Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Delação não premiada

Morar em condomínio tem lá as suas vantagens, mas é uma contradição dentro de uma cidade. Por quê uma contradição? Porque isola os moradores do contexto urbano, tornando-os alheios à comunidade, quer seja a rua, o bairro e, por extensão, a própria cidade. 

Um condomínio, do tipo horizontal, tem suas próprias leis além é claro das que regem todos os munícipes. O isolamento trás segurança, prestação de serviços e uma vizinhança compulsória que, as vezes pode ser positiva ou negativa, dependendo da forma excessivamente individualista de alguns, fato que é gerador de atritos pontuais e/ou de regulação administrativa.

Quando fui morar no Garden City, constatei que as alterações das casas, de pequena monta é claro, eram feitas sem qualquer licença da Prefeitura Municipal, pois havia uma certa cumplicidade de todos os moradores. 

Eu mesmo fiz algumas alterações ao meu projeto original, adaptando certos aspectos que a avaliação pós-ocupação nos fez refletir melhor. Não houve, no entanto, alteração de área construída, nem invasão às áreas de acumulação que todos os terrenos possuíam, originalmente destinadas somente ao ajardinamento, entradas social e de garagem.

Tudo corria muito bem, até que o atrito entre o Ferdinando e o Sebastião, dois vizinhos do último acesso, gerou uma denúncia à Secretaria de Obras de Porto Alegre. Muito embora, fossem apenas vizinhos de frente o Sebastião, incomodado com o Ferdinando que havia se queixado das diabruras de seu filho Eliseu, resolveu, para se vingar, denunciá-lo à Prefeitura . O Ferdinando, na ocasião estava construindo uma cobertura para abrigar seu carro nos fundos do terreno.

A Fiscalização Municipal interditou a obra, multou e exigiu do Ferdinando, num prazo de 30 dias, a regularização da construção. 

O coitado do Ferdinando, que possuía apenas os recursos financeiros para terminar a cobertura, foi obrigado a contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização da obra. Ele nos confessou que teve vontade de matar o Sebastião, e ainda completou:

_ Ele, não perde por esperar.

Quando o Fiscal da Prefeitura veio comunicar que a interdição estava suspensa, o Ferdinando perguntou-lhe se alguma obra já acabada, mas feita sem autorização, poderia sofrer multa e necessidade de regularização. Como o Fiscal afirmou que sim, ele então denunciou o Sebastião por ter feito, também, uma garagem completa com churrasqueira nos fundos do terreno. Não deu outra, o Sebastião foi multado e precisou contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização. 

Depois desse incidente, o Sebastião saiu dando tiro pra tudo que é lado. Foi uma profusão de multa e regularização que só parou quando todos os seus vizinhos ameaçaram de morte o Sebastião, que de valente só tinha o papo. 

Depois que o pessoal da frente ficou sabendo que fora o Sebastião que fizera as denúncias, um grupo indignado bateu na casa dele disposto a lhe tirar satisfação.

Na ocasião foi mãe dele que os atendeu:

_ Dona Sebastiana, o Sebastião está em casa?

_ Está sim, vou chamá-lo.

Logo que entrou para o interior da casa, o Sebastião com cara de cachorro que lambeu graxa, disse-lhe:

Quem tá aí, mãe?

_ Eu acho que são uns amigos teus. Eles querem falar contigo.

_ Diz pra eles que eu não estou em casa.

_Mas filho, eu já disse que tu estavas.

_ Ora mãe, a senhora não devia ter dito isso.

_ Ué, filho, por quê?

_ Mãe, esse é um assunto do Condomínio, tu não entendes, até porque não moras aqui.

_ Não me diz que tu estás com medo deste pessoal?

_ Claro que não.

Dona Sebastiana deixou o filho, que encorujado não queria sair do quarto, e foi falar com o grupo.

_ Desculpe pessoal, mas o que vocês querem com o Sebastião?

_ Dona Sebastiana, nós queremos só bater...é bater... um papo com ele.

_ Olha gente, eu bati no quarto dele e acho que ainda tá dormindo, pois não atendeu ao meu chamado.

_ Mas bah, tchê! São onze e meia e o vivente ainda tá dormindo. Tudo bem dona Sebastiana, outra hora a gente vem BATER...é BATER um papo com ele...Passe bem.

Dessa feita o Sebastião passou batido.

Mas o pessoal prejudicado pelas denúncias não estava disposto a esquecer e, logo logo, o encontraria para tirar-lhe satisfação.    

