Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

Mateada da Natal

Após a belíssima Festa de Natal, o Clóvis nos convidou para uma mateada na Praça Central, onde poderíamos comentar os acontecimentos da noite anterior.

No domingo, como combinado, lá estava o Clóvis pilchado e com erva mate da boa, um fogareiro e uma chaleira preta chiando de faceira com fogo no rabo. Aos poucos fomos nos aprochegando em volta do fogareiro. Lá chegaram o Luiz Paulo, o Reinaldo, o Sérgio e eu. O seu Gumercindo ainda não havia chegado.

Não demorou muito e o responsável pela mais bela festa de Natal, chegou

Foi solenemente aplaudido por todos nós. Com a característica dos humildes, ele agradeceu em nome de todos que se mobilizaram para o sucesso do evento.

Disse-nos, com voz embargada:

- Pela primeira vez, de fato, comemoramos o Natal como merecíamos, deixando de lado o aspecto comercial da data cristã, onde, de um modo geral, só Papai Noel é o que importa, esquecendo-nos do seu verdadeiro significado...o nascimento de Jesus Cristo.

Seu Gumercindo, homem do interior do Estado, tinha, sem ser piegas, uma religiosidade a ser imitada. Às vezes, ia a missa, mas nunca criticou ou induziu alguém a seguir suas decisões. Tanto é verdade que nunca impôs qualquer credo aos seus filhos. Como dizia:

- Eles que decidam se querem ou não seguir esta ou essa religião. O que eu, como pai, não abro mão, são dos valores que procuro passar aos filhos pelas minhas atitudes e exemplos.

Ao se referir ao Natal, com viés comercial, ficava muito crítico e até intolerante. Por isso, na condição de síndico, propôs uma confraternização que valorizasse o seu verdadeiro sentido- O aniversário do filho de Deus.

O Clóvis, sempre muito curioso, perguntou ao sogro:

- Meu estimado sogro, desde quando o Senhor se libertou desses natais pragmáticos?

Agradecendo o elogio do genro, ele assim nos contou:

Meu pai, era dono de um bolicho, no interior de Bagé, e para não ser antipático com seus fregueses, permaneceu aberto até a meia-noite da véspera de Natal, pois lá estavam a maioria dos seus amigos, bebemorando, longe de suas famílias, a data.

Quando bateu meia-noite e ele já se preparava para fechar, um velhinho de barba e cabelos brancos entrou no bolicho, surpreendendo a todos.

O forasteiro, cumprimentou todos e ao chegar ao balcão pediu um copo de água, porque depois de longa caminhada, sua sede era imensa, como declarou ao bolicheiro.

Enquanto seu Bento, meu pai, providenciava o pedido do recém chegado, os demais bebuns lhe ofereceram cerveja e cachaça, a que ele agradecendo, recusou.

Depois de saciar a sede, perguntou ao pessoal o que estavam comemorando.

Os homens se entreolharam e, em uníssono, responderam:

- Só bebendo!

E o forasteiro, se aprumando para deixar o bolicho, perguntou-lhes:

- Vocês sabem onde estão comemorando o aniversário do meu filho?

- Que aniversário? Perguntaram-lhe.

- Ora, do meu filho.

- E o senhor tem filho?

- Sim, ele veio para cá numa missão de paz e amor, mas não foi muito bem recebido.

- Mesmo sem querer ser intrometido, mas sendo, por que ele não foi bem recebido?

- Porque seu entusiasmo foi maior do que a capacidade das pessoas para entendê-lo.

Após esse diálogo, o velhinho disse:

Senhores, desculpe ocupar seu tempo, mas quando vi o bolicho aberto e tantas pessoas comemorando, até imaginei que era pelo aniversário do meu filho...

Logo a seguir o forasteiro se retirou, sumindo na noite escura.

Seu Bento, que tudo presenciara, pensou em voz alta:

- Será que o filho desse velhinho, é quem eu estou pensando que seja?

Os demais, não entenderam e continuaram bebendo.

Após concluir seu relato, seu Gumercindo pediu um mate, pois estava com a garganta seca.

Enquanto ele saboreava o mate, acariciando a cuia morena, nós ficamos pensativos, até que o Clóvis perguntou-lhe:

- Meu estimado sogro, isso ocorreu mesmo ou foi inventado?

- Meu também estimado genro, foi meu pai quem contou, pois ele presenciara o ocorrido e, por conhecê-lo bem, ele seria incapaz de mentir ou inventar.

