Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Beau Geste

Depois de tanto ouvir meu sobrinho, Cleuson, andar dizendo em voz alta “...tem gente...”, que resolvi perguntar para minha irmã, Neusa, o que significava aquilo. Ela, então, me disse que a professora aposentada, Dona Clarice, estava ensaiando um peça teatral sobre a obra clássica dos Irmãos Grimm, para ser apresentada no caramanchão da Praça Central, no dia do aniversário do Garden City.

Disse-lhe, com cara de não ter entendido patavina:

- Tá! E o que tem isso a ver com o Cleuson andar por aí dizendo, em voz alta:

- “...Tem gente...”

- Acontece que o Cleuson, depois que sua irmã foi escolhida para o papel principal, fez questão de participar da peça teatral. Nossa! Isso deixou a Dona Clarice em maus lençóis , pois a trupe já estava composta.

_E daí! Continuo boiando, Neusa.

- A peça é sobre Chapeuzinho Vermelho! No texto não há qualquer participação de uma criança de 5 anos...- Meu Deus amado!!!!!!!!... como ele bateu pé, que queria porque queria participar, eu fui falar com a Dona Clarice. Criativa como de costume, prontamente ela simulou na imaginação que a casa da vovozinha tivesse uma latrina ou banheiro fora da casa!!!!!! Isso quer dizer que o lobo, antes de bater à porta da casa da velha, teria uma possível dor de barriga ou algo do tipo. Ao dirigir-se para a latrina, o lobo mau encontraria a porta fechada e, em ato contínuo, bateria à porta. Como a dita cuja estaria ocupada, de lá o Cleuson gritaria:

- ...Tem gente...!

_O lobo mau, então, voltaria sua atenção para a casa principal...O resto da história você deve conhecer.

- Meu Deus! E o meu querido sobrinho aceitou fazer esse papel ridículo?

- Sim. Claro que a Dona Clarice o convenceu da importância daquela participação, porque permitiu um pequeno atraso do lobo mau e o consequente aparecimento do caçador.

- Tudo bem, Neusa, mas pelo menos ele poderia aparecer e não só falar.

- Essa hipótese não foi pensada. Tu tens alguma ideia para dar?

- Depois que o lobo mau se afasta da latrina, o Cleuson abre a porta e espia para fora! Aí ele aparece!!!!!

- É! Acho que é uma boa ideia...até que não iria alterar quase nadinha de nada a narrativa... Vou falar com a Dona Clarice.

A Dona Clarice, pensou um pouco e acabou aceitando a ideia.

- No entanto nós precisamos ensaiar o Cleuson para este papel, disse ela. Qualquer inserção no texto exige que o tempo seja computado.

E assim foi. E aquela semana, antes da apresentação da peça, o Cleuson já tava vibrando. Eu, de saco muiiiitooooo cheio, estava torcendo para o domingo chegar logo... já não aguentava mais ouvir o Cleuson dizer “tem gente”.

Enfim o domingo chegou. Na Praça Central, havia muitos moradores e convidados e, no caramanchão, uma cortina composta por lençóis fechava o cenário onde se desenrolaria a peça teatral.

Os atores já estavam nos camarins improvisados que ficavam atrás dos bastidores. Tudo meticulosamente pensado pela diretora da peça, Dona Clarice.

Sentado ao lado da Neusa, pude perceber como ela tava nervosa e ansiosa; acho que pela tensão do momento de estreia do Cleuson.

Ás 19h, como previsto, as cortinas se abriram.

O primeiro cenário se passava na casa da mãe do Chapeuzinho Vermelho.

Ao som de uma melodia campestre, uma voz anunciava:

“...ERA UMA VEZ UMA LINDA MENINA CHAMADA CHAPEUZINHO VERMELHO. UM CERTO DIA SUA MÃE PEDIU QUE ELA LEVASSE UMA CESTA DE DOCES PARA A SUA AVÓ QUE MORAVA DO OUTRO LADO DO BOSQUE..”

Em seguida entra em cena a atriz mirim que fazia o papel de Chapeuzinho; a cena transcorre normalmente até o tradicional encontro com o lobo com a indefesa menina:

- aonde vai chapeuzinho? Perguntou o lobo.

- Na casa da vovó levar uma cesta de doces. Respondeu Chapeuzinho.

- Muito bem boa menina, por que não leva flores também?

ENQUANTO CHAPEUZINHO COLHIA AS FLORES O LOBO CORREU PARA A CASA DA VOVÓ;

LÁ CHEGANDO, O LOBO IA BATER NA PORTA DA CASA DA VOVÓ, QUANDO SENTIU UMA TREMENDA DOR DE BARRIGA OU COISA BEM PARECIDA. SE CONTORCENDO TODO E SUANDO A PICOS, OLHOU PARA OS LADOS E VIU UM BANHEIRO FORA DA CASA... DEPRESSA SE DIRIGIU PARA LÁ...INUTILMENTE TENTOU ABRIR A PORTA, MAS ESTAVA TRANCADA...ELE, ENTÃO, BATEU À PORTA E OUVIU O SEGUINTE:

- ...Tem gente...!

NESSE ÍNTERIM, CHEGA O CAÇADOR QUE, DE ARMA EM PUNHO, AMEAÇAVA ATIRAR NO LOBO.

Sem estar previsto no roteiro da peça adaptada, de repente o Cleuson, que resolvera espiar quem batera à porta, constatou que o caçador apontava uma arma para o lobo. Ele, então, corre em direção ao lobo e abraçando-o, grita:

- Não mate o lobo!!!! ELE é apenas um animal selvagem...

A plateia, sem saber a adaptação exata da peça, começou a aplaudir o gesto do menino, que saíra em defesa do animal selvagem. Dona Clarice, que não esperava aquele acontecimento inusitado, passou a improvisar sua fala final:

DIANTE DA IMINENTE MORTE DO LOBO, O CAÇADOR BAIXOU SUA ARMA E CORREU PARA ABRAÇAR O MENINO QUE, COM SUA CORAGEM, DEFENDEU O ANIMAL. LOGO A SEGUIR, O CHAPEUZINHO VERMELHO CHEGOU À CASA DA VOVÓ A TEMPO DE PRESENCIAR O GESTO DESTEMIDO DAQUELE MENINO. JUNTOU-SE, ENTÃO, AO CAÇADOR QUE, ARREPENDIDO, AJOELHARA-SE DIANTE DO MENINO ABRAÇADO AO LOBO, PROMETENDO NÃO MAIS MATAR QUALQUER ANIMAL.

O público, que não sabia daquela improvisação, aplaudiu de pé o final ecológico da peça. Dona Clarice, ainda surpresa, e os atores foram recebidos como heróis.

A plateia, muito emocionada, gritava:

- Viva a Dona Clarice! Viva os atores! VIVA! VIVA! VIVA! Hip-Hip- Hurra!

A Neusa, perplexa diante da iniciativa do filho, correu para abraça-lo.

Beau Geste é um filme estadunidense de 1939 do gênero aventura, que significa “Nobre Gesto”, em Francês

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/01/2017 às 10h49 | sannickelle@gmail.com

publicidade





publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br