Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

A crise da indústria automobilística

Naquela manhã de domingo recebemos, para a nossa tradicional mateada no Garden City, um amigo do Sérgio que trabalha numa Montadora em São Paulo. O convite feito pelo nosso parceiro foi aceito, depois de consulta a cada um dos membros natos, porque o assunto, segundo o Sérgio, era de interesse para todos nós e para a economia brasileira.

O tal fulano, de nome William Schmidt, americano de nascimento, mas radicado no nosso país desde 1984, assessor da Associação dos Fabricantes de Automóveis no Brasil, estava em visita a Porto Alegre.

Ele nos contou que a crise econômica brasileira afetou a indústria de um modo geral, mas a de automóveis foi muito acima do esperado. Tanto que nos últimos quatro anos a queda de vendas, em especial dos veículos populares, caiu 30%.

O governo brasileiro, em reunião com a nossa Associação, nos pediu para baratear o preço dos automóveis, mas não abre mão dos impostos, um dos mais altos do mundo.

Nós, então, sugerimos retirar alguns itens obrigatórios, considerando pesquisa encomendada pela nossa Associação. Assim não teríamos os seguintes itens obrigatórios, a não ser de forma opcional:

1. pisca para mudar de faixa ou virar para esquerda ou direita, já que 74% dos motoristas não fazem uso desse item;

2. triângulo de sinalização, pois 83% dos motoristas nem sabem que ele existe;

3. cinto de segurança, já que se constatou que 85% dos acidentados não estavam utilizando esse item;

4. luz de neblina, onde 99% dos motoristas nem sabem ligá-la;

5. estepe, se constatou que 55% não os possuem em seus carros, guardando-os em casa;

6. rádios nos carros, são causa de 61% dos acidentes, quer pelo som altíssimo que impede que o motorista fique atento aos sons obrigatórios de sirenes, apitos dos guardas-de-trânsito, gritos dos transeuntes sobre idosos e crianças em situação de perigo, bem como as brigas entre o motorista e a esposa ou namorada sobre a rádio escolhida;

7. porta-luvas que, por não usarmos mais, se tornou obsoleto e, também, porque alguns motoristas, mesmo dirigindo, teimam em mexer lá, para provar aos demais passageiros, que o item que eles dizem não estar lá, está;

8. espelhos nos quebra-sóis, pois 63% das mulheres retocam a maquiagem com o carro em movimento, causando acidentes;

9. limpador de para-brisa traseiro, onde alguns modelos já o eliminaram;

10. macaco e chave de rodas, onde 79% não sabem onde se encontram nos carros, muito menos utilizá-los;

11. consolo para depositar copos ou latas, comumente usado para bebidas alcoólicas;

12. etc. etc.

Nós, então, perguntamos ao nosso convidado, o quanto a retirada desses itens baratearia o custo dos veículos.

- Por alto, em torno de 30%.

- Mas, Senhor William, isso não seria um tremendo retrocesso para a altíssima estatística de acidentes no Brasil?

- Sinto muito, amigos, mas o problema dos acidentes não são os carros, mas a qualidade dos motoristas, muitos dos quais nem prestam os cursos obrigatórios, alguns até compram as carteiras de habilitação.

- É, infelizmente você tem toda a razão.

- Durante a nossa pesquisa, nós entrevistamos dezenas de milhares de motoristas, desde jovens até idosos, e o que mais nos surpreendeu foram as respostas:

-60% não sabia o significado das faixas pintadas nas estradas e, nem tinham ideia da diferença da contínua e da intercalada. Alguns até responderam que era para a estrada ficar mais bonita;

-quanto às faixas zebradas, alguns disseram que era pra diminuir a velocidade, caso alguma zebra estivesse atravessando;

-o significado das placas oitavadas com borda vermelha em relação à preferencial. Muitos responderam que não sabiam o que era oitavada;

- as placas circulares com o desenho de um “E”, com um “E” e borda vermelha e com uma linha em diagonal cortando-o, era para dizer que o estacionamento seria permitido, desde que você o fizesse de forma oblíqua;

-o triângulo com miolo branco e borda vermelha, que significa dê a preferência, para muitos significava “rotatória em triângulo”;

- Perguntamos o que significava ” mão inglesa”. Alguns perguntaram se ela era diferente da mão brasileira, que tem 5 dedos;

- Meu Deus, William! Vocês devem ter ficado boquiabertos com a falta de conhecimento dos nossos motoristas!

