Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Outono, estação de mudança

O verão, pouco a pouco, cedia lugar ao outono que, com muita chuva, não conseguia atenuar aquele calor grudento. As plantas com seus verdes sem qualquer sinal de pó, mostravam matizes distintos, desde o verde intenso até o amarelo/avermelhado, sinalizando que as plantas caducas já começam a perder as folhas. Algumas árvores, despudoradas, ficavam completamente nuas... mesmo assim as fofoqueiras de plantão não “pegavam no pé” delas!

Do ponto de vista cultural, o outono é uma estação que inspira beleza, mas também a melancolia, por isso sempre foi considerada tempo de mudança. O outono não é apenas folhas secas no chão...é uma estação em crise existencial. Uma hora está quente, cheia de amor para dar. Outra hora está triste e fria.

O seu Gumercindo, em sua tradicional cadeira preguiçosa, estava na varanda esperando a visita de seu irmão e cunhada que, trariam sua sobrinha Gerusa para prestar concurso público em Porto Alegre. Mas não deixava de admirar a beleza da paisagem outonal do Garden City, tal qual imortalizou o pintor holandês Vincent Van Gogh em sua famosa obra “Paisagem de Outono”, de 1853.

O tilintar do telefone interrompeu seu devaneio, era da Portaria, anunciando a chegada do Izidoro, dona Maria de Lourdes e da filha Gerusa. Vinham de Bagé, onde lá residiam desde sempre. O Izidoro, assim como o Gumercindo, eram pessoas tradicionais da sociedade bageense, mas o irmão, por ter permanecido na lida do campo, tinha evoluído muito pouco em termos de comportamento familiar, não admitindo nem discutir os novos valores, em especial dos jovens.

O filho mais velho, Gabriel, não suportando os ditames do pai, logo que pode, se mandou de Bagé, indo morar no Rio de Janeiro, onde hoje exerce a profissão de modelador de alta costura. Faz muitos anos que não visita o pai, mas morre de saudade da mãe e da irmã!

Depois dos efusivos abraços, todos entraram para se acomodar e saborear a comida da dona Odete, famosa pela qualidade de sua culinária.

Durante o almoço, não faltaram as perguntas sobre os parentes, seus filhos, amigos e, também, quem havia falecido. Falaram, também, das perspectivas de casamento da Gerusa, já com 21 anos de idade. O seu Izidoro pigarreou e disse que a filha não tinha namorado, que ele soubesse, E, mudou o rumo da prosa:

- Ela é muito estudiosa, sabe Gumercindo! E nós esperamos que se saia bem nesse concurso para o Banco do Brasil. Tu bem sabe, como tá difícil pra essa juventude conseguir emprego e, se ela passar, estará feita para o resto da vida. Esse é o nosso sonho, meu e da Maria de Lourdes.

- Concordo contigo, Izidoro! Não tá nada fácil pra ninguém. Eu vejo pelo Clóvis e a Soledade, que mesmo sem filhos, às vezes precisam da nossa ajuda financeira.

- Gumercindo! Eu agradeço a gentileza de hospedar a Gerusa, mas nós vamos voltar amanhã pra Bagé, pois o olho do dono é que engorda o gado!

- Tudo bem, meu irmão! Fica tranquilo, que faremos tudo para que a Gerusa se sinta em casa, e realize o teu sonho de passar no concurso!

À noite, na cama, o casal confabulava sobre a sobrinha e os planos do Izidoro:

- E, aí meu bem! O que tu achou da situação?

- Eu penso que teu irmão é cego, e o pior, quer determinar a vida da filha, como tentou fazer com o Gabriel.

- Acho que tu tem razão! O Gabriel acabou se afastando da família, depois que o pai começou a desconfiar de sua masculinidade e tratar-lhe mal. Agora, tenta fazer o mesmo com a Gerusa...

- E, afinal de contas, não sei ainda se essa guria se identifica como mulher ou como homem..

- É verdade! De feminina ela não tem quase nada.

- E o Gabriel brigou com o pai porque este lhe negou pagar um curso de moda. A irmã, no entanto, poderia até comandar a fazenda da família. É determinada e tem poder de liderança, tal qual o pai.

- Mas como fazer teu irmão enxergar, Gumercindo? Seria ele, capaz de aceitar a diversidade sexual e de gênero dos filhos?

- Tô aqui pensando com meu primeiro botão do pijama, e não faço ideia...

Enfim, o sono chegou e os anfitriões acabaram dormindo.

No outro dia, enquanto preparavam o café, a tia e a sobrinha, conversavam:

- Então, Gerusa! Está decidida a virar funcionária de um grande Banco?

- Olha, tia Odete, vou te falar em segredo...na verdade, é mais um sonho do pai do que meu, mas tu sabe que ele pouco escuta a gente. Eu sonho em viver como o Gabriel, longe das limitações do pai e da mãe e da própria comunidade preconceituosa, onde vivemos. Pode ser, no entanto, que o concurso e um emprego me dê a oportunidade de mudar de vida...

- Fica tranquila, filha, eu sei muito bem como teu pai é dominador e totalmente cego para os anseios de vocês e da própria Maria de Lourdes.

- Que bom tia, que posso me abrir pra ti...

- Claro! Sempre que tu precisar, estarei aqui e serei tua confidente. Não te preocupa, vou manter segredo absoluto, pode confiar querida...

- Obrigada, tia! Quer um cigarro?

- Não! Deixei de fumar há muito tempo.

Os dias se passavam e, a Gerusa seguia prestando as provas do concurso. Cada dia, no entanto, estava mais encafifada... a tia, muito atenciosa, não lhe dava espaço para uma prosa de verdade. Mas a tia, que não é boba, abriu o jogo:

- Querida! Tu gostaria de me falar alguma coisa muito pessoal, que talvez não consiga com tua mãe?

- Sei lá tia!! KKKKK

- Eu, desde sempre, acho... não consigo me comportar como as outras gurias da minha idade...não gosto de maquiagem e nem sinto atração alguma por babaquices femininas. Nem sei por que tô falando disso agora...

- Tudo bem, Gerusa...

- Todos somos especiais, individuais uns dos outros.

- O difícil é ser aceita por teu pai e por tua mãe...

- Sei disso, tia!

- Estou disposta a encarar minha maneira de ser, afinal a vida é minha...não posso viver uma fantasia que os outros querem que eu viva.

- Assim é que se faz a diferença, querida...encare de frente teu modo de ser e procure ser feliz, afinal a questão de gênero é uma construção social e não uma genitália.

- Você é inteligente! Tem tudo para construir um futuro brilhante…

- Obrigado, tia! A Senhora me deu uma baita força…obrigada de coração!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 12/04/2017 às 10h36 | sannickelle@gmail.com

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