Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Furtos

Conforme o projeto de segurança do seu Agenor foi sendo erguido e encimado com aqueles rolos de arame farpado, muitos condôminos passaram a dizer:

- Agora eu estou me sentindo seguro...

Outros, mais críticos, diziam:

- Meu Deus! Isso aqui tá parecendo um presídio de segurança máxima...

Quando, no entanto, as casas do Condomínio Green Carpet, ao lado. começaram a ser construídas, em especial os pavimentos superiores, os olhares curiosos e estranhos de alguns operários passaram a observar a rotina dos moradores. Quando saíam...quando chegavam...quando saíam todos, inclusive o cachorro e a empregada para levá-lo no pet shop, enfim essas coisas que só os espiões e os mal-intencionados fazem bem.

O primeiro furto ocorreu na casa dos meus vizinhos Sérgio e Nataly num início de noite. Coitados diziam os amigos e vizinhos:

- Como se não bastasse aquela confusão criada pelos seus vizinhos lindeiros, o Paulão e a Marialba, agora isso...

Na manhã seguinte a constatação do furto eu, que naquele dia levantara cedo, constatei junto ao murão que separava o Garden City do Green Carpet um monte de trouxas, atrás de alguns arbustos de azáleas. Fui até lá e constatei que se tratavam de roupas e eletrodomésticos. Como os operários da obra junto à divisa ainda não haviam chegado, dei-me conta que poderia ter sido deixado pelos ladrões na tentativa de escalar o murão com aqueles rolos de arame farpado. Chamei, então, o Sergio e a Nataly para averiguar se tratava-se dos objetos furtados de sua casa. Não deu outra...Eram sim todos os objetos furtados na noite anterior. Avisamos o síndico que, prontamente chamou a polícia. O agente da polícia, de nome Félix, depois de registrar a ocorrência perguntou ao Sérgio se ele desconfiava de alguém:

- Olha seu Félix a única evidência que tenho é que os objetos foram encontrados junto da obra que está sendo erigida no Green Carpet, exatamente na frente da minha, mas eu não posso afirmar se foi o pessoal que a está construindo ou se usaram a obra como passagem.

- Muito boa a sua observação, vê-se que o senhor tem faro policial...Mas eu vou checar de perto...

Chegando na obra do outro lado do Garden City, o Agente Félix procurou o mestre-de-obras, perguntando-lhe:

- Bom dia! Quem trabalha com o senhor nesta obra?

- Eu e mais dois operários.

- Algum deles dorme na obra?

- Sim, os dois.

- Por favor , então, chame-os que eu quero conversar com eles.

Quando os dois vieram, o Agente Félix, foi logo identificando-os:

- Bafo e Mão-leve, vocês por aqui? Dito isso os dois tentaram fugir, mas os policiais que estavam no carro, lá fora, os renderam.

Questionados sobre o furto e a muamba do outro lado do muro, disseram:

- Fomos nós, mas esse murão aí não deixou a gente passar a muamba para este lado. Isto é sacanagem com a gente, né Dr. Félix?

 

Vocês imaginam a felicidade do seu Agenor depois que a notícia se espalhou...:

- Eu disse, eu entendo de segurança...foi o meu projeto de muro que impediu o transporte do furto para o outro lado...Agora esses larápios vão se dar mal...

Os condôminos estavam vibrando com a segurança, mesmo aqueles que criticavam, se renderam diante da evidência e felicidade do Sérgio e da Nataly.

A questão dos furtos externos parecia estar resolvida, quando o meu filho Michel, numa certa manhã, constatou que a sua bike branca, que ele recém ganhara, tinha desaparecido do bicicletário junto a Portaria do Garden City. Pensei com ele:

- Será que agora estão usando a entrada do Condomínio para praticar furto?

Dando uma de Agente de Polícia fui até a Portaria para comunicar o desaparecimento da bicicleta, bem como sondar se o porteiro vira alguém suspeito que pudesse ter entrado e a levado... O porteiro afirmou não ter visto nada de anormal.

Estava voltando da minha primeira investida quando percebi garotos jogando bola na quadra de futebol sete, fui lá e falei com eles. Eles me disseram nada terem visto, mas um garoto se aproximou da cerca da quadra e me disse, entre dentes:

- Procure a quadra do Green Carpet que a bicicleta está lá.

Peguei o Michel e fui até lá. Quando chegamos na quadra de futebol de salão, constatamos várias bicicletas encostadas na cerca. Perguntei ao Michel:

- Alguma destas é a tua?

O Michel constatou que a sua bike branca, mesmo tendo sofrido algumas alterações por decalques, estava ali. Chamei, então, a polícia porque não cabia a mim questionar os garotos, muito menos quem estava de posse da bike.