- Para sermos sinceros, até hoje, ainda não acreditamos no que a pesquisa nos revelou...é muito triste!

- Meu caro Willian, eu acredito que no nosso país só se fiscaliza carro estacionado que, mesmo errado, não está oferecendo risco algum, mas os demais itens, esses sim causadores de acidentes, há grande negligência.

- É verdade, Clóvis! Nos falta vergonha na cara e, principalmente, fiscalização consequente. Olha os casos de crianças que morrem em piscinas por falta de fiscalização nos ralos de sucção, quando basta uma tampa ou dispositivo que interrompa automaticamente a sucção.

- E as casas noturnas, então! Depois daquela tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, quantas continuam funcionando de forma precária.

- Willian, só nos resta agradecer a tua presença na nossa mateada e, oxalá, um dia, possamos copiar o que fazem os chamados países sérios.

E, assim, encerrou-se mais uma mateada dos amigos do Garden City, que saíram cabisbaixos, pensando sobre nossas mazelas.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/07/2017 às 08h00 | sannickelle@gmail.com

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Seu Nonô

Seu Agenor, mais conhecido por Nonô, o mais antigo morador do Garden City, viveu até os 99 anos. Depois de ter sido internado diversas vezes, acabou falecendo em casa, cercado pelos parentes e alguns vizinhos mais íntimos.

Dizem que ele, antes de dar o último suspiro, não havia perdido sua característica de bronqueiro. Enquanto as filhas e os filhos o cercavam no leito de morte, pedindo-lhe que resistisse, ele lembrava, com voz rouca e fraca, a passagem semelhante do presidente do Estado do Rio Grande do Sul por 25 anos, Antônio Augusto Borges de Medeiros que, cercado pelos cupinchas da República Velha, respondia aos apelos dos que o cercavam:

- CORAGEM, CORAGEM, Dr. Borges...

- CORAGEM?...CORAGEM não me falta, o que me falta é AR...

Assim, também, se manifestava o seu Nonô:

- Deixem-me ir embora, eu não aguento mais esta vida sem sentido, em especial nesse país de corruptos em que vivemos.

E, os filhos contestavam:

- Como sem sentido, pai?

- Nós precisamos do senhor vivo...

- Precisam para quê, meu Deus!

- Ora, pai, isso é pergunta que se faça? Nós te amamos.

- Eu sei que vocês me amam, mas eu não amo mais a vida nem o nosso país. - Vocês não imaginam o sofrimento que eu, um velho de 99 anos, passa até para cumprir a rotina diária.

- Mas pai, a gente tem facilitado tudo pro Senhor, inclusive compramos este aparelho de surdez para que  pudéssemos manter um diálogo e saber das suas necessidades.

- Aliás, este aparelho de surdez, para os que não sabiam, foi muito oportuno para saber o que realmente falavam de mim, inclusive de vocês, que esqueciam que eu estava ouvindo. Aproveitei tudo isso para fazer algumas mudanças no meu testamento.

- Credo papai! Isso é coisa que se faça para nós, filhos dedicados, amorosos e presentes?

- É, basta falar em grana, pra vocês ficarem se auto-elogiando, como se eu não soubesse das queixas que vocês fazem quando estão longe de mim.

Os cochichos fora do quarto do seu Nonô eram intensos, principalmente pelas velhas filhas dele, as quais não se conformavam que até na hora da morte o pai pudesse ser tão ranzinza. Os vizinhos mais íntimos ouviam e também cochichavam entre si:

- É, o velho não é fácil!

- Mas, como síndico, foi um exemplo de honestidade...Coisa rara no Brasil.

- Mas, como marido, deixou muito a desejar. Quantas vezes eu ouvi ele brigando com a dona Amália, sua primeira esposa...

- É verdade, eu acho que até batia nela, coitada, que a Deus a tenha...

- A única que suporta o velho é a neta Marcinha, uma santa...

- Santa sim! Quantas vezes ela veio se queixar pra mim dos maus tratos do avô...

- É verdade, nem para aquela santa criatura ele deixava de infernizar...

- Por isso está aí, nesse morre não morre, que Deus me perdoe!

- É, e na hora de morrer, não adianta se arrepender, pedir perdão, com medo do inferno.  

Enquanto os cochichos na sala continuavam, no quarto, seu Nonô continuava seu périplo pré-morte aos filhos que o rodeavam:

- Vocês pensam que levantar todos os dias, lavar o rosto, mijar sentado, alcançar a toalha ou o papel-higiênico é tarefa fácil. Fácil para vocês, que ainda tem alguma vitalidade. Pra um velho, como eu, é um sacrifício medonho e, às vezes, humilhante, como chamar alguém pra sacudir pra mim!

