Jornal Página 3
Coluna
Mãe na Roda
Por Caroline Cezar

Um bom pai

O pai perfeito é o que a gente recebe.
Um bom pai é o que vive seus processos.

Como seres culturais temos tendência a classificar:
Esse é bom, esse é ruim, aquele não visita, esse está sempre junto; aquele só trabalha, faz isso, faz aquilo aquele outro.

Estamos sempre separando em caixas de 'presta' e 'não presta', e distribuindo nossas conclusões como flechas certeiras, que vão formando os futuros arqueiros. Eles estão vendo, ouvindo, sentindo e aprendendo a classificar também.

A amiga me disse uma vez, quando o filho era pequeno:

 - Ele acha que tem o melhor pai do mundo. Não sou que vou dizer outra coisa. Se um dia essa ideia mudar, não serei eu a responsável. 

Ela tinha dezenas de coisas a reclamar. Visitas marcadas e não comparecidas. Ausências. Histórias e mais histórias, confusões no relacionamento homem e mulher, dificuldades na jornada, muitas vezes solitária do cuidar. Difícil quem está do outro lado não sentir o desamparo, e não passar isso pra frente, afinal, um filho é feito de um pai e uma mãe. Que antes disso são pessoas. Falíveis. Errantes. Com maiores ou menores dificuldades. Em diferentes processos. Não sou eu que posso dizer: "SEJA UM PAI ASSIM". A gente pode fingir que é alguma coisa por algum tempo, mas não por todo tempo. A verdade está sempre acompanhando a ideia de ideal, e daí nascem os conflitos. 

O pai perfeito é o que a gente recebe, e perfeição é confiar nessa história, seja lá como ela se desenrole.
Às vezes o pai nasce num momento inesperado.
Às vezes ele precisa viver algumas histórias para construir-se.
Às vezes ele precisa se encontrar como gente, como ser individual, lidar com suas questões.
E isso é totalmente singular.
O que acontece é que existe essa correria para entrar no padrão de bom pai da cultura da vez - há pouco tempo era não se envolver e só chegar para a palmada; agora é trocar fraldas e brigar por banheiros mistos nos shoppings-, tudo bem. Mas isso é completamente superficial. Se encaixar no papel não significa profundidade. É quase sempre uma visão romântica dizendo pro outro o que ele "não é" e como ele "devia ser". Lembre-se disso quando disserem que você "pode ser boa mãe".

O "bom pai" dificilmente aparecerá para o outro.
O que aparece para o outro fala dele mesmo, da sua ideia de bom pai. Crença.

Isso serve para qualquer papel.
A pergunta é: o que está além dos papéis?

Como eu vou além de tudo o que o papel sugere como "ideal" e enxergo verdadeiramente aquela outra pessoa, alma, ser, que está ali fazendo parte de minha história, seja vivendo junto, ausente, ou fazendo o que precisa fazer?

Honrar os processos.

Saudações, a quem tem coragem!

E a quem não tem, também!

 

Escrito por Caroline Cezar, 13/08/2017 às 08h49 | carol.jp3@gmail.com

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Massinha: pode misturar as cores?

Perto dos dois anos de idade, minha filha ganhou massinhas de modelar... Uma caixinha, com 12 cores. Abri, brinquei, fiz alguns bichinhos e objetos, amassei, enrolei tudo novamente e entreguei as 'cobrinhas' à ela.... depois de uns minutos de brincadeira lá estavam elas, todas misturadas e com a mesma cor (a filha de uma amiga disse que é cor de cocô, eu acho que é cor de terra).

Um outro dia, arrumei outra caixinha de massinhas e entreguei à ela, mas desta vez com a advertência:

- Não misture as cores héin?

As cores ficaram puras (!?!) por um tempo até que foram misturadas outra vez.
Desde lá foram várias tentativas, e quando percebi que ela misturaria de qualquer forma, passei a entregar uma cor só... assim ela não misturava!
Dois anos se passaram e as massinhas continuaram fazendo parte do nosso dia a dia, e sendo fonte de várias observações.

Outro dia fomos a papelaria, e voltamos pra casa com mais uma caixinha cheia de cores. Ela abre a caixinha, tira o saquinho que vem lacrado e me entrega solicitando:

- Abre pra mim? Pode dar tudo que não vou misturar as cores tá?

