Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Mateada na praça

Após as eleições para síndico, o Clóvis nos convidou para uma mateada na Praça Central, onde poderíamos comentar os acontecimentos decorrentes do processo eleitoral, desde a eleição até a apuração.

No domingo, como combinado, lá estava o Clóvis pilchado e com erva mate da boa, um fogareiro e uma chaleira preta chiando de faceira com fogo no rabo. Aos poucos fomos nos aprochegando em volta do fogareiro. Lá estavam o seu Gumercindo, sogro do Clóvis, o Luiz Paulo, o Reinaldo, o Sérgio e eu.

Enquanto a cuia morena rolava de mão em mão, a conversa rolou solta:

_Mas bah, tchê! O que vocês acharam daquela confusão na apuração das eleições?

- Olha Clóvis, essa foi a primeira vez que numa eleição de síndico se utilizou urna eletrônica e, também, uma tentativa escandalosa de fraudar o resultado.

- Tu achas Luiz Paulo, que o síndico estava de fato envolvido ou só os membros do Conselho Fiscal?

- Muito embora, tenha havido aquela discussão entre o síndico e os membros do Conselho, todos nós sabemos que a candidata da Administração era a dona Jaslene. Isso, por si só, compromete a todos. Mas, diante do resultado posterior da verdadeira apuração, em que a lógica apontava a vitória do Fabiano, o pessoal resolveu não aprofundar a questão o que, a meu ver, foi um erro.

- E tu Sérgio, como agente de fiscalização do Banco Central, não tiveste vontade de enquadrar aqueles safados?

- Olha Luiz Paulo, não é pelo fato de ser profissional da Corregedoria do Banco que esses acontecimentos não me incomodam, mas também e, principalmente,  por ser morador do Garden, onde eu espero, como vocês, que as atitudes éticas prevaleçam na nossa comunidade. Fiquei indignado, sim, com a tentativa de fraudar uma eleição de síndico que, afinal tem sido tratada, desde que aqui moro, como uma eleição pacífica, aliás sem muita disputa.

_É verdade Sérgio, até agora as eleições de síndico e Conselho Fiscal foram  quase decisões de consenso, sem esse tipo de campanha que ocorreu neste ano. Nós até havíamos concluído que a crise econômica era responsável pelo inusitado número de candidatos.

- E quanto a atitude da dona Jaslene, o que vocês acham?

- Olha seu Gumercindo, eu moro na Praça Central e sou vizinho dela, claro não de lado, mas a vejo seguido, sempre a cumprimento e ela parece ser uma pessoa legal, mas parecer não significa certeza, portanto, é bem possível que ela tenha realmente rejeitado participar da tramoia.

- Eu já não penso assim Sérgio, pois até a indicação dela para concorrer partiu do ex-síndico e do pessoal do Conselho, portanto, ela tinha o perfil que eles queriam.

- Mas como ela, então, afirmou ter se recusado a participar da tramoia?

- Olha Sérgio, na condição de delegado aposentado, já vi muito bandido tentar se safar, acusando os demais e se declarando coagido.

- Eu concordo contigo Luiz Paulo, foi muito fácil para ela tirar o time de campo depois que a fraude ficou escancarada.

_É pessoal, só quem não se safou foram os três membros do Conselho, os quais estão pensando seriamente em se mudar do Garden City.

- Já vão tarde, aqueles safados metidos.

 

 

 

_Pessoal, vou trocar a erva que já está muito lavada;

- Claro Clóvis, mas desde que seja aquela produzida pelos teus parentes no Alto Vale do Taquari;

- Mas bah, tchê! Essa mesma. Aliás, lá em casa só temos dessa erva;

- Mas, voltando ao assunto da mateada, o que podemos esperar da administração do Fabiano?

- Pelo número de votos, ele quase emplacou por consenso. Certamente ele fará uma boa gestão, desde que não repita os devaneios do ex-síndico, o qual tanto sonhou que acabou não concluindo os projetos que se propôs a fazer;

- Eu penso Reinaldo, que parte da culpa também é nossa, pois como aqui não é uma cidade, se quisermos podemos ser parte ativa dos rumos da administração. O negócio é não deixar acontecer e depois reclamar quando da próxima eleição. Eu, inclusive quero deixar uma sugestão para o nosso grupo, fazermos uma reunião com o Fabiano, convidando-o para uma mateada no próximo domingo;

- Grande ideia seu Gumercindo, vamos nomear o Clóvis para fazer-lhe o convite. Concorda Clóvis?