A resposta do seu Gumercindo, nos deixou ainda mais convictos de que aquele acontecimento, de fato, existiu. Foi o Sérgio quem quebrou o silêncio em que nos encontrávamos:

- O mundo, depois da vinda de Cristo, passou por profundas transformações. Deixamos de ser politeístas, acreditando num único Deus, capaz de enviar seu filho, na condição de humano, para redimir nossos pecados e acreditar na vida após a morte. No entanto, nos distanciamos dos verdadeiros valores cristãos, imprimindo ao simbólico aniversário do filho de Deus, uma confraternização mais pagã, do que religiosa. As festas não exigem qualquer reflexão, apenas o prazer de comer e beber. E, o astro principal passou a ser o produto de marketing da coca-cola...

As palavras do Sérgio, foram recebidas com pesar por todos os presentes que, ao concordarem com a sua assertiva, também lamentaram nossa submissão ao comércio de presentes, com raríssimas exceções, onde mentes e mãos caridosas aproveitam a ocasião para distribuir carinho aos mais necessitados.

Aos poucos, fomos nos retirando pensativos, mas felizes por compreender melhor o tipo de festa sugerido pelo seu Gumercindo.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 10/01/2017 às 09h09 | sannickelle@gmail.com

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Beau Geste

Depois de tanto ouvir meu sobrinho, Cleuson, andar dizendo em voz alta “...tem gente...”, que resolvi perguntar para minha irmã, Neusa, o que significava aquilo. Ela, então, me disse que a professora aposentada, Dona Clarice, estava ensaiando um peça teatral sobre a obra clássica dos Irmãos Grimm, para ser apresentada no caramanchão da Praça Central, no dia do aniversário do Garden City.

Disse-lhe, com cara de não ter entendido patavina:

- Tá! E o que tem isso a ver com o Cleuson andar por aí dizendo, em voz alta:

- “...Tem gente...”

- Acontece que o Cleuson, depois que sua irmã foi escolhida para o papel principal, fez questão de participar da peça teatral. Nossa! Isso deixou a Dona Clarice em maus lençóis , pois a trupe já estava composta.

_E daí! Continuo boiando, Neusa.

- A peça é sobre Chapeuzinho Vermelho! No texto não há qualquer participação de uma criança de 5 anos...- Meu Deus amado!!!!!!!!... como ele bateu pé, que queria porque queria participar, eu fui falar com a Dona Clarice. Criativa como de costume, prontamente ela simulou na imaginação que a casa da vovozinha tivesse uma latrina ou banheiro fora da casa!!!!!! Isso quer dizer que o lobo, antes de bater à porta da casa da velha, teria uma possível dor de barriga ou algo do tipo. Ao dirigir-se para a latrina, o lobo mau encontraria a porta fechada e, em ato contínuo, bateria à porta. Como a dita cuja estaria ocupada, de lá o Cleuson gritaria:

- ...Tem gente...!

_O lobo mau, então, voltaria sua atenção para a casa principal...O resto da história você deve conhecer.

- Meu Deus! E o meu querido sobrinho aceitou fazer esse papel ridículo?

- Sim. Claro que a Dona Clarice o convenceu da importância daquela participação, porque permitiu um pequeno atraso do lobo mau e o consequente aparecimento do caçador.

- Tudo bem, Neusa, mas pelo menos ele poderia aparecer e não só falar.

- Essa hipótese não foi pensada. Tu tens alguma ideia para dar?

- Depois que o lobo mau se afasta da latrina, o Cleuson abre a porta e espia para fora! Aí ele aparece!!!!!

- É! Acho que é uma boa ideia...até que não iria alterar quase nadinha de nada a narrativa... Vou falar com a Dona Clarice.

A Dona Clarice, pensou um pouco e acabou aceitando a ideia.

- No entanto nós precisamos ensaiar o Cleuson para este papel, disse ela. Qualquer inserção no texto exige que o tempo seja computado.

E assim foi. E aquela semana, antes da apresentação da peça, o Cleuson já tava vibrando. Eu, de saco muiiiitooooo cheio, estava torcendo para o domingo chegar logo... já não aguentava mais ouvir o Cleuson dizer “tem gente”.

Enfim o domingo chegou. Na Praça Central, havia muitos moradores e convidados e, no caramanchão, uma cortina composta por lençóis fechava o cenário onde se desenrolaria a peça teatral.

Os atores já estavam nos camarins improvisados que ficavam atrás dos bastidores. Tudo meticulosamente pensado pela diretora da peça, Dona Clarice.

Sentado ao lado da Neusa, pude perceber como ela tava nervosa e ansiosa; acho que pela tensão do momento de estreia do Cleuson.

Ás 19h, como previsto, as cortinas se abriram.

O primeiro cenário se passava na casa da mãe do Chapeuzinho Vermelho.

