Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Ainda é possível acreditar nas pessoas?

Quando o Clóvis nos convidou para a nossa tradicional mateada de domingo, todos compareceram, inclusive os dois ausentes na do carnaval. Depois dos fraternais abraços, o seu Gumercindo nos questionou:

- Vocês viram na Internet a história contada por Igor Bezerra, aquele que tinha um primo chamado, Tales, lembram? Morou no Garden City há uns dois anos atrás, mais ou menos...

- Sim, o Tales, um pernambucano muito simpático, que morou na casa 10, no segundo acesso, depois se mudou.

- O que tem ele, seu Gumercindo?

- Pois a história que ele conta merece ser lida e comentada, porque prova que ainda existem pessoas capazes de gestos admiráveis. Somos vítimas dos políticos em geral e da corrupção descarada deles com empresários, com isso se perdeu toda confiança na capacidade de ser honesto no nosso país. Como a corrupção institucional tem o dom de permear as atitudes das pessoas, acabamos por descrer no ser humano, como se estivéssemos todos doentes e incuráveis.

O seu Gumercindo leu, então, a carta escrita pelo Igor, publicada no facebook, onde ele relata ter vivido uma história ímpar no carnaval de Petrolina, Pernambuco. Conta que ao retornar ao seu carro, constatou que o vidro dianteiro, do passageiro, estava aberto, e em cima do banco um bilhete, escrito à mão, que dizia:

“Boa noite
pegamos seus pertences
pra ninguém roubar
amanhã liga, que devolveremos.”

Levaram tudo, celular, óculos novo, 2 camisas, comida, documentos do carro, perfume. Indignado com o ocorrido e a safadeza do ladrão em deixar aquele bilhete, foi para casa muito triste. Chegando em casa, percebeu que seus pais estavam acordados, pois haviam ligado para ele e quem atendeu foi um cara estranho. Ele, então, se identificou, disse morar em Juazeiro e que estivera no carnaval em Petrolina, com a namorada e sua mãe. E, aí repetiu a história do vidro aberto...Ele marcou um encontro com o Igor na igreja católica do centro de Juazeiro. Desconfiado, por imaginar tratar-se de um golpe, convidou dois amigos para o acompanharem. Lá chegando, esperou junto ao carro para que o estranho o encontrasse. Minutos depois um rapaz com a namorada e a mãe chegaram, viram o carro e se aproximaram do Igor, devolvendo-lhe todas as suas coisas. Ainda admirado daquele gesto, o Igor ofereceu-lhe uma recompensa que foi recusada. A mãe do rapaz ainda lhe disse: “vá e faça isso por outra pessoa”

- Que história linda, seu Gumercindo!

- Diante da realidade que vivemos, parece história da carochinha.

- É, pra já, Luiz Paulo.

E, a morena continuou passando de mão em mão, enquanto o silêncio dizia tudo, tal qual a composição de Simon e Garfunkel: the sound of silence.

- Vocês viram aquele clube sueco, o IF Elfsborg, que decidiu que só vai contratar jogadores que não simulem faltas, jogadas desleais, tudo em nome da ética desportiva.

- É, eu também vi na televisão essa reportagem...

- Mas, no Brasil, onde o Congresso Nacional quer institucionalizar a corrupção, jamais veremos isso acontecer...

- A não ser que consigamos expulsar da vida pública esses bandidos que tomaram de assalto o Brasil...

- Eu espero, sinceramente, que os Procuradores Federais, que hoje constituem a operação Lava Jato, consigam botar na cadeia esse bando de safados...

- Não vai ser fácil, com tanta grana rolando de forma escusa, eles contratam as melhores bancas de advogados...

- Infelizmente, é verdade...

- Mais um mate Clóvis!

- É pra já, Sérgio!

- Mas, seu Gumercindo, o que o senhor achou da atitude da dona Gertrudes?

- Olha San, não me surpreendeu, pois essa é a atitude da maioria das pessoas...há uma espécie de insensibilidade em relação aos problemas do próximo...As pessoas, hoje, estão mais egoístas e egocêntricas...pouco se lixando para as necessidades dos outros. Na verdade, nós só nos sensibilizamos com as desgraças que ocorrem longe de nós, onde nosso lamento não se traduz em ação concreta. Isso, enfim, alivia nossa culpa.

- Tens razão amigo, a mídia também tem ajudado a banalizar a desgraça, fazendo com que assistamos passivos...

- Mas, seu Gumercindo, quando o senhor decidiu acolher o mendigo, teve essa atitude, convicto de que ele era merecedor?

- Não! Resolvi ajudar o homem, apenas por ser mendigo...um homem necessitado que não estava ameaçando ninguém, mas que havia entrado, sem permissão, num território minado pelo medo. Aqui, como em qualquer condomínio, morre-se de medo dos pobres, dos pedintes, enfim, dos desvalidos que a sorte esqueceu.

- O Clóvis nos disse que o senhor justificou sua atitude, com uma frase:

“...Fiz, porque odeio a pobreza, não o pobre... ”

- Sempre me preocupei em não cair nas armadilhas da vida, em especial as que tratam da discriminação entre as pessoas que tem e as que não tem posses, como se isso decidisse o seu único mérito... Eu gosto muito dos livros do Augusto Cury, eles me fazem refletir sobre essas questões, como o Vendedor de Sonhos...Trata a história de um homem conhecido por “vender sonhos”, onde Cury nos faz refletir sobre a importância que as pessoas dão para os bens materiais, enquanto ignoram totalmente os verdadeiros valores da vida: a alegria, a honestidade, o amor e a paz.

Na verdade, eu tenho pena de pessoas que agem como a dona Gertrudes, pois quem se propõe a fazer o bem, também o faz para si mesmo. É, esse sentir-se em paz e feliz, que agora me diferencia da minha vizinha.

E assim, aquela mateada encerrou o dia, deixando-nos pensativos sobre o significado da vida, das nossas atitudes e da coragem para mudar o mundo.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 21/03/2017 às 10h06 | sannickelle@gmail.com

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