Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Passarinhos

 Nossas manhãs no Garden City eram paradisíacas, ora pela cantoria dos pássaros ora pelo perfume das flores que invadiam nossos sentidos se espreguiçando.

Minha casa ficava na esquina do acesso cinco, sobre um terreno que se elevava do chão uns três metros. Esse promontório permitiu que eu a projetasse em três níveis. No nível mais baixo ficava a entrada principal e as salas de estar, a íntima e o lavabo. No segundo nível, saindo para o pátio, a sala de jantar, a copa e a cozinha e no terceiro os dormitórios.

Para permitir a entrada principal no primeiro nível e ao mesmo tempo conservar um cactos mandacaru, que ficava na parte alta do terreno, eu projetei um muro de pedras que separava o caminho de acesso à casa ao local onde aquela magnífica cactácea estava. No térreo desse muro de pedras foi plantada hera (uma planta trepadeira do gênero Hedera), que aos poucos cobriu aquele muro. Como o muro deveria deixar escorrer a água que se acumulasse na calçada junto do cactos, foram deixados alguns vazios entre as pedras onde plantamos rabo-de-gato que, com seu colorido avermelhado enfeitavam a entrada.

No Garden City haviam muitos cambacicas, também conhecidos como sebinho ou papa-banana, pássaro pequeno azul, preto e amarelo. Pois um casal de sebinhos fez ninho num dos rabo-de-gato que eu descobri por acaso. Logo avisei toda a família para que tivessem o maior cuidado com o ninho e os três ovinhos que lá estavam.

Os dias passaram e logo dos ovinhos eclodiram três pequenos sebinhos que eram cuidados pela mãe passarinha e por todos nós. Temíamos que algum gato os pudesse pegar dada a vulnerabilidade do local do ninho.

A noite estava quente e eu fui até a janela para abri-la e respirar o ar da madrugada, quando percebi que a sebinho voava desesperada ao redor do ninho. Logo avistei um gato preto e branco que, de cima do muro, tentava alcançar o ninho. Desci, abri a porta da frente, chegando a tempo de enxotar o algoz preto e branco. Mas, o felino não foi totalmente embora ficou espreitando entre as árvores do pomar. Voltei para a cama, pensando no que poderia fazer para salvar aquela pequena família alada. Aí tive uma ideia que, no primeiro momento, me pareceu brilhante diante da possibilidade e quase certeza de que o gato voltaria: deslocar o ninho para o cactos que, com seus espinhos, não permitiria a aproximação daquele gato asqueroso. Foi o que fiz.

Levantei-me, novamente, desci para a entrada da casa e me pus a retirar o ninho com todo o cuidado. Fui tão cauteloso que a própria passarinha nem saiu do ninho. Voltei para o interior da casa e pela porta da cozinha acessei a zona do cactos. Lá, munido de  uma pequena escada escolhi uma bifurcação espinhenta e, com todo o cuidado, para não me espetar e nem os filhotes, depositei o ninho em segurança. Voltei para a cama e dormi sossegado.

Durante o café da manhã e antes de sair para trabalhar verifiquei se estava tudo bem. Sim, estava tudo como planejara salvar os filhotinhos. Minha satisfação era que nem guri de bombacha nova.

No trabalho contei minha noite heroica, tendo recebido muitos elogios pela minha atitude ecológica. 

 

Voltei para casa tarde, já que lecionava também a noite. Fui logo perguntando pelos passarinhos. Pelas caras percebi que havia algo de errado, então, perguntei:

- E aí pessoal, porque essas caras de tristeza? Foi meu filho Michel quem respondeu:

- Pai por quê o Senhor tinha que interferir na natureza?

- Como assim, meu filho? Eu fiz tudo para salvar os filhotes daquele gato.

- Pois é pai, os filhotes morreram assados.

_Como assim?

- O local que tu colocaste o ninho bateu sol direto toda a tarde e torrou os filhotes, disse-me minha esposa também desolada. 

- Meu Deus! Como que não pensei nisso. Abracei todos e pedi desculpas.

A natureza tem suas peculiaridades, por isso que devemos pensar muito antes de altera-la.

Essa história foi longe e, na Escola em que minha esposa lecionava, uma colega ofereceu-lhe um canário belga, recém emplumado, para compensar a atitude frustrada da família de sebinhos. Deu-lhe, inclusive com a gaiola.

Muito embora, fôssemos contra a engaiolar passarinhos, quando ela chegou com aquela gaiola e o emplumado passarinho amarelo e branco, as crianças ficaram encantadas e pediram para ficar com ele. Não pudemos negar aquele pedido entusiasmado e o adotamos. Deram-lhe o nome de woodstock, o mesmo do passarinho do Charlie Brown e parceiro do cãozinho Snoopy.

