Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Banco do PTB

Nos começos da carreira de Promotor Público tínhamos a incumbência de dar assistência aos empregados nos seus pleitos trabalhistas. Tratava-se de uma atribuição anômala, imposta por velho decreto-lei da era getuliana, para as comarcas onde não funcionava a Justiça do Trabalho. Embora fosse uma tarefa trabalhosa, eu sempre a exerci com prazer. É que o Promotor, naquelas regiões remotas, constituía a única mão em que os miseráveis explorados poderiam se agarrar na busca de seus direitos miúdos, porque pobre nunca tem grandes direitos. Eles sabiam que dos políticos só poderiam esperar promessas vãs e mirabolantes e que os juízes só agiriam mediante provocação da parte. E quanto aos advogados, é claro que teriam que cobrar honorários porque, afinal, viviam disso. Restava-lhes o Promotor como tábua de salvação.

E eles vinham de longe, dos ínvios, dos socavões, muitas vezes a pé e descalços, molambentos e ressabiados. Pleiteavam quase sempre coisas elementares, direitos básicos não respeitados em virtude da absoluta ausência de fiscalização. Assim, quando eu entrava no Fórum, pela manhã, havia sempre diversos reclamantes à minha espera, sentados num longo banco rente à parede do corredor. Tratava-se do Banco do PTB, como fora apelidado pelos serventuários.

Com a maior paciência eu os recebia, tratava-os com dignidade, ouvia suas queixas e, - mais que isso, - tomava as providências necessárias. Jamais esquecerei a surpresa que lia nos olhos deles quando lhes dava atenção e me interessava pelos seus problemas; os coitados se sentiam gente, talvez numa rara oportunidade de toda uma vida. Depois, quando resolvidas as pendências, vinham os protestos de gratidão e os inevitáveis presentinhos. Por mais que eu recusasse, afirmando que não os aceitava, eles voltavam com alguma oferta das mais modestas como comprovação do reconhecimento. Um deles apareceu com um porquinho limpo e preparado para o forno; outro chegou com uma balaiada de laranjas colhidas a capricho no seu próprio pomar. Dois rapagões morenos e sérios levaram uma carrocinha carregada de lenha picada, do mais puro guamirim, “para enfrentar a friagem do inverno...” Entre constrangido e conformado, só me restava receber aquelas manifestações espontâneas de seres humildes, esquecidos e abandonados nas quebradas dos morros.

Mais interessante, porém, foi a chegada do pato. Numa tarde qualquer apareceu lá em casa um cidadão levando sob o braço um pato vivo. Um pato acinzentado, novo e gordo, bonito de se ver e que logo começou a caminhar pelo pátio, grasnando solitário. Tratava-se de mais um presente trazido de muito longe. Logo todos se apegaram ao pato, as crianças lhe davam milho e ele estava sempre andando atrás delas. Ninguém tinha coragem de tocar na simpática ave e ela foi ficando por ali, com suas penas brilhantes, cada vez mais gorda. Todas as manhãs, quando as crianças saíam para a escola, ficava à espera delas, empoleirado nos degraus da escadinha, sabendo que receberia alguma comidinha.

Os meses passaram e o pato cinzento lá permanecia. Chegou, afinal, a promoção e tivemos que carregar a mudança. Com grande tristeza de todos, o simpático pato foi entregue aos cuidados de um vizinho. Nunca perguntamos e nem quisemos saber do seu destino.

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Republico esta crônica para assinalar o Ano I
da instauração da servidão no país graças à
chamada reforma trabalhista. Justamente no dia
14 de julho, data da tomada da Bastilha, quando
os franceses exigiam liberdade, fraternidade e,
acima de tudo, igualdade.

Escrito por Enéas Athanázio, 14/08/2017 às 14h18 | e.atha@terra.com.br

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