Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A prima da Vera

Com a chegada da primavera, a beleza dos jardins faziam do Garden City um diferencial de qualidade e bom gosto. Tudo isso decorria de uma excepcional dedicação da maioria dos condôminos e, em especial, da iniciativa do seu Hortêncio que, quando fora síndico, instituiu um prêmio para o jardim mais cuidado e florido.

Seu Hortêncio era um homem defensor da natureza e o Garden foi, desde o seu nascimento, um campo de oportunidades para a sua incansável busca de equilíbrio entre as edificações e os espaços abertos. Foi ele que junto com a Dona Sandra, uma sensível bióloga, e o jardineiro Efraim plantaram a maioria das frutíferas.

Enquanto a maioria dos moradores passaram a se dedicar ao embelezamento de seus jardins, comprando amores-perfeitos, bromélias, petúnias, empates, begônias, etc., a mãe do seu Pompílio e do Vieirinha, dona Florisbela, prima da Vera da casa 2, no entanto, só roubava plantas dos outros. O jardim da dona Florisbela nunca foi premiado, porque mais parecia um depósito de plantas do que algo planejado, afinal ela plantava o que conseguia nas suas saídas noturnas.

Dizem as más línguas que os irmãos nunca ficaram sabendo de que sua distinta mãe roubava, pois pose ela até tinha durante o dia, era na verdade um cleptomaníaco, pessoa que furta por prazer. Ficou inclusive conhecida como a VELHA DAS PLANTAS.

Sempre que saía para passear, em especial a noite, levava consigo uma sacola de palha onde escondia as plantas roubadas. Nunca levava plantas que formassem uma harmonia paisagística, mas sim o que naqueles momentos fosse mais fácil de se apropriar. Por isso seu jardim era tão esquisito. Acho que os seus filhos nunca tiveram bom gosto também, pois jamais criticaram o jardim de sua mãe.

A situação ficou tão peculiar que os demais moradores, que se dedicavam honestamente aos seus ajardinamentos, passaram, via whatSapp, a avisar quando a velha saía para seus passeios noturnos. Quando ela se aproximava de algum jardim os moradores também saíam como se fossem regá-los, ou então dirigir-lhe um cumprimento. Essa estratégia bem que funcionou durante um tempo, mas exigia uma vigília permanente.

O seu Gumercindo, meu vizinho de acesso, bolou uma estratégia para desmascarar a velha ladra. Falou com seu filho que era Engenheiro Eletricista, e pediu-lhe para bolar um plano de alarme associado a uma iluminação potente que, quando a pessoa fosse arrancar uma ou várias plantas, num canteiro recém formado, dispararia a engenhoca e a ladra ficaria exposta ao flagra.

Seu Gumercindo avisou então toda a vizinhança para que na noite do próximo sábado ficasse de plantão. No sábado de manhã fez um belo canteiro novo onde plantou empates de duas cores, vermelhos e rosas, fazendo um tradicional alarde para a beleza do resultado. Também pediu para os funcionários do Garden City, Elias e Galeão, que recolhiam lixos das casas aos sábados a tarde, para falarem do belo jardim da casa 62, recém plantado.

É claro que a dona Florisbela ficou sabendo e também muito interessada em conhecê-lo.

A armadilha estava pronta e na hora aprazada, aguardariam a chance de desmascarar a velha ladra.

A Dona Florisbela estava se preparando para seu passeio noturno quando lhe chegou visitas. Guardou a sacola de palha e foi recepcioná-las como manda a boa educação. Afinal a noite é longa e quanto mais tarde ela saísse, até lhe seria mais sossegado “passear” pelo Condomínio.

A noite com seu perfume de flores caiu rapidamente, dando lugar as luzes artificiais das lâmpadas de mercúrio que iluminavam amplamente o Garden City.

Os cães estavam presos, as crianças e os adultos jantando as vésperas do domingo, quando os celulares, pelo whatSapp, começaram a dar sinais de mensagem recebida. Era um dos vizinhos da frente, no acesso da casa da dona Florisbela, avisando que ela acabara de sair, mas não estava só, acompanhavam-na, um casal de idade. O alerta foi recebido por toda a turma previamente avisada.

Acabaram os jantares as pressas e saíram para ocupar posições estratégicas, esgueirando-se por entre os arbustos mais altos. Aguardaram um bom tempo, alguns até cãibras tiveram, precisando voltar para casa ou ser massageados ali mesmo, sob uma vaia de psius... Outros não paravam de cochichar e também foram alvo dos psius... Até gato apareceu diante de tanto psiu...psiu...

