Jornal Página 3
Coluna
Ex pressão
Por Caroline Cezar

Religare

 

Esses dias minha filha veio da escola dizendo que ouviu “umas coisas lá” sobre Buda mas que já sabia que não era verdade.

 

- Hmm, mas o que você ouviu?
- É que estavam dizendo que quem gosta de Buda não gosta de Deus, mas eu sabia que isso não podia ser verdade porque eu sei muito bem que Buda também é um Deus.

 (Era uma discussão entre crianças, porque uma apareceu com uma medalhinha de Buda).

 

Soube que ali, ano passado houve reclamação de uma mãe sobre ser oferecida oficina de capoeira, “coisa de candomblé”, no ambiente escolar.

 

Se uma religião, seja ela qual for, ensina a odiar ou ter preconceito com quem não é igual, ela não segue os preceitos básicos de amor e respeito ao próximo e isso não é admissível.

 

A própria palavra religião perdeu o sentido, porque é associada a fanatismo, culpa, medo, e outros estereótipos que não lhe cabem. Religião vem do latim religare, é voltar a ser, religação, estabelecer um canal direto com Deus, seja de que forma isso se dê. Tem gente que gosta de rezar, outros preferem cantar, outros sentar em silêncio. Há ainda quem goste de ler. Praticar yoga. Beijar o chão. Repetir palavras. Dançar. Entrar no mar. Tomar banho de rio. Ingerir chás.


Não existe forma errada, desde que a conexão seja sincera e verdadeira. Uma vez ouvi alguém dizer: “estão todos indo pro mesmo lugar, só que uns vão a pé, outros a cavalo, outros pedalando, de trem, ônibus ou avião, mas o destino é o mesmo”.


Se o destino é o mesmo, não deviam louvar uns aos outros, acenar, dizer bom dia, mesmo que à distância? Por que parece tão difícil aceitar a expressão de amor em diferentes formas? Se Deus está em todos os lugares, qual o problema de adorar uma imagem a mais, uma a menos, que represente algo maior, a relação do indivíduo com o Todo? Não é natural que entre pessoas tão únicas e diferentes, existam expressões múltiplas?


E quando essa discussão sai da escola, do bairro, e sobe para uma eleição presidencial? Eu não sei o quanto que escuto é verdade, se são ataques da oposição, se é apelação, máfia... mas sei que há igrejas e mais igrejas financiando campanhas políticas e sempre participando da mais alta escala de interesse e poder. O Estado deve ser obrigatoriamente laico. As religiões podem co-existir e todos têm direito à expressão. Chamar uma cultura religiosa de “seita” ou coisas do tipo, é um desrespeito e uma ignorância. Quem usa a religião “pro bem” ou “pro mal” são as pessoas, maus intérpretes das escrituras sagradas. Os valores universais estão para lembrar-nos do livre arbítrio, da lei de causa e efeito, de uma conduta favorável nesse sentido. O resto é do homem que não se vê parte do Todo, está desconectado.

 

 

“Los partidos, son partes. El país es un todo.
No promulgar la división. Luchar por la unión.
La politica está obsoleta. Basta de odio”.
(Alejandro Jodorowski)

Escrito por Caroline Cezar, 12/09/2014 às 10h00 | carol.jp3@gmail.com

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Dilemas

Senti a necessidade de dizer que estou de férias daqui, na verdade não é isso: ando com uns dilemas sobre formato, conteúdo, texto, não texto, foto, não foto. Sou muito transparente pra fingir inspiração, e não é nem falta de inspiração, mas o que fazer com ela. Dias de sol, ventos diferentes, sento no banquinho pra ver qual é. Meu marido fez quarenta, meu pai faz sessenta e minha avó fará 80. Minha bebê se move pela casa, meu filho se move pelo mundo, minha filha dança e escreve emails reclamando direitos. Agora eu tomo café preto, hábito que não tinha. Agora eu me recolho com o dia, hábito que não tinha. Agora eu tô aqui, esperando o que vai ser, hábito que também não tinha.

Por enquanto, sugiro a quem se interessa pelas mudanças constantes, assistir a esse documentário. Com tempo. 