- Mas claro, já está aceito o encargo;

- É bom, então, prepararmos algumas questões que sejam de consenso para nós;

- É isso aí, seu Gumercindo;

- Com a crise econômica do país, hoje estamos com um elevado número de inadimplentes, o que compromete os recursos financeiros para saldar nossos compromissos com os funcionários fixos e as empresas terceirizadas. Será que o novo síndico pretende elevar a taxa condominial?

- Essa é uma questão muito importante, Sérgio. Mas, elevar a taxa condominial pode, antes de ser uma solução, agravar a inadimplência;

- Precisamos saber o que pensa o Fabiano a respeito;

- Se, no entanto, ele não optar por aumentar a taxa, como enfrentará o problema?

- Bem, já temos uma boa questão para discutirmos, mais alguma sugestão;

- Outra questão que me parece relevante, diz respeito ao aumento acentuado de carros estacionados ao longo da via principal e acessos, faltando espaço e vagas para que possamos receber visitas;

- É verdade Reinaldo. Aqui tem casas que possuem um carro por morador e, nem há garagem para todos, precisando estacionar nas ruas;

- Além dos abusados, que acabam estacionando nos gramados das duas praças e mesmo no nosso pomar;

- Essa é outra questão que precisamos discutir com o Fabiano;

- Muito bem colocado Reinaldo;

- Outra questão diz respeito as obras, quer sejam de reformas ou mesmo novas. Sendo comum o morador e/ou empreiteiro utilizar a rua para depósito dos materiais, criando um problema de tráfego. Outro dia houve uma batida justamente porque a via principal ficou, por um bom tempo, em pista única;

- Bem lembrado Clóvis;

- Por fim, só como lembrança, a segurança. Eu quero lembrar que há um movimento para que o Fabiano restabeleça o programa SEGURANÇA, VIA WHATSAPP, cancelado pelo último síndico pelos abusos nas comunicações.

 Só nos resta agradecer ao Clóvis pelo excelente chimarrão e, até domingo...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 11/10/2016 às 16h19 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Apuração eleitoral

 Até segunda-feira não havia sido divulgado o resultado da eleição para síndico, após aquela grande confusão patrocinada pelos eleitores no domingo.

A noite na casa do síndico, os membros da atual Diretoria estavam reunidos para proceder a apuração e, na rua, os candidatos e seus respectivos apoiadores faziam pressão, gritando:

 

- É HORA! É HORA! QUEREMOS O RESULTADO DA ELEIÇÃO AGORA .

 

 

- É HORA! É HORA! QUEREMOS O RESULTADO DA ELEIÇÃO AGORA .

 

 

Depois de 1 hora, a porta da casa do síndico se abriu e o presidente do Conselho Fiscal, com um Edital na mão, entregou cópias aos candidatos.

O empurra, empurra impedia que os demais eleitores pudessem se aproximar dos quatro candidatos que empunhavam as cópias do Edital de Apuração.

Felizmente, o seu Pompílio resolveu ler o resultado para todos que se aglomeravam na frente da casa do síndico

- Aqui no Edital consta o seguinte resultado:

 

Em primeiro lugar, com 50% dos votos, dona Jaslene;

Em segundo lugar, com 35% dos votos, seu Palhares;

Em terceiro lugar, com 15% dos votos, seu Fabiano;

E, em último lugar, sem nenhum voto, o seu Orual.

 

Ouviu-se uma vaia ensurdecedora pelos presentes, inconformados com o resultado inesperado.

Mas o seu Orual, que havia tomado o Edital das mãos do seu Pompílio, gritou:

_É FRAUDE! É FRAUDE!

- Como assim? Gritaram os presentes.

- É FRAUDE SIM. Eu votei em mim, portanto, como poderia não ter nenhum voto?

De repente, o povão ficou calado, como a pensar nas palavras do seu Orual, explodindo, logo em seguida:

 

- É FRAUDE SIM! É FRAUDE SIM! Queremos recontagem agora sim.

 

Em ato contínuo, passaram a esmurrar a porta do síndico, exigindo que os votos fossem conferidos.

O síndico e os demais membros da Comissão Eleitoral, diante do enfurecimento do povo, resolveu atender na marra a reivindicação, antes que a porta da sua casa fosse arrombada.

Quando entraram na casa do síndico constataram que, em cima da mesa de jantar, a urna eletrônica parecia intacta e logo perguntaram:

- Onde está o mapa da apuração?

 

 

 

Os membros da Comissão Eleitoral, com caras de ladrões arrependidos, passaram a acusar o síndico pela fraude:

- Foi ele pessoal, que nos obrigou a inventar esse resultado, pois o relatório da urna eletrônica nós nem sabemos até agora.

