Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Natal

Quando o síndico, seu Gumercindo, decidiu que naquele ano se faria uma Festa de Natal na Praça Central do Garden City, muita gente achou desnecessário, pois entendiam que cabia a cada família essa iniciativa.

Apesar dos contrários, muitos se mobilizaram e botaram mãos à obra. O plano previa uma grande árvore, pinheiro naturalmente, que seria iluminado com luminárias coloridas, confeccionadas com garrafas pets. No caramanchão seria montada uma manjedoura, onde os jovens escolhidos fariam a representação de um presépio vivo na véspera de Natal. Das 20h e 30 min às 22h, sob músicas natalinas, os jovens artistas, representando José e Maria, cuidariam do menino Jesus no berço de palha. Depois, receberiam os três Reis Magos que, com suas oferendas de ouro, incenso e mirra adorariam o menino–rei. O público poderia assistir até sentado, já que a Administração do Condomínio providenciaria cadeiras, a serem dispostas em forma de auditório.

Antes de se inaugurar a celebração natalina, houve até um concurso para a escolha dos jovens que representariam Maria e José, Belchior, Baltasar e Gaspar.

Muitos se candidataram, o que exigiu constituição de um júri, de tal sorte que os escolhidos tivessem tempo para que a Diretora Artística, dona Clarice, pudesse ensaiá-los, bem como decorar as falas que seriam ditas na apresentação.

Para a escolha, foram confeccionadas, com antecedência, as roupas dos personagens, que seriam usadas durante a apresentação do Presépio Vivo.

Assim, durante a escolha, cada grupo de cinco jovens usariam as roupas ao estilo dos personagens, para que ninguém se sentisse prejudicado. O júri, composto por três moradores, sob a presidência da dona Clarice, definiu a noite de 17 de dezembro, para a escolha dos cinco jovens.

Na noite aprazada, três grupos de jovens se apresentaram para o júri. Após cada apresentação e respectiva troca de roupas, o júri se reuniu para decidir. A dificuldade encontrada pelo júri decorreu da própria forma como foi organizada a apresentação, pois os candidatos formaram equipes antes de se inscrever. Os jurados, no entanto, não levaram isso em conta, escolhendo a jovem que melhor representaria Maria e, assim por diante, o José e os três reis magos.

Para o papel de Maria foi escolhida a Ritinha que, por ser mãe de um menino, o Jonas, agora com 4 meses, poderia representar o menino Jesus. O Julinho, agora esposo da Ritinha, foi selecionado para o papel de José. A escolha dos jovens para representar os Reis Magos não gerou qualquer problema, tendo que no caso do Baltasar tendo sido selecionado o jovem Mathias, por ser de cor negra.

Claro que a escolha gerou um certo desconforto entre os candidatos, mas nada que invalidasse a seleção dos jovens.

Os jovens escolhidos, então, passaram a receber as orientações da dona Clarice, de tal sorte que na noite de inauguração não houvesse falha.

Os jovens que não foram selecionados, sob a liderança do Vinicius, resolveram que participariam da representação, como uma forma de complementar a cena do Presépio Vivo. Segundo os quais, surpreenderiam o público e a dona Clarice.

Enfim, chegou a véspera do Natal. A Praça Central toda enfeitada e iluminada começou a receber os moradores e convidados para a primeira celebração natalina do Garden City.

Às 20h e 30 min, a Manjedoura estava às escuras e o caminho que levava até ela foi repentinamente iluminado ao longe. Sob a luz, em formato de estrela, um burrico puxado por José, transportava Maria grávida. Conforme se aproximavam da manjedoura a luz, que seguia iluminando o casal, parou na entrada. José, então, ajudou Maria a descer com cuidado e os dois se encaminharam para o seu interior, que estava vazia de pessoas, apenas com alguns animais que dormiam. A luz da Estrela se apagou. Passados alguns minutos, ela voltou a acender e iluminar o interior da Manjedoura. Sob a luz, um berço improvisado acolhia um menino recém nascido...Era Jesus. Maria e José o acalentavam, encantados.

Enquanto o público admirava a cena, em silêncio, viu-se aproximar da Manjedoura três figuras solenes, vestindo roupas coloridas, esvoaçantes e turbantes, típicas dos persas. Nas mãos, traziam presentes para o menino que sonharam representar uma nova era.