Em todo lugar do Condomínio que ele ia recebia vaia, gusparada e elogios à sua digníssima mãe. Os mais irritados o provocavam para ver se ele reagia e, aí sim, bater-lhe o brim. Mas, felizmente isso não chegou a ocorrer. Por um bom tempo ele quase não saiu de casa. Mas, o tempo que cura tudo pelo esquecimento, fez o Garden City voltar a normalidade. 

O fato é que ninguém mais fez reforma sem antes contratar um profissional habilitado. De um certo modo escroncho, o Sebastião acabou fazendo um bom serviço para o Condomínio. Já pensaram, todo mundo modificando suas casas sem planejamento, sem obedecer os ditames oficiais do Código de Obras?

Certamente, o Garden City viraria um “Frankenstein” , tão assustador como o famoso monstro do romance de terror gótico de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres.

O famoso monstro da Mary Shelley, era feito de pedaços humanos que não possuía qualquer plano de beleza, por isso sua aparência horrorosa. Assim ficaria o Garden City se as pessoas continuassem a fazer, por conta própria, puxadinhos daqui e dali, como costuma se ver em alguns conjuntos habitacionais e/ou mesmo em edifícios de apartamentos.

“A beleza é fundamental...É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso.” Como escreveu o carioca Vinicius de Moraes.

Os relacionamentos afetivos podem ter consequências, mas isso é outra história.

 

 

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/11/2016 às 17h31 | sannickelle@gmail.com

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Segurança, via Whatsapp

Depois do ocorrido com a dona Noeli e a pedido dos condôminos o síndico recém empossado, sr. Fabiano, resolveu reinstituir o grupo SEGURANÇA NO GARDEN CITY, via WHATSAPP, solicitando encarecidamente que o grupo seja acionado somente em caso de segurança, pois a primeira vez que se instituiu foi um fracasso, pelo uso indevido do meio, onde os moradores não aguentavam mais receber tantas bobagens, que nada tinham a ver com o objetivo.

Tão logo foi reinstituído o grupo, começaram as manifestações:

Catarina:

- Alguém, por acaso, viu a minha cachorrinha Yorkshire Terrier? Ela fugiu da minha casa e eu não a estou achando?

Yurie:

- Sei que esse grupo é só para segurança, mas acabamos de ver essa cachorrinha na Praça da Frente, podendo até sair pela Portaria do Condomínio;

- Obrigado Yurie, vou até lá ver se não fugiu;

Tereza:

- Oh! Catarina, vê se tu cuida mais dos teus bichinhos...A outra vez foi a chinchila, agora a cachorra...Santo Deus! Vai ser descuidada assim na “caixa prego”.

Silvana:

- Diga em silêncio: Jesus eu preciso de ti dentro do meu coração. Agora envie para 10 pessoas. Não ignore pois terá uma surpresa hoje a noite.;

- Sulita:

Tem pessoas nesse grupo que ainda não entenderam, ele foi feito e refeito exclusivamente para SEGURANÇA DO CONDOMÍNIO;

Silvana:

- Não entendi. Para mim tudo é válido;

Adilson:

- SEGURANÇA, entendeu ou queres que eu desenhe?;

Síndico :

- Na medida que não soubermos usar um meio exclusivo para SEGURANÇA, fica inviabilizado acessá-lo, porque ora são mãozinhas, carinhas e agora até corrente de oração. Aí, quando for algo importante, ninguém vai dar atenção;

Silvana:

- Segurança sem Deus ...creio ser bem impossível. Mas,...

Sulita:

- Meu Deus, o que é isso?

Capitão Alberi:

- “Um Estado secular ou Estado Laico é um conceito do secularismo onde o poder do Estado é oficialmente imparcial em relação às questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião.”

Silvana:

- SALMOS 127: “Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam; se o SENHOR não guardar a cidade , em vão vigia a sentinela”;

Júlio:

- Bem colocado dona Silvana!

Silvana:

- Ainda bem que existe o dom da sabedoria. Um pouco de fé e amor ao próximo não descaracteriza grupo algum;

Sabrina:

- Fica difícil manter esse grupo só para SEGURANÇA, pois algumas pessoas querem misturar alhos com bugalhos...ASSIM NÃO DÁ!

Salete:

- O DMAE está noticiando que vai faltar água amanhã;

Marialba:

- O que isso tem a ver com SEGURANÇA?