Naquela época já veraneávamos em Bombas, Santa Catarina. E, no primeiro verão, lá fomos nós com todas as tralhas e, é claro, com o woodstock.

As crianças se encarregaram de cuidar da gaiola e do canário belga que, a esta altura, já era adulto e lindo.

Num final de tarde, não sei como, o Michel ao limpar a gaiola deixou o woodstock escapar. Foi uma choradeira...Procuramos por tudo, mas nada de encontra-lo. Com o cair da noite suspendemos nossas buscas, prometendo retoma-la pela manhã. Antes porém de irmos dormir eu deixei a portinha da gaiola aberta e coloquei alpiste fresquinho.

Na manhã seguinte, para nossa surpresa, lá estava o woodstock na gaiola fazendo sua refeição. Felizmente, ele voltou por se tratar de pássaro criado em cativeiro.

As vezes vínhamos só nos fins de semana e, nessas ocasiões, decidimos não trazer o woodstock, para não correr o risco de deixa-lo escapar novamente. Deixávamos ele no lavabo, com a gaiola coberta e bastante água e alpiste.

Num desses fins de semana, quando de nossa volta, a primeira coisa que sempre fazíamos era ir saudá-lo e tirar a capa da gaiola. Entramos no lavabo e a gaiola estava no chão, a capa rasgada e só penas amarelas para todos os lados. Um gato entrou pela janela semiaberta e o devorou. Provavelmente aquele preto e branco.

Decidimos nunca mais ter qualquer passarinho.

 

O meu sogro usava óculos varilux e num dia de praia no Arroio do Sal, aconteceu de causarmos a sua perda, mas isso já é outra história...       

Escrito por Saint Clair Nickelle, 24/05/2016 às 15h55 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Cancelamento da linha telefônica

Naquele ano foi eleito síndico o Administrador de Empresa Reinaldo Soares, morador recente do Garden mas que possuía um currículo de pós-doutorado em Tecnologia da Informação na Harvard University, de Cambridge, Massachutts, Estado Unidos.

Na Assembleia que o elegeu foram tantos os elogios dos seus vizinhos que o outro candidato, Neron Torquato da Silva, desistiu de concorrer minutos antes do Presidente colocar o assunto em votação. Acho que o Neron fez bem, pois poderia sair de lá mais em baixa do que a afastada “Presidenta” Dilma.

Foi o novo síndico que instituiu o Whatsapp como meio de comunicação entre os moradores, criando dois grupos distintos: membros da Diretoria e comunidade em geral. Ficou, também, estabelecido que as comunicações entre os membros da comunidade em geral se restringiriam a assuntos do Condomínio, em especial os que envolvessem segurança, serviços e trânsito.

Antes de instituir o novo modelo de comunicação, o síndico, precisava desativar o telefone fixo da Portaria, o qual, até então, era o único meio da Portaria se comunicar com as casas. Na verdade ele encarregou o síndico anterior que o havia colocado na Portaria, pela familiaridade com que tratara o assunto em sua gestão. O Luiz Paulo aceitou o encargo e pediu 24horas para desativar a linha 32481075.

Lembro-me bem do Luiz Paulo contando o que ele passou para cumprir o encargo;

- Primeiro eu liguei para a OLÁ, operadora do telefone, onde uma voz feminina me atendeu, dizendo:

- Senhor obrigado por ligar para a OLÁ, e é um prazer imenso ouvi-lo, por favor qual o seu problema?:

- Eu quero desativar a linha 32481075...

- Senhor esse problema será resolvido por outro atendente. O Senhor desligue, ligue novamente e peça o ramal 15...Tenha um bom dia.

- Liguei novamente e pedi ramal 15 e mais uma voz feminina me atendeu:

- Senhor obrigado por ligar para a OLÁ, é um prazer imenso ouvi-lo, por favor qual é o seu problema?

- Moça, por favor, eu represento O Condomínio Garden City e preciso desativar o telefone 32481075.

- O assunto é cancelamento da linha Senhor?

- Sim!

- Aguarde um momentinho Senhor.

Duas horas depois, quando o Luiz Paulo não aguentava mais ficar com o fone na orelha, uma voz masculina disse:

- Senhor Luiz Paulo, poderia por gentileza informar o motivo do pedido de cancelamento da linha.

- Acontece que o novo síndico do Garden City delegou-me esse encargo, já que a Assembleia do Condomínio decidiu desativar a linha 32481075 por não ser mais necessária.

- Senhor Luiz Paulo, precisamos receber uma cópia dessa decisão para darmos prosseguimento ao seu pedido.

 

 

- Meus Deus! Até isso é necessário!

- Sim é imprescindível.

- Tudo bem vou providenciar, até breve.

