Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

À noite, todos os gatos são pardos

Era fim de tarde, o manto da noite arrastou os últimos resquícios da luz do dia, as sombras das árvores se agigantaram e no meio delas um vulto estranho espiava silente.

Com latidos tensos e esganiçados os cães próximos o percebiam, mas os moradores, em seus afazeres domésticos, não lhes deram atenção. Os guardas- noturnos ainda não tinham iniciado sua jornada e, na Portaria, os últimos empregados do Garden marcavam o ponto de saída. O horário parecia propício para um investida pecaminosa.

A maioria das empregadas domésticas já haviam saído, mas sempre havia quem se atrasasse. Foi o caso da Noeli, que saíra lá de casa por volta das 19horas.

Como morávamos no acesso 5, o seu deslocamento até a Portaria duraria, pelo menos, uns quinze minutos. Após a sua saída, dei-me conta de não tê-la entregue o remédio para tosse que ela me pedira para comprar. Liguei, então para a Portaria. Fui atendido pelo seu Ernesto, que a conhecia bem.

- Seu Ernesto, a Noeli, que trabalha aqui em casa, deve estar passando pela Portaria daqui a pouco, o senhor poderia pedir-lhe que me aguarde, pois vou levar-lhe o remédio que ela me pedira.

- Tudo bem seu San. Ela ainda não passou aqui.

Peguei o carro e fui até a Portaria, imaginando que ela lá estivesse... Mas, ela ainda não havia chegado e, também, eu não a vi no caminho...

Falei para o seu Ernesto:

- Algo estranho pode ter acontecido, pois pelo que eu conheço da Noeli, ela não tem o costume de parar para conversar com quer que seja. Algum segurança da noite já chegou?

- Sim. Ele deve estar vestindo o uniforme na Guarita Central.

- Vou até lá, então.

Peguei o carro e me dirigi à Guarita Central.

A Guarita estava às escuras, mesmo assim, desci do carro e bati na porta. ...O silêncio foi a resposta que eu não esperava . Abri a porta, acendi a luz e constatei, para meu espanto, que os uniformes dos seguranças noturnos estavam pendurados num cabideiro próprio.

Preocupado, liguei para a Portaria...

- Seu Ernesto, quem é o guarda que passou pela Portaria?

- Foi o Morgado, por quê seu San?

- Tem algo muito estranho acontecendo, Ernesto. Liga para o síndico e pede que ele me encontre na Guarita Central...

_É pra já seu San.

Alguns minutos depois o carro do síndico, na ocasião, o Luiz Paulo, delegado de polícia aposentado, chegou...O informei do acontecido até, então. Pela sua experiência de policial, por mais de 25 anos, ele me disse:

- Olha San, não tenho ideia exata de com quem estamos lidando, já que essas firmas de segurança, por questão de economia, contratam gente sem muito critério. Vamos fazer uma varredura daqui até a tua casa. Peço que tu fiques perto de mim, pois estou armado e se for necessário serei obrigado a usá-la.

 

 

Saímos, então, com uma missão incerta:

Saber o que teria acontecido com a Noeli?

Depois de passarmos pela chamada rua projetada, que caracteriza o meio do Condomínio, percebemos que os cães das casas do Green Carpet, que ficam na divisa com o nosso, estavam agitadíssimos, latindo sem parar.

O Luiz Paulo, empunhando o 38, pediu-me por gestos que fizesse silêncio... Penetrou entre as árvores e falou aos gritos:

- Estou armado e se alguém estiver aí que se acuse. Ouviu-se, então, uma corrida entre a vegetação, como se alguém estivesse fugindo dali. O Luiz Paulo foi na direção de onde o ruído se iniciara e constatou o corpo de uma pessoa caída entre as folhas. Ele, então, pediu-me para eu me aproximar e fizesse o reconhecimento...

-É ela Luiz Paulo...é a Noeli.

Ela estava no chão, tremendo e tentando falar, mas não conseguia articular qualquer som audível.

- Noeli, fica calma, você agora vai ficar bem. Está machucada? De novo, não conseguiu responder.

Agora eu vou levá-la até O Cruz Azul para seres medicada. Esse corte no lábio, provavelmente precisará de pontos... Levei-a até meu carro, enquanto o Luiz Paulo continuava no encalço do bandido

Ao sair avisei a Portaria de que o bandido, que ainda não tínhamos certeza de quem era, não poderia sair e, se fosse o Morgado, ele deveria ser impedido de sair, a qualquer custo.

