Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

A terra sem mal

Graças à gentileza de Carlos Adauto Vieira, colega de ofício, pude ler o livro “História do Caminho de Peabiru”, de autoria de Rosana Bond (Editora Aimberê – Rio de Janeiro – 2009). Jornalista e pesquisadora, residente em Florianópolis, a autora realizou verdadeiro manual sobre os índios guaranis, seus costumes, modo de vida, crenças, mitos, história e tudo mais, baseado em longas e minuciosas pesquisas em copiosa bibliografia, documentos, entrevistas e visitas a diversas aldeias indígenas, tanto aqui no Estado como em outras regiões, mantendo contato direto e pessoal com seus habitantes. O resultado é um panorama amplo e completo da civilização guarani desde suas origens até os dias de hoje como não encontrei igual. A autora, sem dúvida, é possuidora de um conhecimento ímpar a respeito de tão complexo quanto vasto tema.

Embora o objetivo central da obra fosse investigar o lendário Caminho de Peabiru, ela foi muito além e tratou de inúmeros outros aspectos, muitos deles inéditos ou pouco conhecidos. Originários da Amazônia, os guaranis sempre foram dados a grandes andanças, embora não fossem propriamente nômades. No correr dos séculos se deslocaram para o sul e se instalaram no Paraguai e dali, em ondas sucessivas, se espalharam por outras regiões. Mesmo sendo um povo da mata, da selva, sempre cultivou uma fixação pelas areias das praias litorâneas. Para os guaranis, o litoral era o fim do mundo e só dali poderiam chegar à Terra Sem Mal ou Terra do Sol, segundo a mitologia situada numa ilha do Atlântico. Seria uma espécie de paraíso, de céu, de terra de benesses. Com tal propósito, percorreram imensos trechos da costa nacional, fixando aldeias em diversos lugares, inclusive aqui no Estado.

Objetivo maior, porém, teria sido a construção do Caminho de Peabiru, ligando o Atlântico ao Pacífico, o nascente ao poente, o leste ao oeste do continente. Com a construção, fariam o mesmo trajeto do Sol no seu dia-a-dia. Pesquisadores de várias áreas científicas, em criteriosas buscas, encontraram trechos do lendário Caminho em locais onde não foram destruídos pelo desmatamento, pelas lavouras mecanizadas e pela instalação dos latifúndios. É provável que alguns trechos tenham sido construídos por outros povos e foram reaproveitados. A estrada, cruzando as distâncias, contém trechos compactados pelo pisoteio dos viajantes, outros revestidos de gramíneas de um tipo especial cujas sementes são transportadas pelos pés das pessoas e assim se disseminam, escadarias em lugares íngremes, estacas sinalizadoras nas regiões pantanosas, cortes nas rochas e locais para descanso e guarda militar, muros e escoras. Partindo do litoral catarinense e paulista, o Caminho se estendeu para o oeste, cruzando o Paraguai, a Bolívia e o Chile, terminando em Copiapó, ponto provável da chegada dos guaranis ao Pacífico. Além do leito principal, o “caminho longo”, havia ramais ou “caminhos curtos.” É impressionante o esforço necessário, o trabalho incansável e a dedicação dos silvícolas para a realização de tão inaudita proeza. “É importante expor – escreveu a autora – que do ponto de vista guarani tudo indica que o Peabiru era tido como o Caminho Comprido (Tape Puku/Itapocu), que reproduzia na terra o caminho solar no céu. Portanto, poderia ser chamado também de Caminho do Sol.”

Tudo indica que eles de fato buscaram esse paraíso, tanto no leste como no oeste, muito antes da invasão europeia no Século XVI. Muitas das informações contidas no livro foram obtidas ao custo de paciência e persistência, conquistando devagar a confiança dos guaranis que, por índole, “só falam aos pouquinhos.” Falar à toa é considerado um dos piores defeitos. Algumas de suas crenças constituem segredos guardados a sete chaves e que jamais revelam. O não-índio, por mais íntimo que seja, “jamais possuirá a integralidade de tal código porque não é índio, pertence a outro tipo de sociedade.”

Segundo a autora, os guaranis alcançaram elevado grau de desenvolvimento técnico e científico, dominando muitos conhecimentos antes mesmo de serem descobertos pelos sábios europeus. A invasão europeia os “desaculturou”, como dizia Darcy Ribeiro, violentando seus costumes, crenças e modus vivendi, como se lhes tirassem o solo de baixo dos pés. Abandonados, vítimas do desprezo e do preconceito, lutam com extrema dificuldade pela sobrevivência em espaços cada vez mais limitados pela ganância e incompreensão de muitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/03/2017 às 09h28 | e.atha@terra.com.br

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