- Credo, papai, como você pode afirmar uma coisa dessas. Nós estamos aqui, e na nossa ausência, a Marcinha o acompanha...

- Acompanha, nada! Vive de fofocas na vizinhança...

- Mas papai, a Marcinha dedicou toda a sua juventude a cuidar do senhor. Tudo bem que ela é um pouco desajeitada e distraída,...

- Acho que, por isso nunca namorou nem casou, mas daí a falar mal dela é inaceitável...

Entre uma tosse e outra, o seu Nonô não deixava de ser ferino:

- É porque vocês não sabem da metade da missa...Ela vive dando em cima dos empregados do Condomínio. Quantas vezes eu tive que pedir para ela entrar, tarde da noite.

- Como assim, dando em cima dos empregados? O senhor sabe que, apesar de seus 40 anos, ela tem idade mental de criança.

- Sim, eu sei, por isso me preocupo, quando ela demora para entrar.

- Outro dia, o guarda noturno veio me avisar que ela estava trepada numa goiabeira.

- Ah! Grande coisa, papai! Aqui no Garden City, com todas essas frutas no pomar, quem não se sente tentado a colher goiabas ou o que quer que seja na época?

- Tá certo? Mas, de vestidinho rodado e sem calcinha de baixo?

- Papai!

- Mas, olha as fotos, minha filha, as goiabas nem apareceram!

- Tiraram fotos?

- A endiabrada fez até pose!

 A tosse e os soluços aumentavam e o seu Nonô pedia:

- O urinol... por favor!

- Aqui está, papai...Acalme-se, que o médico já está chegando!

- Chegando, pra quê? Quem o chamou?

- Ora, fomos nós, papai!

- Então, vocês vão pagar a consulta! Vocês sabem que tá o olho da cara uma consulta em casa!

- Que bobagem, papai, nós fizemos uma “vaquinha” e vai custar só um pouquinho para cada um de nós e outro pouquinho pro o senhor...

- ”Porco cane!” Parem de falar comigo, como se eu fosse um velho idiota! Vocês são um bando de “Pão duro”! Não foi a mim, que vocês puxaram...

Mais um acesso de tosse e soluços e o seu Nonô parecia estar se despedindo...Os filhos se reuniram ao redor de seu leito e dizem ter ouvido suas últimas palavras:

- Se algum de vocês quiser mandar uma mensagem ao diabo, digam-me, agora, pois estou prestes a encontrá-lo”          

Ainda perplexos, os filhos deram-se as mãos, rezando para que Deus, em sua infinita bondade, o perdoasse.

“Vou lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.” Albert Camus.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 18/07/2017 às 17h00 | sannickelle@gmail.com

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Um dia a casa cai

- Meu Deus! Está acontecendo mesmo! A Polícia Federal, junto com o Exército começou a prender todo mundo. Só no Congresso Nacional, foram 500 Deputados e 80 Senadores ...Os noticiários só falavam dessa megaoperação...As cenas televisivas mostravam parlamentares sendo arrastados pela gravata, pelo cabelo, agarrados as suas mordomias, mas sendo incapazes de resistir. Alguns tentavam chamar seus advogados, mas os celulares lhes eram arrancados e quebrados. Outros diziam que isso não ficaria impune, mas continuavam sendo levados à força para os camburões, onde eram jogados como sacos de batata.

- Pensei comigo: Só posso estar sonhando...deve ser porque vi, ainda ontem, aquele filme A Lista de Schindler...Mas, tudo parecia real. Belisquei-me várias vezes para ver se acordava e nada, os noticiários estavam ali para comprovar...

- O povo foi às ruas para aplaudir e dar apoio. Havia tanto entusiasmo que parecia uma grande festa. Quando passavam os camburões lotados de presos jogavam-se de tudo, desde ovos até coco de cachorro...A alegria do povo varou a noite, em todos os lugares. Eu não conseguia sair de frente da televisão, até que ouvi uma gritaria e fogos de artifício...Saí para ver o que ocorria no Garden City...Eram os moradores que faziam festa, chamando todos para a rua. Saí de pijama mesmo, caindo na folia...Entre abraços e choros nunca havia visto tanta alegria, parecíamos todos crianças. A praga da impunidade alcançara também os Estados, onde a maioria estava sendo presa.

