Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

In SEGURANÇA

- Pessoal tem um cara de camisa azul e bermuda cinza, andando pelo Condomínio. Liguei para a Portaria e me informaram que não houve ingresso autorizado, com as características descritas. Ele acabou de passar pelo acesso 5, onde resido. Por favor, vamos ficar de olhos abertos...

- Oi! Zuleide! É a Fátima quem fala...eu moro junto à Praça Central e, também vi esse sujeito, como descreveste. Achei que era prestador de serviço, porque não despertava suspeita...Tu tens razão vamos ficar atentos.

- Esses são os mais perigosos, Fátima...especialistas em disfarce, tal qual espião.

- Oi, vizinhas! Aqui é a Juliete, da casa 45. Hoje, mais cedo, andei pelas ruas do Garden City, fazendo minha tradicional caminhada matinal, mas não constatei nenhum estranho. Que horas você disse que viu a tal pessoa, Zuleide?

- Juliete!, Foi por volta das 10 horas da manhã.

- Nesse horário eu já estava em casa, pois voltei lá pelas 9h e 30 min.

- Já avisaste a Portaria?

- Sim! Eles já mandaram um segurança percorrer o Condomínio...

- OK! Obrigado Zuleide. Qualquer novidade manda pelo whatsApp...

Após esses diálogos, os celulares não pararam mais de tocar, transmitindo informações, a maioria especulativa, sobre onde estaria o tal estranho, que poderia ser um ladrão, assassino, tarado...

Os moradores do Garden City pareciam estar entrando em pânico, toda vez que o tilintar do celular tocava. Ora era alguém que teria visto o intruso em outros acessos, ora era visto colhendo frutas. Por último, foi o seu Epaminondas, que anunciou tê-lo visto, com toda a certeza de seus 90 anos, entre a quadra de tênis e o muro da divisa sul do Garden City, na Praça Central, onde tem várias árvores frutíferas. Vários moradores correram para lá, na esperança de interceptá-lo. Vasculharam cuidadosamente a área, mas não o encontraram...Logo essa informação foi transmitida para todos, aumentando, ainda mais, o pânico.

O Síndico, que fazia parte da rede de vizinhos solidários, entrou no whatsApp para pedir que as pessoas apenas ficassem atentas, mas que evitassem transmitir informações especulativas que, além de aumentar o pânico, não ajudavam a segurança do Condomínio. O pedido do Síndico foi mal recebido pelos mais medrosos, que passaram a solicitar uma providência policial urgente por parte do Síndico. Outros sugeriam organizar um grupo, que armado de paus e facões poderia surrar e prender o assaltante. O Síndico disse, em resposta oficial:

Senhores moradores, ninguém, sob hipótese alguma, está autorizado a reunir um grupo justiceiro, já que nada se sabe sobre a pessoa descrita inicialmente pela Dona Zuleide. A Administração do Garden City, se reserva o direito de condenar, à priori, qualquer ato de justiça que atente contra às leis e, em especial, a Convenção e o Regimento do Condomínio.

Após esse pronunciamento, os ânimos belicosos, tal qual os apoiadores do modelo Trump, foram se acalmando. Mas, bastou a dona Zuleide comunicar ter visto novamente o estranho, para tudo recomeçar como um furação:

- Onde?

- Em que acesso?

- A que horas?

- Será que está armado? Ainda bem que as crianças estão nas escolas...

- Meu Deus! Chamem a polícia!

Depois de toda essa polêmica, o Síndico precisou intervir, comunicando que o segurança do Garden City, encontrou o tal sujeito. Trata-se, como ele mesmo nos disse, de um novo morador, de nome Olívio Cordeiro, que se mudara no último fim-de- semana para o Garden City. O Síndico, pelo whatsApp, informou o seguinte:

- Senhores moradores: agora que esclarecemos o mal entendido, pois trata-se de um novo morador, que adquiriu a casa n. 72, no último acesso, e que se mudou ontem para o Garden City, só nos resta agradecer à Deus por não termos cometido nenhum atentado para uma pessoa inocente que, ao saber da mobilização dos moradores e da própria segurança do Condomínio, até passou mal...

- Por favor pessoal, que esse episódio nos sirva de lição...A segurança é imprescindível nos dias de hoje, mas daí ficarmos cegos e cheios de ódio, sem qualquer certeza do que, de fato, esteja acontecendo, pode nos levar a praticar atos de pura insanidade. Quando um fato chamar a atenção de alguém, procure informar-se, antes de sair espalhando notícia falsa.

Será que a crise de valores, que permeia nossa sociedade, possa estar despertando condutas questionáveis?

Os altos índices de criminalidade e corrupção, que preenchem a totalidade dos noticiários, estaria afetando a capacidade de pensar dos brasileiros, gerando uma insegurança acima dos fatos?

No plano mundial, alguns líderes mais belicosos, como Donald Trump e King Jong Um, fazem renascer a ideia do uso de artefatos nucleares, até então, suscitados apenas durante a guerra fria.

Seriam, também, essas notícias, que nos chegam, sem qualquer filtro, capazes de aumentar a in SEGURANÇA e, por outro lado, reduzir nossa capacidade de construir um convívio mais saudável?

A insegurança implica a existência de um perigo ou de um risco iminente, o que não é o caso do Garden City, que possui empregados especializados nessa área, bem como todo o aparato físico. Portanto, o comportamento constatado, certamente provem de informações alheias a realidade local, onde a mais banal conversa foi capaz de gerar um pânico incontrolável...

As crianças, que começaram a chegar ao Garden City, depois das aulas, ficaram perplexas com os acontecimentos, gerados pelo medo e, de imaginar, que suas famílias fossem incapazes, como adultos, de discernir o certo do errado. As crianças, menos suscetíveis a criar caraminholas na cabeça, criticaram seus pais, porque um inocente poderia ter sido penalizado pela insanidade de duas vizinhas, que acenderam o pavio curto dos demais moradores...

 As crianças, certamente, estão mais imunes às notícias que preenchem a quase totalidade dos jornais televisivos. O que já não ocorre com os adultos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/10/2017 às 10h38 | sannickelle@gmail.com

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