A polícia chegou, perguntou se tinha alguma prova de que a bike era de fato aquela. Como eu já estava de posse da Nota Fiscal, caso precisasse fazer um Boletim de Ocorrência, apresentei-lhe, dizendo que a única diferença eram alguns decalques aplicados, provavelmente por quem a furtou.

O Policial interrompeu o jogo e chamou os garotos, perguntando de quem era a bike branca. O próprio não se identificou, mas os demais garotos apontaram para um rapaz magro e loiro, dizendo:

- É do Padão.

Eu e o Michel ficamos estupefatos, pois se tratava do filho do Dr. Marcelo P. Dante, médico que morava no mesmo acesso que nós, cujo apelido derivava de Chapadão.

O policial o pegou, algemou-o e o estava levando para o camburão, quando eu disse:

- Policial! Eu o conheço e ele é filho de um vizinho meu ali no Condomínio Garden City, por favor, não o leve preso e sim entregue-o ao pai.

O policial concordou e nos dirigimos para a casa do Dr. Marcelo. Lá eu tomei a iniciativa de falar primeiro com o pai do Padão, dizendo do ocorrido e que só chamara a polícia por não saber que se tratava do seu filho. Ele, me pareceu não ter ficado surpreso apenas me deu as costas e foi falar com os policiais...

 

As pessoas, mesmo tendo posição social, nos surpreendem, como foi o caso da mãe do seu Pompílio e do Vieirinha, mas isso já é outra história...  

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/08/2016 às 10h41 | sannickelle@gmail.com

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Eleição

Naquela manhã de domingo, nos reunimos na Praça Central a convite do Clóvis, mais conhecido por Coquinho, genro do seu Gumercindo, ambos tradicionalistas de Bagé, que convidara um pequeno grupo para matear junto ao caramanchão.

Entre um chimarrão e outro, enquanto a cuia passava de mão em mão, a conversa rolou solta, mas o que foi alvo de intensa especulação foi o número de candidatos a síndico, para as próximas eleições, nove ao todo.

- Nunca tivemos tal número de candidatos, aliás, sempre foi um parto conseguir quem quisesse se candidatar, disse o Luiz Paulo;

- Eu até posso tentar uma explicação situacional, disse seu Gumercindo;

- Como assim, perguntei-lhe:

- Olha pessoal, depois dessa crise política e econômica, principalmente, alguns moradores estão vendo vantagem em passar um ano isento da taxa condominial e receber, também, o honorário destinado ao síndico;

- É, o senhor até pode ter razão, mas é muito estranho que alguns candidatos que nunca participaram das atividades do Garden City, quer seja às assembleias, muito menos como colaboradores, hoje tenham a cara-de-pau de se candidatar à síndico, disse o Reinaldo;

- São nessas horas que acabamos conhecendo as pessoas, tais como nossos políticos, só se mobilizam para obter vantagens pessoais, nunca para servir à comunidade, disse-lhes;

- Acho até que alguns nunca percorreram todo o território do Garden, em especial alguns elitizados que moram junto às Praças da Frente e Central. Tenho dúvidas se alguns deles sabem quantos funcionários temos, quais empresas terceirizadas nos prestam serviços, qual a verdadeira situação das nossas ruas, das nossas quadras de esportes, entre outras coisas, disse o Sérgio;

- Você tem toda razão Sérgio, já pensou se a dona Jaslene ganha a eleição, pois todos sabemos que ela é defensora de uma elevação da taxa condominial, no mínimo ao triplo da atual. Ela inclusive acha que a Portaria é um lixo, a praça da frente sem graça, onde só se joga futebol e, não entende como não temos ainda uma sede social condizente com o status de alguns moradores;

- Ela, que mora naquela mansão na Praça Central, é unha e carne do atual síndico que, por ter cumprido dois mandatos consecutivos, não poderá concorrer;

- E aquele picareta do Valdir, que tentou ganhar a eleição falsificando procurações;

- Não brinca que ele esta se candidatando Luiz Paulo?

- Sim, e inclusive tem uma faixa na varanda da casa dele com os dizeres:

“PARA ACABAR COM A CORRUPÇÃO NO GARDEN CITY E PROGREDIR VOTE NO VALDIR”

- Meu Deus eu morro e não vejo tudo, só espero que esse desmiolado não venha com procurações falsas de novo;

- E o seu Florindo, aquele que se acha honesto e ético, será que vai se candidatar?

- Ainda não sabemos se vai como cabeça de chapa ou se como vice, mas uma pessoa que se intitula honesta e ética sem que nós o achemos, só poderá poluir a candidatura do titular, pode escrever o que estou dizendo;





- Mais um mate pessoal? Sim pode esquentar mais água que esta já tá ficando morna. É pra já disse o Coquinho.