O Luiz Paulo procurou o síndico e a ata da tal assembleia foi concluída para que se pudesse tirar a cópia e envia-la para a OLÁ. Como foi enviada por SEDEX, imaginou-se que em 24 h já tivesse chegado. Levou 12 dias para que eles confirmassem o recebimento. O Luiz Paulo então ligou para saber a resposta:

- Bom dia aqui quem fala é o Luiz Paulo a respeito do cancelamento da linha telefônica 32481075.

- Senhor obrigado por ligar para a OLÁ, um momentinho que estaremos passando para o setor competente. Um hora depois:

- Senhor qual é o seu problema?

- O cancelamento do telefone 32481075.

- A telefonista deve ter direcionado errado, por favor desculpe-me, um momentinho que estarei redirecionando a ligação.

- NÃO! NÃO! NÃO!

- O que o Senhor disse?

- NADA...NADA...NADA!

- Senhor qual é o seu problema?

- O CAN CE LA MEN TO DA LIN HA TELE FÔ NI CA 32 48 10 75...grrrr...grrrr...

- Senhor eu ouvi uma rosnada está tudo bem?

- SIM... ES TÁ TU DO BEM. Já esgotado o Luiz Paulo reuniu mais um pouquinho de paciência e recebeu nova informação:

- Por gentileza, o Senhor fala chinês?

- NÃO, POR QUÊ?

- É que a OLÁ terceirizou o Serviço de Cancelamento com uma empresa chinesa THU SHI FODD, e os atendentes só falam chinês, mas se o Senhor falar fluentemente o inglês podemos dispor de um tradutor.

- O QUÊ? VOCÊS TÃO BRINCANDO COMIGO...GRRRR...GRRRR...COFF...COFF...

- Calma Senhor, por favor você é um cliente importante para a OLÁ, estaremos facilitando a sua conversa com a THU SHI FODD.

Tossindo e espumando incontrolavelmente o Luiz Paulo teve um ataque de nervos, caiu ao chão com uma convulsão típica de um epilético que, se não era, acabou ficando. Acudido pelo síndico que estava acompanhando a ligação o Luiz Paulo foi encaminhado ao Pronto Socorro Cruz Azul e sedado.

Passados alguns dias o Luiz Paulo teve alta, voltou para casa e está bem, quer dizer bem...bem não, pois toda vez que toca um telefone ele entra em surto novamente...coitado.

O síndico, por fim, desistiu de cancelar a linha telefônica que ficou apenas desativada. Como vingança eles não estão pagando a taxa mínima, esperando que a OLÁ venha cobrá-los.

 

Enquanto os cachorros já possuíam regras rígidas para andar pelo Garden City, os gatos, por sua vez, continuavam incontroláveis, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 17/05/2016 às 16h21 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Vizinhos Lindeiros

 A vida em Condomínio tem lá as suas vantagens. Economia de meios, praças e quadras de esportes privativas, segurança 24horas, etc. Mas tem os inconvenientes das más relações de vizinhança, em especial dos que moram ao lado. Alguns afortunados dizem que tiveram muita sorte ao residir ao lado de vizinhos respeitadores, solícitos e amigos para todas as horas.

Lembro-me do casal Sérgio e Nataly que ao se mudarem para o Garden City, na casa 51, foram recebidos com boas-vindas e uma garrafa de champanhe pela vizinha Marialba, esposa do Paulão, moradores da casa 52.

Nem tudo que começa bem tem um futuro promissor e, foi esse o caso dos novos vizinhos. O casal Sérgio e Nataly, recém casados, tinham hábitos muito particulares de curtir o lar sem interferências externas. O casal Marialba e Paulão, por sua vez, casados há pelo menos 12 anos, eram expansivos e não tinham limites quanto a respeitar a privacidade dos outros. Já não se davam com o outro casal do lado oposto justamente por isso.

Dias antes da mudança, a Marialba falou para o Paulão:

- Beem! Nós vamos ter vizinhos novos aí na esquina, na casa 51. Eu vou preparar-lhes uma recepção digna dos filmes americanos, com champanhe e tudo mais...eu adoro aqueles vizinhos que batem na porta dos recém chegados...

- Vai dormi muié, deixa de bobagens. A última vez que tu fez isso, deu zebra.

O primeiro atrito surgiu com uma amendoeira, árvore frondosa que fora plantada pelos proprietários anteriores da casa  adquirida pelo Sérgio e esposa. Ela tem a copa bastante larga, fornecendo excelente sombra. Possui folhas caducas que no outono e inverno perdem a cobertura. No verão, no entanto, produz uma sombra que cobre ambas as entradas das garagens, o que possibilita um estacionamento confortável durante o dia, com sol a pino.

A Marialba sugeriu para a Nataly que se a árvore fosse dela a cortaria, pois não suportava aquelas folhas grandes cobrindo o seu jardim e gramado. A Nataly, que desde o início achou maravilhosa aquela árvore, disse que jamais faria tal coisa e além do mais a espécie é imune ao corte.