Meus olhos encaram aquele pequeno ser outra vez e novos horizontes se abrem. Pra mim, pra ela e pro nosso relacionamento como seres individuais; e a resposta vem:

- Pode misturar se quiser, elas são suas!

Horas depois, ela recebe uma amiguinha em sua mesinha e logo alcançam a caixa de massinha. A amiga abre a caixa, tira uma cor pra ela mesma e uma cor pra minha filha... escolhe também mais duas cores e deixa sobre a mesa. Enquanto distribuía as 'cobrinhas', a amiga pontuou:

- Vamos brincar, mas não vamos misturar as cores! E a resposta:

- Pode misturar se quiser. São minhas!

Os olhares se cruzam brilhantes e incrédulos e a brincadeira segue livre e autônoma.

Várias indagações surgem a partir das massinhas: É muito difícil conseguir deixar a criança livre! Como é difícil para mim como adulta (!?!) respeitar a liberdade de criar conceitos e valores que cada individuo carrega consigo, principalmente quando este indivíduo é meu filho e/ou quando este conceito ou valor está impresso no meu registro como única verdade.

- Não arranque a flor! - Se quer comer a nata tem que comer o pão! - Não misture a massinha! - É assim que se brinca! - Deste jeito é mais legal!

E assim, nomeando, pontuando e direcionando tudo para o caminho que cremos ser o ideal, vamos perdendo a oportunidade de observar e aprender com nossos pequenos mestres!

Paz e observação!
Por uma humanidade fraterna!

Escrito por Ana Paula Góis, 29/07/2017 às 07h50 | conviteecia@hotmail.com

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Dica prática - Desautomatizar respostas

Dica prática - Desautomatizar respostas - Quando deixamos para agir no momento crítico -em frente a uma criança chorando ou numa crise- dificilmente controlaremos nossas reações automáticas. A dica é treinar, sempre: escolher uma ação do dia, que seja repetida algumas vezes, por exemplo, tomar água, e a preceder por uma ou duas respirações conscientes. Depois ir aumentando o número de respirações para 3 ou 4 e escolhendo mais "quebras do dia": antes da água, antes de escovar os dentes, antes de responder o celular. Isso é um treino para desautomatizar as respostas, e na hora necessária, pode ficar mais fácil acessar esse lugar de pausa antes da ação.
Por que respirar? Porque qualquer coisa é menos fácil que respirar. Por que um copo d'água? É mais fácil treinar frente a um copo d'água que a uma criança chorando.

Gabriel Salomão, na palestra princípios Montessorianos em Casa, em Balneário Camboriú.

 

Escrito por Caroline Cezar, 29/05/2017 às 07h37 | carol.jp3@gmail.com

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Uma coisa de cada vez

Compartilho texto de Gabriel Salomão, professor e pesquisador que estará em Balneário Camboriú conosco para duas palestras no próximo fim de semana (no final do texto, tem link pro evento). Gabriel tem fala clara, simples e acessível para trazer a riqueza de olhar para a criança como um ser humano capaz e inteligente, uma descoberta incrível se aplicada na prática. Parece bobo, mas é necessário uma completa reestruturação de nossas crenças e paradigmas para que passemos a observar mais e interferir menos. Enquanto pensamos que estamos ajudando, impedimos a criança de se desenvolver plenamente e em liberdade, que é muito diferente da ausência de limites ou de deixá-la "se virar" em todas as situações. Ser adulto é um aprendizado, e o quanto antes descobrirmos isso, maiores nossas possibilidades, como gente, e como humanidade.

 

"A criança nos ensina muito. Montessori descobriu, pela observação da criança, que existe uma diferença fundamental no tipo de esforço mais comum na infância e o mais recorrente na maturidade. A criança trabalha para o desenvolvimento interior: ela faz o humano dentro de si, e para isso usa daquilo que existe no mundo. Já o adulto usa daquilo que tem dentro de si para trabalhar pelo desenvolvimento do mundo. Os dois trabalhos são nobilíssimos e fundamentais para a civilização. O da criança, entretanto, é base para tudo mais, e é o tipo de trabalho menos compreendido.