Salete:

- Nossa, pegam pesado aqui ...Peço desculpas;

Marialba:

- Depois reclamam que falta união ...;

Walquíria:

- Cala a boca sua safada, vai cuidar do seu marido que fica dando em cima das empregadas domésticas;

- Quem é você pra falar de mim... Todo mundo sabe que você apanha do marido. Além disso você plagiou poesia no Concurso, sua imoral e incompetente ;

Síndico:

- Chega pessoal, por favor! Vocês estão dando uma demonstração de imaturidade. Já foi criado um grupo exclusivo para assuntos gerais. Não esgotem o foco desse grupo, recriado só para questões de SEGURANÇA;

Júlio:

- Quem é você Fabiano, para nos chamar de imaturos?

Sabrina:

- Caraca, como é difícil... SEGURANÇA e ponto final, gente! Parem de fazer postagens que não sejam relacionadas ao assunto SEGURANÇA. Se, QUEREM CONTINUAR NESSE MIMIMI, usem o grupo ASSUNTOS GERAIS;

Pompilio:

- Pessoal, vamos nos respeitar, pois unidos podemos enfrentar qualquer adversidade relacionada ao nosso Condomínio;

Silvana:

- O que falta nesse mundo é a tolerância e o amor ao próximo, por isso tanto roubo, assalto e crime...Sem a fé em Deus estamos perdidos;

Sulita:

- Assalto, roubo e crime não é falta de Deus no coração, é falta de vergonha na cara e preguiça de trabalhar... Não use o nome de Deus em vão! Seu Pompílio respeito é bom e todos nós merecemos, agora vê se cuida mais da tua mãe, que fica furtando plantas dos jardins alheios;

Silvana:

- Eu não sei para você, mas pra mim DEUS em primeiro lugar, jamais em vão ...É muito fácil

Sabrina:

- ????!Quem tá julgando quem, sua religiosa fanática...

Síndico:

- CHEGAAAAA! NÃO AGUENTO MAIS... ESTÁ DEFINITIVAMENTE DESCONSTITUÍDO O GRUPO SEGURANÇA NO GARDEN CITY, VIA WHATSAPP.

O novo síndico, Fabiano, não foi o primeiro a enfrentar tais paradas, mas isso já é outra história...

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/10/2016 às 11h14 | sannickelle@gmail.com

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Encontro com o novo síndico

Conforme fora acordado, domingo pela manhã o Clóvis preparou a mateada dos amigos para a conversa com o Fabiano, eleito e empossado novo síndico.

Com aquele chimarrão gostoso, lá estavam o seu Gumercindo, o Reinaldo, o Sérgio, o Luiz Paulo e eu, bem como é claro, o convidado.

Depois das primeiras mateadas, foi o seu Gumercindo que começou o questionamento ao Fabiano:

- Em primeiro lugar e em nome de nosso grupo, quero transmitir os parabéns pela tua eleição. Domingo passado, nos questionávamos sobre como enfrentarias a acentuada inadimplência dos moradores, alguns inclusive há mais de três meses, fato que deve gerar ação judicial, já que receberam os devidos avisos conforme consta do Regimento Interno do Condomínio.

- Em segundo lugar, no sentido de não estimular qualquer negociação que isente os inadimplentes dos juros devidos pelo atraso, já decidiu-se, em assembleias passadas que nenhum atraso de taxa condominial seria perdoada, até porque isso representaria um desserviço aos que pagam em dia.

- Olha pessoal, estou ciente da situação econômica do nosso país, fato que se reflete nos diversos segmentos de nossa sociedade e, inclusive no nosso Condomínio. Eu espero poder conversar com todos os moradores que estão com as taxas em atraso, podendo, pela autoridade para mim delegada, negociar uma maneira de cada inadimplente apresentar uma solução, que pode até ser parcelada, desde que não ultrapasse o fim do meu mandato, sem qualquer isenção de multas e/ou juros devidos. Devemos, diante da situação, sermos sensíveis aos problemas por que passam alguns vizinhos nossos sem, no entanto, abrirmos mão do compromisso partilhado dos que residem num condomínio. Afinal, os serviços que estão destinados a todos não deixam de ser prestados aos inadimplentes. E, todos nós sabemos que alguns moradores, mesmo não estando passando por dificuldades, costumam deixar de pagar a taxa condominial.