- De repente, sacudidas constantes tentavam me acordar, achei que fora sufocado pelos abraços dos vizinhos do Condomínio, mas não, eram médicos e enfermeiros que faziam massagens cardíacas... eu tivera um surto e suava muito, depois fiquei sabendo do desfalecimento, em casa.

Quando, finalmente, me estabilizaram a pressão, pude compreender que nada daquilo, que é o sonho dos brasileiros honestos, tinha acontecido. Minha frustração só não era maior pela medicação sonolenta que me aplicaram. Muitas horas depois, acordei, sendo monitorado pela enfermeira que media minha pressão arterial. Ela, gentilmente me perguntou:

- Como está se sentindo, Seu Gumercindo?

- Melhor! Mas, você poderia me esclarecer uma coisa?

- Sim, o que o Senhor quer saber?

- Quantos dias eu estou no hospital?

- Trinta dias!

- Credo, tudo isso?

- O Senhor entrou em situação muito grave, mas felizmente conseguimos recuperá-lo...

- Enquanto estive internado, aconteceu alguma coisa no país?

- Não! Continua tudo igual...Mas, para seu próprio bem, não veja televisão, em especial os noticiários, pois as notícias podem piorar a sua situação.

- Agora, descanse e, qualquer coisa, me chame, tá bem?

- Sim, obrigado  

- Dias depois, tive alta hospitalar. Em casa, consegui me recuperar bem e, hoje, para minha satisfação, estou recebendo os meus amigos de mateada.

- Estou muito feliz por tê-los aqui em casa. Só lamento que o meu sonho, ou seja lá o que tive, não fosse realidade. Mas me contem as novidades, já que se passaram mais de um mês, desde a minha internação:

- Olha, Gumercindo, nem tudo que pensaste ter acontecido, foi sonho ou pesadelo, pois muito mais gente, entre políticos e empresários, foram presos pela Operação Lava Jato, nesse ínterim. Claro que não na proporção que nos contaste, mas, mesmo assim, os presídios estão abarrotados de engravatados safados, ou usando tornozeleiras eletrônicas. O país é uma prisão plena, só os traficantes continuam soltos.

- Aliás, as tornozeleiras viraram moda.

- Moda! Como assim?

- Em Brasília já tem a ala dos que usam tornozeleiras vermelhas com estrela branca. Também, os que as usam com símbolos religiosos, tucanos... alguns mais “abastados”, aplicaram ouro e pedras preciosas, como sinal de status.

- Meu Deus! Então, em trinta dias, pouco mudou o quadro político e social que me levou à internação?

- Infelizmente, é verdade!

- E o Presidente da República, foi cassado?

- Que nada, está no poder ainda, comprando todo mundo. Haja dinheiro, neste país, para agradar tanto político. Ele, nem sai mais do Jaburu, só negociando, mas mesmo assim achamos que ele cai...

- Alguém foi preso?

- Sim, todos os que denunciaram o Presidente.

- E os ministros corruptos?

- Continuam no poder, mais fortes do que nunca, com uma diferença, eles usam tornozeleiras verde-amarelas.

- E, o Juiz Sérgio Moro?

- Tá lá em Curitiba, mandando gente pra cadeia, sem parar. Dizem que ele teve até um problema na mão, de tanto assinar sentenças de prisão.

- Como é mesmo o problema do Juiz, Luiz Paulo?

- LER, lesão por esforço repetitivo...

- Mas, a frustração dele deve ser ainda mais dolorida... ele manda prender e o Supremo manda soltar ou, no máximo, ficar em prisão domiciliar.

- E, aqui no Garden City, como tão as coisas?

- Como sempre foram...

- Como assim?

- Toda aquela lorota do nosso síndico, enquanto candidato, que faria uma administração centrada em “Novas Ideias”, não aconteceu. É buraco no asfalto, é prestador de serviço se recusando a continuar nos atendendo, a limpeza das áreas comuns está péssima, não tem havido manutenção na iluminação... Enfim, não estamos muito diferentes do resto país.

- Credo, gente! Nada de bom aconteceu na minha ausência?

- É, quase nada. Bom, tem uma coisa, que pode parecer boba, mas foi implantada no Garden. Todas as domésticas são obrigadas a usar uniforme, fornecido pela Administração do Condomínio.

- Essa é a boa notícia?

