Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Discriminação

Naquela manhã de final de inverno, onde nas frutíferas o sol atravessava discretamente as folhas e o perfume das flores das laranjeiras e das bergamoteiras se propagava pelo ar, algo inusitado ocorreu no Condomínio, tendo circulado entre os moradores, como uma tentativa de assalto.

Não se sabe como, mas um mendigo acabou entrando no Garden City, a despeito de todo o aparato de segurança. Como todo mundo sabe, nenhum condomínio permite a entrada de mendigos, pregadores religiosos, vendedores ambulantes, etc. tudo em nome da SEGURANÇA, sinal dos tempos, onde os que tem patrimônio temem perder qualquer coisa.

Mas, enfim, o tal mendigo passou pela Praça da frente e logo foi avistado por uma moradora, dona Gertrudes, que cedo cuidava de seu jardim. Ela horrorizada disse aos gritos:

- Vou chamar a segurança, seu invasor!

O mendigo ficou tão assustado que não conseguia se mexer...Esta cena, no entanto, foi observada por um morador que fazia sua caminhada matinal, que resolveu interferir, dizendo:

- Vizinha, não precisa chamar a segurança, eu conheço este senhor. Na verdade ele veio me visitar. A sua aparência de mendigo é porque ele é uma pessoa doente, pode ficar tranquila.

O morador, então, diante da perplexidade da vizinha e do próprio mendigo, passou-lhe a mão no ombro e o conduziu até sua casa.

Lá chegando, ofereceu o banheiro de serviço e, entregando-lhe uma toalha e chinelos, pediu-lhe que tomasse um banho, enquanto providenciava roupas limpas para que se vestisse.

O mendigo, sem dizer palavra, só obedecia. Até então, não entendia patavina, mas seguiu fazendo tudo que o morador lhe pedia.

Depois do banho demorado, o morador alcançou-lhe roupas limpas, ensacando as surradas e mulambentas que ele usava. Ao sair do banheiro, o mendigo parecia outra pessoa. Cheirava bem e as roupas e a barba feita lhe deram um estilo decente de pessoa comum. O morador o elogiou, dizendo-lhe:

- Meu nome é Gumercindo e o seu qual é?

- Eu até já esqueci, pois todos me chamam de mendigo ou bebum e até de ladrão. Mas, eu não sou ladrão, não, senhor! De mendigo e bebum eu não reclamo, porque sou mesmo.

- Tudo bem!, Eu vou tomar café, você gostaria de me acompanhar?

- Gostaria...

O seu Gumercindo, então, convidou-o a entrar na cozinha e serviu o café com manteiga, geleia e pão quentinho. O mendigo, bem desajeitado, comeu como se nunca tivesse comido na vida. Pediu para repetir e foi atendido.

- Como você chegou nesta situação, amigo?

- Quando eu era moço, eu tinha emprego, uma família e morava numa casa alugada, mas a sorte não me ajudou. Perdi a família num incêndio que me deixou louco. Fui internado num manicômio, perdi o emprego e lá passei muitos anos. Depois consegui fugir e fui morar na rua.

Estou morando na rua faz vinte anos. Antigamente, era mais fácil ganhar comida nas casas, mas agora que não se pode entrar nos prédios, só com autorização, ficou muito difícil. O que nos salva, a mim e tantos outros moradores de rua, é a bondade de algumas pessoas. Ando maltrapilho e fedido, pois não tenho onde tomar banho ou lavar a roupa. Eu sei que causo nojo, mas o que fazer? Eu estudei até o segundo grau, mas com a internação no hospício as minhas chances de conseguir emprego desapareceram.

- E, no inverno, como você consegue se agasalhar? O que nos salva é o aconchego dos amigos de rua, os quais se amontoam para não congelar e, é claro, uma cachacinha.

Enquanto o seu Gumercindo tratava com toda humanidade aquele estranho sem nome, na Portaria do Condomínio um pequeno tumulto agitava a vida dos que passavam. Sob o comando da dona Gertrudes, o próprio síndico, o porteiro e o responsável pela segurança, queriam saber onde se escondera o mendigo, nesta altura chamado de ladrão perigoso.

O síndico telefonou para a casa do Clóvis, genro do seu Gumercindo, alertando-o de que o ladrão pudesse estar na casa do seu sogro, conforme relatara a dona Gertrudes.

O Clóvis, então, muito preocupado depois da tentativa de sequestro do sogro, pegou o carro, uma espingarda de caça e foi até a casa do Gumercindo.

Tão logo chegou, de arma em punho, cumprimentou o estranho bem vestido e abraçou o sogro, dizendo-lhe:

- Que bom que o Senhor está bem, pois lá na Portaria há um pequeno tumulto incitado pela dona Gertrudes.