Como uma luz divina que iluminava o berço viram a criança de seus sonhos. A alegria tomou conta dos três, que caíram de joelhos e beijaram o chão.

Os Reis Magos ofereceram três presentes ao menino Jesus...O ouro, por representar a realeza, o incenso, usado nos templos, para simbolizar a oração que chega a Deus...E a mirra, resina antisséptica usada nos embalsamentos.

Foi um momento de extrema sensibilidade que, em silêncio, encantou a todos.

Passado aquele momento mágico do nascimento, ouve-se ao longe muita música, são pastores com crianças, que se dirigiam ao local do nascimento. Eram os jovens que haviam participado do concurso, mas não foram selecionados. Vestiam roupas típicas da época e conduziam uma ovelha para bem representar suas atividades.

Como se tivesse sido programado, aproximaram-se da Manjedoura, com seus cânticos e instrumentos musicais improvisados como câmbalos, alaúdes, pífaros, pandeiros e tambores.

Conforme foram chegando perto da Manjedoura, pararam a música e foram se ajoelhando para reverenciar o menino Jesus.

Dona Clarice, que não programara aquela encenação, ficou perplexa pela iniciativa dos jovens e, ao mesmo tempo, encantada com o encaixe perfeito no conjunto da obra.

O público, que até então se mantivera passivo, explodiu em gritos e aplausos... Depois, correu para abraçar os atores e cumprimentar dona Clarice que, mais uma vez, deu show de organização teatral.

Aquele momento em que todos se abraçavam foi, sem dúvida alguma, a melhor confraternização de Natal já feita no Garden City. O seu Gumercindo, que teimou em realizá-la, não pode conter as lágrimas, acabou chorando abraçado aos familiares.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 20/12/2016 às 10h33 | sannickelle@gmail.com

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A Viagem

Por ocasião da Missa de Sétimo Dia do falecimento de minha esposa Sandra Maria, em 1997, li, naquela ocasião a seguinte mensagem, por mim redigida:

SOU PASSAGEIRO DE UM TEMPO FINITO,
TENDO EMBARCADO EM 1943, QUANDO,
SEM OPÇÃO, DERAM-ME UMA PASSAGEM SÓ DE IDA.
NÃO LEMBRO DO EMBARQUE,
SEI APENAS QUEM COMPROU O BILHETE.
FOI JOÃO NICKELLE.
QUEM ME EMBARCOU, NO ENTANTO, FOI GRACIOLINDA.
UMA MULHER RUDE E SENSÍVEL, QUE POUCO CONHECI...
ELA DISSE À PASSAGEIRA CELANIRA FALCÃO
QUE EU ATENDERIA PELO NOME DE SAINT CLAIR.

DO INÍCIO DA VIAGEM EU NÃO LEMBRO DETALHES...
APENAS FRAGMENTOS DE PAISAGENS, CHEIROS E SONS...
UM QUEBRA-CABEÇAS QUE JAMAIS CONSEGUI MONTAR,
PARECEM SONHOS QUE UM DIA SONHEI...
PARECE FUMAÇA QUE SE ESVANECEU AO LONGO DA ESTRADA.

DURANTE MUITO TEMPO VIAJEI SÓ.
EM 1966, PAREI NUMA ESTAÇÃO ENCANTADA...
FOI LÁ QUE CONHECI SANDRA E, COM ELA, FORMEI UM PAR.
A VIAGEM NÃO ERA MAIS MINHA, PASSOU A SER NOSSA.
FORAM MOMENTOS INESQUECÍVEIS, CHEIOS DE AMOR,
DÁDIVAS E TRANSFORMAÇÕES...
AMADURECEMOS COMO PESSOAS E COMO CIDADÃOS.

O AMOR NOS FEZ VER AS MESMAS PAISAGENS DE FORMA DIFERENTE...
NELAS OBSERVAMOS DETALHES QUE NÃO PERCEBÍAMOS ANTES...
FIZEMOS NOVAS RELAÇÕES E NOVAS AMIZADES,
PASSAGEIROS QUE PASSARAM A COMPARTILHAR CONOSCO...
AS COISAS BOAS...AS INCERTEZAS E AS ESPERANÇAS.

