Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Excursão ao nada

 

Fordlândia e Belterra foram iniciativas do magnata norte-americano Henry Ford na Amazônia, mais precisamente no Estado do Pará, na região de Santarém, proximidades do rio Tapajós. Mediante concessões de imensas áreas de terras, ele pretendia cultivar grandes quantidades de seringueiras para produção de borracha destinada à fabricação de pneus necessários ao esforço bélico durante a II Guerra Mundial. Com esse propósito foram implantadas vilas, organizadas em extensas quadras, com estradas numeradas, e edificadas casas padronizadas para funcionários e operários, além de prédios públicos para sede administrativa e escolas. Em longas fileiras, como soldados em formação, foram plantadas milhões de mudas de seringueiras, tudo dentro de rígidas normas técnicas e total controle dos funcionários. Por variados motivos, no entanto, o ambicioso projeto falhou, o grupo econômico suportou enorme prejuízo e tudo foi abandonado, retirando-se os americanos para sua pátria de origem. As vilas entraram em decadência, grande parte da população migrou para outras regiões, deixando um imenso vazio. Com o correr do tempo o governo estadual as transformou em municípios, ainda que com escassa população e minguados recursos.

Em Belterra, nos seus tempos áureos, Bernardino Sena viveu sua infância e depois se transferiu para outras cidades na luta pela vida. Permaneceu ausente por 65 anos até que decidiu visitar a cidade numa espécie de realização do eterno retorno de que trata o antigo mito abordado por tantos escritores. Com esse objetivo, ele e o filho, Nicodemos Sena, empreenderam uma excursão àquela cidade, partindo de carro de Santarém, e dedicando um dia inteiro à exploração do palco de um passado remoto. Essa excursão ao nada, que, para Bernardino, era o tudo, é narrada por Nicodemos Sena em dezenove episódios, em formato de crônicas, no livro “Choro por ti, Belterra” (Editora Letra Selvagem – Taubaté – 2017). Mais do que o relato de um mergulho no passado, o livro serve ao autor para reflexões sobre a vida, o presente e o futuro, a sabedoria e a experiência vivida, a exploração do homem pelo homem, a devastação provocada pela monocultura no coração da selva amazônica, o pensamento de seus autores e poetas e os eventos de sua própria vida.

Assim, devagar, dirigindo sem pressa e com o pai ao lado, ele trafega por estradas intermináveis, retas e estreitas, que se perdem no azulado do horizonte, invariavelmente vazias. Nem carros, nem pessoas, nem sequer carros-de-bois. Vez por outra avistam alguma casinha de madeira, quase sempre com as janelas fechadas, embora sintam que são espreitados por olhos agudos de pessoas que não se mostram, escondidas por detrás das paredes ou das árvores vizinhas. Onde estarão as pessoas? Onde se encontram? Buscam com sofreguidão a Vila Bode, bairro onde o pai viveu, mas ela parece ter desaparecido. Num repente avistam um prédio maior, diferente, e o pai reconhece nele a escola em que estudou. Depois, mais adiante, a casa em que residiu. Descobertas que o emocionam e levam às lágrimas. Por fim, quando o dia já vai longo, avistam a igreja e o prédio da prefeitura, ou seja, se deparam no “centro” da cidade. Ao contrário, porém, da agitação de outros centros urbanos, ali pairam o silêncio, a solidão e o vazio. Em toda a viagem encontram poucas pessoas, muito raras, ainda que simpáticas e acolhedoras. Na despedida, iniciando o retorno, o pai se abraça a um velho trator enferrujado, resquício de uma falhada promessa de riqueza, e chora copiosamente.

É um livro pungente e que nos enche de melancolia, tanto pela decepção de Bernardino no seu recuo no tempo como pela devastação provocada pela cupidez e pela ganância. Como escreve o autor, “retornar à terra dos sonhos, à minha Amazônia querida, que, como a Ítaca de Ulisses, se encontra tomada de pretendentes gananciosos e cruéis, os quais, sem escrúpulos, saqueiam e depredam os bens da terra, auxiliados por mucamas e mordomos (degenerados filhos da terra) que, a troco de migalhas e posições, passaram-se para o lado dos inimigos.”

Além de uma crônica emocionante, o livro de Nicodemos Sena é mais um alerta sobre o que acontece na Amazônia de longo tempo. Será que um dia, afinal, o Brasil tomará consciência disso e se disporá a exercer de fato sua soberania sobre aquela imensa região?

Escrito por Enéas Athanázio, 15/05/2017 às 09h34 | e.atha@terra.com.br

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