Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Ostentação

O Clovis, mais conhecido como coquinho, nos convidou para uma mateada no caramanchão da Praça Central. Como sempre lá compareceram o seu Gumercindo, genro do Clóvis, o Luiz Paulo, delegado aposentado, o Sérgio, auditor do Banco Central, o Reginaldo, professor de Sociologia e eu.

Enquanto a cuia girava de mão em mão, o seu Gumercindo fez o comentário que todos esperavam:

- Vocês viram a Polícia Federal bater na casa do Carlos Alberto de Bezerra às 6 h da manhã, ontem?

- Eu, como resido junto à Praça da Frente, acordei com uma grande movimentação de veículos e, como curioso e ex-policial que sou, fui espiar para ver. Não deu outra, era na casa do Bezerra, disse o Luiz Paulo.

- Qual teria sido o motivo?

- Eu acredito que faça parte da Operação Lava Jato, aquela que tá pegando os safados que participaram do Governo do Estado de 2004 a 2008.

- Mas ele foi só o braço direito do Governador. Será que ele tá envolvido naquele propinoduto do Serguei Cabriles?

- Quem duvida ou é louco ou burro! Vocês não viram como cresceu o patrimônio dele naquele período? - afirmou o Clóvis, fazendo roncar aquele chimarrão buenacho.

- Pois, não é que tu tens razão vivente! Mas, antes que eu comente, me passa a cuia e a chaleira que a goela tá ficando seca! - disse o seu Gumercindo. Depois de um ano que o Bezerra tava no Governo, ele comprou a casa do lado e começou uma grande reforma. Depois de pronta, a casa boa e simples que morava com a família, deu lugar a uma mansão de dois pavimentos, garagem para seis carros e, um terraço com piscina e churrasqueira acima do segundo pavimento.

- Vocês lembram o carro que ele tinha?

- Se, não me engano, era uma caminhonete Ford F-100, 1982.

Agora ele desfila num AUDI Q3, sua mulher num Land Rover Range Rover Evoque.

- E os filhos?

- Eles tem dois filhos, um casal para ser mais exato. A moça tem um Hyundai Hb20X e o rapaz um Chevrolet Camaro. Todos carros do ano.

- Meu Deus! Não foi com o salário de Secretário do Governador que ele conseguiria tanto dinheiro.

- Claro que não, Reginaldo! Tu lembras quando ele veio pedir para suspender a dívida que ele tinha com o condomínio, pois a casa estava prestes a ir para leilão?

- Tu era o síndico na ocasião, não é verdade, Luiz Paulo?

- Sim, seu Gumercindo! Ele inclusive chorou, dizendo que sua família não teria para onde ir. Apiedados, eu e o Conselho Fiscal fizemos um acordo para suspender a decisão judicial. Ele pagaria a taxa normal do condomínio mais 10% da dívida a cada mês. Foi a forma que encontramos para suspender o leilão.

- O mais curioso, e que remete à personalidade do Bezerra, é de que depois que ele melhorou de vida, deixou de ser compreensivo com os inadimplentes.

- É verdade seu Gumercindo! Eu lembro daquela Assembleia que elegeu o seu Osvaldo e que definiu a alteração da taxa condominial, quando ele propôs um aumento de 100%.

- Ela só não foi aprovada, porque o nosso grupo, como sempre coerente, bateu pé para não agravar a condição dos condôminos que tinham mais dificuldades.

- Ele, na ocasião, afirmou que quem não pudesse pagar que fosse morar na Restinga, não num condomínio como o Garden City.

- Fiquei horrorizado. Disse o Luiz Paulo.

- Como pode uma pessoa esquecer, especialmente diante de mim, tudo o que ele passou e foi comtemplado com tanta humanidade, inclusive pelos membros do Conselho Fiscal que também estavam presentes naquela assembleia?

- Só pode ser desvio de personalidade.

- Ou um baita cara de pau!

- Taí, agora foi preso pela Polícia Federal. Certamente não vai se livrar da taxa condominial e, talvez perca a casa, os carros, as obras de arte, as jóias da mulher para saldar o que ganhou ilicitamente.

- Dizem que ele se sentiu mal quando teve que enfrentar os olhares críticos dos vizinhos que acompanhavam a sua prisão.

- Se ele de fato se sentiu mal não se sabe, mas a Polícia Federal acabou internando-o no Pronto Socorro Municipal.

