Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Aventura ao redor de meu quarto

À cidade de Balneário Camboriú no seu 53º. aniversário.

Existe com esse título um poema que já foi famoso em que o poeta abordava aventuras psicológicas e imaginárias entre as quatro paredes daquilo que os antigos designavam por alcova (*). Mostrava que para os dotados de imaginação nem as paredes cruas conseguem impor limites. Agora, quando ditas aventuras são reais e vividas, não será tão fácil realizá-las em ambiente assim exíguo. Transpostas as coisas para o ambiente da cidade, nem sempre aventuras inovadoras são possíveis. Depois de muitos anos, tudo parece conhecido, visitado, sabido, palmilhado. Num sentido figurado, a cidade acaba se tornando nosso próprio quarto.

Essa, porém, não é uma regra. Sem sair dos limites urbanos, minha mulher e eu realizamos uma bela aventura aqui mesmo, sem viajar ou gastar, exceto o esforço físico, aliás bastante saudável. Vai o convite para que os curiosos nos acompanhem em imaginação ou refaçam nossos passos.

Percorremos passo a passo a longa passarela que o município construiu sobre as pedreiras situadas após a foz do Marambaia. É uma obra que se transformou em atração turística, uma vez concluída e ajardinada. Vencidas todas as curvinhas, penetramos pelo caminho que sobe o morro, o último, com mostras de ser antigo e bastante usado. Enveredamos por ali, sob o mato, vencendo a subida íngreme e o chão repleto de pedras e mais pedras. Não tardamos a deparar com companheiros de jornada, entre eles um pescador simpático e conversador, contador de “causos”, cuja satisfação maior era ser primo de um construtor arquimilionário que havia edificado este, aquele e aqueloutro prédio. Depois de muito suor, esforço e algumas escorregadelas, avistamos, lá em baixo, a Praia do Buraco, imensa, vazia, bucólica, com muita areia fofa e banhada pelo mar azul. Por ela seguimos, pés dentro d’água, sentindo a carícia do velho Atlântico, muito calmo àquela hora.

Andamos, andamos. Às vezes, solitário, algum praiano aproveitando, deitado ou vagando sem pressa, ruminando secretos pensamentos. Transposto o hotel, cujos fundos vão ter ao mar, chegamos até o penhasco do outro extremo. E ali, como que subindo ao céu, a inacreditável escadaria de concreto que leva ao pico do morro. E então, reunindo ânimo e coragem, iniciamos a escalada, degrau a degrau, dez, vinte, cinquenta, uma paradinha para tomar fôlego, e mais dez, vinte, cinquenta, até os duzentos do total (contados...). Esbofados, suados, arquejantes, entreparamos e olhamos para o mar. Inacreditável a vista que se descortina, compensadora de tanto esforço. Mar largo, azul e calmo, separando-nos da velha África, o misterioso continente negro das aventuras lidas na infância, a África do Sul com suas pradarias povoadas de bichos e a Namíbia com seu inóspito deserto e a maior feira livre do mundo. Além da cidade de Lüderitz, de onde Amir Klink deu a partida na travessia a remo do mar-oceano, como relata em “100 dias entre céu e mar.” Tudo entrevemos com olhos imaginativos, absorvendo em largos goles a beleza sem par do mar sem fim, o “mare magnum” cujo extremo tanto temiam os navegadores de antanho.

Descansados, deixamos de lado o último lanço de escadas que vai ainda mais acima e descemos pela via asfaltada que vai encontrar a Estrada da Rainha. Subindo ao topo, iniciamos a descida, tendo à frente a mole dos prédios que se elevam pela orla. A proximidade afirmava que, ainda que parecesse incrível, estávamos em nosso quarto.

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(*) “Voyage autour de ma chambre”, Xavier de Maistre, poeta francês       (1763/1852), publicado em 1795.

Escrito por Enéas Athanázio, 07/08/2017 às 11h06 | e.atha@terra.com.br

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