Jornal Página 3
Coluna
Enéas Athanázio
Por Enéas Athanázio

Não conteste o Contestado ...

Não são muitas as tentativas de levar ao palco os eventos da Guerra do Contestado (1912/1916), pelo menos que eu saiba. Entre elas, no entanto, avulta “O Contestado”, de Romário José Borelli, publicada em livro por Orion Editora (Curitiba – 2006). Historiador, musicista e dramaturgo, o autor nasceu em Porto União e vem realizando longa e bem sucedida carreira na arte cênica, tanto no país como no exterior. A peça em questão foi montada pela primeira vez em 1972, numa época em que a bibliografia a respeito do Contestado ainda era bastante resumida. Ademais, havia no ar o risco da censura pelo governo autoritário de então, mas a peça foi exibida em diversas localidades, algumas delas em plena rua, e sempre com grande sucesso. Segundo o autor, até a época da publicação a peça fora montada mais de vinte vezes e nela haviam trabalhado mais de quinhentos atores, desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. Como se vê, fez uma brilhante carreira.

A primeira observação que se impõe é de que o autor conhece bem o assunto, os personagens, a geografia da região onde se desenrolou o conflito, percebendo-se que palmilhou por lá e escreveu com base na experiência própria. Foi fiel aos usos e costumes locais, ao modo de vida dos nossos caboclos, suas crenças e convicções e, acima de tudo, procurou manter absoluta fidelidade à linguagem rude, ao mesmo tempo conservadora e criativa, falada pelos habitantes da Serra-Acima. Também foi muito feliz na construção dos diálogos, aliando assim duas condições que Hemingway considerava básicas na arte literária: a sinceridade e a expressão exata nas conversações dos personagens.

Quanto a estes, são numerosos e muitos deles pinçados da realidade histórica. O monge João Maria, cuja visita era esperada com ansiedade; a entrada em cena do monge José Maria, cuja morte no Combate do Irani semeou um rastro de ódio e um grito de vingança pelos campos e matos; as virgens santas Maria Teodora e Maria Rosa; o prefeito Amazonas Marcondes; Elias e Euzébio; o tenente Kirk e seu aeroplano; o temível Adeodato, por eles chamado Leodato, derradeiro chefe dos revoltosos no momento em que os redutos caíam um a um. Além de incontáveis atores e figurantes.

Também os locais dos acontecimentos são mencionados, desde os rios Iguaçu e Uruguai, dentro de cujos limites o conflito se estendeu, o rio Timbó, Porto Amazonas, Valões, Porto União, Calmon e Curitibanos, sem faltarem os redutos de maior expressão. A fuga em massa dos habitantes de Porto União na iminência da invasão dos revoltosos, os ataques a Calmon e Curitibanos, tudo é recordado com tintas fortes e sugestivas. Como se vê, tantos foram os acontecimentos, espalhados por uma imensa região e com tais detalhes que colocá-los numa peça teatral se torna uma tarefa das mais complexas. Mas o dramaturgo catarinense conseguiu e sua obra fornece um panorama geral do conflito e seu impacto emociona o leitor. Não tive oportunidade de vê-la no palco mas imagino o seu efeito.

O autor insistiu sempre na necessidade de conservar a linguagem regional “para manter a autenticidade do processo cultural através da fala e dessa forma o documento linguístico complementa o documento histórico. Não é uma imitação, não é uma caricatura. É, antes de tudo, um resgate preciso e assim deve ser tratado.” Também o ambiente de revolta dominante na região em face da exploração, da miséria e do abandono daquele povo fica bem visível, justificando o nascimento de um movimento espontâneo, de baixo para cima, tentando transformar pela força o statu quo vigente. Nesse contexto, o conflito do Contestado, segundo os cânones da Ciência Política, foi uma verdadeira revolução para a qual não faltaram razões. Pois, como diz o refrão tantas vezes lembrado na peça:

“Não conteste o Contestado,
sem sabê sua razão. .
.”

