Jornal Página 3
Coluna
Condomínio Garden City
Por Saint Clair Nickelle

o Brasil de verdade

A chuva intensa dos últimos dias trouxe, para a população mais pobre, a desgraça das enchentes...Aqui no Garden, várias casas apresentaram problemas de vazamentos nos telhados, mas nada que seus moradores não possam consertar. Já para a maioria dos brasileiros, só contando com a ajuda governamental! E eles, depois que as águas baixarem, voltarão a morar nas encostas e beira de rios, porque lá a especulação imobiliária ainda não chegou; é como morar quase de graça até a próxima enchente.

Enquanto a maioria da população brasileira não se beneficia da riqueza que o país produz, uma minoria rouba, descaradamente, de todas as formas. Às vezes lembro da frase símbolo de Winston Churchill, durante a segunda Guerra Mundial:

NUNCA, TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS.”

E, aqui no nosso país só cabe a verdade:

“NUNCA, TÃO POUCOS ROUBAM TANTO DE TANTOS”

Por isso, somos um país de miseráveis. Poucos países no mundo têm a riqueza que temos e, ainda assim, somos campeões de analfabetismo, de insegurança, de desmatamento, de precariedade em saneamento básico. Nós, hoje, matamos mais que na guerra da Síria, pela violência urbana e de trânsito. Algo inimaginável para os padrões de qualquer país, que tem o PIB que temos.

Por que somos assim?

“Mesmo sendo uma nação de dimensões continentais e riquíssima em recursos naturais, o Brasil desponta uma triste contradição, de estar sempre entre os dez países do mundo com o PIB mais alto e, por outro lado, estar sempre entre os 10 países com maiores índices de disparidade social.

Em um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas), que foi divulgado em julho de 2010, o Brasil aparece com o terceiro pior índice de desigualdade no mundo e, em se tratando da diferença e distanciamento entre ricos e pobres, fica atrás no ranking apenas de países muito menores e menos ricos, como Haiti, Madagascar, Camarões, Tailândia e África do Sul.

A ONU mostra ainda, nesse estudo, como principais causas de tanta desproporcionalidade social, a falta de acesso à educação de qualidade, uma política fiscal injusta, baixos salários e dificuldade da população em desfrutar de serviços básicos oferecidos pelo Estado, como saúde, transporte público e saneamento básico.” O Brasil tem mais de 100 milhões de habitantes vivendo sem saneamento básico, ou seja, esgoto sanitário.

Essa incrível desigualdade social torna quase impossível praticarmos uma cultura da paz, que é fundamental para o país viver sem medo. Olhem as casas e prédios residenciais, são cercados de grades, câmeras de segurança e cercas eletrificadas. Aqui no Garden City, apesar de ser um condomínio, com Portaria que controla rigidamente quem entra e quem sai, com guardas diurnos e noturnos, ainda assim, muitas casas tem grades nas janelas.

Dia desses, fui falar com um vizinho; era um assunto de nosso interesse mútuo, pois ele não me recebeu diretamente, apenas falou pelo interfone:

- Quem é?

- É o SAN da casa 56.

- Infelizmente, eu não te conheço e, portanto, não posso abrir-lhe a porta.

Deixei de falar com o vizinho e fiquei pensando, será que em outros países vive-se com tanto medo?

Lembrei-me de um casal de conhecidos que, atualmente, vive na China. Perguntei,  pelo WhatsApp, se as casas, lá na China tinham tantos itens de segurança como aqui, eles me responderam que não. A população da China é quase 7 vezes maior que a do Brasil...Como pode um país com tanta gente, que na década de 50 comia casca de árvore para não morrer de fome, agora ter esse equilíbrio social?

Em parte, nós sabemos que os crimes políticos levam seus praticantes a serem condenados à morte. Isso, por si só, é fator limitante para a prática de ilícitos, o que não é o caso do Brasil. Como disse o Ministro do STF, Luís Roberto Barroso:  “...a corrupção no Brasil é endêmica...”

Outra coisa que contribui para essa quase histeria de insegurança, provém dos noticiários que, os quais, por insistirem, exageradamente em veicular notícias trágicas e policiais, tornam a sociedade cada vez mais refém do medo. Raramente, temos notícias boas. Notícias de ações humanitárias, de respeito ao meio ambiente, de soluções alternativas para as questões do dia a dia, como reciclagem do lixo doméstico, compostagem (“...que é o processo biológico de valorização da matéria orgânica, seja ela de origem urbana, doméstica, agrícola ou florestal, e pode ser considerada como um tipo de reciclagem do lixo orgânico. Trata-se de um processo natural em que os micro-organismos, como fungos e bactérias, são responsáveis pela degradação de matéria orgânica.” ), por exemplo.

