Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A crise da indústria automobilística

Naquela manhã de domingo recebemos, para a nossa tradicional mateada no Garden City, um amigo do Sérgio que trabalha numa Montadora em São Paulo. O convite feito pelo nosso parceiro foi aceito, depois de consulta a cada um dos membros natos, porque o assunto, segundo o Sérgio, era de interesse para todos nós e para a economia brasileira.

O tal fulano, de nome William Schmidt, americano de nascimento, mas radicado no nosso país desde 1984, assessor da Associação dos Fabricantes de Automóveis no Brasil, estava em visita a Porto Alegre.

Ele nos contou que a crise econômica brasileira afetou a indústria de um modo geral, mas a de automóveis foi muito acima do esperado. Tanto que nos últimos quatro anos a queda de vendas, em especial dos veículos populares, caiu 30%.

O governo brasileiro, em reunião com a nossa Associação, nos pediu para baratear o preço dos automóveis, mas não abre mão dos impostos, um dos mais altos do mundo.

Nós, então, sugerimos retirar alguns itens obrigatórios, considerando pesquisa encomendada pela nossa Associação. Assim não teríamos os seguintes itens obrigatórios, a não ser de forma opcional:

1. pisca para mudar de faixa ou virar para esquerda ou direita, já que 74% dos motoristas não fazem uso desse item;

2. triângulo de sinalização, pois 83% dos motoristas nem sabem que ele existe;

3. cinto de segurança, já que se constatou que 85% dos acidentados não estavam utilizando esse item;

4. luz de neblina, onde 99% dos motoristas nem sabem ligá-la;

5. estepe, se constatou que 55% não os possuem em seus carros, guardando-os em casa;

6. rádios nos carros, são causa de 61% dos acidentes, quer pelo som altíssimo que impede que o motorista fique atento aos sons obrigatórios de sirenes, apitos dos guardas-de-trânsito, gritos dos transeuntes sobre idosos e crianças em situação de perigo, bem como as brigas entre o motorista e a esposa ou namorada sobre a rádio escolhida;

7. porta-luvas que, por não usarmos mais, se tornou obsoleto e, também, porque alguns motoristas, mesmo dirigindo, teimam em mexer lá, para provar aos demais passageiros, que o item que eles dizem não estar lá, está;

8. espelhos nos quebra-sóis, pois 63% das mulheres retocam a maquiagem com o carro em movimento, causando acidentes;

9. limpador de para-brisa traseiro, onde alguns modelos já o eliminaram;

10. macaco e chave de rodas, onde 79% não sabem onde se encontram nos carros, muito menos utilizá-los;

11. consolo para depositar copos ou latas, comumente usado para bebidas alcoólicas;

12. etc. etc.

Nós, então, perguntamos ao nosso convidado, o quanto a retirada desses itens baratearia o custo dos veículos.

- Por alto, em torno de 30%.

- Mas, Senhor William, isso não seria um tremendo retrocesso para a altíssima estatística de acidentes no Brasil?

- Sinto muito, amigos, mas o problema dos acidentes não são os carros, mas a qualidade dos motoristas, muitos dos quais nem prestam os cursos obrigatórios, alguns até compram as carteiras de habilitação.

- É, infelizmente você tem toda a razão.

- Durante a nossa pesquisa, nós entrevistamos dezenas de milhares de motoristas, desde jovens até idosos, e o que mais nos surpreendeu foram as respostas:

-60% não sabia o significado das faixas pintadas nas estradas e, nem tinham ideia da diferença da contínua e da intercalada. Alguns até responderam que era para a estrada ficar mais bonita;

-quanto às faixas zebradas, alguns disseram que era pra diminuir a velocidade, caso alguma zebra estivesse atravessando;

-o significado das placas oitavadas com borda vermelha em relação à preferencial. Muitos responderam que não sabiam o que era oitavada;

- as placas circulares com o desenho de um “E”, com um “E” e borda vermelha e com uma linha em diagonal cortando-o, era para dizer que o estacionamento seria permitido, desde que você o fizesse de forma oblíqua;

-o triângulo com miolo branco e borda vermelha, que significa dê a preferência, para muitos significava “rotatória em triângulo”;

- Perguntamos o que significava ” mão inglesa”. Alguns perguntaram se ela era diferente da mão brasileira, que tem 5 dedos;

- Meu Deus, William! Vocês devem ter ficado boquiabertos com a falta de conhecimento dos nossos motoristas!

- Para sermos sinceros, até hoje, ainda não acreditamos no que a pesquisa nos revelou...é muito triste!

- Meu caro Willian, eu acredito que no nosso país só se fiscaliza carro estacionado que, mesmo errado, não está oferecendo risco algum, mas os demais itens, esses sim causadores de acidentes, há grande negligência.

- É verdade, Clóvis! Nos falta vergonha na cara e, principalmente, fiscalização consequente. Olha os casos de crianças que morrem em piscinas por falta de fiscalização nos ralos de sucção, quando basta uma tampa ou dispositivo que interrompa automaticamente a sucção.

- E as casas noturnas, então! Depois daquela tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, quantas continuam funcionando de forma precária.

- Willian, só nos resta agradecer a tua presença na nossa mateada e, oxalá, um dia, possamos copiar o que fazem os chamados países sérios.

E, assim, encerrou-se mais uma mateada dos amigos do Garden City, que saíram cabisbaixos, pensando sobre nossas mazelas.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/07/2017 às 08h00 | sannickelle@gmail.com

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