O assunto acabou sendo levado ao síndico, já que o casal incomodado queria que os galhos, além da divisa  virtual entre as duas casas, fossem cortados. O próprio síndico ficou perplexo diante de tal absurdo já que a amendoeira era admirada por todos que frequentavam a Praça Central. Tentou demover o casal peticionário, dizendo-lhe:

- Gente! E me perdoem a franqueza, o que vocês, Paulão e Marialba, pleiteiam é inconcebível, pois a árvore ficaria um aleijume paisagístico e, além disso, a sombra que ela gera beneficia tanto o Ségio e a Nataly como a vocês. A esquentada da Marialba, logo contestou:

- É porque não é o teu jardim que vive coberto de folhas.

Percebendo que as argumentações de nada adiantariam o síndico, usando de sua autoridade, disse que a proposta era inaceitável e acabou com a reunião.

Dali em diante as relações entre os casais lindeiros foi se deteriorando, sem que as tentativas do Sérgio e da Nataly pudessem restabelecer a amizade. Prontificaram-se a varrer as folhas no periodo da queda. Mas isso pouco adiantou quando a Marialba lhes disse:

- Eu não quero que vocês pisem no meu jardim.

No período das folhas caducas forrarem o gramado com suas cores vermelho-amareladas, a vizinha recolhia e as jogava no jardim da Nataly.

Poderia colocá-las no lixo, mas por desaforo as jogava no jardim da vizinha.

Para não aumentar a discórdia ela não reclamava, recolhendo  as atiradas pela vizinha e as suas.

A Marialba, no entanto, vendo que os vizinhos não ficaram incomodados, passou a jogar lixo doméstico junto com as folhas. Primeiro no jardim da frente, depois por cima do muro que dividia as duas casas na parte dos fundos. Pacientemente o Sérgio e a Nataly recolhiam o lixo e o depositavam nas suas lixeiras.

Ainda não satisfeita de ver suas tentativas de intimidação não funcionarem, a Marialba passou a jogar fezes de seus dois cahorros no pátio dos fundos de seus vizinhos, onde inclusive ficava a piscina.

Diante disso o Sérgio foi procurar o Paulão para dizer-lhe se ele sabia das atitudes de sua esposa. Então ele desccreveu todas as barbaridades que a Marialba vinha praticando. O Paulão, por sua vez, mesmo tendo ouvido as argumentações do Sérgio, disse-lhe:

- Você vem na minha casa falar da minha esposa e acha que eu vou te dar razão cara. Eu só não te dou uma surra porque as crianças estão dormindo, senão eu te quebrava a fuça. O Sérgio que não esperava aquela reação, parou e pensou sem nada dizer: “Meu Deus onde é que eu fui me meter!”. Depois pediu licença e se retirou.

Naquela noite ele pouco dormiu, pensando mil coisas: “puxa vida, eu que tenho porte de arma por ser Auditor Fiscal do Banco Central, bem poderia ter reagido e ter dado um tiro naquele sacana metido a valente”.  Estava quase dormindo quando ouviu gritaria de adultos e de crianças e um quebra-quebra. Levantou-se e foi ver o que era. Era o Paulão tentando matar a Marialba. Já tinham saído da casa e rolavam no jardim da frente. Pareciam duas feras. A Marialba com o rosto todo ensanguentado o chamava de banana e covarde que só bate em mulher. Aos poucos os vizinhos foram se aproximando e apartando aquele idílio pouco romântico do casal. As acusações prosseguiram, mas ambos estavam sendo seguros pelos seus vizinhos lindeiros, inclusive os da 53, aqueles que  em tempos passados também foram recebidos amistosamente e, que hoje, são inimigos.

Com a chegada da polícia e de uma ambulância, a noite que já dava lugar aos primeiros raios de sol, trouxe uma paz passageira.

Os vizinhos, vítimas do Paulão e da Marialba, apertaram-se as mãos e não prometeram nada dali prá frente.

Felizmente, depois desse incidente quase trágico, o casal brigão, mudou-se do Condomínio.

O Sérgio e a Nataly tiveram seus filhos, dois meninos e uma menina, e viveram muito tempo no Garden City. Pelo que sei eles nunca se aproximaram dos novos moradores da casa 52, muito embora estes parecessem muito educados e gentis.

Esse caso, com o tempo ficou esquecido, apenas lembrado pelos mais antigos.  Nas assembléias, toda vez que alguém sugeria recepcionar novos moradores, os mais antigos votavam sempre contra.

 

A tecnologia da comunicação já dominava as relações de vizinhança, quando o novo síndico resolveu desativar o telefone fixo da Portaria do Garden City, mas isso já é outra história…

Escrito por Saint Clair Nickelle, 10/05/2016 às 09h10 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Limite de Velocidade

 O sábado amanheceu sorridente e o sol, abrindo caminho entre as nuvens, iluminou meu quarto e os demais aposentos da casa.