- O que a imprensa noticiou, Reginaldo, foi que os médicos não constataram nada com ele, liberando-o para ser encaminhado ao Presídio Central.

- E vocês viram o escândalo que ele fez para não ser encaminhado à prisão?

- Como foi, Clóvis?

- O barraco protagonizado pelo Bezerra e pela família viralizou ao longo da madrugada desta sexta-feira, especialmente entre os moradores do Garden, que sentem um gostinho de vingança depois de tanta ostentação indevida.

- Clóvis, põe erva nova neste mate, tá ficando aguado.

- É pra já, Sérgio!

- Se ele fosse um cara discreto, como muitos políticos, talvez estivesse até agora desfrutando dos nossos impostos desviados para o bolso dos engravatados sem escrúpulos.

- Sim, os que sempre declaram não saber de nada, mas que andam cercados dos melhores advogados do país, no caso de uma prisão intempestiva.

- Pessoal, chimarrão novo e bem quente, vamos esquecer, por ora, as safadezas do nosso vizinho ostentador.

- Tens razão, Clóvis! Nada como um chimarrão gostoso entre amigos.

“ Ostentar é a ação de mostrar ou exibir com alarde, com pompa, em atos públicos ou particulares. É se mostrar com ostentação, ou seja, com grande luxo, esplendor ou suntuosidade.”

“Estima-se que R$ 200 bilhões são desviados no Brasil, por ano. Esse dinheiro poderia servir para triplicar o investimento federal em saúde e educação…”

Escrito por Saint Clair Nickelle, 24/11/2016 às 17h21 | sannickelle@gmail.com

publicidade

O amor

Morar em Condomínio, como numa cidade pequena, todos ficam sabendo de tudo. Quem trai, quem é comportado, quem é conquistador, quem é homosexual, quem é honesto ou desonesto, etc.

Vocês lembram do marido da Marialba, que vivia dando em cima das empregadas domésticas e, que levou a esposa preterida a atacar a Noeli, por entender que ela estava dando “corda” para o Paulão, seu marido. Coitada da Noeli, além de inexpressiva, não era nenhuma “gostosa” para chamar a atenção do Paulão. Mas, enfim acabou agredida de graça.

Vocês lembram da Ritinha e do Julinho que costumavam namorar na Praça da frente…Pois é, depois de tanto namorar, a Ritinha ficou “embuchada ”, para desespero das famílias dos dois adolescentes.

A família da Ritinha queria que a filha abortasse, pois não gostava do Julinho que, para eles, era um desocupado e leviano.

Eles, quando ficaram sabendo da gravidez, quase bateram na Ritinha, dizendo-lhe:

- Onde você estava com a cabeça Rita Maria da Silveira, para transar com aquele irresponsável que vive às custas do pais?

- Pessoal eu o amo. Vocês parecem que nunca se apaixonaram. De repente eu sou uma Maria Madalena que deve ser apedrejada. Em que mundo vocês vivem?

Enquanto que a família do Julinho a acusava de devassa, afirmando que seu rico filho jamais casaria com alguém que já tinha transado com meio Condomínio. A tensão entre as duas famílias só não propiciou uma tragédia, porque o Julinho disse:

- Eu amo a Rita Maria e vou casar com ela, quer vocês queiram ou não.

A mãe e o pai do Julinho ficaram horrorizados com a decisão do filho e, ponderaram:

- Se você casar com essa lambisgoia, nós te deserdamos…Você não terá como se sustentar, muito menos a criança que ela está esperando, seu trouxa inconsequente.

- Você nem sabe se o filho é teu…

- Eu sei que é. Foi feito com muito amor. Diferente deste amor que vocês dizem sentir por mim…

- Filho ingrato, depois de tudo que fizemos por ti é assim que nos trata.

- Vá, então, case com aquela devassa e esqueça que somos teus pais.

- Não era isso que eu esperava de meus pais, mas só agora eu entendo o real valor que sou para vocês…Obrigado pelos meios que me deram, mas eu não posso deixar de assumir essa responsabilidade para com a Rita, principalmente agora que ela está grávida.

- Vocês me julgam como um criminoso.

- Se olhem no espelho do tempo, dezoito anos atrás.

- Você, mamãe, não estava grávida quando casou?

- Chega, Júlio Henrique, o meu passado não tem nada a ver com a situação atual.

- Como não, mamãe?

- Que eu saiba, você casou com o papai porque já me tinha na barriga.