Será que os noticiários de outros países, cuja prosperidade é mais igualitária e a vida menos tensa, insistem, também, em noticiar só desgraças, roubalheira, assaltos, etc. como se fossem permanentes boletins policiais?

Será que não é chegada a hora de consultarmos psicólogos, para tratar dessas causas?

O que nos coloca, também, numa encruzilhada histórica é se o regime que adotamos será capaz de alavancar o desenvolvimento pleno. Mas, o desenvolvimento como sinônimo de qualidade, de mudança para a qualidade, não para a quantidade.

O principio predominante do nosso desenvolvimento é a acumulação privada de riquezas às custas dos pobres trabalhadores. Uma prova disso é que os pobres e os trabalhadores sempre foram explorados neste país e a desigualdade social é uma marca permanente na nossa história. Esta situação tem sofrido uma significativa alteração para pior nestes últimos anos, em virtude da hegemonia do modelo econômico e politico neoliberal, que aumenta a distância entre os pobres e os ricos e restringe a ação do Estado no combate à pobreza.

Nosso país está triste, descrente, mesmo com o trabalho magnífico da Lava Jato. Como robôs, vamos vivendo um dia a dia sem esperança de mudança efetiva.

 

Escrito por Saint Clair Nickelle, 13/06/2017 às 14h30 | sannickelle@gmail.com

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E, se fosse eu ou você...

O domingo amanheceu de cara feia, nenhum sorriso do sol, nem da base aliada.
Preparei meu chimarrão, peguei a chaleira quente e sentei para pensar na vida e no meu pobre país...
As coisas parecem que estavam melhorando para o atual governo, menos para os desempregados, trabalhadores e aposentados, é claro. O Congresso Nacional tinha avançado nas reformas trabalhista e da previdência. De repente, o tilintar da campainha do Palácio Jaburu acorda o cochilo do Ajudante de Ordens do Presidente:
_Quem será a uma hora dessas?
A porta, fechada a sete chaves, se abre...um sujeito bem vestido está no hall de entrada...
_Quem é o senhor e o que quer tão tarde?
_ Sou o dono da maior rede de frigoríficos do Brasil e dos Estados Unidos e preciso falar com o Presidente. É urgente!
_ O senhor, por favor, entre e aguarde que vou anunciar sua chegada.
O visitante, que é multimilionário, não demonstra admiração pela suntuosidade do Palácio, já que vive em ambientes também sofisticados, em especial em Nova Iorque. Mas, considerando tratar-se de uma obra de Oscar Niemayer, passa a observar o requinte do Palácio Jaburu, que leva esse nome por ficar ao lado da Lagoa Jaburu, às margens do Lago Paranoá. Está localizado ao longo da Via Presidencial, entre os Palácios do Planalto e da Alvorada.
Enquanto espera, prepara o celular para gravar a conversa que pretende ter com o Presidente.
O Ajudante de Ordens bate à porta da sala-de-estar do Palácio e ouve um
_Entre!
_Senhor Presidente, está aqui no vestíbulo do Palácio o dono dos Frigoríficos...
_Que horas são?
_ São 22h e 40min, Senhor!
E, se eu ou você fosse o Presidente da República, o que faria? Poderia simplesmente mandar dizer-lhe:
_Isso são horas para visitar o Presidente? Ou...
_O Presidente e esposa já estão recolhidos aos seus aposentos íntimos. Ou...
_Diga que estou indisposto, com diarreia, e que estou indo ao banheiro de quinze em quinze minutos. Ou...
_Um momento, caro Ajudante de Ordens!
_”Será que ele seria capaz de contar à imprensa, que na última reunião que tivemos, aqui mesmo, nós jogamos botão de mesa, em vez de esclarecer os empréstimos do BNDES para suas empresas. Meu Deus! Isso seria o meu fim.”
_Diga-lhe que não posso recebê-lo de pijama e roupão, seria uma indelicadeza. Ou,...”que estou vendo o último capítulo da novela das 9h, de mãos dadas com a primeira dama...Não!, Essa hipótese não seria aconselhável, afinal deixar de receber um empresário do ramo de carnes, seria como agravar os cancelamentos das importações internacionais”...
Depois, de muito pensar, decidi mandar dizer-lhe:

_Procure-me, amanhã, para termos uma conversa compartilhada com meu Chefe de Gabinete e assessores.
Isso, se eu fosse o Presidente da República, mas não sou. No entanto, fiquei imaginando o que aconteceria com outros chefes de Estado, se recebessem àquela hora da noite, um empresário:
O tal empresário procura o Premier do Conselho de Estado da República Popular da China, Xi Jinping. Ele é recebido pelo Chefe de Protocolos. A guarda presidencial o prende por não se curvar protocolarmente diante de qualquer autoridade chinesa, já que ignorou as formalidades de Estado, a que estão sujeitos os membros do governo e as demais pessoas.
O tal empresário, se dirige à residência oficial do Presidente da Argentina, localizada em Olivos, subúrbio de Buenos Aires. Lá, na Quinta de Olivo. é informado de que o Presidente, Mauricio Macri, está assistindo uma peça teatral no Teatro Colón. O empresário do ramo de carnes desliga o gravador e sai frustrado, dando socos no ar.
Essa determinação de nosso empresário, remonta ao seu ascendente, J. Batisté, do ramo de pães e tortas, que em 14 de julho de 1789, procurou a rainha Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, para oferecer-lhe uma carga de brioches. E, na atualidade procura o Presidente da França, Emmanuel Macron:
-Oui, monsieur?
_Vous avez besoin de parler au Président, il est urgent!
_Désolé, le Président est de recevoir les Varsalhes le président russe Vladimir Putin;
_Bonne nuit!
E, assim, nosso insistente empresário, vai de porta em porta, tentando comprometer algum chefe de Estado imprudente.
Agora, está na Casa Branca em Washington, pretende falar com o Presidente Trump. É recebido pelo Chefe de Ordens;
_Good night!
_I need to speak to the President. It’s urgente.
_President Trump is traveling through the Middle East...
_It’s OK ...
_Forget about the hassle, so late at night.
Ele sai da Casa Branca, muitíssimo frustrado. Desliga o gravador, e vai se embebedar no primeiro bar, que encontrar aberto, aquela hora da noite, dizendo para si mesmo:
_Que droga! Não consegui corromper nenhum chefe de Estado...
No bar, encontra o deputado federal, Loureval, que continua com a maleta, contendo os quinhentos mil reais, destinado a um preso da Lava Jato, que se não recebesse a semanada, delataria todo o esquema.
O empresário, então, pergunta-lhe:
_Ué, você por aqui?
_Sim! Mas, estou voltando para casa, sem opção de recusar...
_Por quê?
_Sujou, né! A Polícia Federal filmou tudo...Posso chorar no seu ombro?
_Sai pra lá cara, a carne é fraca!
E assim termino meu chimarrão, pensando em comer peixe. O churrasco hoje não me faria nada bem. E, pra você?

Escrito por Saint Clair Nickelle, 31/05/2017 às 09h57 | sannickelle@gmail.com

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Síndrome de excesso de informação

Levantei da rede assustado, não sei se foi a mosquinha real ou o pesadelo... Ainda bem que a Su me chamou para tomar café...Que coisa mais esquisita! Aquele sonho parecia tão real! Será que eu havia saído do corpo e participado do depoimento do ex-presidente? Cheguei à mesa e notei flores que adornavam o café daquela manhã. Perguntei-lhe o motivo e a Su me respondeu:

- É pelo nosso aniversário de casamento...

- Mas, querida, ainda estamos em maio e o nosso aniversário é em junho...

- Você está muito estranho, meu bem! Perdeu a noção do tempo.

Fiquei pensativo...

- Será que ainda estou sonhando?

Logo a voz dela se fez ouvir:

- Meu bem! O café vai esfriar...Você está estranho, parece ter visto assombração!

- Não sei, querida! Tive um pesadelo incrível, sonhei que era uma mosquinha.

- Ah, é? Uma mosquinha?

- É, sim! Uma mosquinha que o mago Merlin mandou para bisbilhotar o depoimento do Lalau...

- Você tá é ficando louco, de tanto ver noticiário e ler jornais!

- Procura não comer muito tarde da noite, isso, geralmente dá pesadelo!

- Pode ser! Pode ser!...Tu tens razão, vou moderar meu apetite noturno.

Aquele diálogo me deixou muito sossegado e naquela paz adormeci...

- Muito bem, senhores! Está encerrado o presente depoimento. Tudo foi devidamente registrado e, em breve, abriremos prazos para as alegações finais

- Tenham todos um bom dia!