- Mas não é só a dona Jaslene que tem uma visão elitizada do Garden? Disse o Luiz Paulo;

- Quem mais tu achas dentre esses nove? Perguntei-lhe;

- O Fabiano e o Cláudio só pensam na Praça da Frente, como se o Garden City fosse só aquele logradouro, esquecem os demais espaços, como a nossa área verde que está diminuindo para as construções de alguns serviços e estacionamentos, a coleta precária do lixo nas áreas comuns;

- Quem mais?

- A Marlene e o Arley só pensam, também, na Praça da Frente, pois são moradores do primeiro acesso. Nunca os vi andando pelo Condomínio. Como podem ter a pretensão de se candidatar para administrar aquilo que nem conhecem ?

- É, de repente eu começo a dar razão para o seu Gumercindo, só pode ser interesse que a condição de síndico oferece;

- Olha pessoal, água quentinha de novo, vão se servindo e fazer a cuia rodar, que a conversa tá muito boa, disse o Coquinho do alto de sua sabedoria campesina;

- Que erva é essa tão buenacha, perguntei-lhe:

- Essa vem do Alto Vale do taquari, onde uns parentes meus a produzem e me mandam todo mês;

- Com esta erva-mate Coquinho, esta mateada tá tão boa como a nossa prosa política;

- E os demais candidatos o que vocês acham? Voltou ao assunto o seu Gumercindo:

- Olha pessoal, eu vou até arriscar um palpite, mas é só impressão mesmo, porque eu não me iludo com deslumbrados visionários...

- De quem o Senhor está falando, meu sogro?

- Do Leonei, filho do Palhares;

- O quê, aquele pirralho vai se candidatar?

- Sim, influenciado pelo pai que, por sinal foi um bom síndico muitos anos atrás;

- Mas ele conhece a nossa realidade atual, ou vai ser mais um oportunista em busca de projeção?

- Olha gente, essa é uma resposta difícil de dar, pois aconteceu exatamente com o síndico que está encerrando o mandato. Ele prometeu mundos e fundos e frustrou a maioria de nós, deixando como herança algumas despesas superfaturadas que estão sendo investigadas pelo conselho Fiscal;

- Quer dizer, então, que o Senhor não votaria no Leonei?

- Eu não disse isso, apenas o que tenho ouvido de suas intenções que, ao que parecem são muito coerentes. Ele é o único que não divide o Garden City em frente e fundos, nem pessoas de alto e baixo padrão, nem fala em cosméticos para gastanças desnecessárias;

- De todos que nós falamos esse parece ser o cara, resta saber como os moradores vão vê-lo, afinal nós não estamos fazendo campanha para “a” ou “b”;

- É “vero” , como dizia minha mãe Amábile;

- Pessoal, obrigado pelo papo e pelo chimarrão...Até a próxima mateada.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/08/2016 às 11h34 | sannickelle@gmail.com

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Segurança

 O síndico do Garden City, sr. Prudêncio da Silva Cautela, acabara de chegar do Rio de Janeiro, que se prepara para sediar as Olimpíadas. Assustado com os procedimentos antiterror, foi logo reunindo a família e lhes falando da preocupação com a segurança no Condomínio. A família reunida na sala-de-estar o ouvia atentamente:

- Vocês não imaginam o que eu passei para não perder o voo ontem no Galeão, depois de uma espera de duas horas na fila. Na minha frente dois caras com suas enormes mochilas e, eu ainda pensei, vai apitar...que nada, passaram lépidos e faceiros...Eu, no entanto, só com a minha bagagem de mão, fui encaminhado para uma salinha onde um funcionário pediu-me que tirasse toda a roupa. Mesmo constrangido, obedeci. Ele, então, pediu que eu abrisse as pernas, ficasse de quatro, onde com uma lanterna examinou meu rabo, meus sovacos, dedos dos pés...Depois pediu que abrisse a minha valise, tirasse tudo de dentro, abrindo cada peça de roupa, e a minha “nécessaire”. Sem nada dizer, apenas me apontou a porta de saída. Puxa vida, será que eu tenho cara de terrorista, pensei comigo, mas aqueles mochileiros, por quê não foram examinados? Até lembrei-me daquele filme “APERTEM OS CINTOS O PILOTO SUMIU 2”, quando prendem uma velhinha no aeroporto, enquanto caras passam fortemente armados.

- Mas pai, o que tem isso que tu passaste no Galeão com o Condomínio?