Escrito por Enéas Athanázio, 27/03/2017 às 09h52 | e.atha@terra.com.br

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A terra sem mal

Graças à gentileza de Carlos Adauto Vieira, colega de ofício, pude ler o livro “História do Caminho de Peabiru”, de autoria de Rosana Bond (Editora Aimberê – Rio de Janeiro – 2009). Jornalista e pesquisadora, residente em Florianópolis, a autora realizou verdadeiro manual sobre os índios guaranis, seus costumes, modo de vida, crenças, mitos, história e tudo mais, baseado em longas e minuciosas pesquisas em copiosa bibliografia, documentos, entrevistas e visitas a diversas aldeias indígenas, tanto aqui no Estado como em outras regiões, mantendo contato direto e pessoal com seus habitantes. O resultado é um panorama amplo e completo da civilização guarani desde suas origens até os dias de hoje como não encontrei igual. A autora, sem dúvida, é possuidora de um conhecimento ímpar a respeito de tão complexo quanto vasto tema.

Embora o objetivo central da obra fosse investigar o lendário Caminho de Peabiru, ela foi muito além e tratou de inúmeros outros aspectos, muitos deles inéditos ou pouco conhecidos. Originários da Amazônia, os guaranis sempre foram dados a grandes andanças, embora não fossem propriamente nômades. No correr dos séculos se deslocaram para o sul e se instalaram no Paraguai e dali, em ondas sucessivas, se espalharam por outras regiões. Mesmo sendo um povo da mata, da selva, sempre cultivou uma fixação pelas areias das praias litorâneas. Para os guaranis, o litoral era o fim do mundo e só dali poderiam chegar à Terra Sem Mal ou Terra do Sol, segundo a mitologia situada numa ilha do Atlântico. Seria uma espécie de paraíso, de céu, de terra de benesses. Com tal propósito, percorreram imensos trechos da costa nacional, fixando aldeias em diversos lugares, inclusive aqui no Estado.

Objetivo maior, porém, teria sido a construção do Caminho de Peabiru, ligando o Atlântico ao Pacífico, o nascente ao poente, o leste ao oeste do continente. Com a construção, fariam o mesmo trajeto do Sol no seu dia-a-dia. Pesquisadores de várias áreas científicas, em criteriosas buscas, encontraram trechos do lendário Caminho em locais onde não foram destruídos pelo desmatamento, pelas lavouras mecanizadas e pela instalação dos latifúndios. É provável que alguns trechos tenham sido construídos por outros povos e foram reaproveitados. A estrada, cruzando as distâncias, contém trechos compactados pelo pisoteio dos viajantes, outros revestidos de gramíneas de um tipo especial cujas sementes são transportadas pelos pés das pessoas e assim se disseminam, escadarias em lugares íngremes, estacas sinalizadoras nas regiões pantanosas, cortes nas rochas e locais para descanso e guarda militar, muros e escoras. Partindo do litoral catarinense e paulista, o Caminho se estendeu para o oeste, cruzando o Paraguai, a Bolívia e o Chile, terminando em Copiapó, ponto provável da chegada dos guaranis ao Pacífico. Além do leito principal, o “caminho longo”, havia ramais ou “caminhos curtos.” É impressionante o esforço necessário, o trabalho incansável e a dedicação dos silvícolas para a realização de tão inaudita proeza. “É importante expor – escreveu a autora – que do ponto de vista guarani tudo indica que o Peabiru era tido como o Caminho Comprido (Tape Puku/Itapocu), que reproduzia na terra o caminho solar no céu. Portanto, poderia ser chamado também de Caminho do Sol.”

Tudo indica que eles de fato buscaram esse paraíso, tanto no leste como no oeste, muito antes da invasão europeia no Século XVI. Muitas das informações contidas no livro foram obtidas ao custo de paciência e persistência, conquistando devagar a confiança dos guaranis que, por índole, “só falam aos pouquinhos.” Falar à toa é considerado um dos piores defeitos. Algumas de suas crenças constituem segredos guardados a sete chaves e que jamais revelam. O não-índio, por mais íntimo que seja, “jamais possuirá a integralidade de tal código porque não é índio, pertence a outro tipo de sociedade.”

Segundo a autora, os guaranis alcançaram elevado grau de desenvolvimento técnico e científico, dominando muitos conhecimentos antes mesmo de serem descobertos pelos sábios europeus. A invasão europeia os “desaculturou”, como dizia Darcy Ribeiro, violentando seus costumes, crenças e modus vivendi, como se lhes tirassem o solo de baixo dos pés. Abandonados, vítimas do desprezo e do preconceito, lutam com extrema dificuldade pela sobrevivência em espaços cada vez mais limitados pela ganância e incompreensão de muitos.