Ao som de uma melodia campestre, uma voz anunciava:

“...ERA UMA VEZ UMA LINDA MENINA CHAMADA CHAPEUZINHO VERMELHO. UM CERTO DIA SUA MÃE PEDIU QUE ELA LEVASSE UMA CESTA DE DOCES PARA A SUA AVÓ QUE MORAVA DO OUTRO LADO DO BOSQUE..”

Em seguida entra em cena a atriz mirim que fazia o papel de Chapeuzinho; a cena transcorre normalmente até o tradicional encontro com o lobo com a indefesa menina:

- aonde vai chapeuzinho? Perguntou o lobo.

- Na casa da vovó levar uma cesta de doces. Respondeu Chapeuzinho.

- Muito bem boa menina, por que não leva flores também?

ENQUANTO CHAPEUZINHO COLHIA AS FLORES O LOBO CORREU PARA A CASA DA VOVÓ;

LÁ CHEGANDO, O LOBO IA BATER NA PORTA DA CASA DA VOVÓ, QUANDO SENTIU UMA TREMENDA DOR DE BARRIGA OU COISA BEM PARECIDA. SE CONTORCENDO TODO E SUANDO A PICOS, OLHOU PARA OS LADOS E VIU UM BANHEIRO FORA DA CASA... DEPRESSA SE DIRIGIU PARA LÁ...INUTILMENTE TENTOU ABRIR A PORTA, MAS ESTAVA TRANCADA...ELE, ENTÃO, BATEU À PORTA E OUVIU O SEGUINTE:

- ...Tem gente...!

NESSE ÍNTERIM, CHEGA O CAÇADOR QUE, DE ARMA EM PUNHO, AMEAÇAVA ATIRAR NO LOBO.

Sem estar previsto no roteiro da peça adaptada, de repente o Cleuson, que resolvera espiar quem batera à porta, constatou que o caçador apontava uma arma para o lobo. Ele, então, corre em direção ao lobo e abraçando-o, grita:

- Não mate o lobo!!!! ELE é apenas um animal selvagem...

A plateia, sem saber a adaptação exata da peça, começou a aplaudir o gesto do menino, que saíra em defesa do animal selvagem. Dona Clarice, que não esperava aquele acontecimento inusitado, passou a improvisar sua fala final:

DIANTE DA IMINENTE MORTE DO LOBO, O CAÇADOR BAIXOU SUA ARMA E CORREU PARA ABRAÇAR O MENINO QUE, COM SUA CORAGEM, DEFENDEU O ANIMAL. LOGO A SEGUIR, O CHAPEUZINHO VERMELHO CHEGOU À CASA DA VOVÓ A TEMPO DE PRESENCIAR O GESTO DESTEMIDO DAQUELE MENINO. JUNTOU-SE, ENTÃO, AO CAÇADOR QUE, ARREPENDIDO, AJOELHARA-SE DIANTE DO MENINO ABRAÇADO AO LOBO, PROMETENDO NÃO MAIS MATAR QUALQUER ANIMAL.

O público, que não sabia daquela improvisação, aplaudiu de pé o final ecológico da peça. Dona Clarice, ainda surpresa, e os atores foram recebidos como heróis.

A plateia, muito emocionada, gritava:

- Viva a Dona Clarice! Viva os atores! VIVA! VIVA! VIVA! Hip-Hip- Hurra!

A Neusa, perplexa diante da iniciativa do filho, correu para abraça-lo.

Beau Geste é um filme estadunidense de 1939 do gênero aventura, que significa “Nobre Gesto”, em Francês

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/01/2017 às 10h49 | sannickelle@gmail.com

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Passagem de ano

A comemoração da passagem de ano, no ocidente, tem origem num decreto do governador romano Júlio César, que fixou o primeiro de janeiro como o Dia do Ano-Novo.

Atualmente, a passagem do ano-novo é celebrada por todo o mundo e, normalmente envolve shows pirotécnicos em festas públicas, reuniões familiares ou com amigos, muita comida e muitíssimas bebidas alcoólicas.

O seu Gumercindo, depois do sucesso da Festa de Natal, resolveu fazer, também pela primeira vez no Garden City, um acontecimento público para celebrar a virada do ano em grande estilo.

A Praça Central novamente seria o palco da programação festiva, com queima de fogos de artifício, comida e bebida trazida por todos os moradores, bem como uma banda para animar a virada do ano.

O plano estava perfeito, bastava preparar as condições ambientais, ou seja, o local para a queima dos fogos, uma grande mesa para a comida e muitos isopores com gelo para as bebidas. Aos mais velhos foram dispostas mesas com quatro cadeiras cada, para que pudessem assistir os fogos e comer a ceia sentados.

