximo; é quando colocamos em prática o verdadeiro sentido da palavra doação.

Muito importante a fala do pediatra no vídeo, sobre a questão de quem trabalhar fora se sentir "isento" das funções domésticas. E se você vê isso acontecer em casa, não é pra ter briga, é pra ter consciência. Se seu companheiro/ companheira não percebeu, talvez não seja por mal, mas porque estamos inseridos numa sociedade que há anos trata isso como coisa normal. Vamos passo a passo, encontrando o caminho do meio.

 Por uma humanidade mais fraterna!

 

Escrito por Caroline Cezar, 28/04/2016 às 08h42 | carol.jp3@gmail.com

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Eu não dou conta!

Quando uma mãe me pergunta como foi meu dia, como é meu dia a dia, e como eu faço para me organizar a pergunta recorrente é:

- Como você dá conta?

A responta recorrente é: Eu não dou!

Neste mudo de redes sociais, vemos muita foto de crianças bem alimentadas, brincando ao ar livre... tem muita narração de como foi bom ir ao teatro e de como aquela criança é abençoada por estas mães e pais companheiros e perfeitos. Aquela alimentação natural, aquele brinquedo educativo, aquele dia feliz.

Ninguém posta foto daquela lasanha congelada, do banheiro por limpar, da roupa mofando na lavanderia. Daquele momento que a criança deu um chilique no mercado, quando bateu no amiguinho...ninguém posta a linda frase que seu filho disse naquela hora de raiva:

- Mamãe, você é feia!

A verdade é que a maternidade não tem glamour! Até quando ela tem - numa festa de formatura por exemplo - pode ter vindo de dias e dias discutindo sobre roupas e convidados.

A maternidade nos leva a entrar em contato com nossos instintos mais animais. Nos provoca vários partos e vários nascimentos ao longo da caminhada.

Para conseguirmos levar esta caminhada sem culpa é preciso esperar menos. Esperar menos de nós e de nossos filhos! Conseguir relaxar no caos é grande qualidade para uma mãe. Confiar e entregar. Não se julgue e nem se compare, seja apenas o melhor que você consegue ser. Seu filho é único e cada mãe é única também. Conseguir administrar as mudanças que uma criança gera em nossas vidas não é tarefa fácil e não tem prazo para ser cumprida, mesmo porque, primeiro é um bebê, depois uma criança, e logo um adolescente e as dúvidas e incertezas de saber se estamos fazendo a coisa certa nunca desaparece. O binômio mãe e filho/ pai e filho vai precisar enfrentar muitas dificuldades que sempre surgirão e a cada passo que dão, uma mudança interna acontece e temos novos desafios.

Aproveitar cada fase de nossas crias sem culpas ou cobranças. Olhar para a situação como mera expectadora, perceber como nos comportamos, do que mais gostamos. Nosso mundo está cheio de convenções e cabe a nós sermos ou não escravos delas. Seja mais leve com sua casa, seja mais leve com sua família, seja mais leve com você. Olhe para cada dia como o último dia, com mais relaxamento e mais entrega. Liberte-se da obrigação -casa arrumada, bebê dormindo/ adolescente estudando, mamãe sorrindo. Nosso tempo é comprido, temos todo o tempo do mundo para as coisas se ajeitarem. Logo nosso bebê vai estar comendo sozinho, nossa criança vai estar indo pra escola sozinha, nosso adolescente vai estar querendo dormir um pouco mais e fazer qualquer coisa que for mandado um pouco menos.

Menos cobrança para menos distanciamento. Liberdade para ser quem se é, ou como eu prefiro dizer, para ser quem se está. Não julgue, não espere e não rotule, nem você, nem sua cria. Estamos em constante mudança e você é o exemplo que seu filho tem. Se não for hoje, amanhã com certeza sua cria estará imitando suas atitudes e olhar para a sua vida com amor é um grande exemplo a ser seguido pelos seus filhos.

Por uma humanidade mais fraterna.
Paz e Bem.

Escrito por Ana Paula Góis, 09/04/2016 às 08h17 | conviteecia@hotmail.com

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