- Tem tudo a ver, os agentes do Estado Islâmico são recrutados entre as pessoas mais simples, justamente aquelas que não despertam suspeitas. Aqui no Garden City quantas pessoas, entre funcionários, empregadas domésticas e inclusive visitantes entram e saem diariamente? São quase 100. E nós nunca as examinamos.

- Credo pai, acho que o Senhor está traumatizado com os últimos acontecimentos na Bélgica, na França, na Alemanha e nos Estados Unidos.

- Até pode ser, mas como síndico tenho a obrigação de cuidar da segurança de todos, vou, inclusive, convocar uma Assembleia extraordinária para discutir o assunto.

O EDITAL de convocação dizia:

Senhores Condôminos, considerando a onda de terror desencadeada pelo Estado Islâmico e, em especial o início das Olimpíadas em agosto, convocamos para uma Assembleia Extraordinária dia 23 de julho, sábado, às 14 h no Caramanchão da Praça Central, onde decidiremos sobre os procedimentos de segurança no Garden City.

O Estado Islâmico (EI) é um grupo radical sunita (um dos ramos do Islamismo) regido pelo autoproclamado califa (sucessor de Maomé) Abu Bakr al-Bagdadi. Atualmente, domina áreas do Iraque e da Síria, impondo uma visão radical e distorcida do Islamismo.

O grupo foi criado a partir do braço iraquiano da Al-Qaeda, rede responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Mas os movimentos têm relações rompidas desde 2014.

 

 

 

 

No dia aprazado, muita gente, assustada com a convocação, estava reunida para dar início a Assembleia.

O síndico, então falou com voz grave:

Senhores condôminos, depois do que eu passei no aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, e dos últimos atentados terroristas perpretados por agentes do Estado Islâmico, resolvi convocá-los para que possamos adotar medidas de segurança, em especial durante a realização das Olimpíadas, muitas das quais nunca imaginávamos ter que admití-las. Assim sendo, eu preparei algumas medidas que, caso sejam aprovadas, serão postas imediatamente em operação:

 

 

1. Todos os prestadores de serviços, quer sejam funcionários do Condomínio, empregadas domésticas e terceirizados serão examinados minuciosamente na entrada do Garden City. Os homens por um agente masculino e as mulheres por uma agente feminina. Utilizaremos os dois sanitários da Portaria para essa inspeção rigorosa;

2. As visitas só poderão ser feitas por pessoas previamente identificadas junto à portaria, no mínimo 24 horas antes da sua realização. O próprio carro das visitas, assim como seus ocupantes, será vistoriado pelos agentes de segurança antes do ingresso;

3. As atividades esportivas nas quadras de esporte, que normalmente reunem convidados externos, quer como indivíduos ou equipes, ficarão suspensas durante a realização das Olimpíadas;

4. Depois das 22h, todo condômino que estiver circulando pelo Condomínio poderá ser instado a dar explicação aos agentes de segurança;

5. Os agentes de segurança utilizarão cães farejadores durante a noite para detectar qualquer possível objeto estranho. Recomenda-se que os animais domésticos não sejam soltos nesse periodo noturno;

6. Ao chegar no Condomínio durante a noite, desligue o farol do carro e acenda as luzes internas para facilitar a identificação pelos agentes da Portaria;

7. Todos os carros dos moradores deverão usar nas partes superiores dos parabrisas dianteiro e trazeiro, uma faixa com os dizeres “CONDOMÍNIO GARDEN CITY”;

8. Ao sair do Condomínio, diga aos agentes da Portaria, que horas pretende voltar ou se for viajar e se a casa ficará vazia;

9. Adotaremos, em segredo absoluto, um apito que se disparado três vezes por qualquer morador, fará com que os agentes de segurança imediatamente busquem saber a causa. Todos os moradores receberão tais apitos;

 

Considerando a gravidade descrita pelo síndico, pouca gente resolveu contestar as medidas propostas. Postas em votação, foram aprovadas por unanimidade.

 

 

“O medo é uma reação de alerta muito importante para a sobrevivência dos seres humanos, mas, em alguns casos, pode tornar-se paralisante e exagerado.”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/07/2016 às 09h48 | sannickelle@gmail.com

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Seu Brasil

Nos primórdios do Garden City as divisas externas eram feitas de tela de arame e moirões, fato que deixava a comunidade dos pioneiros muito insegura, principalmente por ficar exposta aos olhares dos de fora, nem sempre bem intencionados, como diziam.

O síndico da época, então, contratou um pedreiro de nome Brasil para construir um muro de 3 m de altura encimado com arame farpado em rolo, já que o síndico, seu Agenor, Nonô para os íntimos, fora expedicionário na Itália e entendia bem de segurança. O seu Brasil, durante a execução da obra, deveria se mudar para o Condomínio, já que havia muito trabalho pela frente e também terrenos vagos.