- Meu Deus! O que estou fazendo aqui? E, ainda de pijama? E, agora, não sei se vou com o depoente e seu bando de advogados, ou se vou com o Juiz Moura e os Promotores Federais. Acho melhor acompanhar o Juiz e ouvir seus comentários...

- Por tudo que ouvimos, o que vocês acham, colegas?

- Ele é totalmente culpado!

- Para mim, também! Mas, nos resta provar que a SOS, de fato, estava pagando pelas facilidades que recebera do governo dele. Esse é o “x” da questão...

Acabo de descer de um voo da Air Coryo, única empresa aérea estatal da Coréia do Norte, em Pyongyang, onde vários militares, em formação rígida, saúdam os ilustres visitantes. Logo me dou conta estar de pijama...

Meu Deus! Eu estou de pijama e de chinelos...Que vergonha!

Fomos levados a presença do líder, Kim Jong-Un, que nos recebe, sem ao menos, sorrir. Ele, então, nos conduz até uma plataforma de lançamento de foguetes. Trata-se de um míssil intercontinental capaz de conduzir uma ogiva nuclear. Estou ao lado do líder e ele, me fala ao ouvido:

- Estou me preparando para a guerra, caso continuem a me chamar de “gordinho”!

Levei um susto!...Quase, que por brincadeira, ia chamar-lhe de “gordinho”...

E mudei de cenário...

Agora, estou na comitiva presidencial de Recep Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia, que acaba de chegar aos Estados Unidos...

Meu Deus! Eu continuo de pijama!

Em Washington, o Presidente Donald Trump é todo sorrisos com o Embaixador Russo Serguei Kislyak.

Estou encantado com a Casa Branca, e eis que chega o Presidente da Turquia e sua digníssima esposa. Fomos encaminhados à Sala Oval, que é o gabinete e local de trabalho do presidente dos Estados Unidos. Foi construída em 1909 pelo Presidente William Howard Taft, como parte da expansão da Ala oeste da Casa Branca...tem pendurado lá um retrato do Tio Patinhas, o que, por sinal eu pensara ser de outro importante personagem...Em dúvida, tentei perguntar ao Presidente Trump:

- Ali, não deveria estar o retrato do Presidente George Washington?

Ele, então, me fez um sinal de Psiu, com dedo na boca...

Eis que na operação da Polícia Federal, no Ministério da Agricultura, eu estou no comando, cheio de mandados de prisão. É tanta gente para ser presa que eu mandei providenciar três ônibus. Todos me obedecem, mas eu continuo de pijama e chinelos.

De repente, estou no meio de um tiroteio. As balas sibilando em minha cabeça, até que alguém, ao meu lado, diz:

- Fica abaixado, cara! Eu lhe pergunto:

- Nós estamos na Síria?

- Não! Num subúrbio do Rio de Janeiro.

Ele, então, me pergunta:

- Por quê você está de pijama e chinelos?

- Não sei! Eu, também, gostaria de saber.

Depois de uma pequena trégua, o tiroteio recomeça. De um lado traficantes de Cantagalo, Pavão e Pavãozinho e de outro policiais militares.

- Fica abaixado, cara! Ou vamos ser mortos por bala perdida. Eu lhe pergunto:

- Nós somos bandidos ou mocinhos?

- Nenhum, nem outro, apenas passantes. Lá, em cima do morro, estão os traficantes e, abaixo de nós, a polícia pacificadora.

- Pacificadora, é?

Nem bem terminei a frase e um balaço atinge meu peito...Alguém, não sei quem, começa a me sacudir, dizendo:

- Acorda!...Acorda! Você está sonhando...

- Hein? Sonhando?

- Sim! Sonhando e gritando que levou um tiro...

- Levanta, vem tomar café, se não vai esfriar...

- Mas, nós já não tomamos o café da manhã, querida?

- Claro que não. Eu acabo de fazê-lo, meu bem!

- Benzei-me, Senhor Deus! Devo estar com aquela doença do excesso de informação.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 23/05/2017 às 11h58 | sannickelle@gmail.com

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A mosquinha

Era sábado, dia de curtir uma rede na tranquilidade do Garden City...

O aparato policial, de 1700 homens, denotava a importância de se tomar o depoimento do ex-presidente Lalau, diante do famoso Juiz Moura, na República das Araucárias.

Desde cedo, manifestantes pró e contra se concentravam nos arredores do Palácio da Justiça, daquele pequeno país. O efetivo policial era de 1700 homens, portanto, estavam todos guarnecendo àquele Palácio, onde nunca um ex-presidente da república fora julgado.