- Tumulto, Clóvis, mas por quê?

- Dizem que um ladrão passou pela Portaria, sem ser visto...

O seu Gumercindo, então, pediu ao genro que sentasse e, em poucas palavras narrou o que acontecera. O Clóvis, que conhecia bem a bondade do sogro, logo entendeu que o estranho era o tal mendigo. Inteirado, perguntou ao sogro:

- Por qual razão fez isso, meu sogro?

- Por que odeio a pobreza, não o pobre.

- Como vamos tirá-lo daqui sem causar-lhe constrangimento ou até prisão?

Seu Gumercindo pensou e sugeriu:

- Como tu estás de carro aqui, pega o meu amigo e leva para fora do Condomínio. Se, te perguntarem se falaste comigo, diz que sim. E, se quiserem saber quem é o estranho, diz que é um amigo meu...

Seguindo a orientação do sogro, lá se foi o Clóvis, enfrentar o tumulto na Portaria. Tão logo parou o carro, o síndico veio falar-lhe:

- Bom dia Clóvis e bom dia senhor. Como tu deves estar sabendo, a dona Gertrudes avistou um ladrão dentro do Condomínio e, ela afirma que o teu sogro conversou com ele e depois se dirigiram para a Praça central.

- Olha, eu acabei de passar na casa do meu sogro e está tudo bem.

- É, mas a dona Gertrudes disse que o teu sogro protegeu o ladrão.

- Eu tenho certeza que se ele tivesse feito isso, me contaria, portanto acho que tem gente neste Condomínio vendo fantasmas!

O síndico, diante da declaração firme do Clóvis, voltou a cumprimentar o passageiro e se despediu, pedindo desculpas pelo incômodo. Dizem que a dona Gertrudes teve um ataque de fúria, depois que o síndico pôs em dúvida sua denúncia.

"No caso de homens como eu, cumpre medí-los não pelos raros momentos de grandeza em sua vida, e sim pela quantidade de poeira que juntam nos pés no decurso da viagem da vida.Mohandas Karamchand Gandhi, 1869-1948."

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/03/2017 às 10h16 | sannickelle@gmail.com

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O cruzeiro dos pecados capitais

Quando a nossa nova vizinha, Suzana, que trabalha na TURISMUNDO, ofereceu uma vantagem imperdível, se conseguíssemos formar um grupo de 30 pessoas para um Cruzeiro pelo navio Costa Fascinosa, foi como mosca no mel. Em um único dia, já estava formado o grupo.

A viagem sairia de Santos/SP, dia 24 de fevereiro de 2017, fazendo o trecho sul, até Buenos Aires e, na volta, com parada em Montevideo.

Fretamos um ônibus da empresa Turissul e, dia 23 de fevereiro, um alegríssimo grupo de vizinhos partiu para aquela primeira aventura marítima num Cruzeiro de luxo.

A ansiedade era total, pois muitos não tinham a menor ideia de como seria viajar num transatlântico, com cerca de 3.500 hóspedes e uma tripulação de 1.500.

Chegamos em Santos, dia 24, lá pelas 8h de uma manhã ensolarada, onde milhares de pessoas desembarcavam do magnífico Costa Fascinosa, o qual nos receberia a partir do meio-dia.

Diante do maravilhoso navio, nossa expectativa fez desaparecer o cansaço da viagem de ônibus. Com nossas malas, devidamente etiquetadas, só nos restava preencher os formulários de embarque, despachar as malas e aguardar o desembarque dos passageiros que fizeram a costa brasileira.

Enfim, chegou a hora do embarque. Agora, já sem as malas, quem estava devidamente etiquetado, éramos nós que, em fila e boca nas orelhas, seguíamos a multidão em direção ao interior do Fascinosa. Passando por um controle rigoroso, em especial nossas bagagens de mão, fomos nos dirigindo a ponte 2, onde nossas cabines nos aguardavam. Nem todos ficaram no mesmo corredor. Alguns nas cabines ímpares e outros nas pares. Felizmente, nossa patota da mateada, ficou no mesmo corredor, o que facilitaria nossa comunicação. Depois de acomodarmos nossas bagagens de mão e guardar os pilas no cofre da cabine, saímos para almoçar na ponte 9. Como o navio possui 11 pisos, procuramos nos informar sobre os elevadores. A Camareira, nos disse para procurar a placa escrita “exit” e encontrar o hall de elevadores. Daí, subimos e fomos procurar o rango. Lá, milhares de famintos, circulavam como moscas tontas. Alguns mais afoitos, já com pratos cheios, procuravam mesas vazias. Nós, bons observadores, resolvemos procurar primeiro uma mesa que acomodasse nosso grupo de 6 pessoas.. Só, então, fomos fazer os pratos, deixando alguém para garantir a privacidade da mesa escolhida. Eu e o seu Gumercindo ficamos na mesa, observando aquele formigueiro, de famintos. Alguns, muito exagerados, enchiam tanto os pratos, como se o ato de se servir fosse uma única vez. Teve um vivente que encheu tanto o prato que parte da salada caiu, isso fez uma senhora escorregar e se estatelar ao chão. Eu e o Gumercindo corremos para auxiliá-la, levantando-a do chão. Enquanto praticávamos esse gesto de solidariedade, o causador da tragédia e sua família de esfomeados ocupou nossa mesa. Pensei em brigar pelo nosso direito adquirido, mas o seu Gumercindo, com aquela fleuma de homem do campo, me segurou, dizendo:

- Deixa pra lá amigo! A gula é um desejo insaciável, e você não vai cometer o descontrole da ira... Vamos encontrar nossos parceiros e dizer que estamos procurando nova mesa.

Nosso primeiro almoço foi frugal. Primeiro a salada, depois um assado de chuleta de porco e, por fim, sobremesa de diversos sabores.

A tarde, logo após o almoço e antes de zarparmos, todos os passageiros deveriam vestir os salva-vidas, que estavam nas cabines, e se dirigir para o deck dos escaleres onde, após um sinal sonoro, todos deveriam aprender a fechar o salva-vidas ao corpo, bem como familiarizar-se com o apito de comunicação e o tipo de roupa a ser usada, caso houvesse necessidade de evacuação do navio.

Passado o treinamento, o qual deixou alguns companheiros do Garden um pouco apreensivos, já que veio à nossa cabeça o ocorrido com o Titanic.

O Titanic, foi pensado para ser o navio mais luxuoso e mais seguro de sua época, gerando lendas que era supostamente “inafundável”.

Nossa cena (jantar) foi programado para ocorrer no deck 3, no Ristorante Otto e Mezzo. Como nos programamos para o primeiro turno, às 19h e 30min, nosso grupo lá estava devidamente bem vestidos, pois no jantar não haveria aquela corrida maluca por comida dos gulosos. Nem bem tínhamos sentado e colocado o guardanapo ao colo, chegou a Walquíria apavorada, chorando copiosamente:

- Eu não acho o Sebastião...Depois do treinamento ele sumiu, já pedi ajuda ao comandante, mas até agora nada.

Sensibilizados com a choradeira da Walquíria prometemos, após o jantar, ajudá-la a procurar seu marido muito embora soubéssemos da arrogância do Sebastião.

Nossa primeira cena foi deliciosa e servida com todo o requinte: antipasti, primo piato e secondo piato, e por fim a sobremesa.

Para acompanhar o jantar, pedimos vinho italiano, pois só tinha dessa nacionalidade.

Terminado o jantar, nos dirigimos para o Teatro Bel Ami, onde assistiríamos o ESPETÁCULO SEASONS OF LOVE, Show acrobático com Gloria e Romain, by Adagio Productions.

Apesar do controle, nosso desejo à luxúria começou a se manifestar...

- E, agora pessoal, o que vamos fazer? Perguntou o Clóvis.

- Que tal encararmos o Piano Bar Blue Velvet, na ponte 5 Aída, onde Dario e Roberto tocam músicas suaves e de bom gosto?

Todos concordaram e, lá fomos nós...

No caminho encontramos a Walquíria, que continuava procurando pelo Sebastião.

- Nós vamos para a ponte 5, ouvir música, mas te prometemos ficar de olho atento. Se, o encontrares, por favor nos comunica.

Depois de um dia puxado pela viagem de ônibus, pela experiência do primeiro dia no Costa Fascinosa, bateu o sono e o cansaço. Lá pela meia-noite fomos dormir, ainda comentando o desaparecimento do Sebastião.

Depois de dois dias de cruzeiro, o Sebastião foi encontrado pelos oficiais do navio. Perguntado o que tinha ocorrido, ele respondeu:

- Eu me perdi... esqueci se a minha cabine era do lado ímpar ou par. Depois eu comecei a procurar pelos meus amigos, mas foi em vão. Fui para a ponte nove e bebi todas no bar da piscina. Acabei dormindo dentro de um escaler. No outro dia foi a mesma coisa e voltei a dormir num escaler. Felizmente vocês me acharam...

