Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O segredo do velho Hem

O escritor americano Ernest Hemingway (1899/1962) foi um homem cheio de vida. Atleta, nadador, pescador e caçador aficionado, adepto de touradas, corridas de cavalos e de bicicletas, lutador de box, esquiador e incansável viajante, revelava intenso amor pela vida. Escritor bem sucedido como poucos, amealhou imensa fortuna com seus livros e recebeu o Prêmio Nobel. Mantinha um padrão de vida invejável, tanto na Finca Vigia, em Cuba, como em Ketchum, nos Estados Unidos, em Paris ou Nova York. Não obstante, para espanto e comoção geral, suicidou-se com um tiro de espingarda. Seus incontáveis leitores e amigos, no mundo inteiro, ficaram estarrecidos e todos se indagavam qual teria sido a causa do gesto extremado.

Segundo os médicos e seus amigos mais chegados, entre eles A. E. Hotchner, seu futuro biógrafo, que com ele conviveu nos últimos quatorze anos, o escritor fora acometido de feroz depressão provocada pela ideia fixa de que estava sendo vigiado e perseguido pelo FBI e pelos fiscais do imposto de renda, temores destituídos de qualquer fundamento. Segundo outros, ele estaria convencido de que portava uma doença incurável que o levaria a cruéis sofrimentos, hipótese também desmentida pelas pessoas próximas, entre elas Mary Welch, sua última esposa. Fato inegável é que ele apresentava visíveis sinais de decadência física, emagrecia a olhos vistos, exibia um aspecto flácido e tinha outros problemas de saúde, herdados do grave acidente aéreo que sofrera num safári africano. Nenhum deles, no entanto, seria suficiente para justificar o suicídio.

Qual seria, então, a verdadeira razão?

Na tentativa vã de explicar, surgiram as chamadas teorias conspiratórias, uma delas, muito bem urdida, exposta no livro “Adeus, Hemingway!”, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes (Companhia das Letras – S. Paulo – 2001). Jornalista, ensaísta e ficcionista, o autor nasceu em Mantilla, nas proximidades da Finca Vigia, na vila de San Francisco de Paula, em Havana, em 1955. Nesse livro ele engendra uma história das mais curiosas e chocantes, com certeza inspirado em conversas maledicentes ouvidas de gente que conheceu Hemingway ou até mesmo havia trabalhado para ele. Como se informa, cerca de trinta pessoas viviam na dependência do escritor em Cuba.

Pela história de Fuentes, restos mortais de uma pessoa teriam sido encontrados na Finca Vigia, enterrados sob uma das árvores preferidas de Hemingway, quarenta anos após o escritor ter deixado Cuba e se transferido para os Estados Unidos. Concluiu a perícia tratar-se de um homem, e no mesmo local foi encontrado um distintivo do FBI, enferrujado mas ainda reconhecível, além de uma bala que se identificou ser de metralhadora portátil Thompson. O detetive particular Mário Conde, também escritor e grande admirador do americano, decide investigar os fatos. Examina o local, interroga pessoas, consulta os jornais da época e chega à conclusão de que um agente do FBI teria sido designado para vigiar Hemingway, locado junto à embaixada americana em Havana. Na constante vigília, teria invadido a casa do escritor, durante a noite, ameaçando-o de arma em punho, quando foi alvejado e morto, não se sabendo se o autor dos disparos foi Hemingway ou algum de seus homens que tenha acorrido em seu socorro.

A hipótese nunca pôde ser comprovada e, com certeza, jamais o será, mas alguns indícios se juntaram a favor dela. De acordo com os jornais da época, um agente do FBI desapareceu de forma misteriosa em Cuba, a metralhadora Thompson que Hemingway possuía desapareceu sem deixar vestígio e um dos homens que trabalhavam na Finca Vigia foi retirado de Cuba e levado para o México a bordo da lancha “Pilar”, pertencente ao escritor. As pessoas interrogadas foram reticentes nas suas declarações, nada esclarecendo, e o mistério permanece, inviolável, sem que jamais pudesse ser esclarecido.

Seria esse o segredo que tanto angustiava o Velho Hem e que o levou à morte prematura? Teria levado consigo esse segredo? Eis a questão.

Escrito por Enéas Athanázio, 02/10/2017 às 08h45 | e.atha@terra.com.br

publicidade





publicidade









Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br