 

 

(E das cinquenta reflexões que eu faria aqui, escolho uma: "o que estamos fazendo com a luz dos outros? Ajudando a acender, ou ajudando a apagar"?) Amém.

Escrito por Caroline Cezar, 06/08/2014 às 09h28 | carol.jp3@gmail.com

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Socialmente inaceitável

O caso grave de agressão que aconteceu no colégio particular foi um prato cheio para quem, do alto do seu teclado mágico, gosta de apontar vilões e mocinhos, cavocar a vida alheia, criar teorias e, euforicamente, quase comemorar as desgraças. Não basta às famílias sofrerem a tragédia, têm que lidar com a segunda tragédia, que é cair na boca da geração facebooker, os justiceiros de cadeira. Que passam horas por dia sentenciando na rede e quando se encontram ao vivo comentam sobre as “postagens” que fizeram ou deixaram de fazer. A bostagem na vida real, não enxergam.

O que surpreende não é a tragédia, é a surpresa. É perceber que a maioria não percebe que esse tipo de agressão está sendo construída cotidianamente, sorrateiramente, desapercebidamente; e pior: de forma socialmente aceita. Não existe plantio sem colheita, mas parece que quanto mais escancarado é o fruto, mais a sociedade trata de vê-lo isolado do pomar, como se caísse do céu.

“Isso não dá pra tolerar! Vamos achar o culpado e o motivo, jogamos as pedras e acabou. Nossas mãos parecem até mais limpas”.

Nesse mesmo mundo que não enxerga o fruto da ação amarrado à ação, é socialmente aceito crescer sem pai nem mãe, ser cuidado por terceiros, desde bebê-que-mama até perder de vista.

É socialmente aceito ser recebido com agressões, que chamam de “procedimentos padrão”, pra sempre registrados em nossas memórias menos lembradas e mais sentidas.

É socialmente aceito que desconhecidos ditem como devemos gestar e parir nossos filhos, se devem ou não mamar no peito, se devem ou não dormir com os pais, se devem usar rosa ou azul, se devem se esgoelar chorando sozinhos porque colo demais “estraga”, deixa dependente (!).

É socialmente aceito que tratem bebês como porcos na engorda, que devem obedecer a uma linha de crescimento como se fossem produção em série, mesmo que seja à base de alimento industrializado e de péssima categoria. E que tratem mães como pedaços de bife, que devem “recuperar” um corpo que agrade o mercado do sexo e da aparência.

É socialmente aceito ser dono da vida: antecipar, prolongar, fazer cópias, trocar pedaços, injetar toxinas, fabricar alegria, sono, prazer.

É socialmente aceito não ver o indivíduo como indivíduo, e sim como mais um, que deve ser igual pra não soar estranho.

É socialmente aceito colocar crianças desde muito cedo dentro de salas pequenas por horas, em filas, de costas pras outras, ouvindo, ouvindo, ouvindo o que alguém despeja. Cinco dias por semana. Não olhe pros lados.

É socialmente aceito que quem esteja à frente dessas crianças não tenha descanso, lazer, equilíbrio físico e mental e trabalhe oito, dez, doze horas por dia como um condenado para pagar as contas dos filhos -que estão sendo cuidados por outro no mesmo estado psíquico.

É socialmente aceito conversar muito pouco sobre o mundo, a cidade, o bairro, a casa, mas estudar geografia através de um livro que a todo ano é “renovado” para render lucros à editora e conchavos, mas que continua defasado, porque, só pra começar, é unidimensional. Temos google maps na palma de um celular. (E temos lá fora pra quem consegue ver).

É socialmente aceito que se dê menos importância às refeições em família, onde se come qualquer coisa que não se sabe de onde vem. De preferência em dez minutos e na rua, para que sigam todos às atividades da tarde. Quem não tem agenda cheia é um deslocado social. 

É socialmente aceito não ter “tempo livre”, aliás, é muito mal visto socialmente estar à toa, porque mente vazia é coisa de quem mesmo? Soca a mente de coisa, vai.