O comandante italiano, fez questão de dar-lhe uma solene mijada em público:

- Sei un irresponsabile, quasi ucciso sua moglie spaventato. Gli ho dovuto cacciare dalla nave, ma ti darò un'altra possibilità.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 07/03/2017 às 16h15 | sannickelle@gmail.com

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No país do carnaval

Naquela mateada de domingo, só compareceu eu , o seu Gumercindo, o Sérgio e, é claro o responsável pelo chimarrão, o Clóvis. Os que faltaram, deram boas explicações para não comparecerem, já que o compromisso da mateada é sagrado. O Reinaldo, junto com a esposa Anália, resolveu visitar a terra de Dorival Caymmi e, foi para Maracangalha, um distrito do município de São Sebastião de Passé, na Bahia. Dizem, que se a Anália não quisesse ir ele iria só, mas não deixaria de ir. Ele tinha verdadeira paixão pela terra de Caymmi e, até lembrava daquela expedição comandada pelo navegante italiano Américo Vespúcio, a mando de Pedro Álvares Cabral que, com a missão de reconhecimento do litoral tupiniquim, vislumbrou uma grande e bela baia, à qual denominou como Baía de Todos os Santos. E, lá se foi nosso parceiro, cantando:

“Eu vou prá Maracangalha
Eu vou!
Eu vou de liforme branco
Eu vou!
Eu vou de chapéu de palha
Eu vou!
Eu vou convidar Anália
Eu vou!
Se Anália não quiser ir
Eu vou só!”


E o Luiz Paulo, faltou por quê?
_Pelo que sei, ele e a esposa foram para o sambódromo do Rio de Janeiro, mais conhecido como “passarela do samba”. Ele pediu desculpas pela falta, mas a Marquês de Sapucaí falou mais alto. Quando me disse isso, ele e a esposa já estavam ensaiando:

“ Cidade maravilhosa
Cheia de encantos mil
Cidade maravilhosa
Coração do meu Brasil
Cidade maravilhosa...


Vocês não vão acreditar, mas até a turma do Valdir e do Sebastião, estavam ensaiando outra noite na Praça.
_ O quê? Até aquela turma de pinguços? E, o que eles ensaiavam?
_ Aquela marchinha do Chacrinha:

“ As águas vão rolar,
garrafa cheia eu não quero ver sobrar
eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha,
E bebo até me afogar, deixa as águas rolar...



É, parece que o carnaval tomou conta da nossa gente aqui do Garden City. E, a Administração do Condomínio será que vai trazer dupla sertaneja de novo?
_ Mas bah tchê! Tu tá por fora, meu querido sogro. O novo Sìndico não é muito fâ de trazer dupla sertaneja quando se trata de carnaval.
_Então, não vai ter animação alguma no Garden City?
_ Ao contrário, meu sogro, vai ter carnaval na Praça Central animado por um trio elétrico. Até eu, já tou ensaiando com a turma lá de casa:

“Ó abre alas
Que eu quero passar
Ó abre alas
Que eu quero passar”


_ Bom, em sendo assim, eu vou falar com a odete, para também cairmos na folia. Quem sabe a gente possa recordar das marchinhas que cantávamos e dançávamos no Clube Caixeiral de Bagé:

“ Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando.”


_ Mas, seu Gumercindo, depois do que vocês passaram com aquele sequestro, o Senhor deveria cantar coisa mais alegre, como:

“ Sassassaricando
Todo mundo leva a vida no arame
Sassassaricando
A viúva o brotinho e a madame
O velho na porta da Colombo
É um assombro
Sassaricando

Quem não tem seu sassarico
Sassarica mesmo só
Porque sem sassaricar
Essa vida é um nó “


_ Tu tens razão, Sérgio…Depois do que passamos, o melhor é SASSARICAR…
_ E, você, Sérgio depois daqueles problemas com teus vizinhos, o Paulão e a Marialba, o que vai cantar:

“ Daqui não saio
Daqui ninguém me tira…”


_ Afinal, esse é o país do carnaval …deixa as águas rolar…

Escrito por Saint Clair Nickelle, 28/02/2017 às 12h29 | sannickelle@gmail.com

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Imaginação e Conduta

“Com o acúmulo dos anos, partes da nossa imaginação tende a apagar. Ou por tristeza, dificuldades prolongadas, ou condicionamento social, em algum momento de suas vidas as pessoas se esquecem de como acessar esta mágica inerente que existe dentro de nossas mentes. Não deixe esta parte da sua imaginação desaparecer. Olhe para as estrelas e imagine como seria ser um astronauta ou um piloto. Imagine explorar as pirâmides ou o Machu Picchu. Imagine poder voar como um pássaro ou passar por uma parede como o Super-Homem. Imagine correr com os dinossauros ou nadar com criaturas do mar. Tudo o que existe é produto da imaginação de alguém; cuide bem e nutra sua imaginação e você sempre se encontrará à beira da descoberta. Como cada um desses fatores levam à criação de uma sociedade pacífica? – você deve estar se perguntando. Tudo começa com uma causa. Suas causas criam os efeitos que moldam o seu futuro e o futuro de todos ao seu redor. Sejam os protagonistas no filme de suas vidas. Vocês são os diretores, os produtores e os atores. Sejam ousados e incansavelmente benevolentes enquanto dançam pela viagem que é esta vida.” Herbie Hancock & Wayne Shorter

Com a citação acima, eu referencio e homenageio todos os cronistas do Página 3 que, com suas criações, fazem o dia-a-dia ser mais aprazível. Ora, com conhecimentos técnicos, ora com as interpretações políticas dos atos de nossas autoridades públicas, dos empresários e da vida social da cidade.