- Se isso lhe causou um trauma, então, eu posso concluir que fui um filho indesejado…

- Não, meu filho querido. Você foi concebido com muito amor e, desde que ficamos sabendo, eu e seu pai, nós passamos a te amar para sempre.

- Então, pai e mãe, porque não querem me apoiar agora?

Um imenso silêncio pairou no ar…E alguns dias depois os pais do Julinho o chamaram para converser:

- Perdoe-nos, filho.

- Às vezes, por excesso de amor, cometemos injustiças.

- Você, meu filho amado, podes casar com a Rita Maria. Nós vamos te dar pleno apoio para o casamento, não é meu bem?

- Sim, sim!

- Se você nos permitir, filho, nós gostaríamos de falar com os pais da Rita.

- Tudo bem, eu aceito.

A conversa dos pais do Julinho com os pais da Ritinha, foi exitosa, desanuviando todas as incertezas. Inclusive, eles decidiram que o casamento seria realizado na Praça central do Garden City, para que todos os moradores fossem convidados.

No dia aprazado, a Praça central estava plenamente enfeitada e, no caramanchão, o Juiz de Paz, aguardava os noivos. Eles entraram sob aplausos, conduzidos respectivamente, pela mãe do Júlio Henrique e, logo atrás, pelo pai da Rita Maria.

A festa, para centenas de convidados, foi a mais emocionante dos últimos tempos. Naquele momento, todas as possíveis desavenças deram lugar a troca esfuziante de gentilezas O amor venceu.

"O amor é uma questão complexa que reflete a atitude e a filosofia de cada pessoa para com a vida. Eis por que acredito que as pessoas não devem se envolver em relacionamentos de forma leviana. É como diz um ditado japonês:"O amor não é um jogo". Se o amor pudesse ser explicado de forma racional, todos os sofrimentos que ele causa desapareceriam do mundo. Porém, o importante é que, sem respeito, nenhum relacionamento durará muito tempo nem duas pessoas serão capazes de extrair o melhor uma da outra."??Brasil Seikyo, edição n° 1.264, 12 de março de 1994, pág. 3.)

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/11/2016 às 10h28 | sannickelle@gmail.com

publicidade

O pomar e o clima do planeta

Quando o Garden City ainda era um recém nascido, lembro-me bem de uma assembleia que discutia a utilização da área livre, em cujo projeto de urbanização havia sido previsto uma extensa reserva verde. Extensa porque ela se estende da entrada do Condomínio até o último acesso.

Alguns defendiam que ali se deixasse uma área para estacionamento futuro, pois já se previa o aumento do número de carros por morador. Esses que defendiam essa ideia eram contra o plantio de árvores de qualquer espécie, permanecendo apenas um grande gramado. Outros, no entanto, por conhecerem o significado de Cidade Jardim, defendiam ali uma área verde, com muita arborização. Segundo esse grupo, a vegetação que cresce por meio da fotossíntese, captura gás carbônico e libera oxigênio. Só assim teríamos um ambiente saudável para morar e educar nossas crianças. Aliás, diziam ter sido isso que os fez buscar um condomínio horizontal, com muita área verde e recreação ao ar-livre para morar.

Dessa Assembleia surgiu, de uma bióloga, a proposta de plantarmos ali frutíferas, de tal sorte que desfrutássemos do antigo hábito de colhê-las no próprio pé. Além disso, esse extenso pomar cumpriria o papel de pulmão verde, bem como atrairia diversos tipos de pássaros para deleite dos moradores.

Os contrários, no entanto, diziam que as frutíferas trariam disputas entre os moradores que, pela proximidade de algumas casas, os fariam sentir-se donos.

Quanto ao aspecto de atração aos pássaros, diziam que eles trariam doenças transmitidas por suas fezes, como a escherichia coli, a psitacose que é uma doença da via aerógena, ou seja inalação de pó contaminado por fezes.

Os defensores da natureza ficaram indignados com tamanha neura, sugerindo que os defensores de tal higidez, se mudassem imediatamente para não contrair doenças também pelo convívio com os vizinhos.

Para acalmar os ânimos, o presidente da Assembleia resolveu colocar em votação a ideia do pomar.

O resultado foi quase unanimidade pela constituição do pomar, 37 a favor e 5 contra.