Os pássaros, com suas tradicionais algazarras tinham, desde cedo, mais um dia normal pela frente. Só nós humanos, que havíamos inventado o calendário, sabíamos que hoje era sábado, dia de descansar e curtir a vida.  Vivíamos sob a égide do Calendário Gregoriano que teve a sua origem na Europa no século XV.

Depois do café tomado sem pressa, nada como curtir a rede e uma boa leitura. Escolhi o livro de João Ubaldo Ribeiro, Arte e Ciência de Roubar Galinha, sob um fundo musical de Ray Koniff.

As magníficas crônicas do João Ubaldo me transportavam para a Ilha de Itaparica, onde estive em 2008, rumo ao Morro de São Paulo.

Na portaria do Garden, por falta de energia elétrica, a cancela foi aberta para que um impaciente motorista entrasse no Condomínio. Nem bem o porteiro a levantou, o carro preto arrancou cantando pneus. No volante, o Ferdinando só pensava na desculpa que daria à esposa...

- A reunião foi demorada…Furou um pneu…o carro não pegava…

A leitura na rede, com o aconpanhamento de Ray Koniff ao fundo, foi repentinamente quebrada…Uma brecada sem precedentes no Garden que, pela gritaria parecia, ter sido um atropelamento.

Pulei da rede e dirige-me a cena do crime. O Vinicius, guri de 8 anos de idade, estava branco e estático no meio da rua principal do Condomínio, a alguns centímetros de seu corpo franzino um parachoque preto do carro do Ferdinando, morador do último acesso, denotava um atropelamento que por pouco não acontecera.

Pelas marcas dos pneus o Luiz Paulo e a Helen, pais do Vinicius, corriam desesperados em direção ao carro que, escondia o que poderia ter acontecido. Após constatarem que o trágico imaginado não havia acontecido, a adrenalina subiu para a cabeça e ambos queriam fazer com o Ferdinando o que ele não conseguira fazer com o Vinicius. Esmurravam o carro, gritando-lhe:

- Sai daí covarde, inconsequente…Filho de uma égua…louco…

Enquanto os mais moderados ponderavam, a xingação se avolumava e previa-se um acontecimento mais grave do que aquele quase acontecido.

- Calma pessoal, felizmente nada aconteceu…

- Só não aconteceu por milagre gritavam a Helen e o Luiz Paulo.

- Tira esse covarde de dentro do carro que ele vai ter o que merece…

Gritavam os vizinhos mais exaltados.

Felizmente o síndico chegou e procurou apaziguar os ânimos, pedindo ao Ferdinando que se retirasse enquanto conversava com os pais do Vinicius. Foi um santo remédio e a confusão foi se dispersando a medida que os exaltados se retiravam. Enquanto isso, na casa do Ferdinando:

- É você, meu bem? Por que tamanha demora?

- Nem te conto!

- Olha, Luiz Paulo e Helen, vocês tem toda a razão de quererem xingar o Ferdinando que, por ser imprudente, desrespeitou o limite de velocidade e, o pior, é que não é só ele, outros costumam dirigir também de forma perigosa. Esse acontecimento servirá de aviso para que não volte a se repetir.

- Eu vou convocar uma Assembleia extraordinária para tratar dessa questão. agora voltem para casa e reflitam com serenidade.

Naquele momento eu me dei conta do significado daquele quase atropelamento.

Procurei o síndico e disse-lhe:

- Nós, dentro do Garden City, criamos uma utopia de trânsito, onde as crianças passeiam e brincam sem se dar conta que existe uma via principal e ruas secundárias, como no resto da cidade, que deve ser observada e respeitada. A experiência que elas adquirirem aqui será levada para fora do Condomínio, como aprendizagem real ou utópica.

Ele pensou um pouco e disse-me:

- Tu tens razão, temos que educar nossos filhos para o mundo lá fora…

O Garden não possuía, nas suas ruas, os indicativos de trânsito para o pedestre, somente as placas de limite de velocidade. Não tínhamos faixa de pedestre, placas oitavadas que indicam “PARE” nas esquinas , nem quebra-molas, etc.

Na Assembleia, especialmente convocada para tratar do assunto, o síndico expôs as alternativas:

1. Construção de quebra-molas ao longo da via principal;

2. Placas indicativas nas esquinas e

3. Passarelas para pedestres em todas as esquinas.

A aprovação que parecia ser tranquilha, acabou se tornando um pesadelo para o seu proponente. Alguns alegavam que vieram morar no Condomínio para fugir das regras urbanas, em especial os quebra-molas. Outros que vieram morar aqui para oferecer plena liberdade aos seus filhos, como vivíamos quando crianças.

