Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Mateada da Natal

Após a belíssima Festa de Natal, o Clóvis nos convidou para uma mateada na Praça Central, onde poderíamos comentar os acontecimentos da noite anterior.

No domingo, como combinado, lá estava o Clóvis pilchado e com erva mate da boa, um fogareiro e uma chaleira preta chiando de faceira com fogo no rabo. Aos poucos fomos nos aprochegando em volta do fogareiro. Lá chegaram o Luiz Paulo, o Reinaldo, o Sérgio e eu. O seu Gumercindo ainda não havia chegado.

Não demorou muito e o responsável pela mais bela festa de Natal, chegou

Foi solenemente aplaudido por todos nós. Com a característica dos humildes, ele agradeceu em nome de todos que se mobilizaram para o sucesso do evento.

Disse-nos, com voz embargada:

- Pela primeira vez, de fato, comemoramos o Natal como merecíamos, deixando de lado o aspecto comercial da data cristã, onde, de um modo geral, só Papai Noel é o que importa, esquecendo-nos do seu verdadeiro significado...o nascimento de Jesus Cristo.

Seu Gumercindo, homem do interior do Estado, tinha, sem ser piegas, uma religiosidade a ser imitada. Às vezes, ia a missa, mas nunca criticou ou induziu alguém a seguir suas decisões. Tanto é verdade que nunca impôs qualquer credo aos seus filhos. Como dizia:

- Eles que decidam se querem ou não seguir esta ou essa religião. O que eu, como pai, não abro mão, são dos valores que procuro passar aos filhos pelas minhas atitudes e exemplos.

Ao se referir ao Natal, com viés comercial, ficava muito crítico e até intolerante. Por isso, na condição de síndico, propôs uma confraternização que valorizasse o seu verdadeiro sentido- O aniversário do filho de Deus.

O Clóvis, sempre muito curioso, perguntou ao sogro:

- Meu estimado sogro, desde quando o Senhor se libertou desses natais pragmáticos?

Agradecendo o elogio do genro, ele assim nos contou:

Meu pai, era dono de um bolicho, no interior de Bagé, e para não ser antipático com seus fregueses, permaneceu aberto até a meia-noite da véspera de Natal, pois lá estavam a maioria dos seus amigos, bebemorando, longe de suas famílias, a data.

Quando bateu meia-noite e ele já se preparava para fechar, um velhinho de barba e cabelos brancos entrou no bolicho, surpreendendo a todos.

O forasteiro, cumprimentou todos e ao chegar ao balcão pediu um copo de água, porque depois de longa caminhada, sua sede era imensa, como declarou ao bolicheiro.

Enquanto seu Bento, meu pai, providenciava o pedido do recém chegado, os demais bebuns lhe ofereceram cerveja e cachaça, a que ele agradecendo, recusou.

Depois de saciar a sede, perguntou ao pessoal o que estavam comemorando.

Os homens se entreolharam e, em uníssono, responderam:

- Só bebendo!

E o forasteiro, se aprumando para deixar o bolicho, perguntou-lhes:

- Vocês sabem onde estão comemorando o aniversário do meu filho?

- Que aniversário? Perguntaram-lhe.

- Ora, do meu filho.

- E o senhor tem filho?

- Sim, ele veio para cá numa missão de paz e amor, mas não foi muito bem recebido.

- Mesmo sem querer ser intrometido, mas sendo, por que ele não foi bem recebido?

- Porque seu entusiasmo foi maior do que a capacidade das pessoas para entendê-lo.

Após esse diálogo, o velhinho disse:

Senhores, desculpe ocupar seu tempo, mas quando vi o bolicho aberto e tantas pessoas comemorando, até imaginei que era pelo aniversário do meu filho...

Logo a seguir o forasteiro se retirou, sumindo na noite escura.

Seu Bento, que tudo presenciara, pensou em voz alta:

- Será que o filho desse velhinho, é quem eu estou pensando que seja?

Os demais, não entenderam e continuaram bebendo.

Após concluir seu relato, seu Gumercindo pediu um mate, pois estava com a garganta seca.

Enquanto ele saboreava o mate, acariciando a cuia morena, nós ficamos pensativos, até que o Clóvis perguntou-lhe:

- Meu estimado sogro, isso ocorreu mesmo ou foi inventado?

- Meu também estimado genro, foi meu pai quem contou, pois ele presenciara o ocorrido e, por conhecê-lo bem, ele seria incapaz de mentir ou inventar.

A resposta do seu Gumercindo, nos deixou ainda mais convictos de que aquele acontecimento, de fato, existiu. Foi o Sérgio quem quebrou o silêncio em que nos encontrávamos:

- O mundo, depois da vinda de Cristo, passou por profundas transformações. Deixamos de ser politeístas, acreditando num único Deus, capaz de enviar seu filho, na condição de humano, para redimir nossos pecados e acreditar na vida após a morte. No entanto, nos distanciamos dos verdadeiros valores cristãos, imprimindo ao simbólico aniversário do filho de Deus, uma confraternização mais pagã, do que religiosa. As festas não exigem qualquer reflexão, apenas o prazer de comer e beber. E, o astro principal passou a ser o produto de marketing da coca-cola...

As palavras do Sérgio, foram recebidas com pesar por todos os presentes que, ao concordarem com a sua assertiva, também lamentaram nossa submissão ao comércio de presentes, com raríssimas exceções, onde mentes e mãos caridosas aproveitam a ocasião para distribuir carinho aos mais necessitados.

Aos poucos, fomos nos retirando pensativos, mas felizes por compreender melhor o tipo de festa sugerido pelo seu Gumercindo.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 10/01/2017 às 09h09 | sannickelle@gmail.com

publicidade





publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br