Mas o síndico não ficou calado, dizendo aos gritos:

- SEUS SAFADOS, FOI AO CONTRÁRIO, FORAM VOCÊS QUE TENTARAM ME CONVENCER DE QUE NÃO PODERIAM GANHAR NEM O FABIANO, NEM O SEU PALHARES.

O pessoal que estava pronto para esmurrar o síndico, diante da declaração ficou em dúvida, olhando furioso para os três membros do Conselho Fiscal. Estes, só não apanharam porque os “deixa disto” apartaram os mais exaltados.

Expulsos da casa do síndico, os três safados foram obrigados a passar por um corredor polonês, onde receberam uma solene vaia e muitos cascudos.

Foram os próprios candidatos que resolveram fazer a apuração, religando a urna e obtendo o relatório verdadeiro, cujo resultado foi o seguinte:

 

1. FABIANO- 50% DOS VOTOS, eleito síndico;

2. PALHARES- 35%;

3. JASLENE- 13%;

4. ORUAL – 2%

 

A própria dona Jaslene, que todos sabiam era a candidata do atual síndico, esclareceu que não fizera parte da tramoia, muito embora tivesse sido consultada se aceitaria fazer parte de uma manipulação dos votos. Mas, como ela se negara peremptoriamente, o Conselho Fiscal tomou a iniciativa de fazer por conta própria, tendo apenas como ônus convencer o síndico

A dona Jaslene, diante desta confissão, foi muita aplaudida e cumprimentada.

O seu Orual, por sua vez, foi também muito aplaudido, pois se ele não tivesse duvidado do resultado, ter-se-ia aceito aquele Edital falso.

Aos poucos, o pessoal foi se retirando, deixando para trás, um síndico parcialmente perdoado e um Conselho Fiscal desmoralizado que, até então, era tido como íntegro.

Os componentes dessa Comissão Eleitoral, mesmo tendo reconhecido a artimanha engendrada, passaram a ser mal vistos pela comunidade do Garden City, pois mesmo com a aceitação de culpa, não eram mais merecedores de respeito.

A reação da comunidade foi:

- Por quê não agiram como a dona Jaslene?

Esse acontecimento deixou uma grande lição sobre a conduta das lideranças, mesmo em se tratando de uma simples eleição para síndico, querer ganhar sempre, quer seja por orgulho, por interesse, por vaidade, que impede a comunidade e, por extensão a sociedade, de alcançar um patamar ético necessário para sua evolução.

Como luta o meu sobrinho Thiago Duarte, reeleito vereador de Porto Alegre, “porque acredita que é possível construir uma sociedade mais justa para avançarmos e voltarmos a crescer de forma conjunta com a comunidade ”.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 04/10/2016 às 17h43 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Eleições

Em face dos problemas ocorridos com a última eleição de síndico e Conselho Fiscal decidiu-se, numa Assembleia Extraordinária, que não mais seriam aceitos votos por procuração. E, também, que a eleição seria realizada em urna eletrônica, no dia 02 de outubro, das 8h às 17h, sendo obrigatória para todos os moradores do Condomínio.

Nesta Assembleia Extraordinária houve muita contrariedade, principalmente pelo seu Valdir e seu grupo de apoio, moradores da zona da frente do Garden, bem como pela turma do Sebastião, da zona dos fundos. Eles alegavam que esse procedimento não estava previsto na Convenção do Condomínio, mas como eles próprios foram os autores das fraudes das procurações acabaram sendo votos vencidos.

Para que a eleição pudesse ser realizada em urna eletrônica, seria necessário que os candidatos à síndico escolhessem um número, para que no dia da eleição o eleitor digitasse a sua intenção de voto.

O Síndico, então, reuniu os quatro candidatos para que escolhessem o número que os representariam.

Eles, então, decidiram os seguintes números:

Jaslene n. 51

Fabiano n. 04

Palhares n. 54 e

Orual n.31

A campanha estava acirrada, com cartazes, carreatas pelas ruas do Condomínio, bandeiraços e até distribuição de santinhos nas casas, enfim uma verdadeira festa democrática. Houve até comício nas praças do Garden City. Nunca se havia visto tanta mobilização para uma eleição de síndico.

Os apoiadores dos candidatos até camisetas fizeram com cores diferentes, com  foto e número do candidato. As vezes ocorriam discussões entre os correligionários, mas nada que precisasse a intervenção da polícia.

No dia da eleição o síndico e os membros do Conselho Fiscal, encarregados do processo eleitoral, chegaram cedo na Praça Central para instalar a urna eletrônica, conferir a lista de eleitores e montar o local secreto da votação.