Os argumentos se sucediam contra as alternativas apresentadas pelo síndico que, a essa altura da reunião, já previa uma derrota avassaladora.

Foi quando o Luiz Paulo pediu então a palavra:

- Olha gente, estou aqui junto com minha esposa Helen e, diante da hipótese de quase ter perdido nosso filho Vinicius, alguns dias atrás, desejo do fundo do meu coração que vocês não passem os segundos que passamos, antes de poder abraçá-lo e constatar que ele ainda estava vivo. Portanto, eu lhes peço que aprovem a proposta e levem em conta que a vida no Condomínio não se esgota aqui, todos nós vamos sair e encontrar lá fora as regras que precisamos para sermos urbanos e civilizados, em especial os nossos filhos.

A proposta foi aprovada.

Para nós, que morávamos no penúltimo acesso, passar por doze quebra-molas várias vezes ao dia era um saco. Além é claro de afrouxar todo o carro. Mas, enfim, tínhamos decidido que essa era a melhor solução. Afinal não existe educação urbana sem sanção policial ou física.

O que me confortava era saber que o Ferdinando, responsável por essa transformação, morava no último acesso, tendo que passar não por doze, mas por dezesseis quebra-molas.

Não pensem que ele deixou, por isso, de correr acima do limite de velocidade. Seu carro batia mais que a Escola de Samba Unidos da Restinga e algumas vezes interpelado sobre diminuir a velocidade junto aos quebra-molas, dizia:

- Quebra-molas!...Que quebra-molas?

 

Viver em Condomínio tem lá as suas vantagens. Economia de meios, espaços de recreação e esporte privados, segurança, etc. Mas conviver sempre foi um desafio, mas essa já é outra história…

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/05/2016 às 08h25 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Som Alto

O som alto, que não seja realizado em locais apropriados, sempre vai agradar quem os produz e desagradar aos demais. Mesmo que tenhamos regras ou até leis os insensatos não querem nem saber, ligam seus potentes autofalantes como se fossem surdos ou pouco apreciadores de música. Já que música, de qualquer gênero, exige atenção e enlevo para ser devidamente apreciada. Na verdade todos sabemos que o som alto, próprio dos jovens, é porque como não sabem falar escondem essa habilidade pouco desenvolvida atrás do barulho. Outros já são mais radicais porque entendem que se não houver barulho eles, os barulhentos, não serão notados. Agem como os cães que ladram correndo atrás dos carros, convictos de os estão espantando, mas se estes param, saem sem graça como derrotados da investida heroica. É verdade que nas festas jovens até se ouve alguma tentativa de diálogo:

- E aí ê?

- Hein?

-E AÍ Ê?

- HÃMM?

Nos locais públicos e mesmo em ambientes familiares, como no nosso Condomínio, não estamos livres desse inconveniente importuno. Na condição de síndico é sempre um desafio mediar o jogo de braço entre os produtores de som alto e os defensores do silêncio do lar. Lembro-me do caso do Sebastião, morador da casa 69, que ao ser interpelado pelo seu vizinho, ante o som alto produzido pela festa de aniversário de seu filho Eliseu, partiu para a briga sem qualquer ponderação. Mesmo que a interpelação tenha sido feita após as 2h da manhã, com plena razão do interpelante, a briga acabou se generalizando entre os festeiros e os demais vizinhos que saíram em defesa do agredido.

A baderna acordou até quem morava nos casas da frente do Garden, e só parou com a presença de uma viatura da Brigada Militar por solicitação do síndico. Alguns feridos precisaram ser levados para o Pronto Socorro da zona sul, prometendo não mais voltar ao Condomínio de moradores caretas. Pode?

E, por falar em som alto, alguns aniversários foram comemorados com a presença de mau gosto daqueles carros de som, os quais paravam em frente da casa da vítima, para desejar-lhe grotescamente FELIZ ANIVERSÁRIO. Não era só o som que incomodava a vítima e os demais vizinhos, mas principalmente as mensagens lidas pelo alto-falante:

- SEU AGENOOOR! SEU NONÔÔÕ!  VOCÊÊÊ É UMA PESSOA ESPECIAL E, NESTE DIA, SEUS FILHOS, NETOS, BISNETOS E TATARANETOS DESEJAM-LHE MUITOS ANOS DE VIDA, MUITA SAÚDE E MUITAS ALEGRIAS....

Seu Agenor, Nonô para os íntimos, na ocasião, comemorava 97 anos de idade e de uma cadeira de rodas foi obrigado a assistir tudo da varanda, muito embora estivesse surdo há mais de 15 anos. Sem entender patavina de toda aquela movimentação ainda perguntou:

_Quem veio visitar-me naquele carro esquisito?

Depois da barulheira infernal que só serviu para incomodar os vizinhos alheios ao aniversário, o carro esquisito se retirou sob aplausos dos contratantes.