Como não se podia televisionar, nem transmitir pelo rádio, a população toda estava na expectativa para saber dos detalhes. Mas, como saber se todos os canais existentes estavam bloqueados? Foi aí, que o mago Merlin, que conhecia os mistérios do céu e da terra, da vida e da morte dos homens e dos deuses, foi lembrado. Ele, então, se dispôs a ajudar, já que não gostava do Lalau. Como feiticeiro, mandou uma mosquinha para acompanhar o depoimento.

Na grande sala, o Juiz Moura, acompanhado de diversos Promotores Federais, tinha pela frente o ex-presidente, acompanhado de um batalhão de advogados.

Depois de o magistrado ter esclarecido como seria tomado o depoimento, bem como da limitação dos defensores em falar, foi iniciada a sessão.

A mosquinha do Merlin entrou na cabeça do depoente, para registrar na íntegra o que, de fato, pensava o ex-presidente:

“Como eu posso estar aqui, me submetendo a esse idiota? E, ainda, ter de pagar esse monte de advogados? Será que ele pensa que eu vou me entregar…? Ele não sabe como eu sou esperto, pior que um muçum vivo…”

O Juiz Moura fez a primeira pergunta:

- O senhor está sendo acusado de receber da empresa SOS, um imóvel de 500m2 de area construída, um sítio, além de benfeitorias nos mesmos, como vantagem por favorecer contratos do governo com essa empresa. É verdade?

- 500 m2? Um sítio? O presidente da SOS, me disse que era apenas um apartamento JK de 35m2 e, um terreninho mixuruca, e que não tava me dando e sim me vendendo. Um momentinho Sr Juiz, eu preciso consultar meu advogado…

Ao se aproximar do seu defensor, a mosquinha saiu do ouvido do Lalau e voou para o interior da boca do advogado, fazendo com que uma tosse incontrolável o impedisse de ouvir o seu contratante. Diante disso, o depoente ficou muito irritado, afastando-se do advogado que o cuspira todo.

- Dr. Moura, quando eu fui ver os tais imóveis, que o Senhor diz ter 500m2, só o apartamento, vi que era uma droga. A cozinha praticamente não existia, as garagens privativas poderiam acomodar apenas meia dúzia de carros e não tinha sacada. O terreno tinha muito mato, a piscina estava mal conservada, a casa do caseiro só poderia acomodar um casal e, o pior, a casa só possuía três suites e, eu, como o Senhor deve saber, possuo quatro filhos, noras e dois netos. Realmente, não tive interesse algum nos imóveis.

O advogado que tossia sem parar, tentou novamente falar-lhe ao ouvido do ex-presidente, mas foi em vão…O Juiz, então, continuou a fazer perguntas:

- Senhor ex-presidente, a SOS, naquele singelo ato comercial, precisaria estar representada pelo seu presidente? Isso não lhe chamou a atenção?

- Sim! Me chamou a atenção. Eu até perguntei para esse advogado que até agora não parou de tossir e me cuspir, o que eu deveria dizer sobre isso.

- E, o que ele lhe orientou?

O advogado que tossia sem parar, ficou branco, apesar da tosse, porque o seu contratante poderia botar os pés pelas mãos. Foi, então, que o Juiz insistiu:

- Senhor ex-presidente, por quê razão o presidente da SOS estava presente para oferecer-lhe aqueles bens?

- Bem, como já nos conhecíamos, desde aqueles contratos envolvendo a Estatal de Petróleo, eu o tinha como…como “cúmplice”, ou melhor, amigo, por isso ele foi, pessoalmente, me apresentar os imóveis. Achei um gesto de grande consideração comigo!

- Por quê , senhor ex-presidente, foram feitas reformas nos imóveis?

- Na verdade, eu ainda não tinha decidido se aceitaria os imóveis, ou melhor comprá-los, por isso um arquiteto e os engenheiros da SOS resolveram adequar aqueles itens que nós havíamos classificado como inaceitáveis .

- Nós, quem?

- Ora, Dotô Juiz! Eu, minha mulher, os filhos, as noras e até os netos.

- Quer dizer, então, que se os profissionais da SOS, fizessem as modificações nos imóveis, o Senhor os receberia?

- Sim! Eu os receberia, ou melhor eu os compraria, até porque o preço era uma bagatela, não dava pra recusar, Dotô!

- Qual o preço que a SOS lhe fez, mesmo após todas as reformas pedidas?