Muito embora, estivesse previsto o início para as 8h da manhã, somente às 9h e 30 min chegou o primeiro eleitor, com cara de sono e bocejando sem parar:

- Pô gente...uaaaaaah! Esta eleição não poderia ser realizada só a tarde? Eu só tenho o domingo para dormir um pouco mais.

- Seu Alcebíades o Senhor vota e pode voltar para casa e dormir.

- Ahnrã! Tá bem, então.

- Mais alguma dúvida seu Alcebíades?

- Sim. Quem são os candidatos?

- Meu Deus, seu Alcebíades. Onde o senhor estava nesta última semana? O Senhor não viu a mobilização dos candidatos, comícios, santinhos?

- Hã? Aquelas algazarras  todas as noites era isso, então?

- Vou até contar pra minha velha que não era propaganda para a oktoberfest, como nós havíamos pensado.

 

- Seu Alcebíades, o Senhor, por favor, assine a lista de presença e depois se dirija para a cabine indevassável  para sufragar sua intenção de escolha do candidato.

- Hã?

- Vá lá naquela cabine e digite o número do candidato que o Senhor escolheu.

- Ã-hã! E se eu não quiser nenhum destes candidatos?

- Seu Alcebíades, por gentileza, volte para casa e vá dormir.

- Hmm! Uuuuuhaaaá! Tá bem.

Depois daquela dificuldade com o primeiro eleitor, os membros da Comissão Eleitoral estavam cabreiros sobre o sucesso daquela modalidade de eleição.

Lá por volta das 11h, aos poucos os moradores foram chegando e votando. Mas, de um modo geral, parecia que a acirrada campanha não despertara o público.

Aproximava-se das 17h e somente 40% dos moradores haviam votado, deixando o Presidente da Comissão Eleitoral com a “pulga atrás da orelha”.

Quando o Presidente acabara de encerrar os trabalhos, ouviu-se duas algazarras, fogos de artifícios, bandeiraços, provindos do leste e do oeste do Garden City. Tratava-se dos apoiadores do candidato Palhares, da turma da frente e, em oposição, os apoiadores do seu Fabiano, da turma dos fundos. No comando da turma da frente vinha o seu Valdir, o qual com um cartaz gigante com a foto do Palhares e o número 54, mais parecia um porta-estandarte da Unidos da Restinga.

Da mesma forma, a turma dos fundos sob o comando do Sebastião, empunhavam cartazes com a foto do seu Fabiano e número 04.

Chegaram na Praça Central exatamente às 17 e 30min, gritando:

- QUEREMOS VOTAR!...QUEREMOS VOTAR!...QUEREMOS VOTAR!

O Presidente da Comissão Eleitoral até tentou argumentar que a eleição fora encerrada as 17h, conforme constava do Edital.

Aí o Valdir e o Sebastião, como avessos a conciliação, passaram a desafiar a Comissão Eleitoral, exigindo que se eles não votassem que os votos, até então registrados, seriam anulados.

- Como anulados? Com que autoridade vocês ameaçam a legitimidade do processo e o trabalho da Comissão?

O Valdir e o Sebastião, insuflando seus apoiadores, gritavam:

- QUEREMOS VOTAR...QUEREMOS VOTAR...QUEREMOS VOTAR!

- Olha pessoal, regras são regras e que foram aprovadas em Assembleia, portanto, o material da eleição, bem como a urna eletrônica já foi desligada. Não cabe a mim abrir qualquer exceção.

A turma de retardatários não se conteve e partiu pra cima da Comissão Eleitoral, quebrando mesa, cadeiras, só não conseguiram quebrar a urna eletrônica, porque o Presidente escapou com ela, levando-a intacta para casa.

Com o afastamento dos membros da Comissão Eleitoral, os grupos da frente e dos fundos passaram a brigar entre si, quebrando os cartazes nas cabeças dos adversários, numa demonstração de pura selvageria.

Diante de tamanha insensatez, o Síndico chamou a Brigada Militar, que teve dificuldade para conter os baderneiros, mas com a prisão dos líderes, o Valdir e o Sebastião, os demais se deram conta da bobagem que estavam fazendo.

Mesmo que tenha havido tanta baderna, o resultado da eleição para síndico foi proclamado, mas isso já é outra história... 

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 29/09/2016 às 10h46 | sannickelle@gmail.com

publicidade

A prima da Vera

Com a chegada da primavera, a beleza dos jardins faziam do Garden City um diferencial de qualidade e bom gosto. Tudo isso decorria de uma excepcional dedicação da maioria dos condôminos e, em especial, da iniciativa do seu Hortêncio que, quando fora síndico, instituiu um prêmio para o jardim mais cuidado e florido.