De repente um vulto se aproximou do canteiro do seu Gumercindo, mas era o seu filho que fora dar uma última conferida...

Os minutos passavam e nada da velha ladra, alguns atocaiados já estavam pensando em desistir quando outro vulto apareceu. Pelo lusco fusco da noite não se podia afirmar se era homem ou mulher. Mas o vulto com uma sacola na mão denotava tratar-se da velha. Ela disfarçou um pouco, andando como se estivesse passeando, mas logo parou diante do canteiro recém plantado. Agachou-se e puxou um pé de empate. Em ato contínuo, para alegria do filho do seu Gumercindo, o alarme disparou e um potente holofote iluminou a cena. Todos os atocaiados se aproximaram e em uníssono gritaram:

- Pegamos a velha ladra...

Mas a surpresa foi geral quando constataram que a ladra era nada menos que a Catilina, moradora do último acesso e vizinha da Neusa, a mesma que depenou um abacateiro, colhendo num único impulso 80 abacates. Ela ainda perplexa teve a cara de pau de perguntar o que estava ocorrendo, pois disse simplesmente:

- Eu estava admirando o novo canteiro e tentei fixar melhor um empate que me parecia solto da terra.

Nesta altura a perplexidade e a dúvida perpassavam em todos. Teriam cometido uma injustiça?

O seu Gumercindo, como cachorro que lambeu graxa, não sabia o que dizer... desarmou a arapuca e se retirou aos prantos consolado por seu filho. Os demais também foram pouco a pouco voltando para suas casas. A Catilina saiu de fininho, tal qual criança mijada.

A noite cumpriu seu turno e acordou com os primeiros raios de sol.

Seu Gumercindo, ainda sonolento da noite mal dormida, foi até a janela e viu seu canteiro sem uma flor sequer...

 

Fazer justiça com as próprias mãos é crime numa sociedade civilizada, mas isso já é outra história...

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/09/2016 às 18h11 | sannickelle@gmail.com

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A síndrome chamada segurança

Depois que a notícia se espalhou de que uma empregada doméstica fora atacada dentro do Garden City, os moradores, mesmo sem saber o que de fato ocorrera, criaram verdadeira síndrome de segurança, com excessiva obstinação e compulsão por tudo, por mais banal que fosse. Era telefonema pra lá e pra cá, mensagens pelo whatSapp, disque disque entre vizinhos, enfim uma intensa mobilização para controlar tudo o que ocorria no Condomínio.

 

Júlio:

- Bom dia pessoal, estou observando um carro Uno preto estacionado junto a Praça da Frente, com dois suspeitos dentro, estacionado bem em frente à minha casa. Um dos caras desceu deu uma olhada para dentro da minha casa e voltou para o carro. Minha esposa, que estava observando da janela, achou a atitude muita suspeita. Alguém sabe de quem é esse carro?

Elisandra:

- Eu moro junto a Praça Central e acabo de ver um suspeito de bicicleta preta, magro, de óculos escuros, trajando bermuda cinza, camiseta amarela, olhando casa por casa. Alguém sabe quem é?

Catarina:

- Pessoal, agora que estamos de olho vivo, observando o movimento de carros e pessoas no Condomínio, certamente teremos mais tranquilidade e segurança;

Solange:

- Estou achando ótimo, daqui a pouco os malandros e mal-intencionados irão saber da união dos moradores do Garden City e, certamente, vão pensar duas vezes antes de tentar cometer algum delito;

Sedenir :

- Acho que devemos postar tudo que suspeitarmos, mesmo que por engano. Não importa se forem estranhos ou mesmo moradores... Os vizinhos vão entender;

Siqueira:

- Dona Solange, antes de você suspeitar de alguém, é preciso saber se é morador do Condomínio, empregado, prestador de serviço, visitante, etc. ;

Diego:

- Alguns excessos precisam ser tolerados Siqueira, senão nossa tranquilidade vai ser comprometida. A nossa segurança não depende exclusivamente dos Agentes do Condomínio, mas sim de nós...UM POR TODOS E TODOS POR UM;

Samuel:

- Pessoal, acabei de fazer uma ronda pelo Condomínio, já que hoje é domingo e só há Agente de Segurança na Portaria, mas não encontrei ninguém suspeito;