- Caro Fabiano, vamos passar a palavra aos demais participantes para que avaliem tuas respostas;

- Na condição de ex-síndico, conheço as agruras de não ter recursos para cumprir com os compromissos ao final de cada mês, por isso acho louvável que tu consigas colocar um freio nos que habitualmente atrasam o pagamento da taxa, mesmo em épocas que não havia essa crise. São vizinhos que priorizam outros pagamentos em detrimento da taxa de condomínio. Neste sentido, eu te pergunto se pretendes, como fazem os governos em geral, aumentar a arrecadação via aumento da taxa?

- Olha Sérgio, se eu pretendesse fazer isso, que parece ser a solução mais imediata, eu aparentemente resolveria um problema, criando outro. Precisamos, antes de mais nada, cortar despesas, sem comprometer a prestação dos serviços essenciais e, por outro lado, achar novas formas de arrecadação.

- E, como tu farias isso Fabiano?

- Bem, antes de cortar despesas eu pretendo alugar as nossas quadras de esporte, já que muitos convidados e mesmo times inteiros usam-nas.


Com esses aluguéis, pretendo melhorar a manutenção, quer seja de saibro na quadra de tênis, iluminação, incluindo aí lâmpadas, consumo de energia elétrica, etc. Eu entendo que somente para os moradores deve haver isenção.

- Fabiano, e quanto ao excesso de carros estacionados na via principal e nos acessos, fato que compromete o recebimento de visitas nas nossas casas.

- Olha Reinaldo, minha ideia é instalar parquímetros, ou seja aqueles aparelhos eletrônicos que regulam o tempo de permanência nas vagas do Condomínio, bem como ajudar na arrecadação, estimulando a permanência mínima sem custo até ½ h e depois em valores crescentes a cada meia hora. Sei que isso pode soar estranho, mas muitos moradores que possuem garagens deixam seus carros na rua, impedindo que as visitas possam ser recebidas dignamente. O que dói no bolso, logo, logo mudará alguns hábitos.

- Não deixa de ser uma solução inusitada, mas quem sabe dará certo, vamos esperar para ver.

- É isso aí Reinaldo, sem criatividade parecemos cachorro tentando pegar o próprio rabo.

- E, quanto aos abusos dos estacionamentos nos gramados das praças e mesmo no nosso pomar?

- Com os parquímetros eu pretendo minimizar esses abusos, mas certamente não será suficiente. Pretendo , se vocês aprovarem, colocar obstáculos no início dos gramados, de forma bem discreta, mas adequados ao paisagismo, de tal sorte que impeça o carro de ultrapassar os limites das ruas. Esses obstáculos, em alguns casos poderão ser bancos de praça, noutros cercaduras de canteiros, bem como pedras roliças que ajudem na composição dos jardins, etc.

- Suas ideias parecem muito razoáveis, Fabiano. Esperamos que tenha sucesso no convencimento de alguns teimosos, avessos às inovações.

- Eu pretendo apresentar todas estas ideias numa Assembleia Extraordinária e, só depois de aprovadas, implementá-las,

- Mais duas questões nos preocupam, Fabiano.

- Quais são elas Luiz Paulo?

- A primeira diz respeito a ocupação das ruas com materiais de construção, fato que causa transtornos ao tráfego de veículos e, inclusive já causou acidente. Outro assunto que muito nos preocupa, também, é a questão da segurança.

- Quanto ao primeiro, eu pretendo estabelecer um padrão para armazenamento de materiais de construção. O que caracteriza o problema é que o depósito é feito sobre o leito da rua, sem qualquer limitação, as vezes se espalhando por toda a cancha da mesma. O padrão consiste em apenas permitir a guarda dos materiais em caixas que tenham, no máximo 1.50m de largura, 30 cm de altura e o comprimento variável, não podendo ultrapassar os limites do terreno.

- Quanto ao segundo, eu pretendo reinstalar o Programa COMUNIDADE ATIVA, onde pelo Whatsapp, todos os moradores ficam de olhos abertos e comunicando para todos os demais qualquer acontecimento incomum. Esse Programa foi desativado porque alguns moradores usaram indevidamente o meio, quando já existia o de ASSUNTOS GERAIS.

- Bem pessoal, era isso que vocês tinham para me questionar?

- Sim Fabiano, agradecemos tua disponibilidade e, desde já, fazemos votos para que consigas por em prática o que chamaste na tua campanha de GARDEN CITY DE NOVAS IDEIAS.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 19/10/2016 às 15h30 | sannickelle@gmail.com

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Mateada na praça

Após as eleições para síndico, o Clóvis nos convidou para uma mateada na Praça Central, onde poderíamos comentar os acontecimentos decorrentes do processo eleitoral, desde a eleição até a apuração.