Foi, então, composta uma Comissão Especial, tendo como presidente a Bióloga Sandra Maria e, outros três membros, o Engenheiro Agrônomo Sílvio Rodrigues, o Próprio síndico, Sr. Luiz Paulo e o jardineiro Marcílio.

No plano dessa Comissão Especial, se plantariam as mais diversas frutíferas, levando-se em conta as épocas de frutificação, de tal sorte que os moradores pudessem desfrutar delas o ano todo. Outro aspecto foi o de repetir grupos de frutíferas para que favorecessem uma certa proximidade para os diversos acessos. Assim, ninguém se sentiria mais privilegiado que outros moradores.

Nesses grupos de frutíferas deveriam constar sempre laranjeiras, pereiras, limoeiros, abacateiros, amoreiras, goiabeiras e bergamoteiras. Outras espécies, menos comuns, como araçazeiro, pitangueira, mirtilo, laranjeira azeda, limão galego, parreira, bananeira, etc. seriam distribuídas aleatoriamente.

Adquiridas as mudas na CEASA, em pouco tempo aquele gramado rústico de campo deu lugar a um grandioso pomar.

Os moradores, daquela época, ajudavam a adubar com a expectativa de vê-las crescer e dar seus primeiros frutos. Era sempre uma festa para os adultos e para as crianças.

O tempo passou, e alguns anos depois até festa da colheita existiu. Essas festas, instituídas pela Administração do Garden City, eram feitas sempre num domingo, onde a maioria dos condôminos podia participar. Munidos de cestas de vime, crianças e adultos colhiam as frutas que estavam maduras, depositando-as no caramanchão da Praça Central, onde depois seriam divididas irmãmente. Depois da colheita um churrasco era servido, onde ao som de músicas gauchescas, brindávamos o que a natureza e a nossa determinação propiciara.

Foi um momento muito feliz no Condomínio

Infelizmente, novos moradores vieram e por não terem participado de todo o processo de decisão, plantio e cuidados adicionais com o pomar, passaram a não respeitar as regras da colheita, permitindo que os seus visitantes colhessem indiscriminadamente as frutas, as vezes ainda nem maduras. Depois de cada fim-de-semana era uma verdadeira desolação, quando sob as frutíferas jaziam centenas de frutas arrancadas ainda verdes ou que serviram de meio para a guerra entre crianças mal educadas.

Nas Assembleias, muito se criticou os moradores inconsequentes, ao ponto da Administração do Condomínio ser obrigada, por decisão de maioria, a editar regras por escrito, para que os que não cumprissem fossem multados. O clima, antes quase idílico, passou a ser de vigilância de todos por todos. Muitas foram as interpelações de vizinhos com moradores e visitantes. Até briga se viu.

Alguns pais interpelados, porque seus filhos faziam guerra com as frutas, diziam que só mesmo as compradas possuíam as qualidades que suas famílias requeriam.

Se, num universo tão pequeno como um condomínio, não se consegue unanimidade de respeito à natureza, mesmo que ela esteja só beneficiando os moradores, imagine o mesmo respeito pelo planeta.

“O Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, adotado pelos líderes mundiais em dezembro de 2015 na capital francesa, entra oficialmente em vigor nesta sexta-feira (4). O acordo estabelece mecanismos para que todos os países limitem o aumento da temperatura global e fortaleçam a defesa contra os impactos inevitáveis da mudança climática.”

“O planeta deve reduzir "de forma urgente e radical" as emissões de gases de efeito estufa se quiser evitar uma "tragédia humana."

Recentemente, o novo síndico, Sr. Fabiano, resolveu prestar uma homenagem póstuma aos membros daquela Comissão Especial que, mesmo diante das contrariedades enfrentadas, contribuíram para a saúde do planeta, neste micro espaço de um simples condomínio. Se cada pessoa fizer a sua parte, mesmo de forma tão pequena, certamente reverteremos a tragédia humana que ameaça a vida na terra.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/11/2016 às 12h35 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Delação não premiada

Morar em condomínio tem lá as suas vantagens, mas é uma contradição dentro de uma cidade. Por quê uma contradição? Porque isola os moradores do contexto urbano, tornando-os alheios à comunidade, quer seja a rua, o bairro e, por extensão, a própria cidade. 

Um condomínio, do tipo horizontal, tem suas próprias leis além é claro das que regem todos os munícipes. O isolamento trás segurança, prestação de serviços e uma vizinhança compulsória que, as vezes pode ser positiva ou negativa, dependendo da forma excessivamente individualista de alguns, fato que é gerador de atritos pontuais e/ou de regulação administrativa.