 Depois disso ele passou mal e precisou ser internado novamente.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 10/07/2017 às 09h54 | sannickelle@gmail.com

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Encontro de presidentes

Naquele domingo de mateada, o Clóvis com a sua curiosidade habitual, nos perguntou:
- Vocês lembram daquele nosso vizinho poliglota, que foi trabalhar no Ministério de Relações Exteriores?
- Sim! Disse o Luiz Paulo...
- Só não me pergunte o nome dele, pois não lembro. Mas, por quê, Clóvis?
- Apenas curiosidade...
- Como assim curiosidade? Perguntou-lhe o seu Gumercindo, seu sogro.
- É que eu fiquei imaginando... se os assessores de presidentes, são capazes de traduzir com fidelidade aquelas conversas protocolares enfadonhas.
- Essa curiosidade até merece uma pesquisa com alguém que já fez esse papel. Aqui no nosso grupo, tem alguém que sabe algo a respeito?

O Sérgio, que naquele momento estava sorvendo o chimarrão, levantou a mão...Todos se voltaram para ele, em especial o Clóvis, que começou o assunto.
- Eu tenho um cunhado, que foi amigo de um sujeito que exercia esse papel nas viagens presidenciais; ele costumava contar muitas histórias a respeito, só não sei se todas eram verdadeiras...
- Legal!
Disse o Clóvis, eufórico.
- Você poderia lembrar de algumas dessas histórias, Sérgio?
- Eu lembro de uma que o Presidente Brasileiro, não lembro qual, visitaria o Presidente Russo...Durante o voo, o Assessor especializado nas duas línguas, vai fazendo algumas simulações para que não haja nenhuma bola fora. Mas o nosso Presidente, que era uma toupeira, tinha muita dificuldade em entender os aspectos protocolares, bem como as peculiaridades do povo daquele país. O que levou, então, o Assessor, a afirmar ao Presidente que ele consertaria, na língua russa, qualquer deslize para não ofender o anfitrião.
- Anfi... o quê, Assessor?
- O Presidente Russo!

No desembarque começou a confusão, porque o nosso Presidente esquecera o nome do anfitrião, e cochichou no ouvido do Assessor:
- Qual é o nome do Presidente da China?
- Senhor Presidente, nós estamos na Rússia, mas não precisa lembrar o nome dele, apenas o saúde com sorrisos e aperto de mão, depois o acompanhe por entre a guarda de honra...
- Tá bem! Vou começar a sorrir, logo que chegue à escada do avião...
- É, isso aí!

Ao terminar de descer o último degrau da escada do avião, o Presidente Brasileiro, ajoelhando-se no tapete vermelho, beijou o chão, enquanto o Presidente Russo ficava perplexo, com a mão estendida...Depois abraçou o anfitrião com tapinhas nas costas e na bunda. O Presidente Russo, sem entender patavina, também bateu-lhe nas costas e na bunda, achando que fazia parte da cultura ocidental. A nossa delegação, à semelhança da bandeira russa, ficou toda vermelha. Depois de chegar à sala VIP, o tal Assessor perguntou:


- Senhor Presidente, por que se ajoelhou antes de cumprimentar o anfitrião?- Ué! O Papa não faz isso, também!
- O ato de beijar o chão de um país, tão logo pise nele, quando é feito pelo Papa, é simplesmente um modo de expressar amor e respeito, bem como demonstrar a humildade do representante de Deus na terra.
- Pois, foi o que eu fiz!
- E, aquele abraço e o toque no traseiro do Presidente Russo?
- Ué! Depois que o cabra me beijou na boca, o que tu querias que eu fizesse? - Saísse rolando com ele, arrancando-lhe a roupa para um sexo selvagem? - COM QUEM ESSE SUJEITO ACHA QUE TÁ LIDANDO?
Com essa resposta, o Assessor se calou, benzendo-se longe do Presidente…
Depois, a comitiva seguiu para o Hotel Crowne Plaza Moscow World, que fica no centro, a 3,8 km do Kremlim.
O primeiro ato do Presidente, no dia seguinte, era depoisitar flores no Túmulo do Soldado Desconhecido. O Assessor, com medo de nova gafe, explicou, ao Presidente, o significado desse gesto:
- Túmulo do soldado desconhecido é o nome que recebem os monumentos erigidos pelas nações para honrar os soldados, que morreram em tempo de Guerra, sem que seus corpos tenham sido identificados. É um túmulo simbólico, evocando todos os habitantes de um país, que morreram em conflito.
- Você já encomendou as flores?
- A Embaixada brasileira já tomou todas as providências...Basta ir ao Jardim de Alexandre, em Moscou, para que o Senhor reverencie o Túmulo, podendo fazer uma pequena oração diante da coroa de flores...
- E a oração é em russo?
- Não! Na verdade, o Senhor apenas ficará em silêncio por alguns minutos.