Bruno:

- Eu quero avisar a dona Elisandra, que quem estava pilotando a bicicleta preta era eu. Moro na casa 61, em frente à Praça Central...Fique sabendo, Dona Elisandra, que eu não sou ladrão, muito menos suspeito. E, outra coisa, o fato de eu andar olhando para as casas é por razões pessoais, que só interessam a mim. Eu não sou nenhum robô que vai sair de cabeça baixa só porque a senhora quer;

 

Elisandra:

- Peço desculpa Bruno se te ofendi, mas espero que o caso tenha sido esclarecido em nome de nossa bendita segurança, já que foi esse, acima de tudo, que nos fez decidir morar em condomínio;

Valdir:

- Tenho uma Ranger azul e também sempre ando devagar pelas ruas do Condomínio. Faço isso devagar justamente para sondar possíveis suspeitos e, antes de adentrar em minha residência, passo 2 ou 3 vezes para saber se tá tudo bem;

Júlio:

- É isso aí Valdir, segurança é prioridade, estamos de olho em tudo, inclusive nos vizinhos suspeitos, quer andem a pé, de carro ou de bicicleta;

Siqueira:

- Essa não Júlio, como assim vizinhos suspeitos? Você ficou louco cara;

Júlio:

- Por quê louco? Até agora não sabemos quem atacou a empregada do San. Tu já esqueceste daquele sujeito que morava na casa 76, procurado pela INTERPOL que, segundo a polícia pertencia à máfia italiana e possuía várias acusações por matar cães e gatos?

Valdir:

- Chego em casa muito tarde sempre, pois também trabalho a noite e não acho nada exagerado suspeitar de todos ;

Ana:

- Meu Deus! Se é assim, os moradores do Garden City estão precisando de tratamento psicológico, muito mais do que de segurança. Além disso precisamos manter a amizade como forma de convívio saudável;

Júlio:

- Quem não deve não teme... SEGURANÇA ACIMA DE TUDO!

Valdir:

- É isso aí Júlio. Estamos juntos nessa missão. O grupo de segurança não foi feito para disque amizade e. sim, para nos dar tranquilidade;

Ana:

- Vizinhos, sei que não é disque amizade. Também não falei em amizade de forma gratuita, mas para lembrar que sem ela a segurança, do tipo policialesca, não resolve tudo. A amizade atenua em muito as suspeitas infundadas, permitindo que haja mais confiança entre os vizinhos;

Diego:

- É isso aí dona Ana. Não podemos nos cercar de aparatos de segurança, suspeitando de todos, como se estivéssemos não num condomínio e sim num PRESÍDIO DE SEGURANÇA MÁXIMA ;

Bruno:

- Pessoal, seria bom falarmos com o síndico, delegado aposentado Luiz Paulo, para que ele reative o programa SEGURANÇA VIA WHATSAPP, já que aquele que foi suspenso, alguns anos atrás, se deveu a não termos maturidade suficiente para bem usarmos o meio que o celular nos propiciava;

Diego:

- Muito bem lembrado Bruno. Falaremos com o síndico;

 

A reinstituição do Programa SEGURANÇA, VIA WHATSAPP, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 15/09/2016 às 09h52 | sannickelle@gmail.com

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À noite, todos os gatos são pardos

Era fim de tarde, o manto da noite arrastou os últimos resquícios da luz do dia, as sombras das árvores se agigantaram e no meio delas um vulto estranho espiava silente.

Com latidos tensos e esganiçados os cães próximos o percebiam, mas os moradores, em seus afazeres domésticos, não lhes deram atenção. Os guardas- noturnos ainda não tinham iniciado sua jornada e, na Portaria, os últimos empregados do Garden marcavam o ponto de saída. O horário parecia propício para um investida pecaminosa.

A maioria das empregadas domésticas já haviam saído, mas sempre havia quem se atrasasse. Foi o caso da Noeli, que saíra lá de casa por volta das 19horas.

Como morávamos no acesso 5, o seu deslocamento até a Portaria duraria, pelo menos, uns quinze minutos. Após a sua saída, dei-me conta de não tê-la entregue o remédio para tosse que ela me pedira para comprar. Liguei, então para a Portaria. Fui atendido pelo seu Ernesto, que a conhecia bem.

