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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A vida através das cartas 2

O LIVRO

A carta é um meio de comunicação dos mais antigos e hoje caminha para a extinção. Tenho observado que muitas pessoas não sabem mais escrever uma carta. Mas ela é uma fonte importante de informação e conhecimento e, em muitos casos, mais confiável que documentos oficiais. Ao escrever uma carta, em especial para pessoas mais chegadas, seu autor não tem preocupações estéticas, gramaticais ou com outros leitores, de sorte que redige de maneira livre, sem censura ou reserva. Por isso mesmo, até as cartas de pessoas anônimas do povo vêm sendo valorizadas pelos cientistas sociais como fonte insuspeita de informação sobre épocas ou fatos.

Quando as cartas são de pessoa de realce em qualquer campo, adquirem ainda mais valor. No caso dos escritores, suas cartas ajudam a iluminar sua obra literária e desvendam fatos de sua vida que podem ter influenciado de forma marcante sua criação. Muitos autores, no correr da história literária, só se tornaram totalmente compreendidos após o conhecimento de sua correspondência.

Por isso mesmo, o lançamento do livro “As Cartas de Ernest Hemingway” (Martins Fontes – S. Paulo – 2015), organizado por Sandra Spanier e Robert W. Trogdon,  é um evento importante para os leitores e admiradores do Velho Hem. O volume é o primeiro de uma série prevista para doze e engloba as cartas escritas entre 1907 e 1922, ou seja, a fase de formação do homem e do escritor na luta pela afirmação profissional. É um trabalho criterioso, com milhares de notas explicativas, três ensaios introdutórios, cronologia, mapas, lista de correspondentes com uma súmula biográfica, calendário das cartas e um álbum com excelentes fotos. Trata-se, enfim, de um trabalho minucioso e repleto das mais variadas informações sobre o escritor e sua obra. Ambos os organizadores são professores universitários de literatura nos Estados Unidos. O livro foi traduzido por Rogério Bettoni.

O ESCRITOR

Ernest Miller Hemingway (1889/1961) nasceu em Oak Park, proximidades de Chicago, no Meio Oeste americano. Filho do médico Clarence Edmonds Hemingway e Grace Hall Hemingway, estudou nos colégios locais e não frequentou a universidade. Embora escrevesse desde cedo, teve uma infância ativa e passou muito tempo no meio rural, pescando, caçando e até trabalhando duro nas propriedades da família.  Influenciado pelo pai, seu orientador, tornou-se exímio caçador e pescador. Suas cartas registram inúmeras excursões de caça e pesca.  No decorrer da vida realizaria grandes caçadas, inclusive safáris na África, alguns deles repletos de incidentes cujas notícias correram mundo. Tomado de intenso desejo de aventura, alistou-se como motorista de ambulâncias na Cruz Vermelha Americana e serviu na Itália durante a I Guerra Mundial. Sofreu em ação sérios ferimentos, sendo internado num hospital militar em Milão, e foi condecorado por atos de bravura. Durante a permanência no hospital, apaixonou-se pela enfermeira americana Agnes Von Kurowski, mais velha que ele, mas ela romperia a relação, tempos depois, fato que o marcou por toda a vida. Ao retornar aos Estados Unidos, descobriu que era um herói, admirado e cortejado por todos. Depois de um período incerto, trabalhando em empregos provisórios, casou-se com Elizabeth Hadley Richardson, que seria a primeira de suas quatro esposas. Com ela, decide se mudar para Paris, influenciado pelo escritor Sherwood Anderson, que o recomendou aos amigos lá residentes, entre os quais Gertrude Stein, Ezra Pound e a livreira-editora Sylvia Beach, proprietária da célebre Livraria Shakespeare and Company.  Na capital francesa, sobrevivendo de matérias enviadas a um jornal canadense, do qual era correspondente, e de um pecúlio da mulher, iniciou a luta por um lugar ao sol no mundo das letras. Vida pobre, de poucos recursos, o que, no entanto, não os impediu de viajar à Suíça, Itália e ao interior do país, além de frequentar o hipódromo, as corridas de bicicletas, as lutas de box e outras diversões.  Além disso, como correspondente de jornal, realizou outras viagens internacionais para cobrir eventos importantes. O casal retornou por algum tempo à América para o nascimento do primeiro filho, John Hadley Nicanor Hemingway. Seus trabalhos literários começam a aparecer e ele não tarda a se impor no meio literário e cultural. Esse é o período coberto pelo livro.