- Algo em torno de cinquenta contos.

- Pelo que sei, Senhor ex-presidente, só o apartamento vale uns 3.700.000,00.

- Tudo isso! Por quê, então, o Presidente da SOS me pediu só 50.000?

- Eu, é que lhe pergunto, por quê?

- Vai ver que a empresa dele tava mal das pernas, né?

Enquanto o Lalau estava se enterrando diante do Juiz Moura, os demais advogados, junto com aquele que tossia sem parar, estavam pasmos, porque tudo que tinha sido instruído para o depoente dizer, ele esqueceu.

- Senhor, ex-presidente, se o Senhor disse que não demonstrou nenhum interesse pelos imóveis, por que aceitou que fossem feitas melhorias?

- A minha mulher me disse, ao pé do ouvido e pisando no meu calo, que só aceitaria os imóveis, se fossem feitas todas as modificações que ela combinara com o arquiteto e com os engenheiros da SOS.

A população toda, da República das Araucárias, ficou sabendo de tudo, graças à mosquinha intrometida. Para os defensores do Lalau foi uma vitória. Para os contrários, no entanto, uma confissão de culpa.

- Pois, mudando de saco pra mala, não é que a tal mosquinha me pousa na ponta do meu nariz? Quero dizer, com isso que estava a dormir languidamente, em minha velha rede…E a insetinha resolve furungar a ponta da minha narina esquerda! E, me acordo!

- Simples assim…

- Então…Tudo foi um sonho?

- Mas, e a mosquinha?...A mosquinha era real!

- Durma-se, com um pesadelo desses!

Escrito por Saint Clair Nickelle, 16/05/2017 às 09h27 | sannickelle@gmail.com

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Sítio da Néia

Longe da cidade, onde os telefones celulares não pegam, podemos nos dedicar a um antigo hábito, conversar. Coisa rara, nos dias de hoje. Basta olhar os comensais num restaurante qualquer, poucos conversam enquanto esperam a comida ou mesmo durante a refeição, destinando seu tempo precioso a dedilhar aqueles aparelhinhos eletrônicos, como se os distantes estivessem à mesa. Enfim, sinal dos tempos, o que se há de fazer?

Nossa família, no entanto, achou um jeito peculiar de se comunicar, como na idade da pedra, passando os fins de semana no sítio da minha cunhada Néia.

Lá, as aves gorjeiam, enchendo-nos de alegria ao vê-las, livres dos homens egoístas que tentam aprisioná-las, sem dó nem piedade. Deviam era ler o nosso poeta Olavo Bilac: “Se os pássaros falassem, talvez os teus ouvidos escutassem este cativo pássaro dizer: Não quero o teu alpiste! Gosto mais do alimento que procuro na mata livre em que voar me viste; Tenho água fresca num recanto escuro.”

No fundo da pequena propriedade, corre, de forma sinuosa, um ribeirão de águas cristalinas, onde lambaris em cardume nadam, em busca de alimento. Jogar-lhes pequenas lascas de pão é uma diversão, quando, pelo afoito desejo de chegar primeiro, seus dorsos escuros dão lugar ao prateado de suas escamas. Nesse frenesi de saudável convivência, os adultos estimulam as crianças a respeitar a natureza, permitindo-lhes apenas apreciá-los no seu hábitat.

Lembra-me do “Planeta Água”, como canta Guilherme Arantes:

“Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho
E deságua na corrente do ribeirão”


No Sítio da Néia, as horas passam, mas num compasso diferente, é como se o tempo se desse ao luxo de descansar, permitindo-nos colocar todas as conversas em dia. Enquanto minha outra cunhada, a Marilda, dedica-se, por opção e prazer, a atiçar o fogo do fogão caipira, onde panelas de barro exalam cheiros de comida caseira, nós mais velhos, brindamos com o chimarrão da Cris, gaúcha de Bagé, que sabe preparar o mate como ninguém.

Quando a comida tá pronta, cada um faz seu prato na hora que lhe convier, sem cerimoniais de mesa posta. É um entrevero que dá gosto, uns comendo, outros brindando, e as crianças brincando de balanço, jogando bola e rindo de tudo.

Nessas horas, lembro do Lupicínio Rodrigues, que dizia:

“Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque eu sei que a falsidade não vigora.

A minha casa fica lá detrás do mundo
Onde eu vou num segundo, quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa, quando começa a pensar...”