Ele, então, se instalou nos fundos do acesso 5, em uma imensa barraca, com mulher, dezenas de cachorros, patos e galinhas. Felizmente, naquela ocasião, ainda não havia as restrições aos animais.

A primeira parte da obra começou justamente no cul-de-sac do acesso 5.

O cul-de-sac é uma expressão de origem francesa que, se traduzida literalmente, significaria fundo de saco. O termo também é utilizado com a função de designar “becos sem saída” e “ruas sem saída”. A tradução mais adequada para o português é “balão de retorno”, o qual permite que haja a mínima interferência do tráfego de automóveis sobre as residências. Pois bem, quando o grupo do Conselho Consultivo foi avaliar o trecho de obra acabado, ficou estarrecido:

- Meu Deus mas ficou muito alto, está até parecendo que estamos construindo um presídio e não o limite de um condomínio.

O seu Agenor ficou indignado com a declaração quase unânime dos membros do Conselho e disse:

- Vocês não entendem nada de segurança, pois só eu estive numa guerra e sei o que significa proteção ao inimigo, principalmente quando nem sabemos quem ele é e, além disso, para o ladrão ou terrorista esta alturinha não é nada.

- Mas, seu Agenor até a ventilação, tão necessária para os dias de verão, ficará prejudicada. Afinal precisava ser de 3m de altura mais o arame farpado em rolo?

Seu Agenor, percebendo que daquela cartola não conseguiria tirar coelho, resolveu ceder um pouco:

- Tá bom! Vamos bater o martelo em 2,5m de altura e manter o rolo de arame farpado, concordam?

- É baixando a altura do muro vai ficar menos agressivo...E acabaram concordando para espanto do seu Brasil, o qual só fizera muro com o máximo de 2m de altura. Ele, então, avisou que sairia mais caro porque haveria necessidade de construir contrafortes de concreto de 3 em 3m de espaçamento. Mas, apesar disso, os contratantes concordaram autorizando a obra.

O murão, como ficou apelidado, foi aos poucos surgindo, deixando os vizinhos lindeiros do lado sul mais isolados que os habitantes das Ilhas Malvinas, principalmente depois que os ingleses a tomaram dos argentinos.

As vezes eu ia falar com o seu Brasil, pois já o conhecia desde a construção da casa do meu sogro, na Tristeza. Ele se queixava que não o pagavam com regularidade, precisando sair para fazer alguns biscates. Nessas ocasiões eu notava uma diminuição dos cachorros, mas nunca perguntei a causa.

 

 

 

 

Mais tarde, fiquei sabendo que ele estava vendendo para um circo que se instalara na confluência da Juca Batista com a Estrada da Serraria.

Um dia, criei coragem e perguntei-lhe:

- Seu Brasil é verdade que o senhor tem vendido alguns de seus cães para o circo?

- Sim, pois eu tenho muitos e eles precisam alimentar um leão.

- O quê? O senhor tá vendendo para alimentar um leão? Meu Deus que horror! E eu que pensei que o senhor gostasse de cachorro.

- Gostá eu até gosto, mas o leão gosta muito mais.

- Pelo amor de Deus seu Brasil isso é um crime.

- É necessidade meu filho...

- E o senhor alguma vez comeu cachorro seu Brasil?

- Claro né! Os chineses não comem?

- Seu Brasil os chineses passaram muita fome entre os anos de 1958 a 1962 e para não morrer recorriam a qualquer coisa que os alimentasse, como cascas de árvores e cachorros, mas que eu saiba não é o seu caso.

- Aparentemente, meu filho. Eu também já passei muita fome e precisei recorrer a comer até cachorro. Eu os carneava e fazia sopa para dar de comer aos meus familiares. Eles nem notavam que se tratava de cachorro. Se as pessoas não sabem a origem da carne comem e se lambuzam sem remorso.

- Sabe aquela sopa que eu ofereci ao síndico e aos membros do Conselho...

- Não me diga, seu Brasil, que o senhor os fez comer cachorro.

- Sim!

- E eles gostaram?

- Pediram para repetir... É claro que eu disse que se tratava de sopa de pato. E eles até me elogiaram, dizendo não ter comido, até então, sopa tão gostosa.

- Veja, então, meu filho, que a comida que se come, até a que é comprada, pode ser de origem duvidosa, basta que a gente não fique sabendo.

- Em parte o senhor tem razão. Pois quando se trata de embutidos podemos comer gato por lebre. Além disso o que comemos tem tanto veneno, como agrotóxicos, corantes para dar aparência aos alimentos, conservantes, etc...que é bem possível que já comemos até cachorro sem saber.