Como os outros dois seguranças noturnos já estavam ali batendo ponto de entrada, pedi-lhes que se dirigissem até a Praça Central, para dar apoio ao síndico.

Depois de medicada eu levei a Noeli até sua casa, na Vila dos Sargentos, dizendo-lhe que tirasse o dia seguinte de folga. Ela aceitou ainda muito assustada.

Voltei para o Condomínio.

Lá encontrei o Luiz Paulo na Portaria com o Morgado sob custódia, estava a espera da Polícia Militar para o registro da ocorrência.

O Morgado, que estava ferido no rosto, parecia mais a vítima do que o algoz.

Seu rosto, lanhado de cima a baixo sob a pele, parecia uma máscara de ritual macabro...Se havia algo de que pudesse se arrepender, certamente foi o de atacar uma mulher valente, que não se submeteria aos seus desejos pecaminosos sem lutar. Para nossa surpresa, no entanto, ele negava ter sido o causador do atentado e, que os arranhões no seu rosto, foram produzidos por uma mulher enfurecida, ao defender a vítima.

Só nos restava ouvir a vítima, antes de entregá-lo à Polícia. Voltei, então, a casa da Noeli, a qual me confirmou que quem a atacara foi a moradora da casa 52, ou seja a dona Marialba e, que, se não fosse a intervenção do segurança algo pior poderia ter ocorrido com ela. - Mas, porque razão Noeli?

- Não sei ao certo, mas acho que por ciúme do marido. Algumas empregadas comentam que ele costuma dar em cima delas...Embora esse não seja o meu caso.

Após pedirmos desculpas ao Morgado, o Luiz Paulo fez questão de registrar no Livro de Ocorrências da Portaria a atitude digna do empregado.

Enfim, a noite agora parecia mais calma...Nas casas os moradores nem perceberam o ocorrido, mas eu e o síndico ainda estávamos tensos.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/09/2016 às 10h21 | sannickelle@gmail.com

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A linguagem da alma

Quando o pai do seu Arley, Otávio Casimiro de Abreu, foi síndico, em décadas passadas, ele instituiu pela primeira vez um Concurso de Poesias intitulado “A LINGUAGEM DA ALMA” que, deveriam ser inéditas e escritas exclusivamente pelos moradores do Garden City. Vários moradores se candidataram e o prêmio

seria a publicação da eleita ou eleitas no jornal do Condomínio.

O júri ficou formado pelo síndico e pelas professoras de literatura Martha Olavo Bilac e Cecília Adélia do Prado.

A dona Walquíria concorreu com a poesia:

 

Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz imensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até a morte!

Mas o Mar também chora de tristeza ...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras ... essas ... pisa-as toda a gente! ...

 

O Clóvis, mais conhecido como Coquinho, apresentou a seguinte poesia gaudéria:

 

Quem se espalha num rodeio ?deste meu Rio Grande Flor,

?com manhas de narrador? chega fazendo floreios.

?Foi por isso que nós viemos, ?com a goela mais afiada ?que aspa de boi brazino!

O medidor mede flerte por flerte, ?cada tento, cada braça,

?como se fossem léguas de campo,

?liberando para a boca do brete, ?num descampado ?ou na cancha de um rodeio!

O laçador e seu cavalo?s e tornam um só,

?medindo força e cansaço,? pealando sobre o malino, ?num campo sulino!

O breteiro aponta o destino, ?abre a porteira ?pro laçador que sai ?rasgando cancha e abrindo laço,

?que se deslancha nas guampas ?do boi brazino!

A comissão é como se fosse ?a mão do patrão,?

abençoando homens, cavalos, ?touros e laçadas,?com bandeirolas brancas ?e coloradas!

Esta é a minha homenagem ?a todos esses homens rudes,

?na estampa de inigualável coragem.

?Deixo aqui minha mensagem,? que o verso está no corredor:

?Deus abençoe o laçador, ?desbravador de fronteiras!

 

A dona Cláudia, da casa 13, concorreu com a poesia:

Nos sonhos da vida,

A luz de um grande amor surgiu

E nessa luz havia eu.

E o imenso branco que me fez paz,

Te trouxe irradiando vida

E, te senti, senti...

A felicidade foi tanta

Que não quis me despedir

Disso que poderia ser o amor,

A dor, a sorte ou quem sabe a morte,

Meu ser, então, te renegou

Por medo desta mesma dor...