Depois de almoçar, as vezes, tiro um cochilo na rede sob as árvores... meus ouvidos, no entanto, continuam atentos a algaravia das conversas e dos folguedos da piazada. Olho para cima e vejo que os frutos do cambuizeiro já estão maduros, basta esticar o braço e logo estou saboreando aquela delícia de fruto silvestre. O cambuí, de gosto, lembra a jaboticaba, mas não dá no tronco e nos galhos. O que eles tem em comum, é frutificar na mesma época do ano.

As goiabeiras forram o chão de frutas maduras, das quais a Marilda faz uma deliciosa geleia, pra comer com pão caseiro, feito pela minha sogra. Aliás, a dona Elsa, com seus quase 90 anos, parece ficar mais jovem no sítio. Faz sobremesa das peras e, também, o meu preferido manjar branco, onde vai coco com ameixas pretas... Irresistível!

A única coisa que não se espera no sítio é fazer regime para emagrecer, quem tentou, se estrepou com alguns quilinhos a mais.

Às vezes, algumas conversas viram discussões, tudo para não perder o hábito de querer ter razão. Mas, até hoje, ninguém brigou de forma definitiva; o termômetro é a vontade de se reencontrar no próximo fim de semana .

A manutenção da casa é compartilhada, principalmente em termos de víveres e material de limpeza, onde todos tem plena liberdade para fazer churrasco ou comida no fogão à lenha. Qualquer das modalidades de comida é também compartilhada, sem estresse.

Nossa última Festa Junina foi feita no sítio, com direito a fogueira, bandeirinhas, pipoca, pinhão e muita animação. Foi uma noite memorável, sem qualquer prejuízo aos vizinhos distantes. Coisa quase impossível de se realizar na cidade.

No Sítio da Néia, resgatamos o que consagrou Lupicínio Rodrigues quando compôs a frase:
“...Eu falo porque essa dona já mora no meu barraco à beira de um regato e de um bosque em flor...”

No caso, a dona é a própria felicidade.

Naquele sítio, ao final dos domingos, de onde acabamos de renovar nossas baterias, só nos resta fechar a casa e voltar para enfrentar a cidade, seu barulho e a sua burocracia. Enquanto partimos, nossos corações estão de olho no retrovisor, sentindo saudades daquela vida simples que um dia o progresso nos impôs distância.

O que nos consola, é o que canta Simone em “TÔ VOLTANDO”

“Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
eu tô voltando
Põe meia dúzia de brahma pra gelar...
Eu tô voltando”


Assim tem sido muitos de nossos fins de semana, rodeados do carinho da família.

A família, que serve de refúgio contra os problemas do dia a dia, encontra no sítio o ânimo que a fortalece.

Escrito por Saint Clair Nickelle, 09/05/2017 às 16h41 | sannickelle@gmail.com

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Quem perde, quem ganha?

Depois da assembleia sobre os pets, decidimos fazer a mateada na garagem do seu Gumercindo, por que choveria muito naquele domingo.

O dia amanheceu como se não tivesse acordado, sonolento e preguiçoso. Eu pensei até em ficar na cama, mas era domingo e a mateada confirmada exigia a presença de todos, afinal compromisso é de se respeitar sempre. Tomei café, dei um beijo na patroa e fui...Sob o guarda-chuva, as pancadas molhavam da cintura pra baixo; cheguei metade seco e metade ensopado na garagem do Gumercindo. Lá, já estavam o Sérgio, o Luiz Paulo, o Reinaldo, seu Gumercindo e o artista do chimarrão, o Clóvis.

- Buenas! Que dia propício para uma mateada, não é pessoal?

Os companheiros ficaram em silêncio, como se eu tivesse feito uma afirmação.

Sentei-me ao lado do Sérgio e sussurrei-lhe:

- Tá tudo bem?

- Sim, por quê?

-  Ué! Parece um enterro, ninguém respondeu meu cumprimento.

- Acho que todos ainda não acordaram, mas logo-logo, o chimarrão vai esquentar e soltar a prosa... podes crer!

- Eu espero, Sérgio, por que molhado como estou só um mate bem quente, para animar!

Depois daquele silêncio sepulcral, o seu Gumercindo sorveu o primeiro mate e falou:

- Bom dia amigos de mateada! Obrigado pela presença de todos! O dia chuvoso nos torna mais pensativos do que falantes, mas como o nosso objetivo é comentar os últimos acontecimentos, façamos um esforço, enquanto o meu genro cuida do mate. O Sérgio foi o primeiro a falar:

- Eu gostaria de comentar aquela assembleia sobre os pets, mas a intervenção magistral do Pastor Aldo não deixou dúvidas sobre nossa culpa em querer ter tantos bichos de estimação, sem a contrapartida do carinho e atenção que eles requerem. No entanto, amigos, estou mais preocupado com as decisões que o Congresso Nacional está tomando.

