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Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Conversas fora da Catedral

Durante vários dias, em duas oportunidades diferentes e com longo intervalo entre elas, o escritor peruano Mario Vargas Llosa ficou diante do jornalista brasileiro Ricardo Setti respondendo a incontáveis perguntas. A primeira parte da entrevista foi realizada antes e a segunda depois que o escritor recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. O conjunto constitui um verdadeiro interrogatório que aborda a vida, a obra e o pensamento do entrevistado sobre os mais diversos aspectos. As entrevistas foram publicadas no Brasil sob o título de “Conversas com Vargas Llosa – Antes e depois do Nobel” (Editora Original – S. Paulo – 2011).

Logo de início o escritor é questionado sobre seus amigos na vida e nos livros. Destaca sua antiga admiração por Sartre e o grupo da chamada “geração perdida”, composto por Hemingway, Fitzgerald, John dos Passos, Faulkner e outros. Acima de todos, porém, coloca Jorge Luís Borges, pelo qual confessa ilimitada admiração. Entre os brasileiros, destaca Euclides da Cunha, Guimarães Rosa e Jorge Amado, este último seu grande amigo. Revela imenso fascínio por “Os sertões.” Também o chileno Pablo Neruda integra o círculo dos grandes amigos. Quanto ao Brasil, recorda suas andanças pelo sertão baiano quando colhia elementos para o romance “A guerra do fim do mundo”, inspirado em Canudos, que ele considera uma de suas obras mais importantes. Já naquela época se queixava dos efeitos da fama, como a perda da privacidade, os perturbadores do sossego e os inevitáveis inimigos gratuitos. Dizia ser quase impossível trabalhar em Lima, razão pela qual viajava muito, tal como acontecia também com Jorge Amado em Salvador.

Não se furta a comentar facetas curiosas de sua vida, como o casamento com a tia, episódio romanceado em “Tia Júlia e o escrevinhador.” Relata que casou aos 19 anos com uma mulher mais velha, na verdade parente por afinidade, irmã de uma senhora casada com um tio. O casamento foi feliz enquanto durou e se separaram como amigos. Mais tarde, em virtude de comentários maldosos saídos na imprensa, ela se voltou contra ele, ameaçou processá-lo e até publicou um livro bastante hostil. “Esse foi o pior resultado de ‘Tia Júlia’: – diz ele – ter malogrado essa relação que até então era cordial.” Esse casamento foi comentado à exaustão pela mídia mundial.

Em outra passagem recorda o ativismo político da juventude e sua mudança de posição após o desencanto com a Revolução Cubana. Tão intensa foi a hostilidade contra ele que ficou impedido de entrar na Universidade San Marco, onde havia estudado, sob pena de ser linchado pelos acadêmicos. E, se isso não bastasse, noticiou-se que foi incluído na lista negra do Sendero Luminoso. Mais tarde, quando se candidatou a presidente da República, os ataques se multiplicarem e foi mimoseado com quantas injúrias se possa imaginar. Considera, no entanto, que a experiência foi positiva porque, para o escritor, tudo que acontece na vida, para o bem ou para o mal, acaba contribuindo na realização de sua obra. A malograda campanha eleitoral rendeu o livro “Peixe na água”, um interessante registro do que é a política latino-americana. Por outro lado, graças a ela conheceu melhor o seu país e aprimorou a visão sobre a América Latina como um todo.

Fundamental para ele, porém, é escrever e escrever. Não consegue imaginar a existência sem escrever; é a escrita que justifica a vida. Segundo afirma, seu processo criativo é lento e trabalhoso. Anota, registra, corrige, corta, emenda. Houve obras que lhe tomaram até quatro anos de trabalho, como “A guerra do fim do mundo.” Outras também exigiram prolongada dedicação. Quanto ao Nobel, afirma que já não esperava mais, considerando que haviam se esquecido dele. Hoje, vivendo apenas da literatura, passa parte do ano em Lima e parte em Londres, depois de ter vivido em vários países. Entre as 9 e as 14 horas, trancado no escritório, trabalha sem cansaço. Não fala com ninguém, não recebe telefonemas, não tem contato com pessoa alguma. Nesse ponto é disciplinado como Hemingway. Entrega-se à “escravidão solitária” que constitui a razão maior de sua peregrinação terrena porque, como diz Fernando Pessoa, “escrever já é solidão que baste.”

As confissões de Vargas Llosa são extraordinárias lições de vida e valiosa orientação para quantos se aventuram no mundo das letras.
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Nota: “Conversa na Catedral” é o mais
famoso livro e Vargas Llosa. 

Escrito por Enéas Athanázio, 09/01/2017 às 14h45 | e.atha@terra.com.br

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