Sofri, sofri...

Sem saber que isto nada mais foi

Do que ir ao infinito.

Eu apresentei a seguinte:

TUDO ESTÁ COMO ERA ANTES

Faz frio...

No chão, folhas amareladas dançam

Jogadas pelo vento.

Não se vê ninguém na rua.

É muito cedo, pensei comigo.

As casas todas fechadas,

Ouve-se apenas o farfalhar das folhas.

Junto a janela,

Minha solidão aumenta..

Colo o rosto na janela e,

Minha respiração embaça o vidro,

tornando aquela paisagem grotesca, turva e disforme.

Retiro com lentidão uma das luvas e,

minha mão trêmula, desliza sobre a superfície fria do vidro,

Escrevo um nome de mulher...teu nome...

Na transparência do teu nome, vejo lá fora

Árvores coloridas, variando do verde ao vermelho e

Em seus galhos pequeninas flores desabrochando,

Percorro os olhos através do teu nome e

Vejo jardins floridos.

Perplexo esfrego os olhos com força,

Espero as pupilas se acomodarem para ter certeza,

Mas lá fora,

Apenas árvores velhas e vazias,

Sacodem com rigidez, uma galharia sem vida.

A dona Walquíria e o Clóvis foram desclassificados, por apresentarem cópias de poesias de outros autores, identificados como “DESEJOS VÃOS” de autoria da Florbela Espanca e “PRA QUEM ANDA NOS RODEIOS” de Tapejara. Somente eu e a dona Cláudia fizemos por merecer a publicação no Jornal do Garden City. Não é só de poesia que a vida no Condomínio se realiza e, naquele início da noite, de uma sexta-feira 13, algo muito estranho aconteceu, mas essa já é outra história...

Escrito por Saint Clair Nickelle, 30/08/2016 às 14h53 | sannickelle@gmail.com

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Entrevista com candidatos

 No Garden City três estudantes de jornalismo, Diego, Ricardo e Rodrigo, resolveram, como atividade prática, entrevistar os candidatos à síndico naquela eleição inusitada pelo número alto de pré-candidatos. Relato das entrevistas:

- Como o Sr., seu Fabiano, pretende implementar um diálogo permanente com as pessoas?

- Bem, essa é uma força de expressão, onde eu me colocarei à disposição dos condôminos, caso seja eleito. Minha casa estará sempre de portas abertas.

- Como o Sr. pretende reunificar o Garden City, onde a turma da frente, dos fundos e do centro estão sempre disputando mais espaço e atenções?

- Olha essa questão de fato não é fácil, mas com a disposição que tenho para manter um diálogo permanente com as pessoas acho possível reunificar os interesses de todos, especialmente dos que moram junto à Praça Central.

- O atual síndico, que encerra mandato, ignorou as necessidades das pessoas e implementou obras faraônicas superfaturadas. Como o Sr. pretende fazer uma gestão decente?

_Não fazendo obras faraônicas.

- O seu plano de gestão já está definido?

- Na verdade ainda não está definido, mas pretendo concebê-lo tão logo seja eleito.

Após os agradecimentos de praxe, os três estudantes se reuniram para comentar:

- Ele me parece um pouco deslumbrado com alguns chavões, disse o Ricardo. No entanto, se cumprir o que promete, poderá fazer uma boa gestão;

- Muitos políticos usam esses expedientes de prometer trabalhar junto das pessoas, mas depois de eleitos fazem o que seu grupo de apoio quer, complementou o Rodrigo;

- Ele, o seu Fabiano, é jovem, um cara muito simpático, bem articulado para falar, mas daí se candidatar sem um plano de gestão definido, é dose..., disse o Diego.

O segundo candidato, ou melhor candidata foi a Dona Jaslene:

- Dona Jaslene, é verdade que a Senhora é megalômana?

- Gorda, eu? Quem disse isso?

- Não! Não. A Senhora não entendeu a pergunta. Megalômano é aquela pessoa que adora tudo aquilo que é excessivo e grandioso;

- Bom, acho que sou isso mesmo, pois adoro morar no centro, detesto periferia, onde as pessoas e mesmo as casas são feias, mal cuidadas. Foi por isso que construí minha casa junto à Praça Central. Aqui o esporte é elitizado, com quadras de tênis, Paddle, coisas de gente de bom gosto.