- Seu Ernesto, a Noeli, que trabalha aqui em casa, deve estar passando pela Portaria daqui a pouco, o senhor poderia pedir-lhe que me aguarde, pois vou levar-lhe o remédio que ela me pedira.

- Tudo bem seu San. Ela ainda não passou aqui.

Peguei o carro e fui até a Portaria, imaginando que ela lá estivesse... Mas, ela ainda não havia chegado e, também, eu não a vi no caminho...

Falei para o seu Ernesto:

- Algo estranho pode ter acontecido, pois pelo que eu conheço da Noeli, ela não tem o costume de parar para conversar com quer que seja. Algum segurança da noite já chegou?

- Sim. Ele deve estar vestindo o uniforme na Guarita Central.

- Vou até lá, então.

Peguei o carro e me dirigi à Guarita Central.

A Guarita estava às escuras, mesmo assim, desci do carro e bati na porta. ...O silêncio foi a resposta que eu não esperava . Abri a porta, acendi a luz e constatei, para meu espanto, que os uniformes dos seguranças noturnos estavam pendurados num cabideiro próprio.

Preocupado, liguei para a Portaria...

- Seu Ernesto, quem é o guarda que passou pela Portaria?

- Foi o Morgado, por quê seu San?

- Tem algo muito estranho acontecendo, Ernesto. Liga para o síndico e pede que ele me encontre na Guarita Central...

_É pra já seu San.

Alguns minutos depois o carro do síndico, na ocasião, o Luiz Paulo, delegado de polícia aposentado, chegou...O informei do acontecido até, então. Pela sua experiência de policial, por mais de 25 anos, ele me disse:

- Olha San, não tenho ideia exata de com quem estamos lidando, já que essas firmas de segurança, por questão de economia, contratam gente sem muito critério. Vamos fazer uma varredura daqui até a tua casa. Peço que tu fiques perto de mim, pois estou armado e se for necessário serei obrigado a usá-la.

 

 

Saímos, então, com uma missão incerta:

Saber o que teria acontecido com a Noeli?

Depois de passarmos pela chamada rua projetada, que caracteriza o meio do Condomínio, percebemos que os cães das casas do Green Carpet, que ficam na divisa com o nosso, estavam agitadíssimos, latindo sem parar.

O Luiz Paulo, empunhando o 38, pediu-me por gestos que fizesse silêncio... Penetrou entre as árvores e falou aos gritos:

- Estou armado e se alguém estiver aí que se acuse. Ouviu-se, então, uma corrida entre a vegetação, como se alguém estivesse fugindo dali. O Luiz Paulo foi na direção de onde o ruído se iniciara e constatou o corpo de uma pessoa caída entre as folhas. Ele, então, pediu-me para eu me aproximar e fizesse o reconhecimento...

-É ela Luiz Paulo...é a Noeli.

Ela estava no chão, tremendo e tentando falar, mas não conseguia articular qualquer som audível.

- Noeli, fica calma, você agora vai ficar bem. Está machucada? De novo, não conseguiu responder.

Agora eu vou levá-la até O Cruz Azul para seres medicada. Esse corte no lábio, provavelmente precisará de pontos... Levei-a até meu carro, enquanto o Luiz Paulo continuava no encalço do bandido

Ao sair avisei a Portaria de que o bandido, que ainda não tínhamos certeza de quem era, não poderia sair e, se fosse o Morgado, ele deveria ser impedido de sair, a qualquer custo.

Como os outros dois seguranças noturnos já estavam ali batendo ponto de entrada, pedi-lhes que se dirigissem até a Praça Central, para dar apoio ao síndico.

Depois de medicada eu levei a Noeli até sua casa, na Vila dos Sargentos, dizendo-lhe que tirasse o dia seguinte de folga. Ela aceitou ainda muito assustada.

Voltei para o Condomínio.

Lá encontrei o Luiz Paulo na Portaria com o Morgado sob custódia, estava a espera da Polícia Militar para o registro da ocorrência.

O Morgado, que estava ferido no rosto, parecia mais a vítima do que o algoz.

Seu rosto, lanhado de cima a baixo sob a pele, parecia uma máscara de ritual macabro...Se havia algo de que pudesse se arrepender, certamente foi o de atacar uma mulher valente, que não se submeteria aos seus desejos pecaminosos sem lutar. Para nossa surpresa, no entanto, ele negava ter sido o causador do atentado e, que os arranhões no seu rosto, foram produzidos por uma mulher enfurecida, ao defender a vítima.