- Pois é meu filho, vivendo e aprendendo com as necessidades é que vamos perdendo o nojo. Mas, por favor não conte nada ao seu Agenor senão eu perco o serviço.

- Fique tranquilho seu Brasil, não vou contar para ninguém, mas que dá uma vontade de contar e rir muito, isso dá. Palavra de honra!

Cruzei os dedos sobre a boca e voltei para casa rindo baixinho...Logo o seu Agenor com aquela empáfia que lhe caracteriza, comendo sopa de cachorro...Cheguei em casa rindo, dizendo que o seu Brasil era um grande contador de piadas.

Depois desse dia eu passei a cuidar mais dos meus cachorros, pois se ele vendia ou comia os que criava imagina com os dos outros.

Apesar de toda a segurança, não deixamos de ser assaltados, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 19/07/2016 às 08h56 | sannickelle@gmail.com

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Tocha Olímpica

Durante a passagem da Tocha Olímpica por Porto Alegre, o síndico do Garden City, seu Sabino da Silva, mais conhecido como sabiá, pessoa muito controvertida não só por ter ganho a eleição de síndico de forma fraudulenta, também era tido como megalômano, fato que preocupava seus opositores. Inclusive suas sugestões nas Assembleias eram estapafúrdias., beirando ao delirio. Por ocasião da discussão da sede social, se seria na praça da frente ou na praça central, ele sugerira que fosse feita totalmente subterranea, de tal sorte que não perturbasse os moradores por ocasião das festas. Ele, então, entusiasmado com o evento olímpico no Brasil, decidiu de forma monocrática, convencer o Prefeito Municipal de incluir o Garden City no roteiro da Tocha Olímpica, se dispondo a pagar um terço da parcela dos R$180.000,00 que cabia ao município.
O pior de tudo é que o Prefeito aceitou.

Depois de receber o aceite, o Sabiá assim se pronunciou, por escrito, aos condôminos:

- É com imensa satisfação e orgulho que comunico aos senhores condôminos do Garden City, que o senhor Prefeito Municipal decidiu incluir no roteiro da Tocha Olímpica, o nosso Condomínio. Será na manhã do dia 12 de julho. Preparem-se para esse momento cívico, portando bandeiras do Brasil e aplaudindo o nosso atleta escolhido, seu Valdir.

E lembrem-se que :

A cada quatro anos, atletas de centenas de países se reúnem num país sede para disputarem um conjunto de modalidades esportivas. A própria bandeira olímpica representa essa união de povos e raças, pois é formada por cinco anéis entrelaçados, representando os cinco continentes e suas cores. A paz, a amizade e o bom relacionamento entre os povos e o espírito olímpico são os princípios dos jogos olímpicos.

Foram os gregos que criaram os Jogos Olímpicos. Por volta de 2500 a.C., os gregos já faziam homenagens aos deuses, principalmente Zeus, com realização de competições. Porém, foi somente em 776 a.C. que ocorreram pela primeira vez os Jogos Olímpicos, de forma organizada e com participação de atletas de várias cidades-estado.

Assinado: Síndico do Garden City, Sabino da Silva.

Os condôminos, muitos dos quais politicamente esclarecidos, não só não aceitavam a escolha do nosso país para sediar esse evento elitizado, até então só realizado em países desenvolvidos, como não acharam justo desperdiçar recursos financeiros diante de outras necessidades mais emergenciais. Alguns babacas, no entanto, aplaudiram a ideia e já se mobilizavam para adquirir bandeiras do Brasil. Isso gerou um impasse entre os defensores da ideia e os contrários.

Os membros do Conselho Fiscal, instados a se manifestar, tomaram uma decisão a lá Pôncio Pilatos, condenavam a decisão monocrática do Síndico, mas nada poderiam fazer para impedir a realização do evento, o qual já constara do roteiro oficial da Prefeitura.

No dia aprazado, a Tocha Olímpica saiu da Praça Montevideo, solenemente entregue pelo Prefeito Municipal junto a Fonte Talavera de La Reina.

Subiu pela avenida Borges de Medeiros, passando sob o Viaduto Otávio Rocha, depois contornando o Centro Administrativo, passou pela Ponte dos Açorianos e seguindo pela Praia de Belas até o Estádio Beira-Rio, do Sport Club Internacional. Entre aplausos e vaias passou pelo Barra Shopping no Bairro Cristal, seguindo em direção à Vila Assunção, depois pelo Bairro Tristeza e chegando a Praia de Ipanema. Lá, uma pequena pausa para que nova turma de atletas substituissem os que iniciaram a maratona. Dali seguiram pelo Bairro Guarujá até o Quartel da Serraria. Depois pela Avenida Juca Batista, entraram no Garden City.