- Mas, como síndica a Senhora vai ter que administrar para todos, não poderá só pensar nos moradores do Centro.

- Sim, isso é verdade, mas eu pretendo, como o síndico que vou substituir, criar condições físicas para que o Garden City seja requintado, com quadra de tênis coberta, sede social de alto nível, Portaria que expresse a grandeza desse Condomínio, entre outras coisas.

- E, para fazer tudo isso?

- Reajustar a taxa condominial que está muitíssimo abaixo das nossas pretensões;

Depois dos agradecimentos, os três entrevistadores assim comentaram:

- Meu Deus! O que vai ser do Garden City se essa mulher se eleger, disse o Diego;

- Ela segue o modelo de gestão do atual síndico, comentou o Rodrigo;

- Só que para pior, eu acho, disse o Ricardo. Ela ignora completamente que, mesmo num condomínio, como o nosso, há culturas multifacetadas, com distintas crenças e visões de mundo;

O terceiro candidato é o seu Arley :

- Candidato, há quantos anos o Senhor reside no Garden City?

- Cerca de 18 anos;

- O Senhor já participou alguma vez da administração do Condomínio?

- Até agora não;

- O que o motivou para se candidatar?

- Eu penso que falta no Garden City uma matriz econômica da cultura;

- O que o Senhor quer dizer exatamente?

- Aqui dever-se-ia promover eventos culturais como feira do livro, dança, folclore, exposições de artes, oportunizando aos moradores mostrar seu lado criativo;

- Foi seu pai, há alguns anos atrás, que instituiu, como síndico, um concurso de poesia, não foi?

- Sim. E só não foi adiante por que houve muitos plágios.

Interessante esse seu ponto de vista, mas como o Senhor, na condição de síndico, pretende implementar essa matriz da cultura e criatividade?

- Eu não pretendo me candidatar à síndico, mas apenas a membro do Conselho.

Depois dos agradecimentos pela entrevista, os estudantes assim comentaram:

- Ele tem pretensões de síndico, mas se candidata a membro do Conselho Fiscal, está totalmente por fora do papel de um ou de outro, parece-me um alienado buscando espaço político, disse o Rodrigo;

- Tu tens razão Diego, desconhecem o verdadeiro papel de síndico e, aí, quando assumem só fazem bobagens.

Nosso próximo candidato é o seu Palhares:

- O Senhor já havia indicado o seu filho, Leonei, para concorrer, porque a mudança na última hora?

- A falta de experiência não o habilita a se candidatar à síndico, em especial diante de outros concorrentes muito fortes, como o Fabiano e a dona Jaslene;

- O senhor já ocupou diversos mandatos de Conselheiro na Administração do Garden City, isso teve influência na sua decisão de concorrer novamente?

- Na condição de conselheiro a gente vê o que maioria dos moradores e dos próprios síndicos não enxergam. Isso, eu creio, me habilita sim a não cometer os mesmos erros;

- Mas, seu Palhares, procurar não cometer erros é um princípio fundamental para a higidez de qualquer administrador, isso, no entanto, não significa que a sua administração possa alcançar as expectativas dos moradores. O que o Senhor pensa a esse respeito?

- Cá entre nós, o que tu quiseste dizer com higidez?

- A higidez física e mental é condição “sine qua non” para o exercício de função pública que, por extensão, se aplica aos cargos eletivos, como o de síndico por exemplo.

- Eu peço que vocês não falem grego comigo, tá bom;

- Tudo bem seu Palhares.

- E no seu plano de gestão quais são as prioridades e as metas?

- Olha pessoal, vocês cansaram a minha beleza, eu não estou aqui para ser desafiado por uns pirralhos, só porque são estudantes de jornalismo...Tchau.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 23/08/2016 às 10h24 | sannickelle@gmail.com

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Furtos

Conforme o projeto de segurança do seu Agenor foi sendo erguido e encimado com aqueles rolos de arame farpado, muitos condôminos passaram a dizer:

- Agora eu estou me sentindo seguro...

Outros, mais críticos, diziam:

- Meu Deus! Isso aqui tá parecendo um presídio de segurança máxima...

Quando, no entanto, as casas do Condomínio Green Carpet, ao lado. começaram a ser construídas, em especial os pavimentos superiores, os olhares curiosos e estranhos de alguns operários passaram a observar a rotina dos moradores. Quando saíam...quando chegavam...quando saíam todos, inclusive o cachorro e a empregada para levá-lo no pet shop, enfim essas coisas que só os espiões e os mal-intencionados fazem bem.