No Garden City, não é muito diferente, os acontecimentos, por mais banais que possam parecer, serão sempre analisados e julgados por todos que habitam ou se envolvem com a vida desta comunidade.

Assim, o meu olhar como o dos meus amigos de mateada, também estará sujeito ao viés de suas histórias, como agentes ativos dessa pequena sociedade, mas passível de erros de julgamento. Dificilmente, temos neutralidade para analisar e julgar um fato, pois, de um modo geral, evidenciamos não o que ele é, mas como gostaríamos que fosse, segundo os valores de nossa criação.

As ações de nossos vizinhos são autênticas, por terem sido produzidas sem coação aparente, apenas pelos valores que condicionam seus comportamentos.

Portanto, tudo aquilo que não prejudique o equilíbrio social, tem plena aceitação dos demais. No entanto, as ações sempre estarão sujeitas às especulações gratuitas dos demais membros dessa sociedade. Quando essas especulações transcendem o limite da boa convivência, tornam-se capazes de deteriorar o tecido social e, aí sim, transformar as pessoas em réus momentâneos ou até para sempre.

Se somos capazes de poder imaginar como seria um mundo melhor, podemos influenciar nossas ações e das pessoas que convivemos, mas para isso não basta apenas especular, temos que ajudá-las a perceber ou, na melhor das hipóteses, refletir juntos.

Para quem vive num condomínio, tem uma oportunidade excepcional de transcender as limitações individuais, ora construindo regras de convivência que, para o jovem habitante, possa se transformar em valor.

O Garden City, por sua constituição e também pela introdução de variáveis ecológicas, de trânsito, de segurança, de atividades esportivas, etc. gestadas ao longo dos anos, é fonte saudável de aprendizagem, porque não são apenas teorias de como viver bem, mas prática do cotidiano. Se essa prática for incorporada como valor, certamente se estenderá para o conjunto da sociedade.

A educação escolar, como hoje se pratica, não atinge na plenitude as diversificadas necessidades do ser social. Então, é comum, a gente ver estudantes tentando quebrar árvores das ruas perto da escola, ignorando as faixas de pedestres, desperdiçando ovos para sujar o aniversariante, etc...

Como o que importa é saber um pouco de matemática, português, geografia, etc. o resto da educação fica com a família, nem sempre preparada ou atenta para essa necessidade.

O nosso vizinho Sebastião, um sujeito encrenqueiro que até batia na mulher, tinha esse comportamento, por quê?

Quando o seu Brasil estava construindo os muros do Garden City eu, que o conhecia, desde a construção da casa do meu sogro, muitas vezes fui tomar chimarrão com ele, nos finais de tarde. Numa dessas conversas ele, não sei bem porquê, se referiu ao Sebastião, dizendo que o conheceu quando jovem, pois fora vizinho dos pais dele, lá no Lami, zona sul de Porto Alegre. Ele, então, me contou que o pai do Sebastião era um truculento, brigava muito com os filhos e com a mulher, principalmente quando chegava bêbado em casa. Foi, pois, nesse ambiente que o Sebastião foi criado até o dia em que foi servir o Exército e, nunca mais voltou para casa.

Assim, quem julga o Sebastião e não conhece a história dele, dificilmente vai estender-lhe a mão.

O seu Gumercindo, extremo oposto do Sebastião, era oriundo de uma família de Bagé, que vivia da criação de gado. Seu pai, seu Adroaldo, era, como dizia o Gumercindo, homem de poucas palavras, mas de um comportamento exemplar que, jamais admitia, qualquer vacilo em termos de conduta. Essa conduta foi passada aos filhos sem muito esforço, pois o seu exemplo bastou para imprimir valores éticos. Se sou assim, exigente com os outros, devo ao meu pai, frisava o nosso amigo Gumercindo.

Estes dois casos de criação, aqui usados como exemplos de uma pequena comunidade, com tantas outras peculiaridades, denotam as dificuldades de se obter consenso de convívio, a não ser é claro, pelas regras a serem obedecidas.

Nos chamados povos desenvolvidos há, para nossa perplexidade, condutas sociais invejáveis, em especial as que tratam de respeito às leis, quer sejam de trânsito, de limpeza urbana, da natureza, etc. Por que, então, as mesmas leis que temos em nosso país, não são obedecidas?