O cerimonial foi mais ou menos tranquilo, se não fosse o Presidente pegar um cravo da Coroa e colocar na sua lapela, por pouco, não derrubando-a. Felizmente, como era um cravo vermelho, os russos entenderam como um gesto louvável e até aplaudiram. Muito embora, o cravo vermelho lembrasse Joseph Stalin.
Na cerimônia a seguir, que reuniu os dois Presidentes, a recepção foi mais coloquial, impedindo que o nosso representante bulinasse de novo o anfitrião.
- ????? ?????????? ????????? ????????!
Assombrado, o Presidente indagou ao fiel Assessor:
- CRIATURA, disfarça, fala baixo aqui, comigo:
- O que esse sujeito tá falando? Parece que engoliu um gravador estragado!
- Bem-vindo, Presidente Brasileiro!
- Pois, então, diga-lhe, em russo:
- É uma satisfação estar na terra de Stalin!
- ??? ???????????? ???? ?? ?????

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O Assessor, no entanto, falou em russo, algo mais adequado:
- É uma satisfação estar na terra de Liev Tolstói. Famoso escritor russo, que ficou conhecido, pelo épico romance Guerra e Paz.

- Legal, Sérgio! Mas, será que isso aconteceu mesmo?
-Bem, isso já são outros quinhentos...Clóvis!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 27/06/2017 às 10h39 | sannickelle@gmail.com

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o Brasil de verdade

A chuva intensa dos últimos dias trouxe, para a população mais pobre, a desgraça das enchentes...Aqui no Garden, várias casas apresentaram problemas de vazamentos nos telhados, mas nada que seus moradores não possam consertar. Já para a maioria dos brasileiros, só contando com a ajuda governamental! E eles, depois que as águas baixarem, voltarão a morar nas encostas e beira de rios, porque lá a especulação imobiliária ainda não chegou; é como morar quase de graça até a próxima enchente.

Enquanto a maioria da população brasileira não se beneficia da riqueza que o país produz, uma minoria rouba, descaradamente, de todas as formas. Às vezes lembro da frase símbolo de Winston Churchill, durante a segunda Guerra Mundial:

NUNCA, TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS.”

E, aqui no nosso país só cabe a verdade:

“NUNCA, TÃO POUCOS ROUBAM TANTO DE TANTOS”

Por isso, somos um país de miseráveis. Poucos países no mundo têm a riqueza que temos e, ainda assim, somos campeões de analfabetismo, de insegurança, de desmatamento, de precariedade em saneamento básico. Nós, hoje, matamos mais que na guerra da Síria, pela violência urbana e de trânsito. Algo inimaginável para os padrões de qualquer país, que tem o PIB que temos.

Por que somos assim?

“Mesmo sendo uma nação de dimensões continentais e riquíssima em recursos naturais, o Brasil desponta uma triste contradição, de estar sempre entre os dez países do mundo com o PIB mais alto e, por outro lado, estar sempre entre os 10 países com maiores índices de disparidade social.

Em um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), que foi divulgado em julho de 2010, o Brasil aparece com o terceiro pior índice de desigualdade no mundo e, em se tratando da diferença e distanciamento entre ricos e pobres, fica atrás no ranking apenas de países muito menores e menos ricos, como Haiti, Madagascar, Camarões, Tailândia e África do Sul.

A ONU mostra ainda, nesse estudo, como principais causas de tanta desproporcionalidade social, a falta de acesso à educação de qualidade, uma política fiscal injusta, baixos salários e dificuldade da população em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como saúde, transporte público e saneamento básico.” O Brasil tem mais de 100 milhões de habitantes vivendo sem saneamento básico, ou seja, esgoto sanitário.

Essa incrível desigualdade social torna quase impossível praticarmos uma cultura da paz, que é fundamental para o país viver sem medo. Olhem as casas e prédios residenciais, são cercados de grades, câmeras de segurança e cercas eletrificadas. Aqui no Garden City, apesar de ser um condomínio, com Portaria que controla rigidamente quem entra e quem sai, com guardas diurnos e noturnos, ainda assim, muitas casas tem grades nas janelas.