Escrito por Enéas Athanázio, 20/03/2017 às 09h28 | e.atha@terra.com.br

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Um Cangaceiro Diferente

O mundo do cangaço é repleto de surpresas. Fenômeno típico brasileiro, esse banditismo organizado e característico fascina pesquisadores e curiosos e revela aspectos inusitados e figuras das mais curiosas. Entre estas se destaca o caso de Jesuíno Brilhante (1844/1879) que se orgulhava de não ser ladrão e foi considerado pelos estudiosos um cangaceiro romântico. Ora, o cangaço se nutria do roubo, do furto, do assalto e da extorsão, de forma que encontrar um de seus expoentes, chefe destacado de bando, que foi romântico e não se apropriava do alheio parece algo impossível. Mas foi essa a imagem que deixou.

Jesuíno Alves de Melo Calado nasceu no sítio Tuiuiú, na localidade de Patu, no Rio Grande do Norte, de uma pacata família de agricultores. Em virtude do furto de uma cabra, gerou-se um conflito entre sua família e o numeroso clã dos vizinhos conhecidos como Limões. Enquanto os Alves de Melo eram brancos (“marinheiros”, de olhos azuis), os Limões eram negros, o que contribuía para acirrar os ânimos, ainda em época de escravidão. Os brancos recebiam o tratamento depreciativo de “amarelos”, enquanto os outros eram rotulados com desprezo de “cabras”.

O desentendimento degenerou em guerra franca e os ataques recíprocos se sucederam. A velha politicalha interferiu em favor dos Limões e a vida de Jesuíno se tornou impossível na região. Abraçou então o cangaço e em pouco tempo já chefiava poderosa quadrilha. Em homenagem a um tio, cangaceiro célebre, adotou o nome de Jesuíno Brilhante, com o qual se celebrizou. Segundo a voz do povo, tornou-se o protetor dos pobres, das famílias, dos fracos e das moças seduzidas. Tirava dos ricos para distribuir entre os pobres. Obrigava os sedutores a casar e atacava os comboios de provisões do governo, nos períodos de secas, para distribuir entre os famintos. Virou, em suma, uma espécie de Robin Hood matuto e foi louvado pelos cantadores das feiras e mercados na literatura de cordel. Descobriu uma gruta na encosta de uma serra e a transformou em fortaleza inexpugnável de onde fazia frente a numerosas volantes policiais – a famosa Casa de Pedra.

O cangaceiro foi morto em virtude da traição de um seleiro a quem havia feito uma encomenda e sepultado em cova rasa no próprio local. Anos depois, um médico, amigo dele, exumou os restos mortais e levou a caveira. Mais tarde ela foi entregue ao célebre psiquiatra Juliano Moreira. E desapareceu sem deixar vestígio porque “caveira não tem letreiro.”

Dois foram seus feitos mais notáveis. Com um grupo de oito cangaceiros, atacou em pleno dia a cadeia de Pombal, na Paraíba, destruindo-a e libertando 43 presos, entre eles seu irmão Lucas. Um ano antes, com dez homens, foi à cidade de Imperatriz, hoje Martins, para buscar uma moça “depositada” na casa de um figurão local. Cercados pela polícia e cidadãos armados, fugiram ilesos de maneira cinematográfica. Para isso, arrombaram a parede que ligava à casa contígua e desapareceram na escuridão da noite. Ambos os episódios tiveram intensa repercussão e até o governador do Estado determinou “prontas providências.”

Também merecem referência as “visitas” que fazia à cidade de Mossoró, afrontando a tudo e a todos enquanto o sertão fervilhava de escoltas policiais à sua procura.

Jesuíno Brilhante, segundo os estudiosos do tema, ainda exercia o cangaço com certa ética, coisa que Antônio Silvino e Lampião, seus sucessores, ignoraram. Conta-se que certa vez pediu a um fazendeiro rico uma quantidade de dinheiro, um cavalo e uma vaca, tendo o proprietário negado e dito que, se ele quisesse, pegasse com suas próprias mãos. “Eu não sou ladrão!” – gritou Jesuíno, indignado. Montou no cavalo e se foi. Como afirmou Gustavo Barroso nenhuma comparação entre ele e os outros cangaceiros é possível.

O cangaceiro romântico tem sido estudado pelos maiores nomes do folclore nacional, como Luís da Câmara Cascudo, Gustavo Barroso, Múcio Leão, Lauro Escóssia e Raimundo Nonato, autor do excelente livro “Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro Romântico”, edição fac-similar da Editora Sebo Vermelho (Natal/RN).