Seu Hortêncio era um homem defensor da natureza e o Garden foi, desde o seu nascimento, um campo de oportunidades para a sua incansável busca de equilíbrio entre as edificações e os espaços abertos. Foi ele que junto com a Dona Sandra, uma sensível bióloga, e o jardineiro Efraim plantaram a maioria das frutíferas.

Enquanto a maioria dos moradores passaram a se dedicar ao embelezamento de seus jardins, comprando amores-perfeitos, bromélias, petúnias, empates, begônias, etc., a mãe do seu Pompílio e do Vieirinha, dona Florisbela, prima da Vera da casa 2, no entanto, só roubava plantas dos outros. O jardim da dona Florisbela nunca foi premiado, porque mais parecia um depósito de plantas do que algo planejado, afinal ela plantava o que conseguia nas suas saídas noturnas.

Dizem as más línguas que os irmãos nunca ficaram sabendo de que sua distinta mãe roubava, pois pose ela até tinha durante o dia, era na verdade um cleptomaníaco, pessoa que furta por prazer. Ficou inclusive conhecida como a VELHA DAS PLANTAS.

Sempre que saía para passear, em especial a noite, levava consigo uma sacola de palha onde escondia as plantas roubadas. Nunca levava plantas que formassem uma harmonia paisagística, mas sim o que naqueles momentos fosse mais fácil de se apropriar. Por isso seu jardim era tão esquisito. Acho que os seus filhos nunca tiveram bom gosto também, pois jamais criticaram o jardim de sua mãe.

A situação ficou tão peculiar que os demais moradores, que se dedicavam honestamente aos seus ajardinamentos, passaram, via whatSapp, a avisar quando a velha saía para seus passeios noturnos. Quando ela se aproximava de algum jardim os moradores também saíam como se fossem regá-los, ou então dirigir-lhe um cumprimento. Essa estratégia bem que funcionou durante um tempo, mas exigia uma vigília permanente.

O seu Gumercindo, meu vizinho de acesso, bolou uma estratégia para desmascarar a velha ladra. Falou com seu filho que era Engenheiro Eletricista, e pediu-lhe para bolar um plano de alarme associado a uma iluminação potente que, quando a pessoa fosse arrancar uma ou várias plantas, num canteiro recém formado, dispararia a engenhoca e a ladra ficaria exposta ao flagra.

Seu Gumercindo avisou então toda a vizinhança para que na noite do próximo sábado ficasse de plantão. No sábado de manhã fez um belo canteiro novo onde plantou empates de duas cores, vermelhos e rosas, fazendo um tradicional alarde para a beleza do resultado. Também pediu para os funcionários do Garden City, Elias e Galeão, que recolhiam lixos das casas aos sábados a tarde, para falarem do belo jardim da casa 62, recém plantado.

É claro que a dona Florisbela ficou sabendo e também muito interessada em conhecê-lo.

A armadilha estava pronta e na hora aprazada, aguardariam a chance de desmascarar a velha ladra.

A Dona Florisbela estava se preparando para seu passeio noturno quando lhe chegou visitas. Guardou a sacola de palha e foi recepcioná-las como manda a boa educação. Afinal a noite é longa e quanto mais tarde ela saísse, até lhe seria mais sossegado “passear” pelo Condomínio.

A noite com seu perfume de flores caiu rapidamente, dando lugar as luzes artificiais das lâmpadas de mercúrio que iluminavam amplamente o Garden City.

Os cães estavam presos, as crianças e os adultos jantando as vésperas do domingo, quando os celulares, pelo whatSapp, começaram a dar sinais de mensagem recebida. Era um dos vizinhos da frente, no acesso da casa da dona Florisbela, avisando que ela acabara de sair, mas não estava só, acompanhavam-na, um casal de idade. O alerta foi recebido por toda a turma previamente avisada.

Acabaram os jantares as pressas e saíram para ocupar posições estratégicas, esgueirando-se por entre os arbustos mais altos. Aguardaram um bom tempo, alguns até cãibras tiveram, precisando voltar para casa ou ser massageados ali mesmo, sob uma vaia de psius... Outros não paravam de cochichar e também foram alvo dos psius... Até gato apareceu diante de tanto psiu...psiu...

De repente um vulto se aproximou do canteiro do seu Gumercindo, mas era o seu filho que fora dar uma última conferida...