Dia desses, fui falar com um vizinho; era um assunto de nosso interesse mútuo, pois ele não me recebeu diretamente, apenas falou pelo interfone:

- Quem é?

- É o SAN da casa 56.

- Infelizmente, eu não te conheço e, portanto, não posso abrir-lhe a porta.

Deixei de falar com o vizinho e fiquei pensando, será que em outros países vive-se com tanto medo?

Lembrei-me de um casal de conhecidos que, atualmente, vive na China. Perguntei,  pelo WhatsApp, se as casas, lá na China tinham tantos itens de segurança como aqui, eles me responderam que não. A população da China é quase 7 vezes maior que a do Brasil...Como pode um país com tanta gente, que na década de 50 comia casca de árvore para não morrer de fome, agora ter esse equilíbrio social?

Em parte, nós sabemos que os crimes políticos levam seus praticantes a serem condenados à morte. Isso, por si só, é fator limitante para a prática de ilícitos, o que não é o caso do Brasil. Como disse o Ministro do STF, Luís Roberto Barroso:  “...a corrupção no Brasil é endêmica...”

Outra coisa que contribui para essa quase histeria de insegurança, provém dos noticiários que, os quais, por insistirem, exageradamente em veicular notícias trágicas e policiais, tornam a sociedade cada vez mais refém do medo. Raramente, temos notícias boas. Notícias de ações humanitárias, de respeito ao meio ambiente, de soluções alternativas para as questões do dia a dia, como reciclagem do lixo doméstico, compostagem (“...que é o processo biológico de valorização da matéria orgânica, seja ela de origem urbana, doméstica, agrícola ou florestal, e pode ser considerada como um tipo de reciclagem do lixo orgânico. Trata-se de um processo natural em que os micro-organismos, como fungos e bactérias, são responsáveis pela degradação de matéria orgânica.” ), por exemplo.

Será que os noticiários de outros países, cuja prosperidade é mais igualitária e a vida menos tensa, insistem, também, em noticiar só desgraças, roubalheira, assaltos, etc. como se fossem permanentes boletins policiais?

Será que não é chegada a hora de consultarmos psicólogos, para tratar dessas causas?

O que nos coloca, também, numa encruzilhada histórica é se o regime que adotamos será capaz de alavancar o desenvolvimento pleno. Mas, o desenvolvimento como sinônimo de qualidade, de mudança para a qualidade, não para a quantidade.

O principio predominante do nosso desenvolvimento é a acumulação privada de riquezas às custas dos pobres trabalhadores. Uma prova disso é que os pobres e os trabalhadores sempre foram explorados neste país e a desigualdade social é uma marca permanente na nossa história. Esta situação tem sofrido uma significativa alteração para pior nestes últimos anos, em virtude da hegemonia do modelo econômico e politico neoliberal, que aumenta a distância entre os pobres e os ricos e restringe a ação do Estado no combate à pobreza.

Nosso país está triste, descrente, mesmo com o trabalho magnífico da Lava Jato. Como robôs, vamos vivendo um dia a dia sem esperança de mudança efetiva.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 13/06/2017 às 14h30 | sannickelle@gmail.com

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E, se fosse eu ou você...