Escrito por Enéas Athanázio, 13/03/2017 às 13h27 | e.atha@terra.com.br

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Cendrars e o Brasil (2)

Blaise Cendrars, pseudônimo de Frédéric Sauser (1887/1961), foi uma das figuras mais curiosas do meio literário do Século XX. Nascido na Suíça, estabeleceu-se em Paris, depois de ter percorrido grande parte do mundo, envolvido nas mais incríveis aventuras, e tendo participado da I Guerra Mundial, quando perdeu um dos braços, decepado por um obus. Dizia ter exercido 36 profissões diferentes e que estava pronto para iniciar mais uma. Dentre os muitos países visitados, esteve no Brasil, onde foi recepcionado e ajudado pelos modernistas, entre os quais Mário e Oswald de Andrade, além do escritor Paulo Prado, em cuja fazenda permaneceu por algum tempo. Desde essas visitas, foi tomado de intenso amor por nosso país, do qual se tornou estudioso e divulgador incansável na Europa.

Michel Manoll, escritor e jornalista, realizou uma série de entrevistas radiofônicas com ele, depois publicadas no livro “Blaise Cendrars vos fala” (tradução livre), reproduzida no Brasil no volume “As históricas entrevistas da Paris Review”, editado pela Cia. das Letras. Nesse texto antológico, o escritor faz inúmeras referências ao Brasil, revelando que conhecia bem nossa cultura e nossas raízes. Entre muitos aspectos focalizados, mostrou a importância da literatura de cordel que vinga com tanta força entre nós e que muitas vezes é desprezada, em especial na região sul. Lembrou que essa literatura veio de Portugal e não tem origem negra, como alguns imaginam, além de ter influenciado muito mais a literatura erudita nacional que as obras acadêmicas. Afirma ainda que a literatura nacional sofreu forte influência dos autores franceses acadêmicos, o que é um fato histórico incontestável, e depois dos autores americanos, como Jack London, Mark Twain, Ernest Hemingway, John dos Passos, Scott Fitzgerald e Henry Miller, entre tantos outros, muitos deles autoexilados em Paris e pertencentes à célebre geração perdida. A influência francesa no Brasil foi de tal magnitude que ameaçou até mesmo destruir a nossa língua, provocando a reação de inúmeros escritores, entre os quais Monteiro Lobato. Hoje, a influência norte-americana é assustadora.

Explicou que os negros, trazidos como escravos, em geral não sabiam ler e escrever. Os poucos que, por alguma forma, conseguiam aprender, nada escreveram. O Brasil-colônia era proibido de publicar livros ou material impresso. Tudo vinha de Portugal, depois de passar por rígida censura. O temor de Portugal perder sua maior colônia era pânico. A falsa noção de que o cordel tinha raízes africanas deve ter sido uma das causas do arraigado preconceito contra ele.

Em seguida o escritor relembra Gregório de Matos, o Boca do Inferno. Bem moreno, ou “pardo”, no dizer da época, formou-se em Direito pela célebre Universidade de Coimbra e fez um curso brilhante. Tinha um talento genial para a poesia. Em versos cortantes, ironizava a sociedade colonial, o servilismo, a bajulação, a politicalha, e apontava a exploração de que o país foi vítima. Resultado: foi degredado para Angola, então colônia portuguesa, onde comeu o pão que o diabo amassou. Foi considerado o François Villon nacional e seus poemas, impedidos de publicação, foram transmitidos por via oral e se espalharam de maneira a alarmar os colonizadores. Voltando do exílio, veio ainda mais indignado e vituperou a metrópole e a sociedade colonial sem dó e nem piedade. Morreu na miséria e foi sepultado “como o mais miserável entre os mais miseráveis, com o violão, seu único bem.” Cendrars não esconde a emoção e a comiseração diante do que fizeram ao poeta genial.

Em outra passagem, recorda com saudade “o velho amigo Souza Dantas, conhecido como o embaixador boêmio, porque não tinha cama para dormir – quando estava com sono, virava o colarinho para cima, puxava a aba do chapéu para baixo e se esticava em um canapé russo de couro, fechava os olhos e dormia feito criança, sem se importar se você já havia saído ou não.” Na embaixada brasileira, fumando charutos e tomando cafezinhos, ele passava horas conversando com Souza Dantas, figura muito estimada pelos brasileiros que viviam na Europa e por europeus que gostavam do Brasil.