Quando fui morar no Garden City, constatei que as alterações das casas, de pequena monta é claro, eram feitas sem qualquer licença da Prefeitura Municipal, pois havia uma certa cumplicidade de todos os moradores. 

Eu mesmo fiz algumas alterações ao meu projeto original, adaptando certos aspectos que a avaliação pós-ocupação nos fez refletir melhor. Não houve, no entanto, alteração de área construída, nem invasão às áreas de acumulação que todos os terrenos possuíam, originalmente destinadas somente ao ajardinamento, entradas social e de garagem.

Tudo corria muito bem, até que o atrito entre o Ferdinando e o Sebastião, dois vizinhos do último acesso, gerou uma denúncia à Secretaria de Obras de Porto Alegre. Muito embora, fossem apenas vizinhos de frente o Sebastião, incomodado com o Ferdinando que havia se queixado das diabruras de seu filho Eliseu, resolveu, para se vingar, denunciá-lo à Prefeitura . O Ferdinando, na ocasião estava construindo uma cobertura para abrigar seu carro nos fundos do terreno.

A Fiscalização Municipal interditou a obra, multou e exigiu do Ferdinando, num prazo de 30 dias, a regularização da construção. 

O coitado do Ferdinando, que possuía apenas os recursos financeiros para terminar a cobertura, foi obrigado a contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização da obra. Ele nos confessou que teve vontade de matar o Sebastião, e ainda completou:

_ Ele, não perde por esperar.

Quando o Fiscal da Prefeitura veio comunicar que a interdição estava suspensa, o Ferdinando perguntou-lhe se alguma obra já acabada, mas feita sem autorização, poderia sofrer multa e necessidade de regularização. Como o Fiscal afirmou que sim, ele então denunciou o Sebastião por ter feito, também, uma garagem completa com churrasqueira nos fundos do terreno. Não deu outra, o Sebastião foi multado e precisou contratar um profissional habilitado para proceder a devida regularização. 

Depois desse incidente, o Sebastião saiu dando tiro pra tudo que é lado. Foi uma profusão de multa e regularização que só parou quando todos os seus vizinhos ameaçaram de morte o Sebastião, que de valente só tinha o papo. 

Depois que o pessoal da frente ficou sabendo que fora o Sebastião que fizera as denúncias, um grupo indignado bateu na casa dele disposto a lhe tirar satisfação.

Na ocasião foi mãe dele que os atendeu:

_ Dona Sebastiana, o Sebastião está em casa?

_ Está sim, vou chamá-lo.

Logo que entrou para o interior da casa, o Sebastião com cara de cachorro que lambeu graxa, disse-lhe:

Quem tá aí, mãe?

_ Eu acho que são uns amigos teus. Eles querem falar contigo.

_ Diz pra eles que eu não estou em casa.

_Mas filho, eu já disse que tu estavas.

_ Ora mãe, a senhora não devia ter dito isso.

_ Ué, filho, por quê?

_ Mãe, esse é um assunto do Condomínio, tu não entendes, até porque não moras aqui.

_ Não me diz que tu estás com medo deste pessoal?

_ Claro que não.

Dona Sebastiana deixou o filho, que encorujado não queria sair do quarto, e foi falar com o grupo.

_ Desculpe pessoal, mas o que vocês querem com o Sebastião?

_ Dona Sebastiana, nós queremos só bater...é bater... um papo com ele.

_ Olha gente, eu bati no quarto dele e acho que ainda tá dormindo, pois não atendeu ao meu chamado.

_ Mas bah, tchê! São onze e meia e o vivente ainda tá dormindo. Tudo bem dona Sebastiana, outra hora a gente vem BATER...é BATER um papo com ele...Passe bem.

Dessa feita o Sebastião passou batido.

Mas o pessoal prejudicado pelas denúncias não estava disposto a esquecer e, logo logo, o encontraria para tirar-lhe satisfação.    

Em todo lugar do Condomínio que ele ia recebia vaia, gusparada e elogios à sua digníssima mãe. Os mais irritados o provocavam para ver se ele reagia e, aí sim, bater-lhe o brim. Mas, felizmente isso não chegou a ocorrer. Por um bom tempo ele quase não saiu de casa. Mas, o tempo que cura tudo pelo esquecimento, fez o Garden City voltar a normalidade. 