NA ESTAÇÃO DE 1969, EMBARCAMOS A SABRINA.
A MENINA DOS NOSSOS SONHOS,
QUE PASSOU A NOS ACOMPANHAR EM TODOS OS MOMENTOS.
BREJEIRA E SAPECA NOS PROPORCIONOU O DESAFIO DO PÁTRIO PODER,
COISA JURÍDICA, QUE PENSÁVAMOS SER, TÃO-SOMENTE, AFETIVA.

NA ESTAÇÃO DE 1973 EMBARCAMOS O MICHEL...
OUTRO PASSAGEIRO QUERIDO, QUE MUITO DESEJÁVAMOS.
O CASAL DE FILHOS TORNOU NOSSA VIAGEM MENOS ROTINEIRA,



BASTARIA AMÁ-LOS,
ORIENTÁ-LOS,
EDUCÁ-LOS E,
DEIXAR-LHES SEGUIR EM FRENTE,
QUANDO, ENTÃO, PODERÍAMOS DESEMBARCAR PARA SEMPRE.

NA ESTAÇÃO DE 1997, NO ENTANTO, UM INFORTÚNIO FEZ SANDRA
DESEMBARCAR INTEMPESTIVAMENTE, DEIXANDO-NOS.
FOI UM MOMENTO MUITO DIFÍCIL,...PENOSO PARA SER ACEITO,
INSUPORTÁVEL PARA SER ESQUECIDO.

HOJE, PASSADOS ALGUNS ANOS, DEIXAMOS NAQUELA ESTAÇÃO,
GRANDE PARTE DOS NOSSOS SONHOS,
COISAS QUE GOSTARÍAMOS DE TER REALIZADO...

A PAISAGEN PERDEU O COLORIDO DE OUTRORA E,
OS OLHOS CHORARAM MUITAS VEZES.
AGORA OS OLHOS JÁ NÃO CHORAM TANTO,
MAS O CORAÇÃO SIM,
ÀS VEZES SOLUÇA QUIETINHO EM SILÊNCIO,
MAS, NÃO HÁ NADA QUE SE POSSA FAZER E,
SERIA COVARDIA QUERER DESCER ANTES DO TEMPO,
ALGUNS SOFRERIAM COM ISTO.

DESCER DESSA VIAGEM É UMA QUESTÃO INDIVIDUAL, MAS
CONTINUAR É UM COMPROMISSO COLETIVO, PORTANTO
SÓ ME RESTAVA SEGUIR A VIAGEM...
NÃO HÁ PASSAGEM DE VOLTA.

AS NOVAS ESTAÇÕES TALVEZ TRAGAM LEMBRANÇAS,
TALVEZ ESPERANÇA,
QUEM SABE UMA NOVA COMPANHIA.

SEI AGORA, QUE NÃO FOI NAQUELA ESTAÇÃO QUE
IMAGINEI DESCER...

MAS, SEI TAMBÉM QUE,

QUANDO DESCER,

A ENCONTRAREI JOVEM E RADIANTE
COMO A CONHECI.
 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/12/2016 às 11h31 | sannickelle@gmail.com

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O medo matou a solidariedade

A solidariedade, esse gesto humano que nos diferencia dos animais, não significa apenas reconhecer a situação especial de uma pessoa ou grupo social, mas consiste no ato de ajudar essas pessoas, circunstancialmente, desamparadas.

Quando o Garden City ainda engatinhava como condomínio, se permitia, como nos demais logradouros urbanos, a aproximação de esmoleiros, de vendedores de frutas e legumes, etc., sem qualquer restrição.

Nessa época, os poucos moradores ainda estavam imbuídos da filosofia cristã de amar ao próximo e também o lado romântico da vida na zona rural. Muitos desses moradores oriundos de cidades pequenas, e que vieram morar na Capital por motivações diversas.

Bastou, no entanto, acontecer um furto na casa de um dos primeiros moradores, o seu Agenor, vulgo Nonô, para que o idílio campesino desse lugar a neurose urbana.

Em assembleia, decidiram os moradores, motivados pelo infortúnio do seu Agenor, estabelecer restrições rígidas para o ingresso de pessoas estranhas ao Condomínio. Nascia aí a separação física do Garden City à cidade, tal qual as cidadelas da idade média.