Os celulares, social e amplamente aceitos. Crianças os recebem cada vez mais cedo. Pais se preocupam mais com o modelo oferecido, do que pra que será usado. As escolas, pra lavar as mãos, proíbem. Mas esse computador de bolso com câmera de vídeo, foto, gravador e acesso ao mundo, é um mero emissor de “whatsup”? Reclamam, mas ninguém quer repensar o uso. Eles existem, fato. Poderiam ser ferramentas úteis.

Social e amplamente aceito é tarjar com medicamento faixa preta crianças que conseguem manifestar sua insatisfação com a doença desse modelo.  Depois têm a coragem de chamar quem expressa isso de maneira incontrolável de “estranho”. Eu não consigo aceitar.

Texto originalmente publicado no Página3 impresso, em 05 de julho de 2014.

Escrito por Caroline Cezar, 11/07/2014 às 09h40 | carol.jp3@gmail.com

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De luto #street #art

Quase chorei quando vi a parede branca que pintaram em cima da moça bonita que deixava tudo mais feliz no viaduto da Martin Luther, antes da prefeitura. Cometer um despautério desses quase ao lado do paço municipal é escancarar a falta de admiração e reconhecimento do governo pela arte que PULSA LIVRE, que não depende de edital, costa quente e aprovação, que não tem burocracia, tem-que-ser e discurso político, e que representa verdadeiramente a alma de uma cidade. Na parede da frente pintaram os quadrados de verde e amarelo e eu pergunto POR QUÊ, POR QUÊ MEO DEOS. In memorian: lambe-lambe assinado por Jean Villegas.

 

 

 

PS: Nota publicada na edição impressa em 21.06. Quem passar pela Martin Luther essa semana vai ver que quase ao lado  da ex-moça há um grande painel de grafiti sendo desenhado, projeto aprovado pela Lei de Incentivo Municipal. Legal, mas a arte não cabe dentro de uma caixa. Precisa apoio? Sim! Apoio às aprovadas e às "não aprovadas". (Pergunta: quem "aprovou" um fuleco na frente da prefeitura?)

 

Escrito por Caroline Cezar, 02/07/2014 às 09h52 | carol.jp3@gmail.com

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Brincar é urgente!

Só vi o trailer, mas já recomendo. Sou suspeita, tenho alma brincante e apaixonada por isso que brota solto. "Brincar pra mim é usar o fio inteiro de cada ser". (Que assim seja)

 

Escrito por Caroline Cezar, 24/06/2014 às 09h13 | carol.jp3@gmail.com

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Frutificar a polêmica #cidade

Válida a discussão sobre cortar ou não cortar a árvore que tá no caminho (?) da estrada.
Aquela UMA.
Quando ninguém vê cortam mesmo.
Pra alargar rua, pra expor vitrine, pra levantar prédio.
Ou "só porque cai folha".

Mas com polêmica a coisa gira, a politicage impera, vai até à votação popular (!!)

Nas redes, dezenas de comentários de todo tipo sobre aquela UMA árvore. 
"Na casa dele ele corta".
"Transplanta ela".
"Põe um pouquinho pro lado".
"Coloca em risco o trânsito".
"Tá podre".
"É linda". 
 

Salve a livre expressão e as criatividades.
 

No fim desse verão tórrido fiquei olhando algumas vezes toda aquela molecada torrando os miolos no sol. Andando longas distâncias, na saida da escola, sem nenhum sinal de sombra. Longas distâncias sem nenhuma árvore e nem ao menos uma intenção - um galhinho, uma muda, um broto. Não tem e não vai ter.


Árvore demora a crescer.
Conheço um monte de gente que não planta porque tem preguiça. 
De sair do sofá, de esperar o ciclo natural, de cavar, ter paciência pra ver nascer. 

 

Seria bom acrescentar à discussão plantios urgentes de novas árvores.
Incluam as grandes. As pequenas. Frutíferas. Ornamentais. Trepadeiras. Maracujá. Abóbora. Chuchu.

Quem sabe daqui uns quinze anos a molecada pode caminhar na sombra e até levar uma coisa pro almoço.


Vamo adiante gente.

 

Escrito por Caroline Cezar, 11/06/2014 às 09h13 | carol.jp3@gmail.com

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