Lá, diferente daqui, não se negligencia a fiscalização, nem a aplicação de penalidades. Consequentemente, vamos continuar por muito tempo, descumprindo regras e demorando para atingir um patamar de civilidade, que possa nos orgulhar.

“Assim como as flores se abrem e dão frutos, como a luz de uma lamparina se intensifica quando se adiciona óleo, e como as plantas e as árvores florescem com a chuva, os seres humanos jamais deixarão de prosperar enquanto realizarem boas causas” (WND, v. I, p. 1013)

Escrito por Saint Clair Nickelle, 21/02/2017 às 10h14 | sannickelle@gmail.com

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Sossego, amor e sexo

O Garden City, como as cidades que não possuem praias, passa dois meses de férias. Nelas se veem poucos carros, pouca gente e um sossego quase inimaginável.

Na capital gaúcha, como é tradicional, os meses de janeiro e fevereiro são para se tirar férias. Assim, metade dos porto-alegrenses ou estão no litoral ou esperando chegar o seu mês de férias. O trânsito é tranquilo, os shoppings centers esvaziados, os supermercados, então, nem se fala...

No Garden City, não é diferente. Poucas crianças, poucos carros e, as frutíferas de verão plenamente à disposição dos que ficaram. São as goiabeiras e araçazeiros carregados, além das mangueiras e videiras com seus frutos deliciosos, esperando para serem colhidos. Para quem gosta de frutos exóticos tem butiá, pitanga tardia, mirtilo (blueberry), bacupari e até jambo. Ao final da tarde, uma caminhada para colocar o corpo em dia, mas com algumas paradas estratégicas para saborear, no pé, uma e outra daquelas frutas.

Depois um banho, uma cervejinha gelada e, é claro, uns petiscos. Enquanto beberico, fico apreciando a volta dos pássaros para os ninhos. A algazarra deles é intensa, como se disputassem lugar nos galhos. Esse sossego é impagável, mesmo longe das praias, onde o agito não tem sossego.

Muitos maridos ficam solteiros, leia-se soltos, nessa época, já que as famílias, de um modo geral, tiram dois meses de férias, enquanto eles, no máximo um mês. Alguns aproveitam o distante olhar controlador das companheiras para fazer umas farrinhas, nem sempre inocentes.

Lembro-me do Ferdinando, vizinho do condomínio, que todos os sábados de manhã chegava na praia, cedinho. Aliás, esse era o ritual dos maridos que não tiravam férias, sair para a praia na sexta de noite ou sábado pela manhã.

Pois, o Ferdinando resolveu ser folião no carnaval vermelho e branco, que acontecia todas as sextas-feiras e se estendia até a madrugada do sábado. Sambou, bebeu, namorou e apenas não esquecia de controlar a hora.

Deixou o baile, mais cedo, para tomar uma ducha e se livrar da inhaca dos perfumes baratos. Depois da ducha, se olhou no espelho e viu que o banho não lhe retirara as purpurinas do seu rosto, cabelo, mãos e braços...E, agora o que fazer?

Pensou mil desculpas, mas nada o deixava satisfeito...Quebrou a cabeça e acabou indo para praia, cumprir sua obrigação de marido saudoso da esposa e dos filhos.

Lá chegando, encontrou o pessoal acordando. Para animá-los levou serpentinas e dois saquinhos de purpurina...cantando marchinhas gritava:

- Viva! Viva! É carnaval...É carnaval minha gente! Vamos cantar, vamos dançar!...Vamos pular!...É carnaval, Viva! Viva!

Conforme cantava, ia jogando serpentina e, é claro, purpurina em todo mundo. Por fim, tanto ele como a esposa e os filhos ficaram cobertos de purpurina...

Nessa, ele se saiu bem. No entanto, dizem que a mulher do Ferdinando gostou da ideia, já que não saberia explicar porque seu corpo estava coberto de purpurina, antes dele chegar.

Houve casos de maridos que pegaram doenças venéreas e, para não contaminar as esposas, alegavam estafa e dores de cabeça para não cumprir suas obrigações.


Alguns casamentos foram desfeitos por essas e outras, mas também pelas mulheres, de tanto verem saradões dando sopa na praia.

Dizem, as más línguas, que a Marialva, na praia, se vingava do galinha do seu marido, Paulão, dando mais que chuchu na serra. Ele bem que merecia, já que solto em casa, continuava dando em cima das domésticas do Garden.