No domingo, como combinado, lá estava o Clóvis pilchado e com erva mate da boa, um fogareiro e uma chaleira preta chiando de faceira com fogo no rabo. Aos poucos fomos nos aprochegando em volta do fogareiro. Lá estavam o seu Gumercindo, sogro do Clóvis, o Luiz Paulo, o Reinaldo, o Sérgio e eu.

Enquanto a cuia morena rolava de mão em mão, a conversa rolou solta:

_Mas bah, tchê! O que vocês acharam daquela confusão na apuração das eleições?

- Olha Clóvis, essa foi a primeira vez que numa eleição de síndico se utilizou urna eletrônica e, também, uma tentativa escandalosa de fraudar o resultado.

- Tu achas Luiz Paulo, que o síndico estava de fato envolvido ou só os membros do Conselho Fiscal?

- Muito embora, tenha havido aquela discussão entre o síndico e os membros do Conselho, todos nós sabemos que a candidata da Administração era a dona Jaslene. Isso, por si só, compromete a todos. Mas, diante do resultado posterior da verdadeira apuração, em que a lógica apontava a vitória do Fabiano, o pessoal resolveu não aprofundar a questão o que, a meu ver, foi um erro.

- E tu Sérgio, como agente de fiscalização do Banco Central, não tiveste vontade de enquadrar aqueles safados?

- Olha Luiz Paulo, não é pelo fato de ser profissional da Corregedoria do Banco que esses acontecimentos não me incomodam, mas também e, principalmente,  por ser morador do Garden, onde eu espero, como vocês, que as atitudes éticas prevaleçam na nossa comunidade. Fiquei indignado, sim, com a tentativa de fraudar uma eleição de síndico que, afinal tem sido tratada, desde que aqui moro, como uma eleição pacífica, aliás sem muita disputa.

_É verdade Sérgio, até agora as eleições de síndico e Conselho Fiscal foram  quase decisões de consenso, sem esse tipo de campanha que ocorreu neste ano. Nós até havíamos concluído que a crise econômica era responsável pelo inusitado número de candidatos.

- E quanto a atitude da dona Jaslene, o que vocês acham?

- Olha seu Gumercindo, eu moro na Praça Central e sou vizinho dela, claro não de lado, mas a vejo seguido, sempre a cumprimento e ela parece ser uma pessoa legal, mas parecer não significa certeza, portanto, é bem possível que ela tenha realmente rejeitado participar da tramoia.

- Eu já não penso assim Sérgio, pois até a indicação dela para concorrer partiu do ex-síndico e do pessoal do Conselho, portanto, ela tinha o perfil que eles queriam.

- Mas como ela, então, afirmou ter se recusado a participar da tramoia?

- Olha Sérgio, na condição de delegado aposentado, já vi muito bandido tentar se safar, acusando os demais e se declarando coagido.

- Eu concordo contigo Luiz Paulo, foi muito fácil para ela tirar o time de campo depois que a fraude ficou escancarada.

_É pessoal, só quem não se safou foram os três membros do Conselho, os quais estão pensando seriamente em se mudar do Garden City.

- Já vão tarde, aqueles safados metidos.

 

 

 

_Pessoal, vou trocar a erva que já está muito lavada;

- Claro Clóvis, mas desde que seja aquela produzida pelos teus parentes no Alto Vale do Taquari;

- Mas bah, tchê! Essa mesma. Aliás, lá em casa só temos dessa erva;

- Mas, voltando ao assunto da mateada, o que podemos esperar da administração do Fabiano?

- Pelo número de votos, ele quase emplacou por consenso. Certamente ele fará uma boa gestão, desde que não repita os devaneios do ex-síndico, o qual tanto sonhou que acabou não concluindo os projetos que se propôs a fazer;

- Eu penso Reinaldo, que parte da culpa também é nossa, pois como aqui não é uma cidade, se quisermos podemos ser parte ativa dos rumos da administração. O negócio é não deixar acontecer e depois reclamar quando da próxima eleição. Eu, inclusive quero deixar uma sugestão para o nosso grupo, fazermos uma reunião com o Fabiano, convidando-o para uma mateada no próximo domingo;

- Grande ideia seu Gumercindo, vamos nomear o Clóvis para fazer-lhe o convite. Concorda Clóvis?

- Mas claro, já está aceito o encargo;

- É bom, então, prepararmos algumas questões que sejam de consenso para nós;

- É isso aí, seu Gumercindo;

- Com a crise econômica do país, hoje estamos com um elevado número de inadimplentes, o que compromete os recursos financeiros para saldar nossos compromissos com os funcionários fixos e as empresas terceirizadas. Será que o novo síndico pretende elevar a taxa condominial?