BIOGRAFIA EPISTOLAR

Hemingway era arredio à ideia de ser biografado, fosse em vida ou cem anos depois da morte. No entanto, sem querer, acabou se autobiografando nas incontáveis cartas que escreveu aos mais variados destinatários, muitas delas longas e detalhistas. É verdade que desde cedo nutria certa preocupação com a leitura desses documentos íntimos pela posteridade. Em carta de 1950, segundo os organizadores do livro, Hemingway afirmou que havia queimado as cartas daquele período depois de se impressionar com as palavras do escritor Ford Madox Ford: “Um homem sempre deveria escrever suas cartas imaginando como seriam lidas pela posteridade.”

Assim, a correspondência ativa dele foi sempre deixada de lado e jamais destinada à publicação. No entanto, “ela constitui a sua autobiografia narrada em tempo presente. Ela enriquece nossa compreensão de seus processos criativos, oferece informações acerca da cena literária do século XX e documenta a construção e o marketing de um ícone norte-americano” – afirmam os organizadores.

Apesar de contrariar seu desejo, Hemingway teve sua vida examinada nos menores detalhes e inúmeros são os seus biógrafos, sem falar nos ensaios, reportagens, entrevistas, artigos e matérias jornalísticas a seu respeito. As cartas constituíam “a última fronteira inexplorada  de sua obra.”

AS CARTAS

Hemingway escreveu grande quantidade de cartas ao longo de toda a vida. Costumava dizer que elas eram mal escritas, em geral com muita pressa, nos intervalos do longo e cansativo trabalho de jornalista e, mais tarde, de escritor, e por isso elas nem sempre mereciam o cuidado devido. Mas gostava de escrever e exigia dos correspondentes que respondessem. É interessante notar que escreveu numerosas cartas à mãe, com quem sempre teve suas diferenças, e também ao pai. Em algumas passagens revelava irritação com certas atitudes paternas.

As primeiras missivas revelam um caráter ainda infantil, hesitante, redigidas em caligrafia de criança. Tratam de pescarias, acampamentos com amigos, caçadas e assuntos ligados à fazenda da família, onde costumava permanecer nas folgas do colégio. Aos poucos começam a aparecer temas ligados a namoradas, esportes, escritos para jornais escolares e preocupação com o futuro. Depois, já na iniciação no jornalismo, queixa-se do excesso de trabalho, dos parcos salários e da falta de dinheiro. Com o avanço da guerra na Europa, surgem os primeiros desejos de se alistar como voluntário. Mas um defeito na vista impede sua ida; é rejeitado pelas forças regulares. Alguém sugere, então, a Cruz Vermelha, nela se alista como motorista de ambulâncias e ruma para o campo de luta. Ferido com gravidade, em ação, é hospitalizado em Milão e aí acontece a grande paixão de sua vida. Recuperando-se, embora ainda mancando e usando muletas, retorna aos Estados Unidos. Não tarda a chegar a carta de Agnes rompendo o namoro. O choque é tão violento que fica transtornado; na verdade nunca superou o trauma, que carregaria pelo resto da vida. As cartas do período revelam o seu sofrimento. Mas eis que surge Hadley, exuberante moça de Saint Louis, e se apaixona por ela. Muito jovem, casam-se, já com a intenção de se mudar para a Itália. Sherwood Anderson, escritor célebre, o convence a trocar a Itália por Paris, o local adequado para um aspirante a escritor. E assim Hemingway e a jovem esposa se fixam em Paris. Ali ele dá início a uma carreira vitoriosa que o transformará num dos mais lidos e famosos escritores de todo o mundo.

Escrito por Enéas Athanázio, 09/10/2017 às 16h57 | e.atha@terra.com.br

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