O domingo amanheceu de cara feia, nenhum sorriso do sol, nem da base aliada.
Preparei meu chimarrão, peguei a chaleira quente e sentei para pensar na vida e no meu pobre país...
As coisas parecem que estavam melhorando para o atual governo, menos para os desempregados, trabalhadores e aposentados, é claro. O Congresso Nacional tinha avançado nas reformas trabalhista e da previdência. De repente, o tilintar da campainha do Palácio Jaburu acorda o cochilo do Ajudante de Ordens do Presidente:
_Quem será a uma hora dessas?
A porta, fechada a sete chaves, se abre...um sujeito bem vestido está no hall de entrada...
_Quem é o senhor e o que quer tão tarde?
_ Sou o dono da maior rede de frigoríficos do Brasil e dos Estados Unidos e preciso falar com o Presidente. É urgente!
_ O senhor, por favor, entre e aguarde que vou anunciar sua chegada.
O visitante, que é multimilionário, não demonstra admiração pela suntuosidade do Palácio, já que vive em ambientes também sofisticados, em especial em Nova Iorque. Mas, considerando tratar-se de uma obra de Oscar Niemayer, passa a observar o requinte do Palácio Jaburu, que leva esse nome por ficar ao lado da Lagoa Jaburu, às margens do Lago Paranoá. Está localizado ao longo da Via Presidencial, entre os Palácios do Planalto e da Alvorada.
Enquanto espera, prepara o celular para gravar a conversa que pretende ter com o Presidente.
O Ajudante de Ordens bate à porta da sala-de-estar do Palácio e ouve um
_Entre!
_Senhor Presidente, está aqui no vestíbulo do Palácio o dono dos Frigoríficos...
_Que horas são?
_ São 22h e 40min, Senhor!
E, se eu ou você fosse o Presidente da República, o que faria? Poderia simplesmente mandar dizer-lhe:
_Isso são horas para visitar o Presidente? Ou...
_O Presidente e esposa já estão recolhidos aos seus aposentos íntimos. Ou...
_Diga que estou indisposto, com diarreia, e que estou indo ao banheiro de quinze em quinze minutos. Ou...
_Um momento, caro Ajudante de Ordens!
_”Será que ele seria capaz de contar à imprensa, que na última reunião que tivemos, aqui mesmo, nós jogamos botão de mesa, em vez de esclarecer os empréstimos do BNDES para suas empresas. Meu Deus! Isso seria o meu fim.”
_Diga-lhe que não posso recebê-lo de pijama e roupão, seria uma indelicadeza. Ou,...”que estou vendo o último capítulo da novela das 9h, de mãos dadas com a primeira dama...Não!, Essa hipótese não seria aconselhável, afinal deixar de receber um empresário do ramo de carnes, seria como agravar os cancelamentos das importações internacionais”...
Depois, de muito pensar, decidi mandar dizer-lhe:

_Procure-me, amanhã, para termos uma conversa compartilhada com meu Chefe de Gabinete e assessores.
Isso, se eu fosse o Presidente da República, mas não sou. No entanto, fiquei imaginando o que aconteceria com outros chefes de Estado, se recebessem àquela hora da noite, um empresário:
O tal empresário procura o Premier do Conselho de Estado da República Popular da China, Xi Jinping. Ele é recebido pelo Chefe de Protocolos. A guarda presidencial o prende por não se curvar protocolarmente diante de qualquer autoridade chinesa, já que ignorou as formalidades de Estado, a que estão sujeitos os membros do governo e as demais pessoas.
O tal empresário, se dirige à residência oficial do Presidente da Argentina, localizada em Olivos, subúrbio de Buenos Aires. Lá, na Quinta de Olivo. é informado de que o Presidente, Mauricio Macri, está assistindo uma peça teatral no Teatro Colón. O empresário do ramo de carnes desliga o gravador e sai frustrado, dando socos no ar.
Essa determinação de nosso empresário, remonta ao seu ascendente, J. Batisté, do ramo de pães e tortas, que em 14 de julho de 1789, procurou a rainha Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, para oferecer-lhe uma carga de brioches. E, na atualidade procura o Presidente da França, Emmanuel Macron:
-Oui, monsieur?
_Vous avez besoin de parler au Président, il est urgent!
_Désolé, le Président est de recevoir les Varsalhes le président russe Vladimir Putin;
_Bonne nuit!
E, assim, nosso insistente empresário, vai de porta em porta, tentando comprometer algum chefe de Estado imprudente.
Agora, está na Casa Branca em Washington, pretende falar com o Presidente Trump. É recebido pelo Chefe de Ordens;
_Good night!
_I need to speak to the President. It’s urgente.
_President Trump is traveling through the Middle East...
_It’s OK ...
_Forget about the hassle, so late at night.
Ele sai da Casa Branca, muitíssimo frustrado. Desliga o gravador, e vai se embebedar no primeiro bar, que encontrar aberto, aquela hora da noite, dizendo para si mesmo:
_Que droga! Não consegui corromper nenhum chefe de Estado...
No bar, encontra o deputado federal, Loureval, que continua com a maleta, contendo os quinhentos mil reais, destinado a um preso da Lava Jato, que se não recebesse a semanada, delataria todo o esquema.
O empresário, então, pergunta-lhe:
_Ué, você por aqui?
_Sim! Mas, estou voltando para casa, sem opção de recusar...
_Por quê?
_Sujou, né! A Polícia Federal filmou tudo...Posso chorar no seu ombro?
_Sai pra lá cara, a carne é fraca!
E assim termino meu chimarrão, pensando em comer peixe. O churrasco hoje não me faria nada bem. E, pra você?

Escrito por Saint Clair Nickelle, 31/05/2017 às 09h57 | sannickelle@gmail.com

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