No Brasil, Cendrars participou da caravana modernista às cidades históricas mineiras, apaixonou-se pela obra do Aleijadinho, pelo carnaval carioca, pelas plantações de café e ficou fascinado com a figura de Lampião. Fez incontáveis planos sobre o Brasil, quase todos fracassados, mas muito escreveu sobre o nosso país, em livros e na imprensa, além de ter sido incansável divulgador de Tarsila do Amaal e Cândido Portinari. Segundo os críticos, a maior dádiva de Cendrasr ao Brasil foi ter aberto os olhos brasileiros para seu próprio país, levando-os a criar uma arte nacional, inclusive literária, em vez de ficar imitando os franceses.

Escrito por Enéas Athanázio, 06/03/2017 às 10h42 | e.atha@terra.com.br

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Indiologia Militante

Dois livros com temas indígenas me acompanham há muito tempo e a eles volto com frequência. Em cada recaída aprendo mais alguma coisa e assim ambos vão preenchendo longos momentos de leituras.

O primeiro deles é “Diários Índios”, de Darcy Ribeiro (Companhia das Letras – S. Paulo – 1996), adquirido numa banca, onde jazia esquecido e meio amarelado. É um imenso volume com 630 páginas, em tamanho grande e muito bem ilustrado com mapas, fotos e desenhos. Contém o diário minucioso, escrito em forma de carta do autor à esposa Berta, e que ela nunca recebeu, registrando as duas expedições por ele realizadas, com sua equipe, em 1949 e 1951, aos confins do Pará e do Maranhão, em busca das aldeias remotas dos índios Urubus-Kaapor, nunca jamais visitadas por brancos. Foi uma experiência incrível, pisando terras nunca palmilhadas por gente de fora, naquela que considero a maior aventura possível para um homem moderno dentro das fronteiras nacionais. No vigor de seus 27 anos de idade, tomado pela inquietude intelectual e curioso por verificar pessoalmente uma realidade desconhecida, Darcy Ribeiro realizou um trabalho único. Muito além do propósito inicial de registrar as expedições, ele enriqueceu a obra com observações valiosas que abriram os olhos de outros pesquisadores. A geografia da região, sua paisagem, os segredos da floresta, a organização das aldeias, os usos e costumes dos moradores, sua alimentação, as construções, a caça e a pesca, suas crenças e mitos, além de cenas do cotidiano, são descritas em profusão. Há relatos incríveis de episódios presenciados ou relatados por outrem, encontros com figuras curiosas e o registro das marchas do grupo, em batelões pelos rios ou em penosas caminhadas através da mata virgem. É, enfim, um painel inesgotável de informações sobre a região e seus arredios habitantes. Sobre essa obra escrevi dois ensaios que estão em meu livro “Mundo Índio” (2003).

O segundo livro a que me referi é “Trabalho Índio em Terras da Vera ou Santa Cruz do Brasil”, de autoria de José Martins Catharino (Salamandra Consultoria Editorial – Rio – 1995). É também um trabalho imenso, com 630 páginas, fundamentado numa bibliografia impressionante. Seu autor é um dos pioneiros nos estudos de Direito do Trabalho Rural, na época em que vigorou o respectivo Estatuto. Neste livro ele surpreende, com base em numerosas fontes, os indígenas brasileiros na época do descobrimento e examina o que aconteceu em seguida. Mostra o terrível equívoco dos europeus quando “atribuíram ao índio o defeito de não ser trabalhador.” É que, para eles, trabalho implicava em sedentarismo, horário, métodos, chefia etc., enquanto os índios sempre trabalharam – e muito! – mas de outra forma. Enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso. Aliás, Darcy Ribeiro observou que os índios não entendiam muito bem quando ele reservava comida para o dia seguinte; tratavam de comer enquanto tinham. Catharino, então, expõe as variadas áreas do trabalho indígena: trabalho necessário à sobrevivência (caçador e coletor), trabalho culinário, trabalho útil (construção de moradas e abrigos, confecção de vestuário, vasilhame), trabalho voluptuário (adornos, pinturas do corpo, enfeites), trabalho para elaborar bebidas, chás e fumo, trabalho musical (confecção de flautas, outros instrumentos, aprendizado de cantos), trabalho desportivo (treinamento para aloites) e trabalho locomotor (confecção de canoas, jangadas e remos), além de inúmeros outros afazeres, como a confecção dos próprios instrumentos. Diante disso, - conclui ele, - o trabalho indígena não foi apenas constante mas árduo, ainda mais que não dispunham de avançada tecnologia. Portanto, a invasão europeia provocou autêntica “desculturação indígena”, desorganizando a cultura local autêntica e conduzindo à sua destruição.