“Na Grécia antiga, a cidadela, que era chamada de acrópole (...cidade alta...) era uma presença eminente constante na vida do povo da cidade, servido como refúgio e fortaleza em situações de perigo...Na Idade Média a cidadela era a última linha de defesa de um exército sitiado, frequentemente defendida mesmo depois que a cidade já havia sido conquistada, e oferecia abrigo às pessoas que moravam nas áreas rurais em volta das cidades. ”

O medo que se repetisse atos semelhantes ao sofrido por um de seus moradores, fez com que se edificasse uma portaria típica das fortificações militares, cujo ingresso de estranhos e mesmo dos moradores, passou a ser rigidamente controlado... qualquer semelhança com o ocorrido entre os países europeus, durante a segunda Guerra Mundial, é mera coincidência.

Assim se espalharam os condomínios pelas cidades mais populosas, onde o medo tem predominado e a imprensa, na ânsia de informar, prioriza os acontecimentos policiais, deixando os urbanitas cada vez mais neuróticos.

Eu lembro, como se fosse hoje, o que ocorreu com o jovem Plínio de Almeida, filho do nosso vizinho de Condomínio, o seu Osvaldo. Ele estava voltando da Faculdade de Direito da PUC, lá pelas 23 horas de uma sexta-feira, quando seu carro teve uma pane, justamente na subida da Eduardo Prado, voltando para Ipanema. Conseguiu parar o carro no acostamento, depois tentou pedir ajuda para os carros que passavam, mas ninguém parou, até porque ali fica um conjunto habitacional popular e o pessoal tem medo de parar.

Depois de mais de uma hora, como não conseguiu ajuda, o Plínio saiu caminhando para tentar voltar a pé para casa, já que o celular estava sem bateria. Continuou pedindo ajuda sem sucesso.

Logo em seguida, foi abordado por cinco marginais que o assaltaram, roubando-lhe a carteira, relógio, celular e a chave do carro.

Como o carro não funcionou os bandidos, furiosos, passaram a surrá-lo e, depois da atrocidade, abandonaram-no, ensanguentado, no chão.

Como passava da 1h da manhã, seu pai acordou e foi ver se o filho havia chegado. Constatando que o Plínio não chegara, pegou o celular e ligou, mas não obteve resposta. Avisou a esposa que iria procurar pelo filho, pois temia ter-lhe acontecido alguma coisa.

Pôs o carro em movimento e, ao passar pela Portaria do Condomínio, avisou o porteiro que iria procurar o Plínio e, se acaso ele chegasse, que ele o avisasse pelo celular.

Seguiu pela Juca Batista, contornou a rótula e pegou a Eduardo Prado. Sem correr, procurava observar se via o carro do filho. Chegou no topo da Avenida, junto ao Condomínio Jardim do Sol, e começou a descer em direção à Cavalhada.

Perto da COHAB avistou, do outro lado da pista, o carro do Plínio. Fez o retorno e parou junto do corpo estendido do filho:

- Plínio, meu filho, o que houve meu querido?

Plínio, abriu os olhos inchados da surra que levara, viu o pai e ambos choraram compulsivamente.

- Meu amado filho, o que houve?

- Fui assaltado pai.

- Vou chamar uma ambulância e ligar para a polícia.

Devidamente medicado, pai e filho chegaram em casa pela manhã, já sob um sol intenso de verão. A mãe, que fora informada por telefone, aguardava ansiosa para abraçar o filho.

Agora, em casa, o Plínio pode contar detalhes de seu infortúnio:

- Meu carro teve uma pane e como meu celular estava descarregado, eu desci para pedir auxílio, mas ninguém parou para me ajudar. Depois de uma hora, cinco caras me assaltaram e tentaram fugir no meu carro, que não funcionou, então, resolveram me surrar! Depois, me abandonaram no chão. Alguns carros até diminuíam a velocidade para constatar um corpo ensanguentado caído junto do carro, mas ninguém parou. Acho que depois eu desmaiei e perdi a noção do tempo. Só acordei quando meu pai me abraçava chorando...

A imprensa, de um modo geral, tem contribuído para que as pessoas tomem cuidados ao prestar socorro, pois muitos casos de assalto são praticados em simulações de acidente, especialmente com motos. Assim, as pessoas que veem acidentes e/ou acidentados relutam em parar. Esse, talvez, tenha sido o caso do filho do seu Osvaldo.

No entanto, existe sempre a possibilidade de avisar a polícia, de tal sorte que esta possa verificar a veracidade da situação. Portanto, não se omita, recupere o gesto humano da solidariedade para não deixar morrer o sentimento de fraternidade.