O Carlos Alberto, técnico em eletrônica, ficou encarregado de montar a iluminação da praça e um telão onde seriam exibidas imagens do Garden City, dos seus moradores e, quando faltassem 10 segundos da meia-noite, a contagem regressiva da mudança de ano.

As mulheres das famílias decidiram o que fariam de comidas e/ou sobremesas, de tal sorte que houvesse uma variedade condizente com as típicas ceias natalinas . Aos homens coube o encargo das bebidas, gelo e meios de acondicionamento.

Naquela semana que antecedeu o Natal, a mobilização era frenética. Enquanto os funcionários do Garden preparavam o local da festa sob o comando do síndico, uma equipe de moradores ia de casa em casa, para contabilizar o número de participantes, já que alguns convidariam parentes. Ou seja, tudo devia ser bem planejado para que não houvessem falhas.

Enfim, chegou o dia da Festa. O dia, com muito sol e um céu de brigadeiro não previa chuva a noite. A noite desceu seu manto negro e a Praça Central se iluminou, tal qual uma árvore de natal.

Os moradores e convidados, aos poucos foram chegando e organizando as comidas na grande mesa. As crianças eufóricas, corriam por toda praça e brincavam no playground infantil. Alguns moradores, no entanto, já chegaram de copo cheio na mão, brindando com os que confundem festa com beber todas.

Lá pelas 22h, a Praça Central estava lotada, como se previra pela contabilidade prévia da equipe do síndico.

O seu Gumercindo, ao microfone, pediu um pouco de silêncio para anunciar oficialmente a abertura da Festa:

_Queridos vizinhos e convidados, depois do sucesso da Festa de Natal estamos hoje aqui para comemorar de forma, também festiva, o ano que se encerra e o novo que se inicia, desejando a todos um próspero e FELIZ ANO NOVO. Sirvam-se a vontade e bebam com moderação porque a FESTA é de todos nós do GARDEN CITY.

O seu Gumercindo, nem bem tinha saído do estrado, de onde fizera a abertura official da Festa, quando sentiu um frio na espinha ao ser abordado pelo Sebastião, marido da Walquíria:

- Aí, ó, geente fiina! …Belaas pala… vrraas…alilás, eeuu seemppre fuui teu fãã…tuu sabbees não ééé…?

- O Sebastião você já está bêbado, por favor vê se não arruma confusão, tá?

- O otoridadadee… podee deixáá…, mas dizer que euu star bebum é uma… uma ofensaa, viu!

O Sebastião saiu dali e já esbarrou na mesa do seu Agenor, caindo por cima dos velhos. Foi comida e copos de guaraná se esparramando pelo chão…Mas, ainda assim, o bebum gritava:

- Descurpee… gente… foii um acidennttee, porque eu nãããoo tô bêbadooo…Alilás, tôô procurandooo bebeeerrr comm moderaçõn, mas não a encontreii…

Muitos socorreram os velhos, parentes do seu Agenor, que pediram licença para se retirar, pois depois do susto e roupas molhadas não poderiam continuar na festa.

O seu Gumercindo, lamentou o ocorrido, pedindo desculpas pela insensatez do vizinho.

Como o Sebastião poderia aprontar outras, o síndico e a sua equipe o procuraram para convencer-lhe a se retirar, mas para surpresa foram impedidos por outros bebuns, em estado até pior de alcoolização.

- Autoridade, ninguém vai tirá o Sebas dessa freessta, porque fresta é fresta, tá!

- Pessoal, festa é festa, eu concordo, mas abusos não são condizentes com a comemoração. Além disso, há aqui muitos convidados, muitas crianças, e o espetáculo deprimente que vocês estão mostrando não é aceitável. Se, querem beber todas, por favor, voltem para suas casas.

- O quê! Você, seu merdinha, está nos expulsando da feeestaa, éé?

- Merdinha não, seu desbochado safado… Seu Gumercindo, já apoiado pelo seu genro e a sua equipe, desferiu potente soco na cara do Valdir, que encabeçava o grupo de bebuns. Como um dominó o Valdir foi derrubando os demais…

Não deu outra, como um rastilho de pólvora, a luta corporal se espalhou, derrubando mesas, velhos, crianças e as comidas. A luta campal parecia não ter começo nem fim, muito embora os deixa-disso fizessem um esforço para acalmar os mais exaltados.

Por fim, prevaleceu a força e a vontade dos mais sensatos e, a festa pode prosseguir, com a expulsão, inconformada, dos baderneiros.