Na entrada do Garden City, o Síndico e um pequeno grupo se desdobravam para aos gritos e exposição de bandeiras, demonstrarem a alegria de receber a Tocha Olímpica. Logo que passaram pela Portaria, o Valdir, atleta designado pelo Sabiá, devidamente paramentado de calção azul, meias verdes, camiseta de física amarela, e tênis branco recebeu a Tocha e empunhando-a iniciou a corrida da Praça da Frente até a Praça Central.

Também, sob aplausos e vaias, desfilou convicto de que estava agradando, mas sua soberba não lhe permitiu ouvir as vaias, só os aplausos.

Alguns moradores, contrários a manifestação, indiferentes molhavam seus jardins. Até que um deles, o Clóvis, mais conhecido como Coquinho, direcionou a mangueira em direção à Tocha e ao seu conductor, que foi apagada. O Valdir, que estava em extase, de repente se viu diante do absurdo de carregar molhado uma Tocha Olímpica apagada. Foi, então, tirar satisfação do Coquinho que alegou ter sido acidental. Mas, não teve jeito, o Valdir empunhando a Tocha apagada, deu, com a mesma, na cabeça do Coquinho, quebrando-a em dois pedaços.

A mulher do Coquinho, que só presenciara a agressão do Valdir, saiu pra rua com um rolo de massa e desferiu potente paulada no agressor. O Valdir cambaleou e caiu estatelado no jardim. A Celena, esposa do Valdir, vendo aquilo tudo se grudou nos cabelos da mulher do Coquinho, rolando as duas pelo gramado, as quais só foram separadas por vários baldes de água jogados sobre as duas.

O Síndico, diante de tamanha confusão, pediu desculpas para os organizadores do evento, os quais já se mobilizavam para se retirar do Garden City. Bem que o Sabiá tentou demovê-los, mas não teve jeito. Eles cancelaram o resto do roteiro pelo Condomínio.

Enquanto o Valdir era conduzido para o Pronto Socorro, com um profundo corte na cabeça, as mulheres brigonas, continuavam se xingando, prometendo vingança.

Aos poucos, os embandeirados, com caras de “cachorro que lambeu graxa”, foram se retirando cabisbaixos, como se tivessem vindo de uma cerimônia fúnebre. Os demais, vibravam, sorrindo sorrateiramente, para não ocasionar novas brigas.

Aquele dia 12 de julho, foi decisivo para não mais se eleger síndicos de caráter duvidoso.

Quando o Garden City foi inaugurado, não havia muros nas suas divisas, apenas moirões e telas, então o síndico contratou o seu Brasil para murar o Condomínio, mas isso já é outra história…

Escrito por Saint Clair Nickelle, 11/07/2016 às 14h28 | sannickelle@gmail.com

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Férias

Durante muitos anos, enquanto meus filhos ainda eram pequenos, passávamos férias no Arroio do Sal, à época, distrito de Torres. Lá a felicidade era tipicamente sueca, ou seja o conforto ficara em Porto Alegre e, no improviso, acomodávamos nove adultos e oito crianças numa casinha acanhada, com um único banheiro. Aqui uma pequena explicação se faz necessária, pois foram os radialistas brasileiros, durante a Copa do Mundo de Futebol, em 1958, na Suécia, que constataram que os suecos costumavam passar férias em casas sem conforto algum para que ao voltar para a cidade valorizassem mais o que fora deixado.

A água era extraída de um poço abissínio, constituído por um tubo de extremidade pontiaguda, dotado de perfurações acima desta extremidade e introduzido em camadas de solo de dureza moderada. A água devia ser bombeada no muque e, para beber, devia ser fervida.

Não tínhamos refrigerador e o meu sogro, muito inventivo, utilizava uma gaiola com telinha tipo mosquiteiro para guardar salame, manteiga, aproveitando o frescor da noite.

Do desconforto nunca nos queixávamos, pois a praia de areias brancas e muitos cômoros fazia nossa alegria todos os dias.

A água do mar das praias do sul são sempre geladas e, dizem os mais velhos, faz bem pra saúde.

Para entrar na água era um verdadeiro ritual. Primeiro o choque térmico nos pés, depois molhávamos os pulsos, e as canelas, aí abaixávamos e era a vez do pescoço e do rosto, por fim, aos pulos, adentrávamos ao mar feito golfinhos, pulando para fora e mergulhando. Bom, depois de meia-hora o corpo se acostumava e ficava muito gostoso. O terrível é que quando estávamos no meio do ritual vinha um sacana e jogava água nas nossas costas a qual, aquecida do sol, parecia tortura da Santa Inquisição, onde devíamos confessar fazer bruxaria. Nossa vontade mesmo era afogar nosso algoz

As praias do sul tem outra característica, são muito piscosas, onde abundam peixes de escama como papa-terras e corvinas, peixes de couro como arraias e bagres. Outra abundância que as vezes incomodava nossos banhos eram os siris, dentro d´água e, fora, os moçambiques (pequeno artrópode marinho, bivalve) e mariscos brancos.