Nós temos dificuldade para entender que a criança precise colocar e tirar, e colocar de novo, por vezes sem conta, uma peça de roupa. Ou que precise subir e descer degraus por muitas vezes seguidas. Nitidamente, a criança não preza pela eficiência externa de seus esforços: não é possível que ela queira algo com o mundo, pois se quisesse cumpriria o trabalho de subir uma escada uma só vez, e não precisaria repetir o esforço cinco ou dez vezes seguidas. Acontece, portanto, que deve haver algo além daquilo que vemos acontecendo com a criança. Algo interior e invisível.

Somente considerando o trabalho interior e invisível é que podemos compreender as características dos esforços infantis. Uma das mais evidentes dessas características é a capacidade da criança de fazer apenas uma coisa de cada vez. Alguns de nós, adultos, nos orgulhamos de sermos multitarefas. O mito da capacidade humana para as multitarefas já caiu faz tempo, é inconsistente e já não tem apoio sério de nenhum lugar. Mas os navegadores com muitas abas e os celulares com muitos aplicativos nos convencem de que podemos fazer duas coisas ao mesmo tempo. Duas? Quatro. Oito.

O problema é que não podemos. Pessoas que tentam ser multitarefa reduzem sua produtividade quase pela metade. A criança faz somente uma coisa de cada vez, e por isso entrega-se completamente ao que está fazendo. Podemos aprender com elas.

É tristemente comum observar famílias nas quais os adultos não têm tempo com as crianças, embora estejam em casa, e não estejam trabalhando. Sentam-se para conversar, jogar ou brincar com as crianças, mas o fazem com o celular ao alcance da mão. E ensinam à criança que ela não é tão importante assim. Que a qualquer distração dela, a qualquer demora, a qualquer risco de tédio, recorrerão à tela. Ao menor sinal de que deverão estar somente presentes com as crianças, sem fazer exatamente nada, escondem-se. É comum, tentador e recorrente.

Ficar presente com a criança pode ser monótono para o adulto, que vê pouco prazer na repetição. Pode ser bobo, porque os desafios dela são simples demais para nós. Pode ser angustiante, porque temos tanto para fazer. Pode ser aterrador, porque naqueles minutos temos de conviver de forma integral, profunda, e isso nos força também a enxergar algo de nós mesmos que faz tempo não víamos.

É dificílimo estar presente, fazer uma coisa só, entregar-se a cada minúscula tarefa com seu ser inteiro. Fernando Pessoa tem um poema belo sobre isso, que vale recordar:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. É bastante para pedir a alguém, não é? E, sim, é muito pedir a um adulto incapaz de foco que comece a focar justamente na presença integral para a criança. Isso é demais. Por isso, abaixo, o que sugerimos é um passo a passo para que aos poucos seja possível para você entregar “tudo quanto és” à criança pequena. Explicamos em cada ponto como isso faz parte da formação de um profissional montessoriano e como pode ser perfeitamente adotado por qualquer adulto que deseje viver melhor com crianças.

 

Dedique-se à atividade que seu corpo executa
Na formação do professor, aprendemos a medir cada gesto e a contar nossas palavras, para que nada desnecessário, excessivo ou exagerado transborde de nós, atrapalhando a criança. Isso nos conduz à atenção total à ação presente – é o que nos impede de derrubar materiais e chutar tapetes diariamente. Na sua vida, você pode começar esse treino enquanto lava louças, cozinha, caminha em um corredor do trabalho ou escova os dentes depois que todo mundo dormiu. Enquanto faz isso, não escute músicas, não assista a vídeos, não curta publicações. Respire, relaxe e perceba o que acontece, o que você faz, o que suas mãos fazem, o que seu corpo sente. Simplesmente note, sem se preocupar ou tentar mudar nada, perceba. Escolha uma ação para começar, e gradativamente aumente, até que todo o seu dia seja preenchido por essa forma de atenção.

Aprenda o silêncio
Uma das principais lições do método Montessori na escola é a Lição do Silêncio. Ocasião nobilíssima, a Lição do Silêncio só é possível em uma sala na qual a calma reine constante. Por sua vez, isso só é possível se houver um professor capaz do silêncio pacífico. Dê-se cinco, depois dez, e quem sabe um dia quinze, minutos diários para ficar em silêncio. Nesses minutos, que devem ser seus, não olhe o celular (deixei um cronômetro gentil contando o tempo, e não olhe para ele), e não faça nada. Sente-se, respire, e escute. Escute primeiro os sons da rua, depois os do seu corpo, e depois as emoções e os pensamentos. Da mesma maneira que você não controla os sons da rua, só deixa que venham e vão, faça isso com o que surge de você. Não prenda os pensamentos. Deixe que venham e vão.

