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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A massa e o biscoito

 “A massa, meu caro, há de chegar ao biscoito fino que eu fabrico.”

A biografia é um gênero literário exigente, ainda mais quando o biografado teve uma vida ativa e movimentada, dedicando-se a múltiplas atividades. Foi o que aconteceu com Oswald de Andrade (1890/1954), um dos principais líderes do Movimento Modernista, e que mereceu excelente e minuciosa biografia realizada por Maria Augusta Fonseca, professora da USP e pesquisadora da vida e da obra do biografado. Trata-se de “Oswald de Andrade – Biografia”, publicado pela Editora Globo (São Paulo – 2007).

José Oswald de Sousa Andrade era paulistano e foi em São Paulo que desenvolveu suas atividades como escritor, jornalista, dramaturgo e agitador cultural. Irrequieto, espirituoso, polemista e provocador, conquistava admiradores fervorosos com a mesma facilidade com que colecionava inimigos rancorosos. Não perdia ocasião de fazer uma boa piada, mesmo que isso, não poucas vezes, pudesse ferir as suscetibilidades de alguém. Como diz sua biógrafa, é impossível distinguir os fatos reais das lendas que o envolvem. Filho de pais muito ricos, foi um garoto mimado, cujas vontades eram sempre satisfeitas. Ao longo da vida esbanjou imensa fortuna e terminou os dias na pobreza, dependendo de empréstimos com agiotas e bancos, às vezes em situações humilhantes, Gordo, cabeludo, vestia-se com esmero, embora de forma extravagante e era dotado de intenso magnetismo que atraía desde logo as pessoas. Inteligente como poucos, ainda jovem já armazenava vasta e variada cultura.

Mal entrando na maioridade, trancou a matricula na Faculdade de Direito e foi para Paris, recebendo generosa mesada do pai para viver como um príncipe na Cidade Luz, além de viajar pela Europa, frequentando hotéis, cassinos e recepções de luxo. Para estrear nas suas confusas relações com as mulheres, voltou casado com uma francesa, rainha dos estudantes, a quem chamava de Kamiá. Foi a abertura de um imenso rol de mulheres com quem se envolveu e “casou”, no qual se inscreveram Deisi, Tarsila do Amaral, Patrícia Galvão (Pagu), Pilar Ferrer, Julieta Bárbara e Maria Antonieta d’Alkmin, afora outras passageiras. Com a francesa teve o primeiro filho, Nonê, que se tornou conhecido artista plástico; com Pagu teve o filho Rudá e com Maria Antonieta outros dois filhos, Paulo Marcos e Marília. Só a bailarina Carmen Lídia resistiu aos seus encantos e não cedeu ao assédio. Casou-se com Pagu, muitos anos mais nova, em pleno cemitério da Consolação.

Retornando à Pauliceia, entregou-se a intensa atividade literária e jornalística. Em co-autoria com Guilherme de Almeida produziu duas peças teatrais, escritas em francês, “Mon coeur balance” e “Leur âme”  Estava ainda sob a forte influência dos autores franceses.

Não tardou, porém, a perceber que a influência gaulesa estava desfigurando a cultura nacional, inclusive a nossa língua, como também observaram outros intelectuais, entre os quais Monteiro Lobato. Voltou-se para a realidade nacional e criou o chamado Movimento Pau Brasil, visando destacar a nossa própria cultura. Segundo Paulo Prado, “Oswald de Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um ateliê da Place Clichy – umbigo do mundo – descobriu, deslumbrado, a sua própria terra.” Mais tarde, sob o mesmo influxo, lançou o Manifesto Antropófago, ambas iniciativas inovadoras e que sacudiram o meio cultural. É necessário absorver a cultura geral e devolvê-la com as nuances nacionais, assim como o índio, ao devorar outra pessoa, acredita estar adquirindo as qualidades dela. Outros movimentos surgiram em oposição aos criados por Oswald provocando intermináveis debates.

