Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Encontro de presidentes

Naquele domingo de mateada, o Clóvis com a sua curiosidade habitual, nos perguntou:
- Vocês lembram daquele nosso vizinho poliglota, que foi trabalhar no Ministério de Relações Exteriores?
- Sim! Disse o Luiz Paulo...
- Só não me pergunte o nome dele, pois não lembro. Mas, por quê, Clóvis?
- Apenas curiosidade...
- Como assim curiosidade? Perguntou-lhe o seu Gumercindo, seu sogro.
- É que eu fiquei imaginando... se os assessores de presidentes, são capazes de traduzir com fidelidade aquelas conversas protocolares enfadonhas.
- Essa curiosidade até merece uma pesquisa com alguém que já fez esse papel. Aqui no nosso grupo, tem alguém que sabe algo a respeito?

O Sérgio, que naquele momento estava sorvendo o chimarrão, levantou a mão...Todos se voltaram para ele, em especial o Clóvis, que começou o assunto.
- Eu tenho um cunhado, que foi amigo de um sujeito que exercia esse papel nas viagens presidenciais; ele costumava contar muitas histórias a respeito, só não sei se todas eram verdadeiras...
- Legal!
Disse o Clóvis, eufórico.
- Você poderia lembrar de algumas dessas histórias, Sérgio?
- Eu lembro de uma que o Presidente Brasileiro, não lembro qual, visitaria o Presidente Russo...Durante o voo, o Assessor especializado nas duas línguas, vai fazendo algumas simulações para que não haja nenhuma bola fora. Mas o nosso Presidente, que era uma toupeira, tinha muita dificuldade em entender os aspectos protocolares, bem como as peculiaridades do povo daquele país. O que levou, então, o Assessor, a afirmar ao Presidente que ele consertaria, na língua russa, qualquer deslize para não ofender o anfitrião.
- Anfi... o quê, Assessor?
- O Presidente Russo!

No desembarque começou a confusão, porque o nosso Presidente esquecera o nome do anfitrião, e cochichou no ouvido do Assessor:
- Qual é o nome do Presidente da China?
- Senhor Presidente, nós estamos na Rússia, mas não precisa lembrar o nome dele, apenas o saúde com sorrisos e aperto de mão, depois o acompanhe por entre a guarda de honra...
- Tá bem! Vou começar a sorrir, logo que chegue à escada do avião...
- É, isso aí!

Ao terminar de descer o último degrau da escada do avião, o Presidente Brasileiro, ajoelhando-se no tapete vermelho, beijou o chão, enquanto o Presidente Russo ficava perplexo, com a mão estendida...Depois abraçou o anfitrião com tapinhas nas costas e na bunda. O Presidente Russo, sem entender patavina, também bateu-lhe nas costas e na bunda, achando que fazia parte da cultura ocidental. A nossa delegação, à semelhança da bandeira russa, ficou toda vermelha. Depois de chegar à sala VIP, o tal Assessor perguntou:


- Senhor Presidente, por que se ajoelhou antes de cumprimentar o anfitrião?- Ué! O Papa não faz isso, também!
- O ato de beijar o chão de um país, tão logo pise nele, quando é feito pelo Papa, é simplesmente um modo de expressar amor e respeito, bem como demonstrar a humildade do representante de Deus na terra.
- Pois, foi o que eu fiz!
- E, aquele abraço e o toque no traseiro do Presidente Russo?
- Ué! Depois que o cabra me beijou na boca, o que tu querias que eu fizesse? - Saísse rolando com ele, arrancando-lhe a roupa para um sexo selvagem? - COM QUEM ESSE SUJEITO ACHA QUE TÁ LIDANDO?
Com essa resposta, o Assessor se calou, benzendo-se longe do Presidente…
Depois, a comitiva seguiu para o Hotel Crowne Plaza Moscow World, que fica no centro, a 3,8 km do Kremlim.
O primeiro ato do Presidente, no dia seguinte, era depoisitar flores no Túmulo do Soldado Desconhecido. O Assessor, com medo de nova gafe, explicou, ao Presidente, o significado desse gesto:
- Túmulo do soldado desconhecido é o nome que recebem os monumentos erigidos pelas nações para honrar os soldados, que morreram em tempo de Guerra, sem que seus corpos tenham sido identificados. É um túmulo simbólico, evocando todos os habitantes de um país, que morreram em conflito.
- Você já encomendou as flores?
- A Embaixada brasileira já tomou todas as providências...Basta ir ao Jardim de Alexandre, em Moscou, para que o Senhor reverencie o Túmulo, podendo fazer uma pequena oração diante da coroa de flores...
- E a oração é em russo?
- Não! Na verdade, o Senhor apenas ficará em silêncio por alguns minutos.

O cerimonial foi mais ou menos tranquilo, se não fosse o Presidente pegar um cravo da Coroa e colocar na sua lapela, por pouco, não derrubando-a. Felizmente, como era um cravo vermelho, os russos entenderam como um gesto louvável e até aplaudiram. Muito embora, o cravo vermelho lembrasse Joseph Stalin.
Na cerimônia a seguir, que reuniu os dois Presidentes, a recepção foi mais coloquial, impedindo que o nosso representante bulinasse de novo o anfitrião.
- ????? ?????????? ????????? ????????!
Assombrado, o Presidente indagou ao fiel Assessor:
- CRIATURA, disfarça, fala baixo aqui, comigo:
- O que esse sujeito tá falando? Parece que engoliu um gravador estragado!
- Bem-vindo, Presidente Brasileiro!
- Pois, então, diga-lhe, em russo:
- É uma satisfação estar na terra de Stalin!
- ??? ???????????? ???? ?? ?????

??? ???????
O Assessor, no entanto, falou em russo, algo mais adequado:
- É uma satisfação estar na terra de Liev Tolstói. Famoso escritor russo, que ficou conhecido, pelo épico romance Guerra e Paz.

- Legal, Sérgio! Mas, será que isso aconteceu mesmo?
-Bem, isso já são outros quinhentos...Clóvis!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/06/2017 às 10h39 | sannickelle@gmail.com

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