Alguns maridos, para participar dos bailes de carnaval em Porto Alegre e não serem identificados, usavam de muita criatividade. Lembro-me do meu amigo, Márcio, que levou a amante para um carnaval no Clube do Professor Gaúcho, o qual ele frequentava com a esposa e os filhos o ano todo, onde era conhecidíssimo. A criatura se cobriu com um lençol branco, da cabeça aos pés, deixando apenas dois furos para os olhos. Fantasiado de fantasma ele pulou a noite inteira; mas vejam só, o camarada, pra não ser identificado pela voz, só falava ao ouvido da amante, fantasiada de chiquita bacana, lá da Martinica. Muito embora, os que poderiam identificá-lo, só olhavam para as curvas da chiquita bacana, vestida com uma casca de banana nanica. É, no carnaval não só as escolas de samba são criativas, os maridos também.

Durante a semana, dava até para acordar um pouco mais tarde, pois o tempo que se levava para chegar ao local de trabalho se reduzia pela metade, já que o trânsito fluía sem os insuportáveis congestionamentos. Depois disso, eu sempre penso, “cacomigo”:

- Como seria bom se a minha cidade tivesse a metade da população que tem.

Tem gente que tem orgulho de dizer:

- Eu moro numa cidade que tem dois milhões de habitantes.

Grande África! Morar numa cidade de dois milhões de habitantes, onde cabem, com qualidade de vida, somente um milhão. Ou é burrice ou ufanismo idiota.

As cidades, como qualquer lugar que se preze, tem que ter um limite de lotação.

Esgotada a lotação, não se entra mais.

Isso acontece com algumas praias, em especial as do litoral catarinense. Como Bombinhas, por exemplo. Uma joia da natureza, com um único acesso por terra, já que pelo mar nunca se pensou materializar a ideia. Da BR 101, passando por Porto Belo, a pequena distância pode ser percorrida em 15 minutos ou menos. No verão leva-se de 3 a 4 horas...Pode-se entender isso?

Por isso, minha gente, que tirar férias em lugares que não tem praia, pode ser um diferencial pra lá de sossegado. Pelo menos para quem gosta de sossego. Mas, para quem gosta do agito, a praia, quanto mais congestionada, melhor.

No Garden City, a noite cai suave como a brisa do entardecer, é hora de recolher o copo e as garrafas vazias, esboçar barulhentos bocejos e pensar no dia de amanhã, quando tudo há de recomeçar...afinal é o ciclo da vida.

À noite, sonha-se com a praia, mas aquela de quando éramos crianças. Com muitos cômoros e areia branquinha, povoada de caranguejos, tatuíras , moçambiques e mariscos brancos. O mar, de águas claras e geladas, era um convite que nos desafiava, ora para que furássemos as ondas espumantes, ora para fazer jacaré até a areia da praia.

Infelizmente, partes importantes desses sonhos acabaram, dando lugar aos avisos de “ÁGUA IMPRÓPRIA PARA BANHO”.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 14/02/2017 às 11h36 | sannickelle@gmail.com

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Mateada

Depois dos últimos acontecimentos, uma mateada na Praça Central se fazia necessária. O Clóvis, como sempre, já nos esperava com todos os apetrechos para um chimarrão gostoso e um papo descontraído.

Claro que o seu Gumercindo foi o mais esperado, já que fora com ele o acontecimento mais inusitado.

- E, aí meu sogro, como te sentiste ao ser sequestrado e, logo por um “pastor”?

- Bem, como todos já sabem, foi uma situação que qualquer um de nós não está preparado, ainda mais morando num condomínio como o nosso. Eu já agradeci , fazendo novamente aqui entre amigos, ao delegado Luiz Paulo. Ele, foi essencial para prender o meliante, travestido de pastor.

- E, a sua empregada, a Ariovalda, continua trabalhando para vocês?

- Sim, na verdade ela foi surpreendida tanto quanto eu e a Odete. Quando ele, o falso pastor e também irmão dela, lhe disse que vinha pagar uma dívida antiga, foi natural ela tê-lo deixado entrar. Depois que ela viu a verdadeira intenção do seu irmão, ficou apavorada, pedindo-lhe que não fizesse isso, pois estava bem empregada e que gostava muito de nós, mas nada dos seus apelos o comoveu. No entanto, antes de sermos amarrados e postos no porta-malas eu disse para ela, ao ouvido:

- Fala para o Porteiro que eu confio no teu irmão por ser pastor...

- Vocês todos sabem que não sou fã das atividades religiosas com segundas intenções. Há séculos, muitas igrejas visam enganar gente ingênua, em nome de Deus. É injusto ter o Estado brasileiro permitido a isenção de impostos para as igrejas em geral, pois deveria ser uma obrigação de todos. Aliás, eu penso que essas isenções, foram o estímulo que faltava para terem surgido tantas igrejas e tantos profetas questionáveis.