O fato é que ninguém mais fez reforma sem antes contratar um profissional habilitado. De um certo modo escroncho, o Sebastião acabou fazendo um bom serviço para o Condomínio. Já pensaram, todo mundo modificando suas casas sem planejamento, sem obedecer os ditames oficiais do Código de Obras?

Certamente, o Garden City viraria um “Frankenstein” , tão assustador como o famoso monstro do romance de terror gótico de autoria de Mary Shelley, escritora britânica nascida em Londres.

O famoso monstro da Mary Shelley, era feito de pedaços humanos que não possuía qualquer plano de beleza, por isso sua aparência horrorosa. Assim ficaria o Garden City se as pessoas continuassem a fazer, por conta própria, puxadinhos daqui e dali, como costuma se ver em alguns conjuntos habitacionais e/ou mesmo em edifícios de apartamentos.

“A beleza é fundamental...É preciso que haja qualquer coisa de flor em tudo isso.” Como escreveu o carioca Vinicius de Moraes.

Os relacionamentos afetivos podem ter consequências, mas isso é outra história.

 

 

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/11/2016 às 17h31 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Segurança, via Whatsapp

Depois do ocorrido com a dona Noeli e a pedido dos condôminos o síndico recém empossado, sr. Fabiano, resolveu reinstituir o grupo SEGURANÇA NO GARDEN CITY, via WHATSAPP, solicitando encarecidamente que o grupo seja acionado somente em caso de segurança, pois a primeira vez que se instituiu foi um fracasso, pelo uso indevido do meio, onde os moradores não aguentavam mais receber tantas bobagens, que nada tinham a ver com o objetivo.

Tão logo foi reinstituído o grupo, começaram as manifestações:

Catarina:

- Alguém, por acaso, viu a minha cachorrinha Yorkshire Terrier? Ela fugiu da minha casa e eu não a estou achando?

Yurie:

- Sei que esse grupo é só para segurança, mas acabamos de ver essa cachorrinha na Praça da Frente, podendo até sair pela Portaria do Condomínio;

- Obrigado Yurie, vou até lá ver se não fugiu;

Tereza:

- Oh! Catarina, vê se tu cuida mais dos teus bichinhos...A outra vez foi a chinchila, agora a cachorra...Santo Deus! Vai ser descuidada assim na “caixa prego”.

Silvana:

- Diga em silêncio: Jesus eu preciso de ti dentro do meu coração. Agora envie para 10 pessoas. Não ignore pois terá uma surpresa hoje a noite.;

- Sulita:

Tem pessoas nesse grupo que ainda não entenderam, ele foi feito e refeito exclusivamente para SEGURANÇA DO CONDOMÍNIO;

Silvana:

- Não entendi. Para mim tudo é válido;

Adilson:

- SEGURANÇA, entendeu ou queres que eu desenhe?;

Síndico :

- Na medida que não soubermos usar um meio exclusivo para SEGURANÇA, fica inviabilizado acessá-lo, porque ora são mãozinhas, carinhas e agora até corrente de oração. Aí, quando for algo importante, ninguém vai dar atenção;

Silvana:

- Segurança sem Deus ...creio ser bem impossível. Mas,...

Sulita:

- Meu Deus, o que é isso?

Capitão Alberi:

- “Um Estado secular ou Estado Laico é um conceito do secularismo onde o poder do Estado é oficialmente imparcial em relação às questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião.”

Silvana:

- SALMOS 127: “Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam; se o SENHOR não guardar a cidade , em vão vigia a sentinela”;

Júlio:

- Bem colocado dona Silvana!

Silvana:

- Ainda bem que existe o dom da sabedoria. Um pouco de fé e amor ao próximo não descaracteriza grupo algum;

Sabrina:

- Fica difícil manter esse grupo só para SEGURANÇA, pois algumas pessoas querem misturar alhos com bugalhos...ASSIM NÃO DÁ!

Salete:

- O DMAE está noticiando que vai faltar água amanhã;

Marialba:

- O que isso tem a ver com SEGURANÇA?

