Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O Internacional

É provável que muitos não se lembrem, mas existiu um trem internacional que cortava nosso Estado pelo meio-oeste, mais precisamente pelo Vale do Rio do Peixe. Tratava-se de uma composição de luxo, com vagões blindados e todo conforto. Possuía vagão-restaurante, cabines com leitos, fumódromo com poltronas elegantes e garçons solícitos que percorriam os corredores servindo bebidas, petiscos e até mesmo jornais e revistas. Como era uma composição curta, atingia velocidade média bem superior à dos demais trens de passageiros. Além disso, não fazia escala nas pequenas estações, parando apenas nas mais importantes e por poucos minutos. Nas estações menores limitava-se a reduzir a marcha ao entrar no quadro para que o maquinista recebesse do agente o “pode”, ou seja, o passe que permitia o prosseguimento da viagem com a linha livre de outros trens.

O Internacional partia de São Paulo e só fazia escalas em poucas estações de cidades maiores, como Ponta Grossa. Porto União da Vitória, Caçador, Joaçaba e Marcelino Ramos antes de chegar a Porto Alegre, de onde prosseguia até Buenos Aires, após receber novas locomotivas. No território dos Estados do Paraná e Santa Catarina era mantido e dirigido pela Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC) e no Rio Grande do Sul pela Viação Férrea Rio Grande do Sul (VFRGS).

A composição era tirada por locomotivas grandes e possantes, lembrando-se as de números 620 e 644, ambas movidas a lenha como as “marias-fumaças” em geral Essas locomotivas sempre foram admiradas pela potência e pela elegância de seu porte. Mantidas em plena forma, apresentavam-se reluzentes como novas.

A passagem do Internacional pelas cidades menores, mesmo não fazendo escalas, era aguardada com curiosidade e muitas pessoas acorriam às plataformas das estações para apreciar o monstro negro e iluminado que avançava orgulhoso em direção a mundos diferentes. Em cidades maiores, onde fazia uma breve parada, constituía objeto de geral curiosidade e as pessoas o contemplavam com interesse. O trem aceitava passageiros para os trechos entre as cidades maiores e graças a isso tive ocasião de viajar nele algumas vezes. Comentava-se que só ferroviários mais qualificados prestavam seus serviços nesse trem. Inspetores, chefes-de-trem, maquinistas, foguistas, guarda-freios eram selecionados entre os mais esclarecidos e educados.

Como seria previsível, o Internacional provocou muita matéria de jornal e entrou na literatura e na história. Historiadores, contistas e cronistas muito escreveram sobre ele e até mesmo eu o relembrei em alguns escritos. O cronista catarinense Jocely Lona Cleto, nascido e criado em Porto União, viveu durante a melhor fase do luxuoso meio de transporte e o evocou com saudade em algumas de suas crônicas. No livro”Do mundo de minhas saudades”, publicado em 2001, rendeu suas homenagens ao trem  que fazia tanto sucesso, publicando inclusive fotos das célebres locomotivas 620 e 644 que por tantos anos o rebocaram na longa e tortuosa jornada.

“Fosse numa terça-feira, fosse numa sexta-feira, a chegada do Internacional era esperada com expectativa inusitada – escreveu o cronista. – Viesse do sul ou do norte, aqueles momentos de vibração eram vividos em Porto União da Vitória. Lá vem vindo o Internacional, anunciado pelo apito e bater do sino, inolvidáveis, que ainda hoje, na saudade dos momentos vividos, arrepia a todos. Lá vinha o Internacional pelos trilhos que chegavam de Ponta Grossa, atravessavam o rio Iguaçu na majestosa ponte ferroviária que mais tarde foi substituída por outra, feia e inexpressiva. E, quando o Internacional entrava na ponte, aquele apito parecia dizer: Estou chegando, estou chegando para vocês!”

Majestosa e elegante, a locomotiva ingressava no chão catarinense. Entre bufos e rangidos de freios, estacionava nas plataformas da bela Estação União. E ali tomava fôlego para prosseguir numa jornada longa e única, jamais esquecida pelos que conheceram o Internacional.

Escrito por Enéas Athanázio, 24/07/2017 às 18h47 | e.atha@terra.com.br

publicidade





publicidade









Fale Conosco - Anuncie no Página 3 - Normas de Uso
© Desenvolvido por Página 3

Endereço: Rua 2448, 360 - Balneário Camboriú - SC | Telefone: (47) 3367-3333 | Email: jornal@pagina3.com.br