O primeiro furto ocorreu na casa dos meus vizinhos Sérgio e Nataly num início de noite. Coitados diziam os amigos e vizinhos:

- Como se não bastasse aquela confusão criada pelos seus vizinhos lindeiros, o Paulão e a Marialba, agora isso...

Na manhã seguinte a constatação do furto eu, que naquele dia levantara cedo, constatei junto ao murão que separava o Garden City do Green Carpet um monte de trouxas, atrás de alguns arbustos de azáleas. Fui até lá e constatei que se tratavam de roupas e eletrodomésticos. Como os operários da obra junto à divisa ainda não haviam chegado, dei-me conta que poderia ter sido deixado pelos ladrões na tentativa de escalar o murão com aqueles rolos de arame farpado. Chamei, então, o Sergio e a Nataly para averiguar se tratava-se dos objetos furtados de sua casa. Não deu outra...Eram sim todos os objetos furtados na noite anterior. Avisamos o síndico que, prontamente chamou a polícia. O agente da polícia, de nome Félix, depois de registrar a ocorrência perguntou ao Sérgio se ele desconfiava de alguém:

- Olha seu Félix a única evidência que tenho é que os objetos foram encontrados junto da obra que está sendo erigida no Green Carpet, exatamente na frente da minha, mas eu não posso afirmar se foi o pessoal que a está construindo ou se usaram a obra como passagem.

- Muito boa a sua observação, vê-se que o senhor tem faro policial...Mas eu vou checar de perto...

Chegando na obra do outro lado do Garden City, o Agente Félix procurou o mestre-de-obras, perguntando-lhe:

- Bom dia! Quem trabalha com o senhor nesta obra?

- Eu e mais dois operários.

- Algum deles dorme na obra?

- Sim, os dois.

- Por favor , então, chame-os que eu quero conversar com eles.

Quando os dois vieram, o Agente Félix, foi logo identificando-os:

- Bafo e Mão-leve, vocês por aqui? Dito isso os dois tentaram fugir, mas os policiais que estavam no carro, lá fora, os renderam.

Questionados sobre o furto e a muamba do outro lado do muro, disseram:

- Fomos nós, mas esse murão aí não deixou a gente passar a muamba para este lado. Isto é sacanagem com a gente, né Dr. Félix?

 

Vocês imaginam a felicidade do seu Agenor depois que a notícia se espalhou...:

- Eu disse, eu entendo de segurança...foi o meu projeto de muro que impediu o transporte do furto para o outro lado...Agora esses larápios vão se dar mal...

Os condôminos estavam vibrando com a segurança, mesmo aqueles que criticavam, se renderam diante da evidência e felicidade do Sérgio e da Nataly.

A questão dos furtos externos parecia estar resolvida, quando o meu filho Michel, numa certa manhã, constatou que a sua bike branca, que ele recém ganhara, tinha desaparecido do bicicletário junto a Portaria do Garden City. Pensei com ele:

- Será que agora estão usando a entrada do Condomínio para praticar furto?

Dando uma de Agente de Polícia fui até a Portaria para comunicar o desaparecimento da bicicleta, bem como sondar se o porteiro vira alguém suspeito que pudesse ter entrado e a levado... O porteiro afirmou não ter visto nada de anormal.

Estava voltando da minha primeira investida quando percebi garotos jogando bola na quadra de futebol sete, fui lá e falei com eles. Eles me disseram nada terem visto, mas um garoto se aproximou da cerca da quadra e me disse, entre dentes:

- Procure a quadra do Green Carpet que a bicicleta está lá.

Peguei o Michel e fui até lá. Quando chegamos na quadra de futebol de salão, constatamos várias bicicletas encostadas na cerca. Perguntei ao Michel:

- Alguma destas é a tua?

O Michel constatou que a sua bike branca, mesmo tendo sofrido algumas alterações por decalques, estava ali. Chamei, então, a polícia porque não cabia a mim questionar os garotos, muito menos quem estava de posse da bike.

A polícia chegou, perguntou se tinha alguma prova de que a bike era de fato aquela. Como eu já estava de posse da Nota Fiscal, caso precisasse fazer um Boletim de Ocorrência, apresentei-lhe, dizendo que a única diferença eram alguns decalques aplicados, provavelmente por quem a furtou.