- Essa é uma questão muito importante, Sérgio. Mas, elevar a taxa condominial pode, antes de ser uma solução, agravar a inadimplência;

- Precisamos saber o que pensa o Fabiano a respeito;

- Se, no entanto, ele não optar por aumentar a taxa, como enfrentará o problema?

- Bem, já temos uma boa questão para discutirmos, mais alguma sugestão;

- Outra questão que me parece relevante, diz respeito ao aumento acentuado de carros estacionados ao longo da via principal e acessos, faltando espaço e vagas para que possamos receber visitas;

- É verdade Reinaldo. Aqui tem casas que possuem um carro por morador e, nem há garagem para todos, precisando estacionar nas ruas;

- Além dos abusados, que acabam estacionando nos gramados das duas praças e mesmo no nosso pomar;

- Essa é outra questão que precisamos discutir com o Fabiano;

- Muito bem colocado Reinaldo;

- Outra questão diz respeito as obras, quer sejam de reformas ou mesmo novas. Sendo comum o morador e/ou empreiteiro utilizar a rua para depósito dos materiais, criando um problema de tráfego. Outro dia houve uma batida justamente porque a via principal ficou, por um bom tempo, em pista única;

- Bem lembrado Clóvis;

- Por fim, só como lembrança, a segurança. Eu quero lembrar que há um movimento para que o Fabiano restabeleça o programa SEGURANÇA, VIA WHATSAPP, cancelado pelo último síndico pelos abusos nas comunicações.

 Só nos resta agradecer ao Clóvis pelo excelente chimarrão e, até domingo...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 11/10/2016 às 16h19 | sannickelle@gmail.com

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Apuração eleitoral

 Até segunda-feira não havia sido divulgado o resultado da eleição para síndico, após aquela grande confusão patrocinada pelos eleitores no domingo.

A noite na casa do síndico, os membros da atual Diretoria estavam reunidos para proceder a apuração e, na rua, os candidatos e seus respectivos apoiadores faziam pressão, gritando:

 

- É HORA! É HORA! QUEREMOS O RESULTADO DA ELEIÇÃO AGORA .

 

 

- É HORA! É HORA! QUEREMOS O RESULTADO DA ELEIÇÃO AGORA .

 

 

Depois de 1 hora, a porta da casa do síndico se abriu e o presidente do Conselho Fiscal, com um Edital na mão, entregou cópias aos candidatos.

O empurra, empurra impedia que os demais eleitores pudessem se aproximar dos quatro candidatos que empunhavam as cópias do Edital de Apuração.

Felizmente, o seu Pompílio resolveu ler o resultado para todos que se aglomeravam na frente da casa do síndico

- Aqui no Edital consta o seguinte resultado:

 

Em primeiro lugar, com 50% dos votos, dona Jaslene;

Em segundo lugar, com 35% dos votos, seu Palhares;

Em terceiro lugar, com 15% dos votos, seu Fabiano;

E, em último lugar, sem nenhum voto, o seu Orual.

 

Ouviu-se uma vaia ensurdecedora pelos presentes, inconformados com o resultado inesperado.

Mas o seu Orual, que havia tomado o Edital das mãos do seu Pompílio, gritou:

_É FRAUDE! É FRAUDE!

- Como assim? Gritaram os presentes.

- É FRAUDE SIM. Eu votei em mim, portanto, como poderia não ter nenhum voto?

De repente, o povão ficou calado, como a pensar nas palavras do seu Orual, explodindo, logo em seguida:

 

- É FRAUDE SIM! É FRAUDE SIM! Queremos recontagem agora sim.

 

Em ato contínuo, passaram a esmurrar a porta do síndico, exigindo que os votos fossem conferidos.

O síndico e os demais membros da Comissão Eleitoral, diante do enfurecimento do povo, resolveu atender na marra a reivindicação, antes que a porta da sua casa fosse arrombada.

Quando entraram na casa do síndico constataram que, em cima da mesa de jantar, a urna eletrônica parecia intacta e logo perguntaram:

- Onde está o mapa da apuração?

 

 

 

Os membros da Comissão Eleitoral, com caras de ladrões arrependidos, passaram a acusar o síndico pela fraude:

- Foi ele pessoal, que nos obrigou a inventar esse resultado, pois o relatório da urna eletrônica nós nem sabemos até agora.