- Como o Porteiro sabe da minha opinião sobre esses falsos profetas, foi a dica que faltava para confirmar o sequestro...Depois, o Porteiro me confirmou o que a Ariovalda lhe disse:

“Alô! Ele vai sair, mas o seu Gumercindo, depois que soube que ele é pastor, pediu-lhe uma gentileza...”

- Se, para a polícia houvesse qualquer dúvida, o Porteiro os alertou, pelo que me conhece.

- Como o Senhor nada sabia das providências policiais, na qual participaram ativamente o seu genro, o Porteiro e o nosso estimado amigo Luiz Paulo, sentiu que algo de pior pudesse lhes acontecer?

- Olha pessoal, quando se está só numa situação como essa, eu penso que ficaria menos tenso, mas como a minha querida Odete estava comigo, eu fiquei bem mais nervoso. Eu até tinha pedido para o desgraçado levar somente a mim, mas ele preferiu amarrar e amordaçar a sua irmã, e levar nós dois.

- E a situação no porta-malas?

- Meu Deus! Como é apertado. Isso, que eu tenho um carro grande...imagina se fosse um desses compactos...Nós teríamos morrido sufocados.

- O Senhor acredita mesmo que todas essas novas igrejas e seus pastores, que arrebanham multidões, sejam questionáveis?

- Não, Saint Clair e demais amigos, alguns têm, a meu ver, uma missão evangelizadora respeitável, mas, à semelhança dos políticos, quando entram para as organizações, quer sejam partidos ou igrejas, passam a ver vantagens financeiras e muitos se corrompem como seus líderes.

- Depois de tantos fanáticos presos, como na própria história antiga ou recente, como foi o caso do Jim Jones, fundador do Templo Popular de Jonestown, na Guiana, que levou 918 pessoas a cometerem suicídio. Como o caso do Culto Poligâmico de Warren Jeffs, que foi condenado à prisão perpétua, depois que o FBI descobriu a extensão de suas atrocidades com meninas, além é claro, dos padres pedófilos, eu passei a descrer dessas organizações e de seus líderes, mas isso é coisa minha.

- Sua convicção deve ser respeitada, mas não são casos isolados que podem comprometer todas as organizações religiosas, afinal elas são constituídas de pessoas, não de santos.

- Sei disso, e acho até que Deus quis me dar um recado: ser mais indulgente com os religiosos, afinal eles exercem um papel importante para as pessoas mais simples, cujas ambições são de reestruturação familiar, respeito, livrar-se das drogas, e terem mais fé.

- A conversa acabou desviando do foco inicial, portanto mais um mate e penso que devemos falar da festa do filho da dona Miriam, afinal ocorreu logo após a tentativa de sequestro ...O que vocês acharam do esquema de segurança adotado?

- Na condição de delegado, eu ajudei a dona Miriam a organizar o esquema de segurança. No entanto, foi dela a sugestão das pulseiras para identificar os convidados, bem como a não permissão dos pais para entrarem no Garden, ao final da festa. Eu concordei porque estávamos ainda abalados com o ocorrido com o meu amigo aqui, Gumercindo, e sua esposa.

- A festa, pelo que sei, ocorreu de maneira tranquila, só não deixou os vizinhos mais próximos dormirem, mas isso é o ônus de termos jovens.

- Como não temos um salão de festas, sempre haverá em alguma casa do Condomínio, um sábado barulhento.

- É, isso aí, Sérgio! Mas eu que sou teu vizinho lindeiro, nunca me queixei das festas dos teus filhos, afinal quando éramos jovens gostávamos do agito, agora prezamos o sossego...eles também, um dia, vão chegar lá.

E, o Clóvis insistia para que o mate seguisse a tradição, quente e de mão em mão.

Por fim, nossas angústias de segurança parecem não ter limites físicos e eletrônicos capazes de nos dar plena tranquilidade. Os bandidos também são criativos e, a despeito de todos os aparatos que temos, acabam nos surpreendendo. Em alguns países o medo é pelo terrorismo, pelas invasões de refugiados da África e do Oriente Médio e, nós pelo fantástico desequilíbrio sócio- econômico. Cerca de oito (8) pessoas no Brasil detêm riqueza equivalente a 100 milhões de brasileiros.

O escritor David Grossman, nascido em Jerusalém, seis anos depois da criação do estado de Israel, é enfático ao afirmar:

“Eu não sei o que significa viver sem medo”

Apesar de não termos guerras próximas de nós, cada vez mais estamos sendo levados a ter medo de tudo, por isso optamos por viver em condomínios, como se fossem presídios de segurança máxima. Nas casas, grades em portas e janelas, oferecendo riscos em casos de incêndio. Como viver sem medo

Escrito por Saint Clair Nickelle, 07/02/2017 às 14h31 | sannickelle@gmail.com

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