“ A fraternidade universal designa a boa relação entre os homens, em que se desenvolvem sentimentos de afeto próprios dos irmãos de sangue."

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/12/2016 às 14h36 | sannickelle@gmail.com

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Ostentação

O Clovis, mais conhecido como coquinho, nos convidou para uma mateada no caramanchão da Praça Central. Como sempre lá compareceram o seu Gumercindo, genro do Clóvis, o Luiz Paulo, delegado aposentado, o Sérgio, auditor do Banco Central, o Reginaldo, professor de Sociologia e eu.

Enquanto a cuia girava de mão em mão, o seu Gumercindo fez o comentário que todos esperavam:

- Vocês viram a Polícia Federal bater na casa do Carlos Alberto de Bezerra às 6 h da manhã, ontem?

- Eu, como resido junto à Praça da Frente, acordei com uma grande movimentação de veículos e, como curioso e ex-policial que sou, fui espiar para ver. Não deu outra, era na casa do Bezerra, disse o Luiz Paulo.

- Qual teria sido o motivo?

- Eu acredito que faça parte da Operação Lava Jato, aquela que tá pegando os safados que participaram do Governo do Estado de 2004 a 2008.

- Mas ele foi só o braço direito do Governador. Será que ele tá envolvido naquele propinoduto do Serguei Cabriles?

- Quem duvida ou é louco ou burro! Vocês não viram como cresceu o patrimônio dele naquele período? - afirmou o Clóvis, fazendo roncar aquele chimarrão buenacho.

- Pois, não é que tu tens razão vivente! Mas, antes que eu comente, me passa a cuia e a chaleira que a goela tá ficando seca! - disse o seu Gumercindo. Depois de um ano que o Bezerra tava no Governo, ele comprou a casa do lado e começou uma grande reforma. Depois de pronta, a casa boa e simples que morava com a família, deu lugar a uma mansão de dois pavimentos, garagem para seis carros e, um terraço com piscina e churrasqueira acima do segundo pavimento.

- Vocês lembram o carro que ele tinha?

- Se, não me engano, era uma caminhonete Ford F-100, 1982.

Agora ele desfila num AUDI Q3, sua mulher num Land Rover Range Rover Evoque.

- E os filhos?

- Eles tem dois filhos, um casal para ser mais exato. A moça tem um Hyundai Hb20X e o rapaz um Chevrolet Camaro. Todos carros do ano.

- Meu Deus! Não foi com o salário de Secretário do Governador que ele conseguiria tanto dinheiro.

- Claro que não, Reginaldo! Tu lembras quando ele veio pedir para suspender a dívida que ele tinha com o condomínio, pois a casa estava prestes a ir para leilão?

- Tu era o síndico na ocasião, não é verdade, Luiz Paulo?

- Sim, seu Gumercindo! Ele inclusive chorou, dizendo que sua família não teria para onde ir. Apiedados, eu e o Conselho Fiscal fizemos um acordo para suspender a decisão judicial. Ele pagaria a taxa normal do condomínio mais 10% da dívida a cada mês. Foi a forma que encontramos para suspender o leilão.

- O mais curioso, e que remete à personalidade do Bezerra, é de que depois que ele melhorou de vida, deixou de ser compreensivo com os inadimplentes.

- É verdade seu Gumercindo! Eu lembro daquela Assembleia que elegeu o seu Osvaldo e que definiu a alteração da taxa condominial, quando ele propôs um aumento de 100%.

- Ela só não foi aprovada, porque o nosso grupo, como sempre coerente, bateu pé para não agravar a condição dos condôminos que tinham mais dificuldades.

- Ele, na ocasião, afirmou que quem não pudesse pagar que fosse morar na Restinga, não num condomínio como o Garden City.

- Fiquei horrorizado. Disse o Luiz Paulo.

- Como pode uma pessoa esquecer, especialmente diante de mim, tudo o que ele passou e foi comtemplado com tanta humanidade, inclusive pelos membros do Conselho Fiscal que também estavam presentes naquela assembleia?

- Só pode ser desvio de personalidade.

- Ou um baita cara de pau!

- Taí, agora foi preso pela Polícia Federal. Certamente não vai se livrar da taxa condominial e, talvez perca a casa, os carros, as obras de arte, as jóias da mulher para saldar o que ganhou ilicitamente.

