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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Do cangaço ao estrelato

O cangaço foi um fenômeno que não cessa de instigar a curiosidade dos pesquisadores e a bibliografia a respeito do tema só faz crescer. Entre os lançamentos mais recentes está o livro “Sila – Do cangaço ao estrelato”, de autoria de Elane Marques (Infographics – Aracaju – 2016), onde a autora aborda diferentes aspectos desse tipo de associação característico do Brasil e sem similar em qualquer recanto do mundo. O fio central da pesquisa foi biografar uma ex-cangaceira que se transformou em escritora e costureira de renome, obtendo grande notoriedade, mas alargou os limites para estudar a presença da mulher nos grupos cangaceiros e suas consequências. Estudou também os inúmeros casais que se formaram dentro dos bandos, seu modo de vida, a forma como as mulheres eram tratadas, os problemas decorrentes da gravidez e as implacáveis punições em caso de traição. Nesse sentido o livro é inovador, uma vez que não conheço obra semelhante.

O ingresso de mulheres nos grupos cangaceiros provocou muita controvérsia. Profetizaram alguns que seria o fim do cangaço; outros aplaudiram sem reservas. Admitida a entrada, a partir de 1929, os benefícios foram visíveis, como demonstra a autora. Desde então os cangaceiros teriam se humanizado, houve mais paz e tranquilidade no recesso dos bandos, reduziram-se os casos de estupros nas invasões de cidades e vilas e as doenças contraídas no baixo meretrício. Por outro lado, as mulheres tratavam da alimentação e do vestuário dos parceiros, contribuindo para a melhoria de sua saúde e higiene. Também não foram poucas as vidas poupadas graças à interferência delas.

Num levantamento que me parece único, a autora relacionou os inúmeros casais que se integraram nesses grupos. Dentre eles, avultam o de Lampião e Maria Bonita, ela tratada como uma rainha, sempre elegante, respeitada e querida por todos; Corisco, o Diabo Louro, e Dadá, mulher das mais corajosas e guerreiras, que não fugia aos combates, de arma na mão, e assumiu a liderança após o ferimento que impedia o marido de usar armas longas: Zé Baiano e Lídia, ele um cangaceiro feroz e desumano, célebre por marcar mulheres com ferro em brasa, e que assassinou a companheira a pauladas, depois de amarrá-la a uma árvore, em virtude de uma traição. Curioso no episódio é que o cangaceiro que a denunciou também foi sacrificado. A “ética” cangaceira não perdoava os “dedos-duros.” Destacou ainda, de maneira muito especial, a jovem Sila, quase menina na época, e seu companheiro e depois marido Zé Sereno.

Sila (Hermecília Braz São Mateus, depois Ilda Ribeiro de Souza) nasceu em Poço Redondo, Estado de Sergipe. Aos 14 anos de idade foi raptada pelo cangaceiro Zé Sereno, pertencente ao grupo de Lampião, e com ele conviveu até que a morte o levou. Permaneceu por dois anos no cangaço, tendo acompanhado o bando nas suas andanças, fugas das volantes, combates, assaltos e tropelias. Engravidou e teve um filho na caatinga, criança que foi entregue aos cuidados de coiteiros, uma vez que a presença delas era proibida. Mais interessante, porém, em sua vida cangaceira foi o fato de estar presente ao ataque das forças policiais na Grota do Angico na ocasião em que foram mortos Lampião, Maria Bonita e vários outros cangaceiros, em 1938, e que, segundo os historiadores, pôs fim ao cangaço. Desesperada, amedrontada, observando os que caíam em meio ao tiroteio e à fumaça das armas, Sila conseguiu escapar ao cerco e se tornou uma das sobreviventes da tocaia fatídica, como também aconteceu com Zé Sereno. Beneficiados pela anistia decretada por Getúlio Vargas, entregaram-se às autoridades, e iniciaram a longa e penosa viagem em busca de um recomeço de vida, Foram para Salvador, dali marcharam para Minas e, por fim, para São Paulo, onde se fixaram. O temível Zé Sereno, por ironia do destino, se tornou inspetor de alunos em um colégio e Sila granjeou grande renome como costureira, publicando também livros sobre sua terrível experiência e participando de novelas e seriados televisivos. Recebia frequentes convites para entrevistas e passou a proferir palestras sobre o cangaço e as minúcias da vida naquele meio. Andou por muitas cidades, falando e lançando suas obras, colaborando nas pesquisas sobre o assunto e contribuindo na sua divulgação. Tornou-se, em suma, verdadeira estrela, obtendo destaque na imprensa e entre os pesquisadores do fenômeno.

Graças ao meticuloso trabalho de Elane Marques, Sila foi alvo de importante ensaio biográfico e os estudos sobre o cangaço receberam significativa contribuição.

(Contato com a Autora: marqueselane2@bol.com.br)

Escrito por Enéas Athanázio, 10/04/2017 às 15h25 | e.atha@terra.com.br

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