Os minutos passavam e nada da velha ladra, alguns atocaiados já estavam pensando em desistir quando outro vulto apareceu. Pelo lusco fusco da noite não se podia afirmar se era homem ou mulher. Mas o vulto com uma sacola na mão denotava tratar-se da velha. Ela disfarçou um pouco, andando como se estivesse passeando, mas logo parou diante do canteiro recém plantado. Agachou-se e puxou um pé de empate. Em ato contínuo, para alegria do filho do seu Gumercindo, o alarme disparou e um potente holofote iluminou a cena. Todos os atocaiados se aproximaram e em uníssono gritaram:

- Pegamos a velha ladra...

Mas a surpresa foi geral quando constataram que a ladra era nada menos que a Catilina, moradora do último acesso e vizinha da Neusa, a mesma que depenou um abacateiro, colhendo num único impulso 80 abacates. Ela ainda perplexa teve a cara de pau de perguntar o que estava ocorrendo, pois disse simplesmente:

- Eu estava admirando o novo canteiro e tentei fixar melhor um empate que me parecia solto da terra.

Nesta altura a perplexidade e a dúvida perpassavam em todos. Teriam cometido uma injustiça?

O seu Gumercindo, como cachorro que lambeu graxa, não sabia o que dizer... desarmou a arapuca e se retirou aos prantos consolado por seu filho. Os demais também foram pouco a pouco voltando para suas casas. A Catilina saiu de fininho, tal qual criança mijada.

A noite cumpriu seu turno e acordou com os primeiros raios de sol.

Seu Gumercindo, ainda sonolento da noite mal dormida, foi até a janela e viu seu canteiro sem uma flor sequer...

 

Fazer justiça com as próprias mãos é crime numa sociedade civilizada, mas isso já é outra história...

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 22/09/2016 às 18h11 | sannickelle@gmail.com

publicidade

A síndrome chamada segurança

Depois que a notícia se espalhou de que uma empregada doméstica fora atacada dentro do Garden City, os moradores, mesmo sem saber o que de fato ocorrera, criaram verdadeira síndrome de segurança, com excessiva obstinação e compulsão por tudo, por mais banal que fosse. Era telefonema pra lá e pra cá, mensagens pelo whatSapp, disque disque entre vizinhos, enfim uma intensa mobilização para controlar tudo o que ocorria no Condomínio.

 

Júlio:

- Bom dia pessoal, estou observando um carro Uno preto estacionado junto a Praça da Frente, com dois suspeitos dentro, estacionado bem em frente à minha casa. Um dos caras desceu deu uma olhada para dentro da minha casa e voltou para o carro. Minha esposa, que estava observando da janela, achou a atitude muita suspeita. Alguém sabe de quem é esse carro?

Elisandra:

- Eu moro junto a Praça Central e acabo de ver um suspeito de bicicleta preta, magro, de óculos escuros, trajando bermuda cinza, camiseta amarela, olhando casa por casa. Alguém sabe quem é?

Catarina:

- Pessoal, agora que estamos de olho vivo, observando o movimento de carros e pessoas no Condomínio, certamente teremos mais tranquilidade e segurança;

Solange:

- Estou achando ótimo, daqui a pouco os malandros e mal-intencionados irão saber da união dos moradores do Garden City e, certamente, vão pensar duas vezes antes de tentar cometer algum delito;

Sedenir :

- Acho que devemos postar tudo que suspeitarmos, mesmo que por engano. Não importa se forem estranhos ou mesmo moradores... Os vizinhos vão entender;

Siqueira:

- Dona Solange, antes de você suspeitar de alguém, é preciso saber se é morador do Condomínio, empregado, prestador de serviço, visitante, etc. ;

Diego:

- Alguns excessos precisam ser tolerados Siqueira, senão nossa tranquilidade vai ser comprometida. A nossa segurança não depende exclusivamente dos Agentes do Condomínio, mas sim de nós...UM POR TODOS E TODOS POR UM;

Samuel:

- Pessoal, acabei de fazer uma ronda pelo Condomínio, já que hoje é domingo e só há Agente de Segurança na Portaria, mas não encontrei ninguém suspeito;

Bruno:

- Eu quero avisar a dona Elisandra, que quem estava pilotando a bicicleta preta era eu. Moro na casa 61, em frente à Praça Central...Fique sabendo, Dona Elisandra, que eu não sou ladrão, muito menos suspeito. E, outra coisa, o fato de eu andar olhando para as casas é por razões pessoais, que só interessam a mim. Eu não sou nenhum robô que vai sair de cabeça baixa só porque a senhora quer;

 

Elisandra:

- Peço desculpa Bruno se te ofendi, mas espero que o caso tenha sido esclarecido em nome de nossa bendita segurança, já que foi esse, acima de tudo, que nos fez decidir morar em condomínio;