Salete:

- Nossa, pegam pesado aqui ...Peço desculpas;

Marialba:

- Depois reclamam que falta união ...;

Walquíria:

- Cala a boca sua safada, vai cuidar do seu marido que fica dando em cima das empregadas domésticas;

- Quem é você pra falar de mim... Todo mundo sabe que você apanha do marido. Além disso você plagiou poesia no Concurso, sua imoral e incompetente ;

Síndico:

- Chega pessoal, por favor! Vocês estão dando uma demonstração de imaturidade. Já foi criado um grupo exclusivo para assuntos gerais. Não esgotem o foco desse grupo, recriado só para questões de SEGURANÇA;

Júlio:

- Quem é você Fabiano, para nos chamar de imaturos?

Sabrina:

- Caraca, como é difícil... SEGURANÇA e ponto final, gente! Parem de fazer postagens que não sejam relacionadas ao assunto SEGURANÇA. Se, QUEREM CONTINUAR NESSE MIMIMI, usem o grupo ASSUNTOS GERAIS;

Pompilio:

- Pessoal, vamos nos respeitar, pois unidos podemos enfrentar qualquer adversidade relacionada ao nosso Condomínio;

Silvana:

- O que falta nesse mundo é a tolerância e o amor ao próximo, por isso tanto roubo, assalto e crime...Sem a fé em Deus estamos perdidos;

Sulita:

- Assalto, roubo e crime não é falta de Deus no coração, é falta de vergonha na cara e preguiça de trabalhar... Não use o nome de Deus em vão! Seu Pompílio respeito é bom e todos nós merecemos, agora vê se cuida mais da tua mãe, que fica furtando plantas dos jardins alheios;

Silvana:

- Eu não sei para você, mas pra mim DEUS em primeiro lugar, jamais em vão ...É muito fácil

Sabrina:

- ????!Quem tá julgando quem, sua religiosa fanática...

Síndico:

- CHEGAAAAA! NÃO AGUENTO MAIS... ESTÁ DEFINITIVAMENTE DESCONSTITUÍDO O GRUPO SEGURANÇA NO GARDEN CITY, VIA WHATSAPP.

O novo síndico, Fabiano, não foi o primeiro a enfrentar tais paradas, mas isso já é outra história...

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/10/2016 às 11h14 | sannickelle@gmail.com

publicidade

Encontro com o novo síndico

Conforme fora acordado, domingo pela manhã o Clóvis preparou a mateada dos amigos para a conversa com o Fabiano, eleito e empossado novo síndico.

Com aquele chimarrão gostoso, lá estavam o seu Gumercindo, o Reinaldo, o Sérgio, o Luiz Paulo e eu, bem como é claro, o convidado.

Depois das primeiras mateadas, foi o seu Gumercindo que começou o questionamento ao Fabiano:

- Em primeiro lugar e em nome de nosso grupo, quero transmitir os parabéns pela tua eleição. Domingo passado, nos questionávamos sobre como enfrentarias a acentuada inadimplência dos moradores, alguns inclusive há mais de três meses, fato que deve gerar ação judicial, já que receberam os devidos avisos conforme consta do Regimento Interno do Condomínio.

- Em segundo lugar, no sentido de não estimular qualquer negociação que isente os inadimplentes dos juros devidos pelo atraso, já decidiu-se, em assembleias passadas que nenhum atraso de taxa condominial seria perdoada, até porque isso representaria um desserviço aos que pagam em dia.

- Olha pessoal, estou ciente da situação econômica do nosso país, fato que se reflete nos diversos segmentos de nossa sociedade e, inclusive no nosso Condomínio. Eu espero poder conversar com todos os moradores que estão com as taxas em atraso, podendo, pela autoridade para mim delegada, negociar uma maneira de cada inadimplente apresentar uma solução, que pode até ser parcelada, desde que não ultrapasse o fim do meu mandato, sem qualquer isenção de multas e/ou juros devidos. Devemos, diante da situação, sermos sensíveis aos problemas por que passam alguns vizinhos nossos sem, no entanto, abrirmos mão do compromisso partilhado dos que residem num condomínio. Afinal, os serviços que estão destinados a todos não deixam de ser prestados aos inadimplentes. E, todos nós sabemos que alguns moradores, mesmo não estando passando por dificuldades, costumam deixar de pagar a taxa condominial.

- Caro Fabiano, vamos passar a palavra aos demais participantes para que avaliem tuas respostas;

- Na condição de ex-síndico, conheço as agruras de não ter recursos para cumprir com os compromissos ao final de cada mês, por isso acho louvável que tu consigas colocar um freio nos que habitualmente atrasam o pagamento da taxa, mesmo em épocas que não havia essa crise. São vizinhos que priorizam outros pagamentos em detrimento da taxa de condomínio. Neste sentido, eu te pergunto se pretendes, como fazem os governos em geral, aumentar a arrecadação via aumento da taxa?

