Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A voz dos pampas

Advogado e escritor, Israel Lopes é um pesquisador incansável, daqueles que se debruçam sobre um tema e o esquadrinham até o limite. Admirador de Pedro Raymundo (1906/1973), vem se debruçando há longos anos sobre a vida e a obra do cantor/compositor que se transformou na voz dos pampas. Afora outros trabalhos publicados, incluindo livros, lançou o volume “Pedro Raymundo e o canto monarca” (Letra & Vida Editora – Porto Alegre – 2013), minucioso e fundamentado levantamento biográfico do músico e sua produção, tendo como pano de fundo um amplo panorama da música regionalista, nativista e missioneira. Com esse ensaio primoroso, o autor resgata do ostracismo um artista que empolgou grande massa de admiradores em todo o país e fez escola na sua área de atuação. “As mídias televisivas, os jornais, as rádios e as revistas de hoje, na grande maioria, não divulgam esses artistas do passado. Somente nós, que somos idealistas, é que divulgamos esses artistas que tanto fizeram por nossa cultura musical” – escreve ele em justificado desabafo. Como em tudo o mais, a falta de memória brasileira também atinge o setor musical. Mas é fora de dúvida que Israel Lopes domina com segurança o assunto e tem ampla visão do panorama musical, seus expoentes e suas obras.

Pedro Raymundo era filho de Santa Catarina, nascido na cidade de Imaruí, ao sul do Estado, mas se tornou um catarinense agauchado, abraçando com fervor a cultura popular do vizinho Estado, ainda que algumas de suas composições indiquem que nutria saudade do chão natal. Filho de pescador e músico, desde muito cedo revelou pendores para a música e com poucos anos de idade já dedilhava uma sanfona de oito baixos, presente paterno. Estudou por algum tempo e exerceu várias atividades até decidir se transferir para o Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, seu primeiro emprego foi o de condutor de bondes até que começou a se apresentar como músico, tocando uma “gaita de botão” (cromática?). Começou executando jazz, cedendo à moda da época, antes de abraçar o cancioneiro gaúcho. Aos poucos foi conquistando espaço nas emissoras de rádio e granjeou fama em todo o país. Com a ajuda de amigos, vai tentar a sorte no Rio de Janeiro onde, aos poucos, as portas se abrem. Seguem-se as apresentações em grande estilo, gravações de discos, publicações de músicas de sua autoria, entrevistas e reportagens. Torna-se um ícone da música regional gauchesca festejado em toda parte. “Adeus Mariana” é seu primeiro sucesso nacional. Apresenta-se nas rádios Tupi, Mayrink Veiga, Nacional, Tamoio e Globo. Excursiona pelo país levando a música regional. É uma carreira vitoriosa que se estende por longos anos.

Passo a passo, o biógrafo rastreia a trajetória do artista e suas obras. Locais onde se apresentou, conjuntos a que pertenceu, personalidades com quem se relacionou, tudo é revelado em minúcia sem esquecer os eventos do momento histórico vivido. O livro é rico em documentos e fotos, muitas delas retratando o artista com seus companheiros e conhecidos, sempre vestido no rigor da moda gauchesca. São lembrados inúmeros outros músicos e compositores com os quais Pedro Raymundo travou relações.

A realização da obra exigiu ampla e prolongada pesquisa. É impressionante a quantidade de fontes e referências consultadas. Trata-se, enfim, de um trabalho modelar que dignifica o biografado e enaltece o seu autor. Está de parabéns o pesquisador gaúcho por tirar do ostracismo um artista de tanto talento e que jazia esquecido.

Escrito por Enéas Athanázio, 04/09/2017 às 11h13 | e.atha@terra.com.br

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