Este fato fez lembrar-me de uma passagem de ano que participei em Balneário Camboriú/SC, no caso de 2004 para 2005. Logo após os abraços e palavras de FELIZ ANO NOVO e a queima dos fogos, o que se viu foi uma baderna iniciada pelos que entendem o momento como “beber todas”, que acabou se estendendo como um “tsunami” entre as ruas 2300 e a Praça Tamandaré.

A situação, antes festiva, transformou-se num quebra-quebra generalizado, exigindo das forças policiais uma ação nunca, até então, utilizada.

A tropa de choque da Polícia Militar, com seus cassetetes e escudos, varreram baderneiros e gente inocente da Av. Atlântica, transformando as promessas de FELIZ ANO NOVO, em palavras vazias, sem sentido, porque muitos, há muito tempo, dizem todos os finais de ano as mesmas coisas, mas projetam, já nos primeiros minutos do novo tempo, uma perspectiva cada vez mais insana de convivência. Não muito diferente da do síndico e de seus assessores

Escrito por Saint Clair Nickelle, 26/12/2016 às 17h41 | sannickelle@gmail.com

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Natal

Quando o síndico, seu Gumercindo, decidiu que naquele ano se faria uma Festa de Natal na Praça Central do Garden City, muita gente achou desnecessário, pois entendiam que cabia a cada família essa iniciativa.

Apesar dos contrários, muitos se mobilizaram e botaram mãos à obra. O plano previa uma grande árvore, pinheiro naturalmente, que seria iluminado com luminárias coloridas, confeccionadas com garrafas pets. No caramanchão seria montada uma manjedoura, onde os jovens escolhidos fariam a representação de um presépio vivo na véspera de Natal. Das 20h e 30 min às 22h, sob músicas natalinas, os jovens artistas, representando José e Maria, cuidariam do menino Jesus no berço de palha. Depois, receberiam os três Reis Magos que, com suas oferendas de ouro, incenso e mirra adorariam o menino–rei. O público poderia assistir até sentado, já que a Administração do Condomínio providenciaria cadeiras, a serem dispostas em forma de auditório.

Antes de se inaugurar a celebração natalina, houve até um concurso para a escolha dos jovens que representariam Maria e José, Belchior, Baltasar e Gaspar.

Muitos se candidataram, o que exigiu constituição de um júri, de tal sorte que os escolhidos tivessem tempo para que a Diretora Artística, dona Clarice, pudesse ensaiá-los, bem como decorar as falas que seriam ditas na apresentação.

Para a escolha, foram confeccionadas, com antecedência, as roupas dos personagens, que seriam usadas durante a apresentação do Presépio Vivo.

Assim, durante a escolha, cada grupo de cinco jovens usariam as roupas ao estilo dos personagens, para que ninguém se sentisse prejudicado. O júri, composto por três moradores, sob a presidência da dona Clarice, definiu a noite de 17 de dezembro, para a escolha dos cinco jovens.

Na noite aprazada, três grupos de jovens se apresentaram para o júri. Após cada apresentação e respectiva troca de roupas, o júri se reuniu para decidir. A dificuldade encontrada pelo júri decorreu da própria forma como foi organizada a apresentação, pois os candidatos formaram equipes antes de se inscrever. Os jurados, no entanto, não levaram isso em conta, escolhendo a jovem que melhor representaria Maria e, assim por diante, o José e os três reis magos.

Para o papel de Maria foi escolhida a Ritinha que, por ser mãe de um menino, o Jonas, agora com 4 meses, poderia representar o menino Jesus. O Julinho, agora esposo da Ritinha, foi selecionado para o papel de José. A escolha dos jovens para representar os Reis Magos não gerou qualquer problema, tendo que no caso do Baltasar tendo sido selecionado o jovem Mathias, por ser de cor negra.

Claro que a escolha gerou um certo desconforto entre os candidatos, mas nada que invalidasse a seleção dos jovens.

Os jovens escolhidos, então, passaram a receber as orientações da dona Clarice, de tal sorte que na noite de inauguração não houvesse falha.

Os jovens que não foram selecionados, sob a liderança do Vinicius, resolveram que participariam da representação, como uma forma de complementar a cena do Presépio Vivo. Segundo os quais, surpreenderiam o público e a dona Clarice.

Enfim, chegou a véspera do Natal. A Praça Central toda enfeitada e iluminada começou a receber os moradores e convidados para a primeira celebração natalina do Garden City.