Haja Deus!

 

Felizmente essa época dos carros de som perdeu espaço e ficou no passado, talvez ainda existam vendendo verduras e frutas como feira ambulante.

Nossa casa era de esquina e do lado esquerdo se mudou uma família constituída pela mãe e dois adolescentes. Segundo me confidenciaram eles já tinham aprontado no endereço anterior em que moravam.

No primeiro fim de semana que eles estavam residindo, os aborrecentes fizeram uma festa jovem. Ainda comentamos lá em casa se a gente conseguiria dormir naquela noite. Como o salão de festas era a garagem que ficava anexo ao nosso jardim de inverno, ficamos torcendo para que a barulheira acabasse lá pela uma da manhã. Acabou as oito da manhã.

Saímos das camas como zumbis, olhos inchados e injetados de sono, maldizendo os novos vizinhos inconsequentes. Na hora do café meu genro, que era técnico de som de uma rádio comunitária em Novo Hamburgo, disse-me que não foi justa a noite que passamos, principalmente que agora eles, os vizinhos e convidados, foram dormir sossegados. Mesmo sem minha autorização explícita ele pegou caixas de som que levava no carro da rádio, levou-as para o Jardim de inverno e, depois de mexer em extensões elétricas pra lá e pra cá, ligou o som a pleno vapor,  retransmitindo o programa gauchesco Galpão Crioulo, que terminava lá pela uma da tarde. Nem nós conseguíamos aguentar aquele som altíssimo. Saímos de casa e fomos fazer um piquenique na praça central do Garden City.

No início da tarde recolhemos nossas tralhas e voltamos para casa. Na nossa porta estava a mãe dos adolescentes, dona Darlene, também com os olhos inchados, pedindo-nos se poderíamos abaixar o som. Meu genro ainda perguntou-lhe, por desaforo:

- O som está muito alto vizinha?

- Sim... sim! Pelo amor de Deus! Vocês devem ter ficado aborrecidos com a festa de meus meninos, né?

- Festa? Que festa?

- Tudo bem! Vamos deixar de ironia e recomeçar uma nova etapa como vizinhos. Eu prometo não mais deixar meus meninos incomodá-los e vocês a não ouvir aquelas músicas gauchescas em alto volume. Combinado?

- Combinado.

Depois daquele dia nossos vizinhos nunca mais impediram que tivéssemos bons sonhos. Dormíamos como anjos nas nuvens.

Nosso Garden City nunca teve um salão de festas, muito embora tenham sido feitos alguns projetos de arquitetura, os quais sempre esbarravam nas argumentações dos moradores. Os da frente queriam que fosse edificado na Praça Central e, estes na Praça da Frente. Nesse embate acho que todos saíram ganhando. Imaginem o afluxo de carros e convidados sempre que alguém resolvesse fazer aquela festinha animada por bandas de Rock.

 

Na rede, ao som de Ray Konniff, estava lendo João Ubaldo Ribeiro, Arte e Ciência de Roubar Galinha, quando ouvi o som de uma brecada assustadora, mas isso já é outra história... 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/04/2016 às 17h22 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Nem tudo que reluz é ouro

 

O GARDEN CITY naquele domingo de janeiro, estava vibrante de emoções. Nunca tinha se visto tanta gente na Praça Central. Mas, não era festa, não. Era eleição de síndico.

O seu Valter Lalau da Silva, um sujeito muito popular, morador da casa 06, do primeiro acesso, aceitou se candidatar à síndico, depois de duas fracassadas assembleias que não tiveram candidatos.

O  seu Valter, Vavá para os íntimos, não era popular só no Garden, pois na condição de presidente do sindicato dos trabalhadores do porto, ficara famoso ao liderar, por 55 dias, uma greve dos estivadores. A economia gaúcha quase afundou porque os navios se amontoavam no cais de Porto Alegre, deixando um passivo de milhões de dólares, principalmente pelo não escoamento da safra agrícola e das exportações pecuárias.

Quando ele chegou no caramanchão da Praça Central, foi ovacionado até com fogos de artifício. O pessoal gritava:

- Vavá...Vavá...é nosso líder...

- Vavá...Vavá...é nosso irmão...

- Com Vavá de síndico não tem roubalheira não...

Esta última frase referia-se ao síndico, que desviou dinheiro de uma chamada extra para recuperação do asfalto e acabou sendo afastado pelo Conselho Fiscal.

O presidente da assembleia ao dar início aos trabalhos, perguntou aos presentes se queriam votação nominal, como era de praxe, ou  se seria por aclamação,  já que não haveria disputa, pois só tínhamos um candidato.

Por aclamação e uma tremenda gritaria, o Vavá foi eleito síndico.