Oswald de Andrade teve ativa participação na chamada Semana de Arte Moderna realizada no Teatro Municipal de São Paulo nos dias 7, 15 e 17 de fevereiro de 1922, evento considerado até hoje como divisor de águas entre o classicismo conservador e o modernismo. Dela participaram figuras representativas da cultura nacional sob intensas vaias, apupos, gritos, assovios e objetos lançados ao palco. Graça Aranha, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida, Villa Lobos, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e outros tantos fizeram palestras, declamaram, executaram músicas, discorreram sobre arte moderna e as ideias futuristas que corriam mundo.  Tarsila não participou porque se encontrava na Europa.

Entre a atividade jornalística, viagens pelo mundo e amores sucessivos, Oswald vai publicando seus livros. “Memórias sentimentais de João Miramar”, “Serafim Ponte Grande”, “Os Condenados”, peças teatrais, poesias, manifestos, crônicas e artigos aparecem numa imensa torrente. É um estilo novo, fracionado, quebrando a sequência lógica, repleto de hiatos e surpresas que espantam e intrigam o leitor de obras conservadoras.  Mais tarde publicaria suas memórias sob o título de “Um homem sem profissão.” Isso porque, dizia ele, com amargura: “Aos que se dedicam à carreira de escritor está reservado o papel de pobre-diabo na sociedade. Nada lhes garante a sobrevivência. Uns se vendem, outros se isolam, são muitos os malabarismos, Essa luta do escritor revela um Brasil ainda muito atrasado. “ Escritor, no Brasil, não tem profissão – concluía ele.

“O menino irrequieto do Modernismo”, como foi chamado, exerceu inúmeras atividades.  Foi palestrante e conferencista de raro talento, encantando os ouvintes pela verve e pela espirituosidade. Foi político militante e candidato a deputado federal, sem sucesso. Durante algum tempo se tornou fazendeiro. Dirigiu e fundou jornais, entre eles “O Homem do Povo”, em colaboração com Pagu, e que foi empastelado pelos acadêmicos de Direito da USP. Prestou concurso para professor universitário mas jamais deu aulas. Conviveu com figuras emblemáticas, no Brasil e no Exterior, entre as quais Isadora Duncan, de quem foi amigo, Blaise Cendrars, a quem chamava Sans Bras, uma vez que o poeta perdera um braço na guerra. Travou relações com as grandes figuras do mundo artístico na França e na Europa em geral. No Brasil, pertenceu ao grupo de Ricardo Gonçalves, o Ricardito, figura carismática que frequentava o Café Guarani. Manteve relações de amizade com Joaquim Inojosa, pregador apaixonado do Modernismo no Nordeste, e foi amigo íntimo de Mário de Andrade, com quem se desentendeu, rompendo relações. Tudo fez para se reconciliar com ele, mas Mário jamais o perdoou. Pertenceu ao grupo de D. Olívia Guedes Penteado, foi divulgador de Lasar Segall e parceiro de Flávio de Carvalho em montagens teatrais. Monteiro Lobato pertenceu ao seu círculo de amigos e Oswald reconheceu, com justiça, ter sido ele o mais remoto precursor do Modernismo no país. É inumerável seu círculo de relações.

A vida de Oswald de Andrade foi uma gangorra de altos e baixos. Esteve em plena glória e em total ostracismo. Envolveu-se nos maiores escândalos em virtude de suas atitudes chocantes para a época e pelas posições que assumia. Durante longo período sua obra literária foi esquecida. Hoje, porém, é reconhecida, estudada e aplaudida. Suas Obras Completas foram editadas com sucesso e cresce o interesse pelas suas realizações intelectuais e pelos eventos de sua vida. A biografia de Maria Augusta Fonseca contribui de forma decisiva para realizar a esperada justiça literária. Como ele próprio previa, a massa (popular) está saboreando o biscoito que ele fabricou.

Escrito por Enéas Athanázio, 25/09/2017 às 08h27 | e.atha@terra.com.br

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