Às 20h e 30 min, a Manjedoura estava às escuras e o caminho que levava até ela foi repentinamente iluminado ao longe. Sob a luz, em formato de estrela, um burrico puxado por José, transportava Maria grávida. Conforme se aproximavam da manjedoura a luz, que seguia iluminando o casal, parou na entrada. José, então, ajudou Maria a descer com cuidado e os dois se encaminharam para o seu interior, que estava vazia de pessoas, apenas com alguns animais que dormiam. A luz da Estrela se apagou. Passados alguns minutos, ela voltou a acender e iluminar o interior da Manjedoura. Sob a luz, um berço improvisado acolhia um menino recém nascido...Era Jesus. Maria e José o acalentavam, encantados.

Enquanto o público admirava a cena, em silêncio, viu-se aproximar da Manjedoura três figuras solenes, vestindo roupas coloridas, esvoaçantes e turbantes, típicas dos persas. Nas mãos, traziam presentes para o menino que sonharam representar uma nova era.

Como uma luz divina que iluminava o berço viram a criança de seus sonhos. A alegria tomou conta dos três, que caíram de joelhos e beijaram o chão.

Os Reis Magos ofereceram três presentes ao menino Jesus...O ouro, por representar a realeza, o incenso, usado nos templos, para simbolizar a oração que chega a Deus...E a mirra, resina antisséptica usada nos embalsamentos.

Foi um momento de extrema sensibilidade que, em silêncio, encantou a todos.

Passado aquele momento mágico do nascimento, ouve-se ao longe muita música, são pastores com crianças, que se dirigiam ao local do nascimento. Eram os jovens que haviam participado do concurso, mas não foram selecionados. Vestiam roupas típicas da época e conduziam uma ovelha para bem representar suas atividades.

Como se tivesse sido programado, aproximaram-se da Manjedoura, com seus cânticos e instrumentos musicais improvisados como câmbalos, alaúdes, pífaros, pandeiros e tambores.

Conforme foram chegando perto da Manjedoura, pararam a música e foram se ajoelhando para reverenciar o menino Jesus.

Dona Clarice, que não programara aquela encenação, ficou perplexa pela iniciativa dos jovens e, ao mesmo tempo, encantada com o encaixe perfeito no conjunto da obra.

O público, que até então se mantivera passivo, explodiu em gritos e aplausos... Depois, correu para abraçar os atores e cumprimentar dona Clarice que, mais uma vez, deu show de organização teatral.

Aquele momento em que todos se abraçavam foi, sem dúvida alguma, a melhor confraternização de Natal já feita no Garden City. O seu Gumercindo, que teimou em realizá-la, não pode conter as lágrimas, acabou chorando abraçado aos familiares.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 20/12/2016 às 10h33 | sannickelle@gmail.com

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A Viagem

Por ocasião da Missa de Sétimo Dia do falecimento de minha esposa Sandra Maria, em 1997, li, naquela ocasião a seguinte mensagem, por mim redigida:

SOU PASSAGEIRO DE UM TEMPO FINITO,
TENDO EMBARCADO EM 1943, QUANDO,
SEM OPÇÃO, DERAM-ME UMA PASSAGEM SÓ DE IDA.
NÃO LEMBRO DO EMBARQUE,
SEI APENAS QUEM COMPROU O BILHETE.
FOI JOÃO NICKELLE.
QUEM ME EMBARCOU, NO ENTANTO, FOI GRACIOLINDA.
UMA MULHER RUDE E SENSÍVEL, QUE POUCO CONHECI...
ELA DISSE À PASSAGEIRA CELANIRA FALCÃO
QUE EU ATENDERIA PELO NOME DE SAINT CLAIR.

DO INÍCIO DA VIAGEM EU NÃO LEMBRO DETALHES...
APENAS FRAGMENTOS DE PAISAGENS, CHEIROS E SONS...
UM QUEBRA-CABEÇAS QUE JAMAIS CONSEGUI MONTAR,
PARECEM SONHOS QUE UM DIA SONHEI...
PARECE FUMAÇA QUE SE ESVANECEU AO LONGO DA ESTRADA.

DURANTE MUITO TEMPO VIAJEI SÓ.
EM 1966, PAREI NUMA ESTAÇÃO ENCANTADA...
FOI LÁ QUE CONHECI SANDRA E, COM ELA, FORMEI UM PAR.
A VIAGEM NÃO ERA MAIS MINHA, PASSOU A SER NOSSA.
FORAM MOMENTOS INESQUECÍVEIS, CHEIOS DE AMOR,
DÁDIVAS E TRANSFORMAÇÕES...
AMADURECEMOS COMO PESSOAS E COMO CIDADÃOS.

O AMOR NOS FEZ VER AS MESMAS PAISAGENS DE FORMA DIFERENTE...
NELAS OBSERVAMOS DETALHES QUE NÃO PERCEBÍAMOS ANTES...
FIZEMOS NOVAS RELAÇÕES E NOVAS AMIZADES,
PASSAGEIROS QUE PASSARAM A COMPARTILHAR CONOSCO...
AS COISAS BOAS...AS INCERTEZAS E AS ESPERANÇAS.