- Dizem que ele se sentiu mal quando teve que enfrentar os olhares críticos dos vizinhos que acompanhavam a sua prisão.

- Se ele de fato se sentiu mal não se sabe, mas a Polícia Federal acabou internando-o no Pronto Socorro Municipal.

- O que a imprensa noticiou, Reginaldo, foi que os médicos não constataram nada com ele, liberando-o para ser encaminhado ao Presídio Central.

- E vocês viram o escândalo que ele fez para não ser encaminhado à prisão?

- Como foi, Clóvis?

- O barraco protagonizado pelo Bezerra e pela família viralizou ao longo da madrugada desta sexta-feira, especialmente entre os moradores do Garden, que sentem um gostinho de vingança depois de tanta ostentação indevida.

- Clóvis, põe erva nova neste mate, tá ficando aguado.

- É pra já, Sérgio!

- Se ele fosse um cara discreto, como muitos políticos, talvez estivesse até agora desfrutando dos nossos impostos desviados para o bolso dos engravatados sem escrúpulos.

- Sim, os que sempre declaram não saber de nada, mas que andam cercados dos melhores advogados do país, no caso de uma prisão intempestiva.

- Pessoal, chimarrão novo e bem quente, vamos esquecer, por ora, as safadezas do nosso vizinho ostentador.

- Tens razão, Clóvis! Nada como um chimarrão gostoso entre amigos.

“ Ostentar é a ação de mostrar ou exibir com alarde, com pompa, em atos públicos ou particulares. É se mostrar com ostentação, ou seja, com grande luxo, esplendor ou suntuosidade.”

“Estima-se que R$ 200 bilhões são desviados no Brasil, por ano. Esse dinheiro poderia servir para triplicar o investimento federal em saúde e educação…”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 24/11/2016 às 17h21 | sannickelle@gmail.com

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O amor

Morar em Condomínio, como numa cidade pequena, todos ficam sabendo de tudo. Quem trai, quem é comportado, quem é conquistador, quem é homosexual, quem é honesto ou desonesto, etc.

Vocês lembram do marido da Marialba, que vivia dando em cima das empregadas domésticas e, que levou a esposa preterida a atacar a Noeli, por entender que ela estava dando “corda” para o Paulão, seu marido. Coitada da Noeli, além de inexpressiva, não era nenhuma “gostosa” para chamar a atenção do Paulão. Mas, enfim acabou agredida de graça.

Vocês lembram da Ritinha e do Julinho que costumavam namorar na Praça da frente…Pois é, depois de tanto namorar, a Ritinha ficou “embuchada ”, para desespero das famílias dos dois adolescentes.

A família da Ritinha queria que a filha abortasse, pois não gostava do Julinho que, para eles, era um desocupado e leviano.

Eles, quando ficaram sabendo da gravidez, quase bateram na Ritinha, dizendo-lhe:

- Onde você estava com a cabeça Rita Maria da Silveira, para transar com aquele irresponsável que vive às custas do pais?

- Pessoal eu o amo. Vocês parecem que nunca se apaixonaram. De repente eu sou uma Maria Madalena que deve ser apedrejada. Em que mundo vocês vivem?

Enquanto que a família do Julinho a acusava de devassa, afirmando que seu rico filho jamais casaria com alguém que já tinha transado com meio Condomínio. A tensão entre as duas famílias só não propiciou uma tragédia, porque o Julinho disse:

- Eu amo a Rita Maria e vou casar com ela, quer vocês queiram ou não.

A mãe e o pai do Julinho ficaram horrorizados com a decisão do filho e, ponderaram:

- Se você casar com essa lambisgoia, nós te deserdamos…Você não terá como se sustentar, muito menos a criança que ela está esperando, seu trouxa inconsequente.

- Você nem sabe se o filho é teu…

- Eu sei que é. Foi feito com muito amor. Diferente deste amor que vocês dizem sentir por mim…

- Filho ingrato, depois de tudo que fizemos por ti é assim que nos trata.

- Vá, então, case com aquela devassa e esqueça que somos teus pais.

- Não era isso que eu esperava de meus pais, mas só agora eu entendo o real valor que sou para vocês…Obrigado pelos meios que me deram, mas eu não posso deixar de assumir essa responsabilidade para com a Rita, principalmente agora que ela está grávida.

