Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

O triste fim do Toinzinho da Badia

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, em seu célebre livro “Emílio”, sustentou o princípio da bondade inata do ser humano, ou seja, de que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Esse entendimento lhe valeu uma avalanche de críticas e perseguições que o obrigaram a se exilar na Suíça. É que ele contrariava o dogma do pecado original num período histórico em que isso constituía crime punido com penas muito severas. Não obstante, a história está repleta de exemplos, o mesmo acontecendo na literatura. Caso típico é o de Toinzinho da Badia, personagem central do romance “Destino de um criminoso”, de autoria do escritor goiano Edmo Nunes (Editora Kelps – Goiânia – 2011).

Filho de um casal de retirantes que chegou ao centro-oeste em busca de vida melhor, depois de uma viagem penosa e longa, não tinha documentos e nem sequer sobrenome. Mirrado, miúdo, frágil, recebeu a alcunha de Toinzinho que, mais tarde, evoluiria para Tonho. Para surpresa geral, o garoto se revelou precoce, hábil e inteligente. Aos treze anos era um peão consumado, dominando as técnicas e táticas da vida fazendeira. Montava, laçava, campereava, viajava com os tropeiros e ainda prestava serviços em casa, ajudando em variados misteres. Um tanto arredio aos estudos, mesmo assim aprendeu o suficiente. Desde muito cedo se mostrou dedicado à mãe e às pessoas que o ampararam nos momentos de dificuldade; era sincero e leal, conquistando a confiança de todos. Em síntese, pessoa de bons sentimentos, honesta e dedicada ao trabalho. No decorrer dos anos, porém, se transformou num assassino duro e calculista, capaz de execuções a sangue frio, embora agindo sempre por dedicação e lealdade às pessoas que amava. Sua carreira teve início com um ataque ao indivíduo que vivia com sua mãe e que a agredira. Seus crimes provocaram tenaz perseguição, uma vez que as vítimas eram pessoas de famílias poderosas, obrigando-o a uma vida errante até que decidiu se apresentar à polícia na esperança de um julgamento justo. Foi então “suicidado” na cadeia com um tiro na nuca. O menino bom, leal e honesto de outrora teve um fim dos mais tristes.

O romance se insere na corrente regionalista e a ação é ambientada no meio rural com seus povoados, grandes latifúndios, coronéis poderosos e autoritários, tropeiros, peões e a lida com as criações. Não falta sequer a velha política municipal, o ódio partidário, o voto de cabresto dos meros “portadores de cédulas” de que falava Monteiro Lobato. Avulta a figura da mulher decidida e corajosa que toma nas mãos o destino da fazenda, desafia os mandões e se impõe na liderança local. Aparece ainda o “turco”, mascate que fornece artigos necessários aos moradores, trazidos dos centros maiores.

O autor é um narrador de fôlego e vai desfiando seu enredo sem dificuldade, superando obstáculos, até chegar onde deseja. Em certas passagens é de uma fidelidade fotográfica e o leitor observa a cena como se estivesse presente. Nota-se que conhece a fundo os temas sobre os quais escreve. O meio físico, a paisagem, os costumes, o modo de vida, a psicologia dos personagens e seus valores, ele os domina graças à experiência vivida. Sua narrativa é verossímil e convincente porque, como dizia Hemingway, a verdade é a base da boa obra literária.

Também domina a linguagem regional, usando-a com moderação e nos momentos corretos, fugindo das caricaturas ou do caboclismo exagerado. Expressões e palavras locais curiosas aparecem no texto, muitas delas semelhantes às usadas em nossos Campos Gerais. Quando Deus era servido, ajuntamento, farturentas, bois erados, berranteiro, viajor escoteiro, atilho de milho, ficar querelando, cozinhando o galo, fez bonito, comer estrada, rachando taquara, eis alguns exemplos colhidos ao acaso no correr da leitura. Os nomes dos personagens e figurantes são bem apropriados: Quelemente, Badia, Tonho, Tubertino, Bento, Eleutério, Severino, Epitácio.

Trata-se, enfim, de um romance de leitura absorvente e que ensina ao leitor mais um pouco desse Brasil distante e que muitos desconhecem. Embora se diga que o regionalismo literário está morto e sepultado, a corrente não cessa de crescer e novos valores a ela se juntam nas diversas regiões do país.

Além do livro comentado o autor publicou “Últimas bodas” e “Mulheres do pecado”, ambos merecedores de análise mais demorada para, quem sabe, futura oportunidade.

(Contato com o autor: edmo.nunes@hotmail.com)

Escrito por Enéas Athanázio, 01/05/2017 às 23h14 | e.atha@terra.com.br

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