Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Discriminação

Naquela manhã de final de inverno, onde nas frutíferas o sol atravessava discretamente as folhas e o perfume das flores das laranjeiras e das bergamoteiras se propagava pelo ar, algo inusitado ocorreu no Condomínio, tendo circulado entre os moradores, como uma tentativa de assalto.

Não se sabe como, mas um mendigo acabou entrando no Garden City, a despeito de todo o aparato de segurança. Como todo mundo sabe, nenhum condomínio permite a entrada de mendigos, pregadores religiosos, vendedores ambulantes, etc. tudo em nome da SEGURANÇA, sinal dos tempos, onde os que tem patrimônio temem perder qualquer coisa.

Mas, enfim, o tal mendigo passou pela Praça da frente e logo foi avistado por uma moradora, dona Gertrudes, que cedo cuidava de seu jardim. Ela horrorizada disse aos gritos:

- Vou chamar a segurança, seu invasor!

O mendigo ficou tão assustado que não conseguia se mexer...Esta cena, no entanto, foi observada por um morador que fazia sua caminhada matinal, que resolveu interferir, dizendo:

- Vizinha, não precisa chamar a segurança, eu conheço este senhor. Na verdade ele veio me visitar. A sua aparência de mendigo é porque ele é uma pessoa doente, pode ficar tranquila.

O morador, então, diante da perplexidade da vizinha e do próprio mendigo, passou-lhe a mão no ombro e o conduziu até sua casa.

Lá chegando, ofereceu o banheiro de serviço e, entregando-lhe uma toalha e chinelos, pediu-lhe que tomasse um banho, enquanto providenciava roupas limpas para que se vestisse.

O mendigo, sem dizer palavra, só obedecia. Até então, não entendia patavina, mas seguiu fazendo tudo que o morador lhe pedia.

Depois do banho demorado, o morador alcançou-lhe roupas limpas, ensacando as surradas e mulambentas que ele usava. Ao sair do banheiro, o mendigo parecia outra pessoa. Cheirava bem e as roupas e a barba feita lhe deram um estilo decente de pessoa comum. O morador o elogiou, dizendo-lhe:

- Meu nome é Gumercindo e o seu qual é?

- Eu até já esqueci, pois todos me chamam de mendigo ou bebum e até de ladrão. Mas, eu não sou ladrão, não, senhor! De mendigo e bebum eu não reclamo, porque sou mesmo.

- Tudo bem!, Eu vou tomar café, você gostaria de me acompanhar?

- Gostaria...

O seu Gumercindo, então, convidou-o a entrar na cozinha e serviu o café com manteiga, geleia e pão quentinho. O mendigo, bem desajeitado, comeu como se nunca tivesse comido na vida. Pediu para repetir e foi atendido.

- Como você chegou nesta situação, amigo?

- Quando eu era moço, eu tinha emprego, uma família e morava numa casa alugada, mas a sorte não me ajudou. Perdi a família num incêndio que me deixou louco. Fui internado num manicômio, perdi o emprego e lá passei muitos anos. Depois consegui fugir e fui morar na rua.

Estou morando na rua faz vinte anos. Antigamente, era mais fácil ganhar comida nas casas, mas agora que não se pode entrar nos prédios, só com autorização, ficou muito difícil. O que nos salva, a mim e tantos outros moradores de rua, é a bondade de algumas pessoas. Ando maltrapilho e fedido, pois não tenho onde tomar banho ou lavar a roupa. Eu sei que causo nojo, mas o que fazer? Eu estudei até o segundo grau, mas com a internação no hospício as minhas chances de conseguir emprego desapareceram.

- E, no inverno, como você consegue se agasalhar? O que nos salva é o aconchego dos amigos de rua, os quais se amontoam para não congelar e, é claro, uma cachacinha.

Enquanto o seu Gumercindo tratava com toda humanidade aquele estranho sem nome, na Portaria do Condomínio um pequeno tumulto agitava a vida dos que passavam. Sob o comando da dona Gertrudes, o próprio síndico, o porteiro e o responsável pela segurança, queriam saber onde se escondera o mendigo, nesta altura chamado de ladrão perigoso.

O síndico telefonou para a casa do Clóvis, genro do seu Gumercindo, alertando-o de que o ladrão pudesse estar na casa do seu sogro, conforme relatara a dona Gertrudes.

O Clóvis, então, muito preocupado depois da tentativa de sequestro do sogro, pegou o carro, uma espingarda de caça e foi até a casa do Gumercindo.

Tão logo chegou, de arma em punho, cumprimentou o estranho bem vestido e abraçou o sogro, dizendo-lhe:

- Que bom que o Senhor está bem, pois lá na Portaria há um pequeno tumulto incitado pela dona Gertrudes.

- Tumulto, Clóvis, mas por quê?

- Dizem que um ladrão passou pela Portaria, sem ser visto...

O seu Gumercindo, então, pediu ao genro que sentasse e, em poucas palavras narrou o que acontecera. O Clóvis, que conhecia bem a bondade do sogro, logo entendeu que o estranho era o tal mendigo. Inteirado, perguntou ao sogro:

- Por qual razão fez isso, meu sogro?

- Por que odeio a pobreza, não o pobre.

- Como vamos tirá-lo daqui sem causar-lhe constrangimento ou até prisão?

Seu Gumercindo pensou e sugeriu:

- Como tu estás de carro aqui, pega o meu amigo e leva para fora do Condomínio. Se, te perguntarem se falaste comigo, diz que sim. E, se quiserem saber quem é o estranho, diz que é um amigo meu...

Seguindo a orientação do sogro, lá se foi o Clóvis, enfrentar o tumulto na Portaria. Tão logo parou o carro, o síndico veio falar-lhe:

- Bom dia Clóvis e bom dia senhor. Como tu deves estar sabendo, a dona Gertrudes avistou um ladrão dentro do Condomínio e, ela afirma que o teu sogro conversou com ele e depois se dirigiram para a Praça central.

- Olha, eu acabei de passar na casa do meu sogro e está tudo bem.

- É, mas a dona Gertrudes disse que o teu sogro protegeu o ladrão.

- Eu tenho certeza que se ele tivesse feito isso, me contaria, portanto acho que tem gente neste Condomínio vendo fantasmas!

O síndico, diante da declaração firme do Clóvis, voltou a cumprimentar o passageiro e se despediu, pedindo desculpas pelo incômodo. Dizem que a dona Gertrudes teve um ataque de fúria, depois que o síndico pôs em dúvida sua denúncia.

"No caso de homens como eu, cumpre medí-los não pelos raros momentos de grandeza em sua vida, e sim pela quantidade de poeira que juntam nos pés no decurso da viagem da vida.Mohandas Karamchand Gandhi, 1869-1948."

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/03/2017 às 10h16 | sannickelle@gmail.com

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