- Vocês me julgam como um criminoso.

- Se olhem no espelho do tempo, dezoito anos atrás.

- Você, mamãe, não estava grávida quando casou?

- Chega, Júlio Henrique, o meu passado não tem nada a ver com a situação atual.

- Como não, mamãe?

- Que eu saiba, você casou com o papai porque já me tinha na barriga.

- Se isso lhe causou um trauma, então, eu posso concluir que fui um filho indesejado…

- Não, meu filho querido. Você foi concebido com muito amor e, desde que ficamos sabendo, eu e seu pai, nós passamos a te amar para sempre.

- Então, pai e mãe, porque não querem me apoiar agora?

Um imenso silêncio pairou no ar…E alguns dias depois os pais do Julinho o chamaram para converser:

- Perdoe-nos, filho.

- Às vezes, por excesso de amor, cometemos injustiças.

- Você, meu filho amado, podes casar com a Rita Maria. Nós vamos te dar pleno apoio para o casamento, não é meu bem?

- Sim, sim!

- Se você nos permitir, filho, nós gostaríamos de falar com os pais da Rita.

- Tudo bem, eu aceito.

A conversa dos pais do Julinho com os pais da Ritinha, foi exitosa, desanuviando todas as incertezas. Inclusive, eles decidiram que o casamento seria realizado na Praça central do Garden City, para que todos os moradores fossem convidados.

No dia aprazado, a Praça central estava plenamente enfeitada e, no caramanchão, o Juiz de Paz, aguardava os noivos. Eles entraram sob aplausos, conduzidos respectivamente, pela mãe do Júlio Henrique e, logo atrás, pelo pai da Rita Maria.

A festa, para centenas de convidados, foi a mais emocionante dos últimos tempos. Naquele momento, todas as possíveis desavenças deram lugar a troca esfuziante de gentilezas O amor venceu.

"O amor é uma questão complexa que reflete a atitude e a filosofia de cada pessoa para com a vida. Eis por que acredito que as pessoas não devem se envolver em relacionamentos de forma leviana. É como diz um ditado japonês:"O amor não é um jogo". Se o amor pudesse ser explicado de forma racional, todos os sofrimentos que ele causa desapareceriam do mundo. Porém, o importante é que, sem respeito, nenhum relacionamento durará muito tempo nem duas pessoas serão capazes de extrair o melhor uma da outra."??Brasil Seikyo, edição n° 1.264, 12 de março de 1994, pág. 3.)

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/11/2016 às 10h28 | sannickelle@gmail.com

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O pomar e o clima do planeta

Quando o Garden City ainda era um recém nascido, lembro-me bem de uma assembleia que discutia a utilização da área livre, em cujo projeto de urbanização havia sido previsto uma extensa reserva verde. Extensa porque ela se estende da entrada do Condomínio até o último acesso.

Alguns defendiam que ali se deixasse uma área para estacionamento futuro, pois já se previa o aumento do número de carros por morador. Esses que defendiam essa ideia eram contra o plantio de árvores de qualquer espécie, permanecendo apenas um grande gramado. Outros, no entanto, por conhecerem o significado de Cidade Jardim, defendiam ali uma área verde, com muita arborização. Segundo esse grupo, a vegetação que cresce por meio da fotossíntese, captura gás carbônico e libera oxigênio. Só assim teríamos um ambiente saudável para morar e educar nossas crianças. Aliás, diziam ter sido isso que os fez buscar um condomínio horizontal, com muita área verde e recreação ao ar-livre para morar.

Dessa Assembleia surgiu, de uma bióloga, a proposta de plantarmos ali frutíferas, de tal sorte que desfrutássemos do antigo hábito de colhê-las no próprio pé. Além disso, esse extenso pomar cumpriria o papel de pulmão verde, bem como atrairia diversos tipos de pássaros para deleite dos moradores.

Os contrários, no entanto, diziam que as frutíferas trariam disputas entre os moradores que, pela proximidade de algumas casas, os fariam sentir-se donos.

Quanto ao aspecto de atração aos pássaros, diziam que eles trariam doenças transmitidas por suas fezes, como a escherichia coli, a psitacose que é uma doença da via aerógena, ou seja inalação de pó contaminado por fezes.