O Duda, meu sobrinho, foi o que mais demorou para entrar no mar, pois para entrar na água tinha que passar pelos moçambiques, que se desenterravam naquela parte da areia onde a água se espuma. Mesmo com nosso constante incentivo de “vem Duda, vem, a água está morna”, mesmo assim ele fugia desesperado.

Nem todos os dias o mar estava adequado para o banho e principalmente para as crianças. Muito embora fizesse muito calor em janeiro, quando a bandeira estava vermelha ou preta ninguém se arriscava a enfrentar o mar revolto, só quando estava amarela ou branca, esta última uma raridade.

Vi muitos afogamentos com bandeira vermelha, com a preta só não ocorria porque os banhistas tinham que ficar em cima dos cômoros onde o mar, mesmo violento e lavando toda aextensão de praia, não nos alcançava.

 

 

Perto do meio-dia uma ordem de retirada devia ser obedecida e, mesmo com a choradeira das crianças, rumávamos para casa.

Parecíamos um bando de refugiados carregando cadeiras, esteiras de palha, guarda-sóis, pazinhas, baldinhos e crianças chorando sendo arrastadas.

Ao passar pelos hotéis que ficavam entre o mar e nossa casa, o Torres, o Vargas e o Trieste, nossa fome aumentava com aquele cheiro gostoso de comida caseira, mas não podíamos almoçar lá, era muito caro para nossas parcas economias.

A hora do almoço era uma zorra, primeiro comiam as crianças e depois os adultos, mas o Zé, meu concunhado, sempre achava um jeito de contrariar a regra, permitindo que o Roger ou o Régis sentassem no seu colo enquanto comíamos. Aparentemente nada demais, mas os dois pimpolhos ficavam enchendo o saco quando o Zé lhes permitia alcançar os bolinhos de arroz contados, dois para cada adulto.

Depois do almoço sentávamos na varanda para esperar o vendedor de puxa-puxas e rapadurinhas de leite. Quando ele chegava era um regalo para os adultos e as crianças. Jamais consegui provar, em tempos atuais, gostosuras como aquelas.

Com o passar do tempo, o comércio foi se sofisticando, embalavam em papel celofane, mas o sabor ficou perdido no passado ou talvez nosso paladar tenha ficado mais exigente.

Depois da sobremesa, aos adultos era servido um cafezinho feito pela Zinha, uma preta velha que trabalhava na casa do meu sogro.

Durante a tarde, enquanto as crianças brincavam na frente da casa, nós tirávamos aquela sesta embalados pela bucólica monotonia das praias pequenas.

Ao final da tarde comprávamos dois pães d’água de meio quilo cada um. Ele vinha quentinho e embalado em papel manteiga. Sua casca crocante era disputadíssima. Presenciei algumas brigas das mulheres que disputavam as pontas crocantes daqueles apetitosos pães. Café com leite pão e manteiga antecipavam nossa janta de postas de papa-terras fritos.

Os peixes, já trazíamos eviscerados da praia, bastava temperá-los e passá-los na farinha de mandioca ou trigo. Nossa janta, as vezes, era feita a luz de lampião, não por sofisticação, mas porque às 22h acabava a luz. Nessa época a energia elétrica provinha de um gerador a diesel.

Antes da janta, dávamos banho primeiro nas crianças, depois os adultos que, em fila, discutiam quem estava mais queimado do sol. Lembro-me de queimaduras homéricas que só deixavam a gente dormir passando vinagre para aliviar. Ficávamos com cheiro de carne temperada.

Antes da luz acabar ainda jogávamos um poquerzinho ou pontinho só por brincadeira, mas mesmo assim alguns arranca-rabos eram constantes, quando alguns prometiam nunca mais jogar cartas, mas na noite seguinte começava tudo de novo. Afinal não havia muito o que fazer naquele ermo distante da capital e do Garden City.

Depois que esse tempo nos deixou apenas com as lembranças é que demos o verdadeiro valor, onde a felicidade não estava no meio rústico da casa e da praia, mas em nossas cabeças. Éramos felizes e não sabíamos.

 

Muitos anos depois passei algumas férias em casa, por não haver coincidência entre as férias das crianças e a minha, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 04/07/2016 às 09h57 | sannickelle@gmail.com

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