- Como assim, Sérgio?

- Assim como não existe vida solitária, isenta de influências do vizinho, do síndico, do governo, estamos prestes a receber, goela abaixo, novas relações de trabalho, que poderão trazer consequências imprevisíveis para todos nós.

- Sérgio, tu tens razão, realmente o assunto é polêmico!

- Sim, Clóvis! Mas, veja o que se pretende, por exemplo, com a proposta do banco de horas. Enquanto, hoje, a hora adicional é remunerada com 50% e até 100%, pelo sistema de compensação, cada hora excedente trabalhada em um dia é trocada por apenas uma hora de descanso em outro.

- É, não parece justo, mesmo!

- O que tu acha SAN?

- Eu estava na barriga da minha mãe, Graciolinda, quando em primeiro de maio de 1943, o Getúlio Vargas promulgou a CLT, Consolidação da Leis Trabalhistas. Naquela época, o Brasil vislumbrava um cenário de industrialização e crescimento de apenas um país agrário.

Enfim, a CLT varreria de vez os regimes de trabalho escravocratas. Os trabalhadores passaram a ter direito a férias, salario mínimo, jornada de trabalho fixa, pagamento de horas extras, entre outros benefícios. Fundamental para um país capitalista.

- Eu acho, pessoal, que a reforma trabalhista é um retrocesso.

- Como assim, Luiz Paulo?

- Porque está baseada na retirada de direitos dos empregados de qualquer setor.

- É verdade, Luiz Paulo, e dizer que não haverá mudança alguma é balela!

-E o senhor, seu Gumercindo, o que pensa?

- Pra mim, é totalmente falso afirmar que a CLT é a culpada pelo desemprego de 13 milhões de pessoas. O problema, a meu ver, é com a economia que não está aquecida. Quando o cenário era favorável, ninguém encontrava na CLT o bode expiatório e também não se preocupavam com a reforma trabalhista.

- Bem pensado ,meu sogro!

- A própria Justiça do Trabalho é contra a reforma. Juízes e promotores defendem que a legislação garante somente os direitos mínimos aos trabalhadores. Já a proposta de reforma pode abrir uma brecha, se aprovada em negociação, para que os trabalhadores ganhem menos que o salário mínimo.

- Desculpe interferir no teu pensamento, Reinaldo, mas a valorização da negociação coletiva não é uma tendência mundial?

- Sim, Clóvis! Todos os países do centro europeu estão enaltecendo mais acordos sindicais, a exemplo da Espanha , Portugal, França e Alemanha. Na América Latina, podemos dizer que o Uruguai e a Argentina têm uma cultura coletiva mais desenvolvida do que a do Brasil.

- Quer dizer, com isso, que o acordo coletivo visa atender as peculiaridades de determinadas categorias.

- Isso mesmo, Clóvis! Não é possível ter o mesmo regime para trabalhadores da indústria e do comércio varejista, por exemplo.

- Mas, afinal, quem ganha e quem perde?

- A meu ver, quem ganha mais é o empregador.

- Eu também penso assim, Reinaldo! O governo, que não é de esquerda, vai modificar a Previdência Social e a Trabalhista, visando precarizar os direitos. Aliás, as altas taxas de desemprego insuflam ainda mais os ânimos para a realização dessas mudanças.

- Só para trazer uma opinião abalizada à baila, vejam o que disse o presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e região:

“...dezenas de categorias serão prejudicadas se os acordos entre empresários e trabalhadores estiverem acima do legislado.”

- Pessoal, o papo tá muito bom, mas chegou a hora de voltarmos às nossas necessidades básicas.

- Pois, então, fale, seu Gumercindo?

- Almoçar, minha gente! Afinal hoje é domingo e o almoço em família é coisa séria. Vamos pensar assim, minha gente: Apesar de tudo, penso que vale a pena a gente prosseguir e lutar por dias ainda melhores.

 

Obs. Créditos ao Jornal da Universidade(UFRGS) n.45, edição 199, março de 2017, texto de Samantha Klein , que deram sustentação aos diálogos na crônica

Escrito por Saint Clair Nickelle, 03/05/2017 às 14h54 | sannickelle@gmail.com

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