NA ESTAÇÃO DE 1969, EMBARCAMOS A SABRINA.
A MENINA DOS NOSSOS SONHOS,
QUE PASSOU A NOS ACOMPANHAR EM TODOS OS MOMENTOS.
BREJEIRA E SAPECA NOS PROPORCIONOU O DESAFIO DO PÁTRIO PODER,
COISA JURÍDICA, QUE PENSÁVAMOS SER, TÃO-SOMENTE, AFETIVA.

NA ESTAÇÃO DE 1973 EMBARCAMOS O MICHEL...
OUTRO PASSAGEIRO QUERIDO, QUE MUITO DESEJÁVAMOS.
O CASAL DE FILHOS TORNOU NOSSA VIAGEM MENOS ROTINEIRA,



BASTARIA AMÁ-LOS,
ORIENTÁ-LOS,
EDUCÁ-LOS E,
DEIXAR-LHES SEGUIR EM FRENTE,
QUANDO, ENTÃO, PODERÍAMOS DESEMBARCAR PARA SEMPRE.

NA ESTAÇÃO DE 1997, NO ENTANTO, UM INFORTÚNIO FEZ SANDRA
DESEMBARCAR INTEMPESTIVAMENTE, DEIXANDO-NOS.
FOI UM MOMENTO MUITO DIFÍCIL,...PENOSO PARA SER ACEITO,
INSUPORTÁVEL PARA SER ESQUECIDO.

HOJE, PASSADOS ALGUNS ANOS, DEIXAMOS NAQUELA ESTAÇÃO,
GRANDE PARTE DOS NOSSOS SONHOS,
COISAS QUE GOSTARÍAMOS DE TER REALIZADO...

A PAISAGEN PERDEU O COLORIDO DE OUTRORA E,
OS OLHOS CHORARAM MUITAS VEZES.
AGORA OS OLHOS JÁ NÃO CHORAM TANTO,
MAS O CORAÇÃO SIM,
ÀS VEZES SOLUÇA QUIETINHO EM SILÊNCIO,
MAS, NÃO HÁ NADA QUE SE POSSA FAZER E,
SERIA COVARDIA QUERER DESCER ANTES DO TEMPO,
ALGUNS SOFRERIAM COM ISTO.

DESCER DESSA VIAGEM É UMA QUESTÃO INDIVIDUAL, MAS
CONTINUAR É UM COMPROMISSO COLETIVO, PORTANTO
SÓ ME RESTAVA SEGUIR A VIAGEM...
NÃO HÁ PASSAGEM DE VOLTA.

AS NOVAS ESTAÇÕES TALVEZ TRAGAM LEMBRANÇAS,
TALVEZ ESPERANÇA,
QUEM SABE UMA NOVA COMPANHIA.

SEI AGORA, QUE NÃO FOI NAQUELA ESTAÇÃO QUE
IMAGINEI DESCER...

MAS, SEI TAMBÉM QUE,

QUANDO DESCER,

A ENCONTRAREI JOVEM E RADIANTE
COMO A CONHECI.
 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 08/12/2016 às 11h31 | sannickelle@gmail.com

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O medo matou a solidariedade

A solidariedade, esse gesto humano que nos diferencia dos animais, não significa apenas reconhecer a situação especial de uma pessoa ou grupo social, mas consiste no ato de ajudar essas pessoas, circunstancialmente, desamparadas.

Quando o Garden City ainda engatinhava como condomínio, se permitia, como nos demais logradouros urbanos, a aproximação de esmoleiros, de vendedores de frutas e legumes, etc., sem qualquer restrição.

Nessa época, os poucos moradores ainda estavam imbuídos da filosofia cristã de amar ao próximo e também o lado romântico da vida na zona rural. Muitos desses moradores oriundos de cidades pequenas, e que vieram morar na Capital por motivações diversas.

Bastou, no entanto, acontecer um furto na casa de um dos primeiros moradores, o seu Agenor, vulgo Nonô, para que o idílio campesino desse lugar a neurose urbana.

Em assembleia, decidiram os moradores, motivados pelo infortúnio do seu Agenor, estabelecer restrições rígidas para o ingresso de pessoas estranhas ao Condomínio. Nascia aí a separação física do Garden City à cidade, tal qual as cidadelas da idade média.