O Policial interrompeu o jogo e chamou os garotos, perguntando de quem era a bike branca. O próprio não se identificou, mas os demais garotos apontaram para um rapaz magro e loiro, dizendo:

- É do Padão.

Eu e o Michel ficamos estupefatos, pois se tratava do filho do Dr. Marcelo P. Dante, médico que morava no mesmo acesso que nós, cujo apelido derivava de Chapadão.

O policial o pegou, algemou-o e o estava levando para o camburão, quando eu disse:

- Policial! Eu o conheço e ele é filho de um vizinho meu ali no Condomínio Garden City, por favor, não o leve preso e sim entregue-o ao pai.

O policial concordou e nos dirigimos para a casa do Dr. Marcelo. Lá eu tomei a iniciativa de falar primeiro com o pai do Padão, dizendo do ocorrido e que só chamara a polícia por não saber que se tratava do seu filho. Ele, me pareceu não ter ficado surpreso apenas me deu as costas e foi falar com os policiais...

 

As pessoas, mesmo tendo posição social, nos surpreendem, como foi o caso da mãe do seu Pompílio e do Vieirinha, mas isso já é outra história...  

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/08/2016 às 10h41 | sannickelle@gmail.com

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Eleição

Naquela manhã de domingo, nos reunimos na Praça Central a convite do Clóvis, mais conhecido por Coquinho, genro do seu Gumercindo, ambos tradicionalistas de Bagé, que convidara um pequeno grupo para matear junto ao caramanchão.

Entre um chimarrão e outro, enquanto a cuia passava de mão em mão, a conversa rolou solta, mas o que foi alvo de intensa especulação foi o número de candidatos a síndico, para as próximas eleições, nove ao todo.

- Nunca tivemos tal número de candidatos, aliás, sempre foi um parto conseguir quem quisesse se candidatar, disse o Luiz Paulo;

- Eu até posso tentar uma explicação situacional, disse seu Gumercindo;

- Como assim, perguntei-lhe:

- Olha pessoal, depois dessa crise política e econômica, principalmente, alguns moradores estão vendo vantagem em passar um ano isento da taxa condominial e receber, também, o honorário destinado ao síndico;

- É, o senhor até pode ter razão, mas é muito estranho que alguns candidatos que nunca participaram das atividades do Garden City, quer seja às assembleias, muito menos como colaboradores, hoje tenham a cara-de-pau de se candidatar à síndico, disse o Reinaldo;

- São nessas horas que acabamos conhecendo as pessoas, tais como nossos políticos, só se mobilizam para obter vantagens pessoais, nunca para servir à comunidade, disse-lhes;

- Acho até que alguns nunca percorreram todo o território do Garden, em especial alguns elitizados que moram junto às Praças da Frente e Central. Tenho dúvidas se alguns deles sabem quantos funcionários temos, quais empresas terceirizadas nos prestam serviços, qual a verdadeira situação das nossas ruas, das nossas quadras de esportes, entre outras coisas, disse o Sérgio;

- Você tem toda razão Sérgio, já pensou se a dona Jaslene ganha a eleição, pois todos sabemos que ela é defensora de uma elevação da taxa condominial, no mínimo ao triplo da atual. Ela inclusive acha que a Portaria é um lixo, a praça da frente sem graça, onde só se joga futebol e, não entende como não temos ainda uma sede social condizente com o status de alguns moradores;

- Ela, que mora naquela mansão na Praça Central, é unha e carne do atual síndico que, por ter cumprido dois mandatos consecutivos, não poderá concorrer;

- E aquele picareta do Valdir, que tentou ganhar a eleição falsificando procurações;

- Não brinca que ele esta se candidatando Luiz Paulo?

- Sim, e inclusive tem uma faixa na varanda da casa dele com os dizeres:

“PARA ACABAR COM A CORRUPÇÃO NO GARDEN CITY E PROGREDIR VOTE NO VALDIR”

- Meu Deus eu morro e não vejo tudo, só espero que esse desmiolado não venha com procurações falsas de novo;

- E o seu Florindo, aquele que se acha honesto e ético, será que vai se candidatar?

- Ainda não sabemos se vai como cabeça de chapa ou se como vice, mas uma pessoa que se intitula honesta e ética sem que nós o achemos, só poderá poluir a candidatura do titular, pode escrever o que estou dizendo;





- Mais um mate pessoal? Sim pode esquentar mais água que esta já tá ficando morna. É pra já disse o Coquinho.

