Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Brincadeira de criança

Em pleno outono, os primeiros sinais do frio começavam a aparecer antes do sol nascer. Tão logo ele surgia, no entanto, as gotículas de sereno acumuladas nas plantas, escorriam graciosamente para o solo seco. Trata-se de uma transição do verão escaldante para o inverno de muito frio, em especial para o clima do sul do país.
Peguei meu jornal Zero-Hora de domingo e fui até a Praça Central; chegando lá escolhi um banco, sob a sombra de um frondoso eucalipto, e me sentei para ler...
Uma algazarra de crianças, chamou-me a atenção, porque estavam combinando uma brincadeira que, pelo nome, eu jamais havia visto...brincar de governo.
- Que raios de brincadeira é essa? pensei em voz alta!
Só me restava abandonar o jornal e acompanhar as regras ditadas pelos meninos mais velhos. O Michel, que parecia ser o manda chuva deles, disse:
- A nossa brincadeira só pode começar se escolhermos quem vai ser povo, quem vai ser governo e quem vai ser polícia...
- Eu quero ser governo! disse a Maria Lúcia, única menina no grupo...
- Tá legal! Tu vai ser a Justiça!
- O que faz a Justiça?
- Ela é o único lugar que protege o povo...lá, qualquer membro do povo estará protegido da polícia...o teu lugar vai ser aquele banco, perto daquele senhor que está lendo jornal, tá bem?
- Tá certo!
- Quem vai ser governo, além da Maria Lúcia?
- Eu, que vou ser o Presidente da República! Além de mim, o Benício vai ser o Presidente do Senado e o Marcelo vai ser o Presidente da Câmara...
- Nós três vamos escolher a polícia...
- Nós escolhemos o Otavinho e o Paulinho para serem a polícia.
- E nós?
- Vocês vão ser o povo...
- E o que faz o povo?
- O povo vai sustentar o governo e para isso será perseguido pela polícia e, caso um de vocês for pego, será trazido até nós...
- Pra quê?
- Vocês tem que pagar alguma coisa para o Governo, como uma peça de roupa, por exemplo. Quem ficar só com a roupa de baixo sai fora da brincadeira.
- Que sem graça, a gente ser o povo...
- É, mas é assim que é a brincadeira de governo!
- Tá bom! A gente topa, não é turma?
- Sim!
- Antes de começar a brincadeira, lembrem-se que o nosso território é a praça. Então, ninguém poderá sair daqui! E, não esqueçam, que na Justiça é o único lugar que vocês poderão se proteger da polícia, mas lá não poderão ficar por mais de 10 segundos...
- E, quem vai contar o tempo?
- A própria Maria Lúcia.
- E, quando termina a brincadeira?
- Quando o governo tirar tudo do povo.

Enquanto eu estava pasmo diante daquela organização, pensando como as crianças adaptaram tão bem uma brincadeira com a situação real de governo e governados, até esqueci minha leitura e passei a acompanhar o corre-corre...
Logo, a polícia fez sua primeira vítima. Tratava-se de um menino gordo, o bolinha, que não tinha muita agilidade.
- Presidente, aqui tá um membro do povo. Que vamos tirar dele?
- Tirem o tênis, assim vai ser mais fácil tirar o resto...Depois podem soltá-lo!

Os demais meninos, por serem bem mais ágeis que a polícia, ora se protegiam na Justiça, ora corriam em zig zag, dificultando a ação dos policiais.
Mas, de novo a polícia prendeu o bolinha...
- Mas, não é possível! Pelo amor da Santa! Misericórdia! De novo pegaram o Bolinha...Eu não conseguia desgrudar daquelas crianças. Pensei em voz alta.
- E agora, Presidente, o que vamos tirar dele?
O Presidente resolveu, então, consultar os Presidentes do Senado e da Câmara...
- Nós sugerimos que se tire o calção dele...
- Mas, o bolinha que além de gordinho, também era envergonhado, se rebelou:
- O calção não! Ou eu saio da brincadeira!

O Presidente da República, então, resolveu intervir e disse aos demais parceiros:
- Pessoal, o bolinha tem sido nossa grande chance de sacanear o povo, portanto não vale a pena tirar-lhe o calção, pelo menos por enquanto! Que tal tirarmos a camiseta dele?
Os demais membros do governo concordaram e o bolinha foi solto sem tênis e sem camisa.
Enquanto a brincadeira continuava, de repente um tumulto foi percebido pelos membros do governo. Tratava-se de uma emboscada do povo para com os dois policiais, dos quais foram tiradas as roupas do Otavinho e do Paulinho. Diante da quase nudez da polícia, os membros do governo se uniram aos policiais e passaram a perseguir os membros do povo. Diante disso, o povo se refugiou na Justiça e a Maria Lúcia, decretou:
- Como os membros do governo resolveram agir como polícia também, o povo ficou prejudicado, o que não é justo...
- Eu sou o Presidente da República e eu determino que a Justiça solte o povo para que possamos tirar-lhe tudo que ele tem!
- Mas, eu sou a Justiça e não aceito ordens do Presidente! O senhor está destituído do cargo! No seu lugar deve assumir o Presidente do Senado!
- Mas, eu não aceito ser destituído do cargo! E tu, Benício, seria capaz de assumir meu lugar?
- Sim, Michel! A partir deste momento eu passo a ser o Presidente da República e, se tu reclamar, eu mando te prender.
- Mas Benício que sacanagem, hein? Tu me paga, tá!
- Eu sempre quis ser o presidente, mas você se escalou primeiro...

Completamente embasbacado com aquela brincadeira, pensei cá comigo:
- Meu Deus! E eu que pensei que as crianças de hoje ainda brincavam de “pau no gato”, “cabra-cega”, “esconde-esconde”...Preciso contar isso lá em casa.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 19/04/2017 às 13h29 | sannickelle@gmail.com

publicidade





publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br