Só nos restava ouvir a vítima, antes de entregá-lo à Polícia. Voltei, então, a casa da Noeli, a qual me confirmou que quem a atacara foi a moradora da casa 52, ou seja a dona Marialba e, que, se não fosse a intervenção do segurança algo pior poderia ter ocorrido com ela. - Mas, porque razão Noeli?

- Não sei ao certo, mas acho que por ciúme do marido. Algumas empregadas comentam que ele costuma dar em cima delas...Embora esse não seja o meu caso.

Após pedirmos desculpas ao Morgado, o Luiz Paulo fez questão de registrar no Livro de Ocorrências da Portaria a atitude digna do empregado.

Enfim, a noite agora parecia mais calma...Nas casas os moradores nem perceberam o ocorrido, mas eu e o síndico ainda estávamos tensos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/09/2016 às 10h21 | sannickelle@gmail.com

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A linguagem da alma

Quando o pai do seu Arley, Otávio Casimiro de Abreu, foi síndico, em décadas passadas, ele instituiu pela primeira vez um Concurso de Poesias intitulado “A LINGUAGEM DA ALMA” que, deveriam ser inéditas e escritas exclusivamente pelos moradores do Garden City. Vários moradores se candidataram e o prêmio

seria a publicação da eleita ou eleitas no jornal do Condomínio.

O júri ficou formado pelo síndico e pelas professoras de literatura Martha Olavo Bilac e Cecília Adélia do Prado.

A dona Walquíria concorreu com a poesia:

 

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

 

O Clóvis, mais conhecido como Coquinho, apresentou a seguinte poesia gaudéria:

 

Quem se espalha num rodeio ?deste meu Rio Grande Flor,

?com manhas de narrador? chega fazendo floreios.

?Foi por isso que nós viemos, ?com a goela mais afiada ?que aspa de boi brazino!

O medidor mede flerte por flerte, ?cada tento, cada braça,

?como se fossem léguas de campo,

?liberando para a boca do brete, ?num descampado ?ou na cancha de um rodeio!

O laçador e seu cavalo?s e tornam um só,

?medindo força e cansaço,? pealando sobre o malino, ?num campo sulino!

O breteiro aponta o destino, ?abre a porteira ?pro laçador que sai ?rasgando cancha e abrindo laço,

?que se deslancha nas guampas ?do boi brazino!

A comissão é como se fosse ?a mão do patrão,?

abençoando homens, cavalos, ?touros e laçadas,?com bandeirolas brancas ?e coloradas!

Esta é a minha homenagem ?a todos esses homens rudes,

?na estampa de inigualável coragem.

?Deixo aqui minha mensagem,? que o verso está no corredor:

?Deus abençoe o laçador, ?desbravador de fronteiras!

 

A dona Cláudia, da casa 13, concorreu com a poesia:

Nos sonhos da vida,

A luz de um grande amor surgiu

E nessa luz havia eu.

E o imenso branco que me fez paz,

Te trouxe irradiando vida

E, te senti, senti...

A felicidade foi tanta

Que não quis me despedir

Disso que poderia ser o amor,

A dor, a sorte ou quem sabe a morte,

Meu ser, então, te renegou

Por medo desta mesma dor...

Sofri, sofri...

Sem saber que isto nada mais foi

Do que ir ao infinito.

Eu apresentei a seguinte:

TUDO ESTÁ COMO ERA ANTES

Faz frio...

No chão, folhas amareladas dançam

Jogadas pelo vento.

Não se vê ninguém na rua.

É muito cedo, pensei comigo.

As casas todas fechadas,

Ouve-se apenas o farfalhar das folhas.

Junto a janela,

Minha solidão aumenta..

Colo o rosto na janela e,

Minha respiração embaça o vidro,

tornando aquela paisagem grotesca, turva e disforme.

Retiro com lentidão uma das luvas e,

minha mão trêmula, desliza sobre a superfície fria do vidro,

Escrevo um nome de mulher...teu nome...

Na transparência do teu nome, vejo lá fora

Árvores coloridas, variando do verde ao vermelho e

Em seus galhos pequeninas flores desabrochando,

Percorro os olhos através do teu nome e

Vejo jardins floridos.

Perplexo esfrego os olhos com força,

Espero as pupilas se acomodarem para ter certeza,

Mas lá fora,

Apenas árvores velhas e vazias,

Sacodem com rigidez, uma galharia sem vida.