- Mas não é só a dona Jaslene que tem uma visão elitizada do Garden? Disse o Luiz Paulo;

- Quem mais tu achas dentre esses nove? Perguntei-lhe;

- O Fabiano e o Cláudio só pensam na Praça da Frente, como se o Garden City fosse só aquele logradouro, esquecem os demais espaços, como a nossa área verde que está diminuindo para as construções de alguns serviços e estacionamentos, a coleta precária do lixo nas áreas comuns;

- Quem mais?

- A Marlene e o Arley só pensam, também, na Praça da Frente, pois são moradores do primeiro acesso. Nunca os vi andando pelo Condomínio. Como podem ter a pretensão de se candidatar para administrar aquilo que nem conhecem ?

- É, de repente eu começo a dar razão para o seu Gumercindo, só pode ser interesse que a condição de síndico oferece;

- Olha pessoal, água quentinha de novo, vão se servindo e fazer a cuia rodar, que a conversa tá muito boa, disse o Coquinho do alto de sua sabedoria campesina;

- Que erva é essa tão buenacha, perguntei-lhe:

- Essa vem do Alto Vale do taquari, onde uns parentes meus a produzem e me mandam todo mês;

- Com esta erva-mate Coquinho, esta mateada tá tão boa como a nossa prosa política;

- E os demais candidatos o que vocês acham? Voltou ao assunto o seu Gumercindo:

- Olha pessoal, eu vou até arriscar um palpite, mas é só impressão mesmo, porque eu não me iludo com deslumbrados visionários...

- De quem o Senhor está falando, meu sogro?

- Do Leonei, filho do Palhares;

- O quê, aquele pirralho vai se candidatar?

- Sim, influenciado pelo pai que, por sinal foi um bom síndico muitos anos atrás;

- Mas ele conhece a nossa realidade atual, ou vai ser mais um oportunista em busca de projeção?

- Olha gente, essa é uma resposta difícil de dar, pois aconteceu exatamente com o síndico que está encerrando o mandato. Ele prometeu mundos e fundos e frustrou a maioria de nós, deixando como herança algumas despesas superfaturadas que estão sendo investigadas pelo conselho Fiscal;

- Quer dizer, então, que o Senhor não votaria no Leonei?

- Eu não disse isso, apenas o que tenho ouvido de suas intenções que, ao que parecem são muito coerentes. Ele é o único que não divide o Garden City em frente e fundos, nem pessoas de alto e baixo padrão, nem fala em cosméticos para gastanças desnecessárias;

- De todos que nós falamos esse parece ser o cara, resta saber como os moradores vão vê-lo, afinal nós não estamos fazendo campanha para “a” ou “b”;

- É “vero” , como dizia minha mãe Amábile;

- Pessoal, obrigado pelo papo e pelo chimarrão...Até a próxima mateada.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/08/2016 às 11h34 | sannickelle@gmail.com

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Segurança

 O síndico do Garden City, sr. Prudêncio da Silva Cautela, acabara de chegar do Rio de Janeiro, que se prepara para sediar as Olimpíadas. Assustado com os procedimentos antiterror, foi logo reunindo a família e lhes falando da preocupação com a segurança no Condomínio. A família reunida na sala-de-estar o ouvia atentamente:

- Vocês não imaginam o que eu passei para não perder o voo ontem no Galeão, depois de uma espera de duas horas na fila. Na minha frente dois caras com suas enormes mochilas e, eu ainda pensei, vai apitar...que nada, passaram lépidos e faceiros...Eu, no entanto, só com a minha bagagem de mão, fui encaminhado para uma salinha onde um funcionário pediu-me que tirasse toda a roupa. Mesmo constrangido, obedeci. Ele, então, pediu que eu abrisse as pernas, ficasse de quatro, onde com uma lanterna examinou meu rabo, meus sovacos, dedos dos pés...Depois pediu que abrisse a minha valise, tirasse tudo de dentro, abrindo cada peça de roupa, e a minha “nécessaire”. Sem nada dizer, apenas me apontou a porta de saída. Puxa vida, será que eu tenho cara de terrorista, pensei comigo, mas aqueles mochileiros, por quê não foram examinados? Até lembrei-me daquele filme “APERTEM OS CINTOS O PILOTO SUMIU 2”, quando prendem uma velhinha no aeroporto, enquanto caras passam fortemente armados.