- Olha Sérgio, se eu pretendesse fazer isso, que parece ser a solução mais imediata, eu aparentemente resolveria um problema, criando outro. Precisamos, antes de mais nada, cortar despesas, sem comprometer a prestação dos serviços essenciais e, por outro lado, achar novas formas de arrecadação.

- E, como tu farias isso Fabiano?

- Bem, antes de cortar despesas eu pretendo alugar as nossas quadras de esporte, já que muitos convidados e mesmo times inteiros usam-nas.


Com esses aluguéis, pretendo melhorar a manutenção, quer seja de saibro na quadra de tênis, iluminação, incluindo aí lâmpadas, consumo de energia elétrica, etc. Eu entendo que somente para os moradores deve haver isenção.

- Fabiano, e quanto ao excesso de carros estacionados na via principal e nos acessos, fato que compromete o recebimento de visitas nas nossas casas.

- Olha Reinaldo, minha ideia é instalar parquímetros, ou seja aqueles aparelhos eletrônicos que regulam o tempo de permanência nas vagas do Condomínio, bem como ajudar na arrecadação, estimulando a permanência mínima sem custo até ½ h e depois em valores crescentes a cada meia hora. Sei que isso pode soar estranho, mas muitos moradores que possuem garagens deixam seus carros na rua, impedindo que as visitas possam ser recebidas dignamente. O que dói no bolso, logo, logo mudará alguns hábitos.

- Não deixa de ser uma solução inusitada, mas quem sabe dará certo, vamos esperar para ver.

- É isso aí Reinaldo, sem criatividade parecemos cachorro tentando pegar o próprio rabo.

- E, quanto aos abusos dos estacionamentos nos gramados das praças e mesmo no nosso pomar?

- Com os parquímetros eu pretendo minimizar esses abusos, mas certamente não será suficiente. Pretendo , se vocês aprovarem, colocar obstáculos no início dos gramados, de forma bem discreta, mas adequados ao paisagismo, de tal sorte que impeça o carro de ultrapassar os limites das ruas. Esses obstáculos, em alguns casos poderão ser bancos de praça, noutros cercaduras de canteiros, bem como pedras roliças que ajudem na composição dos jardins, etc.

- Suas ideias parecem muito razoáveis, Fabiano. Esperamos que tenha sucesso no convencimento de alguns teimosos, avessos às inovações.

- Eu pretendo apresentar todas estas ideias numa Assembleia Extraordinária e, só depois de aprovadas, implementá-las,

- Mais duas questões nos preocupam, Fabiano.

- Quais são elas Luiz Paulo?

- A primeira diz respeito a ocupação das ruas com materiais de construção, fato que causa transtornos ao tráfego de veículos e, inclusive já causou acidente. Outro assunto que muito nos preocupa, também, é a questão da segurança.

- Quanto ao primeiro, eu pretendo estabelecer um padrão para armazenamento de materiais de construção. O que caracteriza o problema é que o depósito é feito sobre o leito da rua, sem qualquer limitação, as vezes se espalhando por toda a cancha da mesma. O padrão consiste em apenas permitir a guarda dos materiais em caixas que tenham, no máximo 1.50m de largura, 30 cm de altura e o comprimento variável, não podendo ultrapassar os limites do terreno.

- Quanto ao segundo, eu pretendo reinstalar o Programa COMUNIDADE ATIVA, onde pelo Whatsapp, todos os moradores ficam de olhos abertos e comunicando para todos os demais qualquer acontecimento incomum. Esse Programa foi desativado porque alguns moradores usaram indevidamente o meio, quando já existia o de ASSUNTOS GERAIS.

- Bem pessoal, era isso que vocês tinham para me questionar?

- Sim Fabiano, agradecemos tua disponibilidade e, desde já, fazemos votos para que consigas por em prática o que chamaste na tua campanha de GARDEN CITY DE NOVAS IDEIAS.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 19/10/2016 às 15h30 | sannickelle@gmail.com

publicidade

1 2 3 4 5 6 7

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Fale Conosco - Anuncie neste site - Normas de Uso
© Desenvolvido por Pagina 3

Endereco: Rua 2448, 360 - Balneario Camboriu - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br