A dona Walquíria e o Clóvis foram desclassificados, por apresentarem cópias de poesias de outros autores, identificados como “DESEJOS VÃOS” de autoria da Florbela Espanca e “PRA QUEM ANDA NOS RODEIOS” de Tapejara. Somente eu e a dona Cláudia fizemos por merecer a publicação no Jornal do Garden City. Não é só de poesia que a vida no Condomínio se realiza e, naquele início da noite, de uma sexta-feira 13, algo muito estranho aconteceu, mas essa já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 30/08/2016 às 14h53 | sannickelle@gmail.com

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Entrevista com candidatos

 No Garden City três estudantes de jornalismo, Diego, Ricardo e Rodrigo, resolveram, como atividade prática, entrevistar os candidatos à síndico naquela eleição inusitada pelo número alto de pré-candidatos. Relato das entrevistas:

- Como o Sr., seu Fabiano, pretende implementar um diálogo permanente com as pessoas?

- Bem, essa é uma força de expressão, onde eu me colocarei à disposição dos condôminos, caso seja eleito. Minha casa estará sempre de portas abertas.

- Como o Sr. pretende reunificar o Garden City, onde a turma da frente, dos fundos e do centro estão sempre disputando mais espaço e atenções?

- Olha essa questão de fato não é fácil, mas com a disposição que tenho para manter um diálogo permanente com as pessoas acho possível reunificar os interesses de todos, especialmente dos que moram junto à Praça Central.

- O atual síndico, que encerra mandato, ignorou as necessidades das pessoas e implementou obras faraônicas superfaturadas. Como o Sr. pretende fazer uma gestão decente?

_Não fazendo obras faraônicas.

- O seu plano de gestão já está definido?

- Na verdade ainda não está definido, mas pretendo concebê-lo tão logo seja eleito.

Após os agradecimentos de praxe, os três estudantes se reuniram para comentar:

- Ele me parece um pouco deslumbrado com alguns chavões, disse o Ricardo. No entanto, se cumprir o que promete, poderá fazer uma boa gestão;

- Muitos políticos usam esses expedientes de prometer trabalhar junto das pessoas, mas depois de eleitos fazem o que seu grupo de apoio quer, complementou o Rodrigo;

- Ele, o seu Fabiano, é jovem, um cara muito simpático, bem articulado para falar, mas daí se candidatar sem um plano de gestão definido, é dose..., disse o Diego.

O segundo candidato, ou melhor candidata foi a Dona Jaslene:

- Dona Jaslene, é verdade que a Senhora é megalômana?

- Gorda, eu? Quem disse isso?

- Não! Não. A Senhora não entendeu a pergunta. Megalômano é aquela pessoa que adora tudo aquilo que é excessivo e grandioso;

- Bom, acho que sou isso mesmo, pois adoro morar no centro, detesto periferia, onde as pessoas e mesmo as casas são feias, mal cuidadas. Foi por isso que construí minha casa junto à Praça Central. Aqui o esporte é elitizado, com quadras de tênis, Paddle, coisas de gente de bom gosto.

- Mas, como síndica a Senhora vai ter que administrar para todos, não poderá só pensar nos moradores do Centro.

- Sim, isso é verdade, mas eu pretendo, como o síndico que vou substituir, criar condições físicas para que o Garden City seja requintado, com quadra de tênis coberta, sede social de alto nível, Portaria que expresse a grandeza desse Condomínio, entre outras coisas.

- E, para fazer tudo isso?

- Reajustar a taxa condominial que está muitíssimo abaixo das nossas pretensões;

Depois dos agradecimentos, os três entrevistadores assim comentaram:

- Meu Deus! O que vai ser do Garden City se essa mulher se eleger, disse o Diego;

- Ela segue o modelo de gestão do atual síndico, comentou o Rodrigo;

- Só que para pior, eu acho, disse o Ricardo. Ela ignora completamente que, mesmo num condomínio, como o nosso, há culturas multifacetadas, com distintas crenças e visões de mundo;

O terceiro candidato é o seu Arley :

- Candidato, há quantos anos o Senhor reside no Garden City?

- Cerca de 18 anos;

- O Senhor já participou alguma vez da administração do Condomínio?

- Até agora não;

- O que o motivou para se candidatar?

- Eu penso que falta no Garden City uma matriz econômica da cultura;

- O que o Senhor quer dizer exatamente?