“Na Grécia antiga, a cidadela, que era chamada de acrópole (...cidade alta...) era uma presença eminente constante na vida do povo da cidade, servido como refúgio e fortaleza em situações de perigo...Na Idade Média a cidadela era a última linha de defesa de um exército sitiado, frequentemente defendida mesmo depois que a cidade já havia sido conquistada, e oferecia abrigo às pessoas que moravam nas áreas rurais em volta das cidades. ”

O medo que se repetisse atos semelhantes ao sofrido por um de seus moradores, fez com que se edificasse uma portaria típica das fortificações militares, cujo ingresso de estranhos e mesmo dos moradores, passou a ser rigidamente controlado... qualquer semelhança com o ocorrido entre os países europeus, durante a segunda Guerra Mundial, é mera coincidência.

Assim se espalharam os condomínios pelas cidades mais populosas, onde o medo tem predominado e a imprensa, na ânsia de informar, prioriza os acontecimentos policiais, deixando os urbanitas cada vez mais neuróticos.

Eu lembro, como se fosse hoje, o que ocorreu com o jovem Plínio de Almeida, filho do nosso vizinho de Condomínio, o seu Osvaldo. Ele estava voltando da Faculdade de Direito da PUC, lá pelas 23 horas de uma sexta-feira, quando seu carro teve uma pane, justamente na subida da Eduardo Prado, voltando para Ipanema. Conseguiu parar o carro no acostamento, depois tentou pedir ajuda para os carros que passavam, mas ninguém parou, até porque ali fica um conjunto habitacional popular e o pessoal tem medo de parar.

Depois de mais de uma hora, como não conseguiu ajuda, o Plínio saiu caminhando para tentar voltar a pé para casa, já que o celular estava sem bateria. Continuou pedindo ajuda sem sucesso.

Logo em seguida, foi abordado por cinco marginais que o assaltaram, roubando-lhe a carteira, relógio, celular e a chave do carro.

Como o carro não funcionou os bandidos, furiosos, passaram a surrá-lo e, depois da atrocidade, abandonaram-no, ensanguentado, no chão.

Como passava da 1h da manhã, seu pai acordou e foi ver se o filho havia chegado. Constatando que o Plínio não chegara, pegou o celular e ligou, mas não obteve resposta. Avisou a esposa que iria procurar pelo filho, pois temia ter-lhe acontecido alguma coisa.

Pôs o carro em movimento e, ao passar pela Portaria do Condomínio, avisou o porteiro que iria procurar o Plínio e, se acaso ele chegasse, que ele o avisasse pelo celular.

Seguiu pela Juca Batista, contornou a rótula e pegou a Eduardo Prado. Sem correr, procurava observar se via o carro do filho. Chegou no topo da Avenida, junto ao Condomínio Jardim do Sol, e começou a descer em direção à Cavalhada.

Perto da COHAB avistou, do outro lado da pista, o carro do Plínio. Fez o retorno e parou junto do corpo estendido do filho:

- Plínio, meu filho, o que houve meu querido?

Plínio, abriu os olhos inchados da surra que levara, viu o pai e ambos choraram compulsivamente.

- Meu amado filho, o que houve?

- Fui assaltado pai.

- Vou chamar uma ambulância e ligar para a polícia.

Devidamente medicado, pai e filho chegaram em casa pela manhã, já sob um sol intenso de verão. A mãe, que fora informada por telefone, aguardava ansiosa para abraçar o filho.

Agora, em casa, o Plínio pode contar detalhes de seu infortúnio:

- Meu carro teve uma pane e como meu celular estava descarregado, eu desci para pedir auxílio, mas ninguém parou para me ajudar. Depois de uma hora, cinco caras me assaltaram e tentaram fugir no meu carro, que não funcionou, então, resolveram me surrar! Depois, me abandonaram no chão. Alguns carros até diminuíam a velocidade para constatar um corpo ensanguentado caído junto do carro, mas ninguém parou. Acho que depois eu desmaiei e perdi a noção do tempo. Só acordei quando meu pai me abraçava chorando...

A imprensa, de um modo geral, tem contribuído para que as pessoas tomem cuidados ao prestar socorro, pois muitos casos de assalto são praticados em simulações de acidente, especialmente com motos. Assim, as pessoas que veem acidentes e/ou acidentados relutam em parar. Esse, talvez, tenha sido o caso do filho do seu Osvaldo.

No entanto, existe sempre a possibilidade de avisar a polícia, de tal sorte que esta possa verificar a veracidade da situação. Portanto, não se omita, recupere o gesto humano da solidariedade para não deixar morrer o sentimento de fraternidade.

“ A fraternidade universal designa a boa relação entre os homens, em que se desenvolvem sentimentos de afeto próprios dos irmãos de sangue."

Escrito por Saint Clair Nickelle, 01/12/2016 às 14h36 | sannickelle@gmail.com

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