Escute profundamente e fale para diminuir o sofrimento
Com frequência, Montessori se referia à sua pedagogia como uma forma de cura de feridas inconscientes da criança. O professor que desejasse curar, precisaria saber observar. Uma das formas mais compassivas de observação é ser capaz de ouvir profundamente. Ouvir profundamente é escutar sem precisar responder. Escutar para compreender, para conhecer o outro, e para enxergar o que existe de mais precioso no outro. O coração do sofrimento e do amor. Escutar em silêncio, escutar respirando, escutar presente. Escutar assim é um presente. E depois, quando for nossa vez de falar, há uma grande escolha que podemos fazer sempre, em toda situação da vida: podemos falar para aumentar ou para diminuir o sofrimento (nosso, do outro, da criança, do mundo). Montessori citava Dante quando pedia que contássemos todas as nossas palavras. Isso é difícil de fazer. Mas você pode pensar no que vai dizer. Intervalos menores que um segundo, depois de alguma prática, são suficientes para a construção de respostas mais positivas, mais cheias de compaixão e vida, menos cheias de muralhas e impedimentos, e mais preenchidas por esperança e fé na capacidade infinita da criança.

Montessori tem, sobretudo, uma grande vantagem: funciona. Porque é uma pedagogia científica, testada em todos os lugares do mundo, por mais de um século, hoje ela já foi refinada a um ponto elevadíssimo, e funciona. Repetidamente comprovada pela ciência, mas mais que isso, pelos sorrisos e pelo brilho nos olhos das crianças, Montessori nos oferece esperança de um mundo melhor. Fazer um mundo melhor não precisa ser fácil. Só precisa ser possível. Nós todos podemos nos esforçar profunda e constantemente se soubermos que um incrível objetivo pode ser alcançado, ainda que o caminho exija de nós a humildade de tentar de novo infinitas vezes, como só a criança sabe fazer.

Que sigamos a criança como a um líder. Que ela nos aponte uma resposta, e que nós possamos enxergar. Põe tudo quanto és no mínimo que fazes. Atenta ao teu corpo. Aprende o silêncio. Escuta profundamente. Fala com amor. Entrega tua presença aos menores entre nós, que eles se mostrarão os maiores sobre a Terra.


Para saber sobre os detalhes da vinda de Gabriel Salomão em BC, clique aqui.


 

Escrito por Caroline Cezar, 19/05/2017 às 08h08 | carol.jp3@gmail.com

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Dia das mães na escola

Vi muita gente reclamando que algumas escolas não fizeram apresentação do dia das mães para não segregar os que não tem mãe ou por qualquer outro motivo. Sofri mais nas apresentações dos meus filhos pelos filhos que tem mães e pais ausentes, do que sofri pelos órfãos.

Não sou fã dessas apresentações e fica fácil pra mim aprovar que elas não existam. As crianças deviam apresentar o que realmente aprenderam e querem mostrar e não músicas escolhidas e ensaiadas a duro custo pel@s profes que já não tem tempo suficiente para passar conteúdo ou simplesmente ter um tempo livre com os pequenos.

Já vi crianças apresentando músicas que não sabem o que dizem, que não conhecem o cantor ou autor e nem mesmo entendem o que estão falando. Já vi apresentações musicais em escolas que sequer tem aula de música ou dança. Aprendem a ler, a escrever, a repetir e apresentam uma música. Não sei você, mas eu chamo isso de hipocrisia.

Meu filho mais velho estudou numa escola muito querida e transformadora de nossa cidade. Lá no quintal (a escola chama Quintal Mágico, mas os familiares chamam carinhosamente de 'quintal') não tinha apresentação dos pais e nem das mães, e acho que as mães que precisam de 'apresentações' para se sentirem homenageadas deviam por seus filhos a estudarem em escolas que proporcionam isso. Lá na semana do dia das mães e/ou dos pais eles ofereciam oficinas que eram realmente dedicadas a somar alguma coisa na vida da família. Fiz lá, por exemplo, uma oficina de canto no dia das mães e uma de pipa no dia dos pais (já que o pai do meu filho não tinha tempo ou vontade pra isso)... não teve constrangimento para ninguém e ninguém se sentiu 'desvalorizado' por falta de uma apresentação.