- Aqui dever-se-ia promover eventos culturais como feira do livro, dança, folclore, exposições de artes, oportunizando aos moradores mostrar seu lado criativo;

- Foi seu pai, há alguns anos atrás, que instituiu, como síndico, um concurso de poesia, não foi?

- Sim. E só não foi adiante por que houve muitos plágios.

Interessante esse seu ponto de vista, mas como o Senhor, na condição de síndico, pretende implementar essa matriz da cultura e criatividade?

- Eu não pretendo me candidatar à síndico, mas apenas a membro do Conselho.

Depois dos agradecimentos pela entrevista, os estudantes assim comentaram:

- Ele tem pretensões de síndico, mas se candidata a membro do Conselho Fiscal, está totalmente por fora do papel de um ou de outro, parece-me um alienado buscando espaço político, disse o Rodrigo;

- Tu tens razão Diego, desconhecem o verdadeiro papel de síndico e, aí, quando assumem só fazem bobagens.

Nosso próximo candidato é o seu Palhares:

- O Senhor já havia indicado o seu filho, Leonei, para concorrer, porque a mudança na última hora?

- A falta de experiência não o habilita a se candidatar à síndico, em especial diante de outros concorrentes muito fortes, como o Fabiano e a dona Jaslene;

- O senhor já ocupou diversos mandatos de Conselheiro na Administração do Garden City, isso teve influência na sua decisão de concorrer novamente?

- Na condição de conselheiro a gente vê o que maioria dos moradores e dos próprios síndicos não enxergam. Isso, eu creio, me habilita sim a não cometer os mesmos erros;

- Mas, seu Palhares, procurar não cometer erros é um princípio fundamental para a higidez de qualquer administrador, isso, no entanto, não significa que a sua administração possa alcançar as expectativas dos moradores. O que o Senhor pensa a esse respeito?

- Cá entre nós, o que tu quiseste dizer com higidez?

- A higidez física e mental é condição “sine qua non” para o exercício de função pública que, por extensão, se aplica aos cargos eletivos, como o de síndico por exemplo.

- Eu peço que vocês não falem grego comigo, tá bom;

- Tudo bem seu Palhares.

- E no seu plano de gestão quais são as prioridades e as metas?

- Olha pessoal, vocês cansaram a minha beleza, eu não estou aqui para ser desafiado por uns pirralhos, só porque são estudantes de jornalismo...Tchau.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 23/08/2016 às 10h24 | sannickelle@gmail.com

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Furtos

Conforme o projeto de segurança do seu Agenor foi sendo erguido e encimado com aqueles rolos de arame farpado, muitos condôminos passaram a dizer:

- Agora eu estou me sentindo seguro...

Outros, mais críticos, diziam:

- Meu Deus! Isso aqui tá parecendo um presídio de segurança máxima...

Quando, no entanto, as casas do Condomínio Green Carpet, ao lado. começaram a ser construídas, em especial os pavimentos superiores, os olhares curiosos e estranhos de alguns operários passaram a observar a rotina dos moradores. Quando saíam...quando chegavam...quando saíam todos, inclusive o cachorro e a empregada para levá-lo no pet shop, enfim essas coisas que só os espiões e os mal-intencionados fazem bem.

O primeiro furto ocorreu na casa dos meus vizinhos Sérgio e Nataly num início de noite. Coitados diziam os amigos e vizinhos:

- Como se não bastasse aquela confusão criada pelos seus vizinhos lindeiros, o Paulão e a Marialba, agora isso...

Na manhã seguinte a constatação do furto eu, que naquele dia levantara cedo, constatei junto ao murão que separava o Garden City do Green Carpet um monte de trouxas, atrás de alguns arbustos de azáleas. Fui até lá e constatei que se tratavam de roupas e eletrodomésticos. Como os operários da obra junto à divisa ainda não haviam chegado, dei-me conta que poderia ter sido deixado pelos ladrões na tentativa de escalar o murão com aqueles rolos de arame farpado. Chamei, então, o Sergio e a Nataly para averiguar se tratava-se dos objetos furtados de sua casa. Não deu outra...Eram sim todos os objetos furtados na noite anterior. Avisamos o síndico que, prontamente chamou a polícia. O agente da polícia, de nome Félix, depois de registrar a ocorrência perguntou ao Sérgio se ele desconfiava de alguém:

- Olha seu Félix a única evidência que tenho é que os objetos foram encontrados junto da obra que está sendo erigida no Green Carpet, exatamente na frente da minha, mas eu não posso afirmar se foi o pessoal que a está construindo ou se usaram a obra como passagem.