- Mas pai, o que tem isso que tu passaste no Galeão com o Condomínio?

- Tem tudo a ver, os agentes do Estado Islâmico são recrutados entre as pessoas mais simples, justamente aquelas que não despertam suspeitas. Aqui no Garden City quantas pessoas, entre funcionários, empregadas domésticas e inclusive visitantes entram e saem diariamente? São quase 100. E nós nunca as examinamos.

- Credo pai, acho que o Senhor está traumatizado com os últimos acontecimentos na Bélgica, na França, na Alemanha e nos Estados Unidos.

- Até pode ser, mas como síndico tenho a obrigação de cuidar da segurança de todos, vou, inclusive, convocar uma Assembleia extraordinária para discutir o assunto.

O EDITAL de convocação dizia:

Senhores Condôminos, considerando a onda de terror desencadeada pelo Estado Islâmico e, em especial o início das Olimpíadas em agosto, convocamos para uma Assembleia Extraordinária dia 23 de julho, sábado, às 14 h no Caramanchão da Praça Central, onde decidiremos sobre os procedimentos de segurança no Garden City.

O Estado Islâmico (EI) é um grupo radical sunita (um dos ramos do Islamismo) regido pelo autoproclamado califa (sucessor de Maomé) Abu Bakr al-Bagdadi. Atualmente, domina áreas do Iraque e da Síria, impondo uma visão radical e distorcida do Islamismo.

O grupo foi criado a partir do braço iraquiano da Al-Qaeda, rede responsável pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Mas os movimentos têm relações rompidas desde 2014.

 

 

 

 

No dia aprazado, muita gente, assustada com a convocação, estava reunida para dar início a Assembleia.

O síndico, então falou com voz grave:

Senhores condôminos, depois do que eu passei no aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro, e dos últimos atentados terroristas perpretados por agentes do Estado Islâmico, resolvi convocá-los para que possamos adotar medidas de segurança, em especial durante a realização das Olimpíadas, muitas das quais nunca imaginávamos ter que admití-las. Assim sendo, eu preparei algumas medidas que, caso sejam aprovadas, serão postas imediatamente em operação:

 

 

1. Todos os prestadores de serviços, quer sejam funcionários do Condomínio, empregadas domésticas e terceirizados serão examinados minuciosamente na entrada do Garden City. Os homens por um agente masculino e as mulheres por uma agente feminina. Utilizaremos os dois sanitários da Portaria para essa inspeção rigorosa;

2. As visitas só poderão ser feitas por pessoas previamente identificadas junto à portaria, no mínimo 24 horas antes da sua realização. O próprio carro das visitas, assim como seus ocupantes, será vistoriado pelos agentes de segurança antes do ingresso;

3. As atividades esportivas nas quadras de esporte, que normalmente reunem convidados externos, quer como indivíduos ou equipes, ficarão suspensas durante a realização das Olimpíadas;

4. Depois das 22h, todo condômino que estiver circulando pelo Condomínio poderá ser instado a dar explicação aos agentes de segurança;

5. Os agentes de segurança utilizarão cães farejadores durante a noite para detectar qualquer possível objeto estranho. Recomenda-se que os animais domésticos não sejam soltos nesse periodo noturno;

6. Ao chegar no Condomínio durante a noite, desligue o farol do carro e acenda as luzes internas para facilitar a identificação pelos agentes da Portaria;

7. Todos os carros dos moradores deverão usar nas partes superiores dos parabrisas dianteiro e trazeiro, uma faixa com os dizeres “CONDOMÍNIO GARDEN CITY”;

8. Ao sair do Condomínio, diga aos agentes da Portaria, que horas pretende voltar ou se for viajar e se a casa ficará vazia;

9. Adotaremos, em segredo absoluto, um apito que se disparado três vezes por qualquer morador, fará com que os agentes de segurança imediatamente busquem saber a causa. Todos os moradores receberão tais apitos;

 

Considerando a gravidade descrita pelo síndico, pouca gente resolveu contestar as medidas propostas. Postas em votação, foram aprovadas por unanimidade.

 

 

“O medo é uma reação de alerta muito importante para a sobrevivência dos seres humanos, mas, em alguns casos, pode tornar-se paralisante e exagerado.”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/07/2016 às 09h48 | sannickelle@gmail.com

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