Os defensores da natureza ficaram indignados com tamanha neura, sugerindo que os defensores de tal higidez, se mudassem imediatamente para não contrair doenças também pelo convívio com os vizinhos.

Para acalmar os ânimos, o presidente da Assembleia resolveu colocar em votação a ideia do pomar.

O resultado foi quase unanimidade pela constituição do pomar, 37 a favor e 5 contra.

Foi, então, composta uma Comissão Especial, tendo como presidente a Bióloga Sandra Maria e, outros três membros, o Engenheiro Agrônomo Sílvio Rodrigues, o Próprio síndico, Sr. Luiz Paulo e o jardineiro Marcílio.

No plano dessa Comissão Especial, se plantariam as mais diversas frutíferas, levando-se em conta as épocas de frutificação, de tal sorte que os moradores pudessem desfrutar delas o ano todo. Outro aspecto foi o de repetir grupos de frutíferas para que favorecessem uma certa proximidade para os diversos acessos. Assim, ninguém se sentiria mais privilegiado que outros moradores.

Nesses grupos de frutíferas deveriam constar sempre laranjeiras, pereiras, limoeiros, abacateiros, amoreiras, goiabeiras e bergamoteiras. Outras espécies, menos comuns, como araçazeiro, pitangueira, mirtilo, laranjeira azeda, limão galego, parreira, bananeira, etc. seriam distribuídas aleatoriamente.

Adquiridas as mudas na CEASA, em pouco tempo aquele gramado rústico de campo deu lugar a um grandioso pomar.

Os moradores, daquela época, ajudavam a adubar com a expectativa de vê-las crescer e dar seus primeiros frutos. Era sempre uma festa para os adultos e para as crianças.

O tempo passou, e alguns anos depois até festa da colheita existiu. Essas festas, instituídas pela Administração do Garden City, eram feitas sempre num domingo, onde a maioria dos condôminos podia participar. Munidos de cestas de vime, crianças e adultos colhiam as frutas que estavam maduras, depositando-as no caramanchão da Praça Central, onde depois seriam divididas irmãmente. Depois da colheita um churrasco era servido, onde ao som de músicas gauchescas, brindávamos o que a natureza e a nossa determinação propiciara.

Foi um momento muito feliz no Condomínio

Infelizmente, novos moradores vieram e por não terem participado de todo o processo de decisão, plantio e cuidados adicionais com o pomar, passaram a não respeitar as regras da colheita, permitindo que os seus visitantes colhessem indiscriminadamente as frutas, as vezes ainda nem maduras. Depois de cada fim-de-semana era uma verdadeira desolação, quando sob as frutíferas jaziam centenas de frutas arrancadas ainda verdes ou que serviram de meio para a guerra entre crianças mal educadas.

Nas Assembleias, muito se criticou os moradores inconsequentes, ao ponto da Administração do Condomínio ser obrigada, por decisão de maioria, a editar regras por escrito, para que os que não cumprissem fossem multados. O clima, antes quase idílico, passou a ser de vigilância de todos por todos. Muitas foram as interpelações de vizinhos com moradores e visitantes. Até briga se viu.

Alguns pais interpelados, porque seus filhos faziam guerra com as frutas, diziam que só mesmo as compradas possuíam as qualidades que suas famílias requeriam.

Se, num universo tão pequeno como um condomínio, não se consegue unanimidade de respeito à natureza, mesmo que ela esteja só beneficiando os moradores, imagine o mesmo respeito pelo planeta.

“O Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, adotado pelos líderes mundiais em dezembro de 2015 na capital francesa, entra oficialmente em vigor nesta sexta-feira (4). O acordo estabelece mecanismos para que todos os países limitem o aumento da temperatura global e fortaleçam a defesa contra os impactos inevitáveis da mudança climática.”

“O planeta deve reduzir "de forma urgente e radical" as emissões de gases de efeito estufa se quiser evitar uma "tragédia humana."

Recentemente, o novo síndico, Sr. Fabiano, resolveu prestar uma homenagem póstuma aos membros daquela Comissão Especial que, mesmo diante das contrariedades enfrentadas, contribuíram para a saúde do planeta, neste micro espaço de um simples condomínio. Se cada pessoa fizer a sua parte, mesmo de forma tão pequena, certamente reverteremos a tragédia humana que ameaça a vida na terra.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/11/2016 às 12h35 | sannickelle@gmail.com

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