Mas o síndico não ficou calado, dizendo aos gritos:

- SEUS SAFADOS, FOI AO CONTRÁRIO, FORAM VOCÊS QUE TENTARAM ME CONVENCER DE QUE NÃO PODERIAM GANHAR NEM O FABIANO, NEM O SEU PALHARES.

O pessoal que estava pronto para esmurrar o síndico, diante da declaração ficou em dúvida, olhando furioso para os três membros do Conselho Fiscal. Estes, só não apanharam porque os “deixa disto” apartaram os mais exaltados.

Expulsos da casa do síndico, os três safados foram obrigados a passar por um corredor polonês, onde receberam uma solene vaia e muitos cascudos.

Foram os próprios candidatos que resolveram fazer a apuração, religando a urna e obtendo o relatório verdadeiro, cujo resultado foi o seguinte:

 

1. FABIANO- 50% DOS VOTOS, eleito síndico;

2. PALHARES- 35%;

3. JASLENE- 13%;

4. ORUAL – 2%

 

A própria dona Jaslene, que todos sabiam era a candidata do atual síndico, esclareceu que não fizera parte da tramoia, muito embora tivesse sido consultada se aceitaria fazer parte de uma manipulação dos votos. Mas, como ela se negara peremptoriamente, o Conselho Fiscal tomou a iniciativa de fazer por conta própria, tendo apenas como ônus convencer o síndico

A dona Jaslene, diante desta confissão, foi muita aplaudida e cumprimentada.

O seu Orual, por sua vez, foi também muito aplaudido, pois se ele não tivesse duvidado do resultado, ter-se-ia aceito aquele Edital falso.

Aos poucos, o pessoal foi se retirando, deixando para trás, um síndico parcialmente perdoado e um Conselho Fiscal desmoralizado que, até então, era tido como íntegro.

Os componentes dessa Comissão Eleitoral, mesmo tendo reconhecido a artimanha engendrada, passaram a ser mal vistos pela comunidade do Garden City, pois mesmo com a aceitação de culpa, não eram mais merecedores de respeito.

A reação da comunidade foi:

- Por quê não agiram como a dona Jaslene?

Esse acontecimento deixou uma grande lição sobre a conduta das lideranças, mesmo em se tratando de uma simples eleição para síndico, querer ganhar sempre, quer seja por orgulho, por interesse, por vaidade, que impede a comunidade e, por extensão a sociedade, de alcançar um patamar ético necessário para sua evolução.

Como luta o meu sobrinho Thiago Duarte, reeleito vereador de Porto Alegre, “porque acredita que é possível construir uma sociedade mais justa para avançarmos e voltarmos a crescer de forma conjunta com a comunidade ”.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 04/10/2016 às 17h43 | sannickelle@gmail.com

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Eleições

Em face dos problemas ocorridos com a última eleição de síndico e Conselho Fiscal decidiu-se, numa Assembleia Extraordinária, que não mais seriam aceitos votos por procuração. E, também, que a eleição seria realizada em urna eletrônica, no dia 02 de outubro, das 8h às 17h, sendo obrigatória para todos os moradores do Condomínio.

Nesta Assembleia Extraordinária houve muita contrariedade, principalmente pelo seu Valdir e seu grupo de apoio, moradores da zona da frente do Garden, bem como pela turma do Sebastião, da zona dos fundos. Eles alegavam que esse procedimento não estava previsto na Convenção do Condomínio, mas como eles próprios foram os autores das fraudes das procurações acabaram sendo votos vencidos.

Para que a eleição pudesse ser realizada em urna eletrônica, seria necessário que os candidatos à síndico escolhessem um número, para que no dia da eleição o eleitor digitasse a sua intenção de voto.

O Síndico, então, reuniu os quatro candidatos para que escolhessem o número que os representariam.

Eles, então, decidiram os seguintes números:

Jaslene n. 51

Fabiano n. 04

Palhares n. 54 e

Orual n.31

A campanha estava acirrada, com cartazes, carreatas pelas ruas do Condomínio, bandeiraços e até distribuição de santinhos nas casas, enfim uma verdadeira festa democrática. Houve até comício nas praças do Garden City. Nunca se havia visto tanta mobilização para uma eleição de síndico.

Os apoiadores dos candidatos até camisetas fizeram com cores diferentes, com  foto e número do candidato. As vezes ocorriam discussões entre os correligionários, mas nada que precisasse a intervenção da polícia.