Valdir:

- Tenho uma Ranger azul e também sempre ando devagar pelas ruas do Condomínio. Faço isso devagar justamente para sondar possíveis suspeitos e, antes de adentrar em minha residência, passo 2 ou 3 vezes para saber se tá tudo bem;

Júlio:

- É isso aí Valdir, segurança é prioridade, estamos de olho em tudo, inclusive nos vizinhos suspeitos, quer andem a pé, de carro ou de bicicleta;

Siqueira:

- Essa não Júlio, como assim vizinhos suspeitos? Você ficou louco cara;

Júlio:

- Por quê louco? Até agora não sabemos quem atacou a empregada do San. Tu já esqueceste daquele sujeito que morava na casa 76, procurado pela INTERPOL que, segundo a polícia pertencia à máfia italiana e possuía várias acusações por matar cães e gatos?

Valdir:

- Chego em casa muito tarde sempre, pois também trabalho a noite e não acho nada exagerado suspeitar de todos ;

Ana:

- Meu Deus! Se é assim, os moradores do Garden City estão precisando de tratamento psicológico, muito mais do que de segurança. Além disso precisamos manter a amizade como forma de convívio saudável;

Júlio:

- Quem não deve não teme... SEGURANÇA ACIMA DE TUDO!

Valdir:

- É isso aí Júlio. Estamos juntos nessa missão. O grupo de segurança não foi feito para disque amizade e. sim, para nos dar tranquilidade;

Ana:

- Vizinhos, sei que não é disque amizade. Também não falei em amizade de forma gratuita, mas para lembrar que sem ela a segurança, do tipo policialesca, não resolve tudo. A amizade atenua em muito as suspeitas infundadas, permitindo que haja mais confiança entre os vizinhos;

Diego:

- É isso aí dona Ana. Não podemos nos cercar de aparatos de segurança, suspeitando de todos, como se estivéssemos não num condomínio e sim num PRESÍDIO DE SEGURANÇA MÁXIMA ;

Bruno:

- Pessoal, seria bom falarmos com o síndico, delegado aposentado Luiz Paulo, para que ele reative o programa SEGURANÇA VIA WHATSAPP, já que aquele que foi suspenso, alguns anos atrás, se deveu a não termos maturidade suficiente para bem usarmos o meio que o celular nos propiciava;

Diego:

- Muito bem lembrado Bruno. Falaremos com o síndico;

 

A reinstituição do Programa SEGURANÇA, VIA WHATSAPP, mas isso já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 15/09/2016 às 09h52 | sannickelle@gmail.com

publicidade

À noite, todos os gatos são pardos

Era fim de tarde, o manto da noite arrastou os últimos resquícios da luz do dia, as sombras das árvores se agigantaram e no meio delas um vulto estranho espiava silente.

Com latidos tensos e esganiçados os cães próximos o percebiam, mas os moradores, em seus afazeres domésticos, não lhes deram atenção. Os guardas- noturnos ainda não tinham iniciado sua jornada e, na Portaria, os últimos empregados do Garden marcavam o ponto de saída. O horário parecia propício para um investida pecaminosa.

A maioria das empregadas domésticas já haviam saído, mas sempre havia quem se atrasasse. Foi o caso da Noeli, que saíra lá de casa por volta das 19horas.

Como morávamos no acesso 5, o seu deslocamento até a Portaria duraria, pelo menos, uns quinze minutos. Após a sua saída, dei-me conta de não tê-la entregue o remédio para tosse que ela me pedira para comprar. Liguei, então para a Portaria. Fui atendido pelo seu Ernesto, que a conhecia bem.

- Seu Ernesto, a Noeli, que trabalha aqui em casa, deve estar passando pela Portaria daqui a pouco, o senhor poderia pedir-lhe que me aguarde, pois vou levar-lhe o remédio que ela me pedira.

- Tudo bem seu San. Ela ainda não passou aqui.

Peguei o carro e fui até a Portaria, imaginando que ela lá estivesse... Mas, ela ainda não havia chegado e, também, eu não a vi no caminho...

Falei para o seu Ernesto:

- Algo estranho pode ter acontecido, pois pelo que eu conheço da Noeli, ela não tem o costume de parar para conversar com quer que seja. Algum segurança da noite já chegou?

- Sim. Ele deve estar vestindo o uniforme na Guarita Central.

- Vou até lá, então.

Peguei o carro e me dirigi à Guarita Central.

A Guarita estava às escuras, mesmo assim, desci do carro e bati na porta. ...O silêncio foi a resposta que eu não esperava . Abri a porta, acendi a luz e constatei, para meu espanto, que os uniformes dos seguranças noturnos estavam pendurados num cabideiro próprio.