Tão logo acabou a eleição de síndico, precisávamos eleger o Conselho Fiscal, mas diante do esvaziamento gradativo dos condôminos, cuja maioria saiu para comemorar a eleição do Vavá, o presidente da assembleia declarou reeleitos os mesmos conselheiros  do atual Conselho.

Durante o mandato do síndico, os conselheiros passaram a constatar que o seu Valter Lalau da Silva não era nada organizado. Em quase todas as reuniões do Conselho Fiscal com o síndico, constatava-se falta de comprovação de despesas diversas, bem como dos relatórios da Administradora em relação às empresas terceirizadas de segurança, jardinagem e limpeza. Os conselheiros, inclusive o seu Sérgio, que era auditor do Banco Central, alertava o síndico da responsabilidade do Condomínio, caso a Administradora continuasse não apresentando as comprovações  dos recolhimentos obrigatórios das empresas terceirizadas.

Diante das continuadas “pedaladas” do síndico, que parecia não dar qualquer importância as recomendações do Conselho Fiscal, surgiram cobranças do Ministério do Trabalho, por não ter sido recolhido o INSS dos empregados da empresa de segurança.

Diante do caos das contas do Condomínio, o síndico resolveu, por decreto, fazer uma chamada extra, sem qualquer consulta aos condôminos. O Conselho Fiscal, então, reuniu-se com o síndico e disse-lhe que chamada extra só poderia ser cobrada após ser aprovada por assembleia, especificamente convocada.

 

O síndico, talvez por limitação jurídica, não aceitou a recomendação dos conselheiros, dizendo que a chamada extra continuaria sendo cobrada e, se retirou da reunião.

Diante do impasse criado pelo síndico, os conselheiros decidiram convocar uma assembleia, desde que conseguissem as assinaturas necessárias, conforme estabelecia a Convenção.

Muitos condôminos, ao serem consultados sobre a necessidade de uma assembleia extraordinária, ficavam estupefatos quando tomavam conhecimento do rombo financeiro do Garden City.

Enfim, os conselheiros conseguiram as assinaturas necessárias e a assembleia foi marcada para 17 de maio, as 14 horas.

Os defensores do síndico, de um modo geral mal informados, vieram com cartazes de “GOLPE”...”GOLPE NÃO”...”VAVÁ, O SÍNDICO MAIS HONESTO QUE TIVEMOS”...”CONSELHO FISCAL GOLPISTA”...”USURPADORES”...

Enquanto a maioria dos condôminos presentes, que procurou realmente se informar da situação, não procurou contestar  os adoradores do síndico, permaneceu calada, esperando que o presidente do Conselho Fiscal desse início a assembleia. Ele, assim o fez:

- Senhoras e Senhores aqui presentes, na condição de presidente do Conselho Fiscal, tenho o dever de trazer-lhes a real situação das finanças do nosso Condomínio, durante esses poucos meses em que o Sr. Valter Lalau da Silva, nos dirigiu na condição de sindico.

O presidente da assembleia foi várias vezes interrompido com gritos de:

- GOLPE...GOLPE...GOLPE...GOLPE NÃO...GOLPE É TRAIÇÃO...GOLPE NÃO...

- Eu peço aos mais exaltados que, por favor, escutem o relatório que fizemos e depois julguem. Assim sendo, eu solicito que o seu Sérgio, que é auditor e especialista em gestão financeira, nos faça um relato do que constamos e da situação atual das finanças.

Após, longa explanação do seu Sérgio, ele concluiu que o montante do rombo deixado pelo síndico, até esta data, significará que cada condômino arcará com um desembolso de R$10.000,00 e frizou:

- DEZ MIL REAIS!

Diante da perplexidade de todos, mas principalmente dos defensores do síndico, aconteceu o que ninguém esperava, muito menos o Vavá. Os seus, antes apoiadores, começaram a quebrar os cartazes na cabeça dele, gritando enfurecidos:

- LADRÃO...SAFADO...VIGARISTA...ENGANADOR...FILHO DE UMA ÉGUA...

A situação ficou tão tensa, que o Vavá precisou fugir em desabalada correria, sendo perseguido pela turma que o apoiava. Recebeu vários cascudos, rasgaram-lhe a roupa e o deixaram só de cueca na casa 06 do Garden City.

Depois desse dia, nunca mais se viu o seu Valter. Alguns dizem que ele foi enxotado de casa pela própria mulher, envergonhada do marido. Mais tarde, ela pôs a casa a venda.  

O povo, as vezes se engana, mas acaba acordando, especialmente quando o engano dói no bolso.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/04/2016 às 13h39 | sannickelle@gmail.com

publicidade

1 2 3 4 5 6 7 8 9

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie neste site - Normas de Uso
© Desenvolvido por Pagina 3

Endereco: Rua 2448, 360 - Balneario Camboriu - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br