No dia da eleição o síndico e os membros do Conselho Fiscal, encarregados do processo eleitoral, chegaram cedo na Praça Central para instalar a urna eletrônica, conferir a lista de eleitores e montar o local secreto da votação.

Muito embora, estivesse previsto o início para as 8h da manhã, somente às 9h e 30 min chegou o primeiro eleitor, com cara de sono e bocejando sem parar:

- Pô gente...uaaaaaah! Esta eleição não poderia ser realizada só a tarde? Eu só tenho o domingo para dormir um pouco mais.

- Seu Alcebíades o Senhor vota e pode voltar para casa e dormir.

- Ahnrã! Tá bem, então.

- Mais alguma dúvida seu Alcebíades?

- Sim. Quem são os candidatos?

- Meu Deus, seu Alcebíades. Onde o senhor estava nesta última semana? O Senhor não viu a mobilização dos candidatos, comícios, santinhos?

- Hã? Aquelas algazarras  todas as noites era isso, então?

- Vou até contar pra minha velha que não era propaganda para a oktoberfest, como nós havíamos pensado.

 

- Seu Alcebíades, o Senhor, por favor, assine a lista de presença e depois se dirija para a cabine indevassável  para sufragar sua intenção de escolha do candidato.

- Hã?

- Vá lá naquela cabine e digite o número do candidato que o Senhor escolheu.

- Ã-hã! E se eu não quiser nenhum destes candidatos?

- Seu Alcebíades, por gentileza, volte para casa e vá dormir.

- Hmm! Uuuuuhaaaá! Tá bem.

Depois daquela dificuldade com o primeiro eleitor, os membros da Comissão Eleitoral estavam cabreiros sobre o sucesso daquela modalidade de eleição.

Lá por volta das 11h, aos poucos os moradores foram chegando e votando. Mas, de um modo geral, parecia que a acirrada campanha não despertara o público.

Aproximava-se das 17h e somente 40% dos moradores haviam votado, deixando o Presidente da Comissão Eleitoral com a “pulga atrás da orelha”.

Quando o Presidente acabara de encerrar os trabalhos, ouviu-se duas algazarras, fogos de artifícios, bandeiraços, provindos do leste e do oeste do Garden City. Tratava-se dos apoiadores do candidato Palhares, da turma da frente e, em oposição, os apoiadores do seu Fabiano, da turma dos fundos. No comando da turma da frente vinha o seu Valdir, o qual com um cartaz gigante com a foto do Palhares e o número 54, mais parecia um porta-estandarte da Unidos da Restinga.

Da mesma forma, a turma dos fundos sob o comando do Sebastião, empunhavam cartazes com a foto do seu Fabiano e número 04.

Chegaram na Praça Central exatamente às 17 e 30min, gritando:

- QUEREMOS VOTAR!...QUEREMOS VOTAR!...QUEREMOS VOTAR!

O Presidente da Comissão Eleitoral até tentou argumentar que a eleição fora encerrada as 17h, conforme constava do Edital.

Aí o Valdir e o Sebastião, como avessos a conciliação, passaram a desafiar a Comissão Eleitoral, exigindo que se eles não votassem que os votos, até então registrados, seriam anulados.

- Como anulados? Com que autoridade vocês ameaçam a legitimidade do processo e o trabalho da Comissão?

O Valdir e o Sebastião, insuflando seus apoiadores, gritavam:

- QUEREMOS VOTAR...QUEREMOS VOTAR...QUEREMOS VOTAR!

- Olha pessoal, regras são regras e que foram aprovadas em Assembleia, portanto, o material da eleição, bem como a urna eletrônica já foi desligada. Não cabe a mim abrir qualquer exceção.

A turma de retardatários não se conteve e partiu pra cima da Comissão Eleitoral, quebrando mesa, cadeiras, só não conseguiram quebrar a urna eletrônica, porque o Presidente escapou com ela, levando-a intacta para casa.

Com o afastamento dos membros da Comissão Eleitoral, os grupos da frente e dos fundos passaram a brigar entre si, quebrando os cartazes nas cabeças dos adversários, numa demonstração de pura selvageria.

Diante de tamanha insensatez, o Síndico chamou a Brigada Militar, que teve dificuldade para conter os baderneiros, mas com a prisão dos líderes, o Valdir e o Sebastião, os demais se deram conta da bobagem que estavam fazendo.

Mesmo que tenha havido tanta baderna, o resultado da eleição para síndico foi proclamado, mas isso já é outra história... 

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/09/2016 às 10h46 | sannickelle@gmail.com

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