Preocupado, liguei para a Portaria...

- Seu Ernesto, quem é o guarda que passou pela Portaria?

- Foi o Morgado, por quê seu San?

- Tem algo muito estranho acontecendo, Ernesto. Liga para o síndico e pede que ele me encontre na Guarita Central...

_É pra já seu San.

Alguns minutos depois o carro do síndico, na ocasião, o Luiz Paulo, delegado de polícia aposentado, chegou...O informei do acontecido até, então. Pela sua experiência de policial, por mais de 25 anos, ele me disse:

- Olha San, não tenho ideia exata de com quem estamos lidando, já que essas firmas de segurança, por questão de economia, contratam gente sem muito critério. Vamos fazer uma varredura daqui até a tua casa. Peço que tu fiques perto de mim, pois estou armado e se for necessário serei obrigado a usá-la.

 

 

Saímos, então, com uma missão incerta:

Saber o que teria acontecido com a Noeli?

Depois de passarmos pela chamada rua projetada, que caracteriza o meio do Condomínio, percebemos que os cães das casas do Green Carpet, que ficam na divisa com o nosso, estavam agitadíssimos, latindo sem parar.

O Luiz Paulo, empunhando o 38, pediu-me por gestos que fizesse silêncio... Penetrou entre as árvores e falou aos gritos:

- Estou armado e se alguém estiver aí que se acuse. Ouviu-se, então, uma corrida entre a vegetação, como se alguém estivesse fugindo dali. O Luiz Paulo foi na direção de onde o ruído se iniciara e constatou o corpo de uma pessoa caída entre as folhas. Ele, então, pediu-me para eu me aproximar e fizesse o reconhecimento...

-É ela Luiz Paulo...é a Noeli.

Ela estava no chão, tremendo e tentando falar, mas não conseguia articular qualquer som audível.

- Noeli, fica calma, você agora vai ficar bem. Está machucada? De novo, não conseguiu responder.

Agora eu vou levá-la até O Cruz Azul para seres medicada. Esse corte no lábio, provavelmente precisará de pontos... Levei-a até meu carro, enquanto o Luiz Paulo continuava no encalço do bandido

Ao sair avisei a Portaria de que o bandido, que ainda não tínhamos certeza de quem era, não poderia sair e, se fosse o Morgado, ele deveria ser impedido de sair, a qualquer custo.

Como os outros dois seguranças noturnos já estavam ali batendo ponto de entrada, pedi-lhes que se dirigissem até a Praça Central, para dar apoio ao síndico.

Depois de medicada eu levei a Noeli até sua casa, na Vila dos Sargentos, dizendo-lhe que tirasse o dia seguinte de folga. Ela aceitou ainda muito assustada.

Voltei para o Condomínio.

Lá encontrei o Luiz Paulo na Portaria com o Morgado sob custódia, estava a espera da Polícia Militar para o registro da ocorrência.

O Morgado, que estava ferido no rosto, parecia mais a vítima do que o algoz.

Seu rosto, lanhado de cima a baixo sob a pele, parecia uma máscara de ritual macabro...Se havia algo de que pudesse se arrepender, certamente foi o de atacar uma mulher valente, que não se submeteria aos seus desejos pecaminosos sem lutar. Para nossa surpresa, no entanto, ele negava ter sido o causador do atentado e, que os arranhões no seu rosto, foram produzidos por uma mulher enfurecida, ao defender a vítima.

Só nos restava ouvir a vítima, antes de entregá-lo à Polícia. Voltei, então, a casa da Noeli, a qual me confirmou que quem a atacara foi a moradora da casa 52, ou seja a dona Marialba e, que, se não fosse a intervenção do segurança algo pior poderia ter ocorrido com ela. - Mas, porque razão Noeli?

- Não sei ao certo, mas acho que por ciúme do marido. Algumas empregadas comentam que ele costuma dar em cima delas...Embora esse não seja o meu caso.

Após pedirmos desculpas ao Morgado, o Luiz Paulo fez questão de registrar no Livro de Ocorrências da Portaria a atitude digna do empregado.

Enfim, a noite agora parecia mais calma...Nas casas os moradores nem perceberam o ocorrido, mas eu e o síndico ainda estávamos tensos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/09/2016 às 10h21 | sannickelle@gmail.com

publicidade

1 2 3 4 5 6 7 8 9

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie neste site - Normas de Uso
© Desenvolvido por Pagina 3

Endereco: Rua 2448, 360 - Balneario Camboriu - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br