- Muito boa a sua observação, vê-se que o senhor tem faro policial...Mas eu vou checar de perto...

Chegando na obra do outro lado do Garden City, o Agente Félix procurou o mestre-de-obras, perguntando-lhe:

- Bom dia! Quem trabalha com o senhor nesta obra?

- Eu e mais dois operários.

- Algum deles dorme na obra?

- Sim, os dois.

- Por favor , então, chame-os que eu quero conversar com eles.

Quando os dois vieram, o Agente Félix, foi logo identificando-os:

- Bafo e Mão-leve, vocês por aqui? Dito isso os dois tentaram fugir, mas os policiais que estavam no carro, lá fora, os renderam.

Questionados sobre o furto e a muamba do outro lado do muro, disseram:

- Fomos nós, mas esse murão aí não deixou a gente passar a muamba para este lado. Isto é sacanagem com a gente, né Dr. Félix?

 

Vocês imaginam a felicidade do seu Agenor depois que a notícia se espalhou...:

- Eu disse, eu entendo de segurança...foi o meu projeto de muro que impediu o transporte do furto para o outro lado...Agora esses larápios vão se dar mal...

Os condôminos estavam vibrando com a segurança, mesmo aqueles que criticavam, se renderam diante da evidência e felicidade do Sérgio e da Nataly.

A questão dos furtos externos parecia estar resolvida, quando o meu filho Michel, numa certa manhã, constatou que a sua bike branca, que ele recém ganhara, tinha desaparecido do bicicletário junto a Portaria do Garden City. Pensei com ele:

- Será que agora estão usando a entrada do Condomínio para praticar furto?

Dando uma de Agente de Polícia fui até a Portaria para comunicar o desaparecimento da bicicleta, bem como sondar se o porteiro vira alguém suspeito que pudesse ter entrado e a levado... O porteiro afirmou não ter visto nada de anormal.

Estava voltando da minha primeira investida quando percebi garotos jogando bola na quadra de futebol sete, fui lá e falei com eles. Eles me disseram nada terem visto, mas um garoto se aproximou da cerca da quadra e me disse, entre dentes:

- Procure a quadra do Green Carpet que a bicicleta está lá.

Peguei o Michel e fui até lá. Quando chegamos na quadra de futebol de salão, constatamos várias bicicletas encostadas na cerca. Perguntei ao Michel:

- Alguma destas é a tua?

O Michel constatou que a sua bike branca, mesmo tendo sofrido algumas alterações por decalques, estava ali. Chamei, então, a polícia porque não cabia a mim questionar os garotos, muito menos quem estava de posse da bike.

A polícia chegou, perguntou se tinha alguma prova de que a bike era de fato aquela. Como eu já estava de posse da Nota Fiscal, caso precisasse fazer um Boletim de Ocorrência, apresentei-lhe, dizendo que a única diferença eram alguns decalques aplicados, provavelmente por quem a furtou.

O Policial interrompeu o jogo e chamou os garotos, perguntando de quem era a bike branca. O próprio não se identificou, mas os demais garotos apontaram para um rapaz magro e loiro, dizendo:

- É do Padão.

Eu e o Michel ficamos estupefatos, pois se tratava do filho do Dr. Marcelo P. Dante, médico que morava no mesmo acesso que nós, cujo apelido derivava de Chapadão.

O policial o pegou, algemou-o e o estava levando para o camburão, quando eu disse:

- Policial! Eu o conheço e ele é filho de um vizinho meu ali no Condomínio Garden City, por favor, não o leve preso e sim entregue-o ao pai.

O policial concordou e nos dirigimos para a casa do Dr. Marcelo. Lá eu tomei a iniciativa de falar primeiro com o pai do Padão, dizendo do ocorrido e que só chamara a polícia por não saber que se tratava do seu filho. Ele, me pareceu não ter ficado surpreso apenas me deu as costas e foi falar com os policiais...

 

As pessoas, mesmo tendo posição social, nos surpreendem, como foi o caso da mãe do seu Pompílio e do Vieirinha, mas isso já é outra história...  

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/08/2016 às 10h41 | sannickelle@gmail.com

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