Lá no Quintal, tinha a festa da família, que acontecia em uma data qualquer, onde tinham algumas apresentações sim, mas ficávamos por lá, em família, nos conhecendo, tomando um chimarrão com outros pais, fortalecendo o vínculo familiar.

Vi também homens reclamando que as mães não foram homenageadas e a solução para este problema é mais simples do que parece: escolha uma música, faça uma coreografia, ensaie com seus filhos e apresente para a mamãe!

Tem muita coisa que acontece nas casas, nas famílias, nas escolas que são tidas como normais. Pra quem acha que normal é bom, tudo bem... eu prefiro o natural ao normal... sempre que me deparo com uma regra, um paradigma ou algo que norteia nosso caminho prefiro perguntar se é "natural" e não se "normal" porque o normal é cultural e nem sempre é a melhor escolha.

Deixo aqui nesse link um texto que peguei numa rápida busca no Google sobre ser normal e normose. Leia, reflita e se livre das amarras da escola, das repetições e normatizações, porque bem melhor do que o normal é o natural.

Escrito por Ana Paula Góis, 15/05/2017 às 14h28 | conviteecia@hotmail.com

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É só amor!

Um terrível capricho da criança consiste em ir acordar os pais de manhã e a babá tem de evitar tal delito, como se fosse o anjo da guarda do sono matutino dos pais...

Mas o que, senão o amor, impele a criança que mal levantou da cama a ir procurar os pais?

Quando ela salta da cama, bem cedinho, ao nascer do sol, vai procurar os pais ainda adormecidos como se lhes quisesse dizer: "Aprendam a viver santamente, já amanheceu, é dia!" O quarto ainda está escuro, bem fechado. A criança avança, como o coração oprimido pelo medo do escuro, mas supera todos os temores e vai tocar carinhosamente os pais. O pai e a mãe resmungam: "Porque nos acordar tão cedo?" E a criança replica: "Não vim acordar vocês, vim beijá-los". Como se dissesse: "Não queria despertá-los materialmente; desejava acordar-lhes o espírito".

O amor da criança tem imensa importância para nós. Os adultos dormem a vida inteira, tendem a adormecer a vida inteira sobre todas as coisas, e precisam de um novo ser que os desperte e os reanime com energia fresca e viva. Um ser que se comporte diversamente deles e lhes diga toda manhã: "Levantem-se para uma nova vida, aprendam a viver melhor"

Sim, viver melhor: Sentir o sopro do amor.

Sem a criança que o ajuda a renovar-se, o homem degeneraria. Se o adulto não procura renovar-se forma-se paulatinamente em torno de seu espírito uma couraça que acaba por torná-lo insensível.

Isto nos traz à mente, as palavras do juízo final, quando Cristo, dirigindo-se aos condenados que nunca utilizaram os meios de renascimento encontrados durante a vida, os amaldiçoa:
- Ide malditos, porque me encostrastes enfermo e não me curastes!
E eles respondem:
- Mas quando, Senhor, nós vos encontramos enfermo?
- Todas as vezes que encontrastes um pobre, um enfermo, era eu. Ide malditos, porque eu estava encarcerado e não me visitastes.
- Oh, Senhor, quando estivestes em um cárcere?
- Cada encarcerado era eu.

A dramática passagem do Evangelho significa que o adulto deve consolar o Cristo oculto em cada pobre, em cada condenado em cada sofredor. Mas se a maravilhosa cena evangélica se aplicasse ao caso da criança, constataríamos que Cristo ajuda todos os homens sob a forma da criança.

- Eu vos amei, fui acordar-vos todas as manhãs e me repelistes.
- Mas quando, Senhor, viestes a minha casa pela manhã para me acordares e eu vos repeli?
- O filho de vossas vísceras que vinha despertar-vos era eu. Aquele que vos implorava que não o abandonásseis era eu!

Insensatos! Era o Messias que vinha despertar-vos e ensinar-vos o amor! E nós pensávamos que se tratava de um capricho infantil- e, por isso, perdermos nosso coração.

Adaptado do texto de Maria Montessori, no livro A Criança.

Por uma humanidade mais fraterna!
Paz e boa vontade.

Escrito por Ana Paula Góis, 09/05/2017 às 21h20 | conviteecia@hotmail.com

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