Depois de uns dois anos de confusão emocional e idas e vindas meu amigo resolveu abandonar o barco. Não com facilidade, nem com total satisfação, mas agora diz que “pelo menos” se sente mais calmo. Sente a poeira baixar. Vê o barco cada vez mais longe, ao sabor do vento, mas não resiste, não faz força, optou pela não ação (“a não ação também é uma ação”). “E também, por mais que esteja ou não esteja, por mais que venham outras pessoas, por mais que nunca mais a veja, tem o elo. E isso não vai mudar nunca, isso nos pertence. O resto é o de menos”, disse ele, muito sábio.
O elo.
O elo é o “de mais”.
O elo é aquilo que fica.
É o que permanece, “mesmo se cortarem nossa cabeça fora”. É o encontro entre-almas, o motivo, o sentido maior. O registro no corpo, o registro além-corpo, o karma. O elo era o que precisava ser feito, o que ninguém, nem mesmo a gente, alcança nem pode mudar. É nosso. Deus.
Quando pensamos nos elos, ao invés de nos prendermos às pequenices de dia a dia, conseguimos enxergar o algo maior. Passar por cima de julgamentos e picuinhas e agradecer.
Há elos mais fracos e elos mais fortes, elos mais ou menos prazerosos, mas todos somam ao que somos hoje, ao que seremos amanhã, ao que viemos. E diferente do que a história do meu amigo e a foto abaixo (lindos johnny deep e kate moss um-pro-outro foréva!) sugerem, os elos não se resumem aos relacionamentos de casais. Estamos para-sempre os estabelecendo, com pessoas, lugares, ações. Sabe a sensação que você “viveu um pedaço da história de fulana”? É elo. Sabe aquela casa do seu avô que você não visita há 20 anos mas ainda lembra o cheiro? Elo. Sabe aquela amiga de infância que te ensinou a comer miojo com catchup? Elo. Sabe aquela professora da quinta série que você queria ser igual? Elo. Sabe aquele cachorro que sempre te segue na rua? Elo. Sabe aquele mate de fim de tarde com amigos? Elo. Sabe aquela cachoeira que você visita? Elo. A senhora que vende milho na praia e que você vê todos os dias. Elo. Ela JÁ ESTÁ em você. Faz parte.
O elo é uma cumplicidade, muitas vezes não-escolhida. Estamos “enredados” uns aos outros, uns ao Todo, e tudo faz sentido. Confusão deliciosa essa somatória chamada nós.

Texto originalmente publicado na coluna Ex pressão, Página3 impresso, outubro 2011.
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