Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Passagem de ano

A comemoração da passagem de ano, no ocidente, tem origem num decreto do governador romano Júlio César, que fixou o primeiro de janeiro como o Dia do Ano-Novo.

Atualmente, a passagem do ano-novo é celebrada por todo o mundo e, normalmente envolve shows pirotécnicos em festas públicas, reuniões familiares ou com amigos, muita comida e muitíssimas bebidas alcoólicas.

O seu Gumercindo, depois do sucesso da Festa de Natal, resolveu fazer, também pela primeira vez no Garden City, um acontecimento público para celebrar a virada do ano em grande estilo.

A Praça Central novamente seria o palco da programação festiva, com queima de fogos de artifício, comida e bebida trazida por todos os moradores, bem como uma banda para animar a virada do ano.

O plano estava perfeito, bastava preparar as condições ambientais, ou seja, o local para a queima dos fogos, uma grande mesa para a comida e muitos isopores com gelo para as bebidas. Aos mais velhos foram dispostas mesas com quatro cadeiras cada, para que pudessem assistir os fogos e comer a ceia sentados.

O Carlos Alberto, técnico em eletrônica, ficou encarregado de montar a iluminação da praça e um telão onde seriam exibidas imagens do Garden City, dos seus moradores e, quando faltassem 10 segundos da meia-noite, a contagem regressiva da mudança de ano.

As mulheres das famílias decidiram o que fariam de comidas e/ou sobremesas, de tal sorte que houvesse uma variedade condizente com as típicas ceias natalinas . Aos homens coube o encargo das bebidas, gelo e meios de acondicionamento.

Naquela semana que antecedeu o Natal, a mobilização era frenética. Enquanto os funcionários do Garden preparavam o local da festa sob o comando do síndico, uma equipe de moradores ia de casa em casa, para contabilizar o número de participantes, já que alguns convidariam parentes. Ou seja, tudo devia ser bem planejado para que não houvessem falhas.

Enfim, chegou o dia da Festa. O dia, com muito sol e um céu de brigadeiro não previa chuva a noite. A noite desceu seu manto negro e a Praça Central se iluminou, tal qual uma árvore de natal.

Os moradores e convidados, aos poucos foram chegando e organizando as comidas na grande mesa. As crianças eufóricas, corriam por toda praça e brincavam no playground infantil. Alguns moradores, no entanto, já chegaram de copo cheio na mão, brindando com os que confundem festa com beber todas.

Lá pelas 22h, a Praça Central estava lotada, como se previra pela contabilidade prévia da equipe do síndico.

O seu Gumercindo, ao microfone, pediu um pouco de silêncio para anunciar oficialmente a abertura da Festa:

_Queridos vizinhos e convidados, depois do sucesso da Festa de Natal estamos hoje aqui para comemorar de forma, também festiva, o ano que se encerra e o novo que se inicia, desejando a todos um próspero e FELIZ ANO NOVO. Sirvam-se a vontade e bebam com moderação porque a FESTA é de todos nós do GARDEN CITY.

O seu Gumercindo, nem bem tinha saído do estrado, de onde fizera a abertura official da Festa, quando sentiu um frio na espinha ao ser abordado pelo Sebastião, marido da Walquíria:

- Aí, ó, geente fiina! …Belaas pala… vrraas…alilás, eeuu seemppre fuui teu fãã…tuu sabbees não ééé…?

- O Sebastião você já está bêbado, por favor vê se não arruma confusão, tá?

- O otoridadadee… podee deixáá…, mas dizer que euu star bebum é uma… uma ofensaa, viu!

O Sebastião saiu dali e já esbarrou na mesa do seu Agenor, caindo por cima dos velhos. Foi comida e copos de guaraná se esparramando pelo chão…Mas, ainda assim, o bebum gritava:

- Descurpee… gente… foii um acidennttee, porque eu nãããoo tô bêbadooo…Alilás, tôô procurandooo bebeeerrr comm moderaçõn, mas não a encontreii…

Muitos socorreram os velhos, parentes do seu Agenor, que pediram licença para se retirar, pois depois do susto e roupas molhadas não poderiam continuar na festa.

O seu Gumercindo, lamentou o ocorrido, pedindo desculpas pela insensatez do vizinho.

Como o Sebastião poderia aprontar outras, o síndico e a sua equipe o procuraram para convencer-lhe a se retirar, mas para surpresa foram impedidos por outros bebuns, em estado até pior de alcoolização.

- Autoridade, ninguém vai tirá o Sebas dessa freessta, porque fresta é fresta, tá!

- Pessoal, festa é festa, eu concordo, mas abusos não são condizentes com a comemoração. Além disso, há aqui muitos convidados, muitas crianças, e o espetáculo deprimente que vocês estão mostrando não é aceitável. Se, querem beber todas, por favor, voltem para suas casas.

- O quê! Você, seu merdinha, está nos expulsando da feeestaa, éé?

- Merdinha não, seu desbochado safado… Seu Gumercindo, já apoiado pelo seu genro e a sua equipe, desferiu potente soco na cara do Valdir, que encabeçava o grupo de bebuns. Como um dominó o Valdir foi derrubando os demais…

Não deu outra, como um rastilho de pólvora, a luta corporal se espalhou, derrubando mesas, velhos, crianças e as comidas. A luta campal parecia não ter começo nem fim, muito embora os deixa-disso fizessem um esforço para acalmar os mais exaltados.

Por fim, prevaleceu a força e a vontade dos mais sensatos e, a festa pode prosseguir, com a expulsão, inconformada, dos baderneiros.

Este fato fez lembrar-me de uma passagem de ano que participei em Balneário Camboriú/SC, no caso de 2004 para 2005. Logo após os abraços e palavras de FELIZ ANO NOVO e a queima dos fogos, o que se viu foi uma baderna iniciada pelos que entendem o momento como “beber todas”, que acabou se estendendo como um “tsunami” entre as ruas 2300 e a Praça Tamandaré.

A situação, antes festiva, transformou-se num quebra-quebra generalizado, exigindo das forças policiais uma ação nunca, até então, utilizada.

A tropa de choque da Polícia Militar, com seus cassetetes e escudos, varreram baderneiros e gente inocente da Av. Atlântica, transformando as promessas de FELIZ ANO NOVO, em palavras vazias, sem sentido, porque muitos, há muito tempo, dizem todos os finais de ano as mesmas coisas, mas projetam, já nos primeiros minutos do novo tempo, uma perspectiva cada vez mais insana de convivência. Não muito diferente da do síndico e de seus assessores

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/12/2016 às 17h41 | sannickelle@gmail.com

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