Por tudo isso, o conhecimento da literatura indigenista é indispensável para afastar mal entendidos e preconceitos. As obras acima mencionadas são tratados de “indiologia”, vocábulo em geral não dicionarizado, mas que resulta de “índio”+”logia” (do grego “logus”+”ia”), sufixo que exprime a noção de estudo, um campo de estudo, o estudo de um assunto em particular. Assim, o nosso Manifesto Nheçuano, liderado com bravura por Marco Marques, se avantaja e cresce de importância. Nós não apenas estudamos o índio, em especial o guarani, mas estamos lutando por ele. Praticamos uma “indiologia militante” e esse é o espírito que nos anima.

Escrito por Enéas Athanázio, 28/02/2017 às 12h27 | e.atha@terra.com.br

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No fundo do poço

A cada dia o governo-tampão de Michel Temer mais desvenda sua verdadeira face. Tanto o próprio presidente como vários de seus ministros mais chegados são suspeitos de envolvimento em negócios duvidosos investigados pela Polícia Federal. O presidente da Câmara e o ex-presidente do Senado, por ele apoiados, integram o mesmo rol, além do atual presidente da Câmara Alta e do recém-eleito presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Sua bancada de apoio na Câmara tenta, à socapa, impedir o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de punir partidos corruptos numa manobra por sorte descoberta a tempo pela imprensa. Se tudo não bastasse, cria um ministério e nomeia para titular seu amigo do peito Moreira Franco, também envolvido em conchavos nada edificantes. Fez exatamente aquilo que tanto foi condenado no governo deposto. Para completar, criou três novos ministérios, esquecendo as promessas de diminuir o tamanho da máquina governista. Agora, em mais uma manobra, indica para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) um de seus subordinados, pessoa notoriamente despreparada para a função e de equilíbrio discutível, esquecendo-se de tantas figuras ilustres e competentes existentes no mundo jurídico do país. Para completar, nestas últimas horas, correu a notícia de que o indicado é plagiário. Aliás, fico me perguntando se um suspeito pode indicar um ministro da Corte que poderá julgá-lo num futuro próximo. Tenho para mim que se trata de uma indicação nula pelo vício da suspeição. José Yunes, outro íntimo do presidente, também foi flagrado em maracutaias e pediu demissão. O governo pratica verdadeira ação entre amigos.

Ao discursar na ONU, na abertura dos trabalhos, deferência sempre concedida ao Brasil, Temer viu os delegados de vários países se ausentarem num gesto de protesto. E o OPALC (Observatório Político da América Latina e do Caribe) condenou a forma de implantação do atual governo, considerando-a anti-democrática. A Odebrecht se revelou uma corruptora internacional.

É um vexame atrás do outro para o Brasil!

Como brasileiro, patriota e nacionalista, confesso que me sinto acabrunhado.

Mas, por curioso que seja, não escuto os costumeiros panelaços com os quais até estava habituado. Por que será?

Enquanto isso, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), do Rio de Janeiro, cassa os mandatos do governador e do vice daquele Estado. É verdade que nunca tive fé em ambos, de modo que não houve grande surpresa. O vice, aliás, quando senador, foi acusado de adulterar a redação de uma lei depois de aprovada, fato que em qualquer país lhe teria custado o mandato. E o novo prefeito do Rio, para não perder a onda, nomeia o próprio filho para cargo do primeiro escalão. Não é apenas demagogo, mas também nepotista.

Pesadas suspeitas também recaem sobre o falecido Eduardo Campos, aquele que se apresentava como novo salvador da pátria. E sua companheira Marina foi citada nas investigações da Polícia Federal, embora a mídia tenha feito rigoroso silêncio a respeito.

Para complicar a situação, a violência cresce de maneira assustadora. O Espírito Santo é o palco dos horrores neste momento em que escrevo. É como se os Aloes tivessem fugido e os Morlochs tomassem conta do território. Algo semelhante ocorre no Rio.

Não bastasse tudo isso, Donald Trump assombra o mundo e enfrenta cerrada oposição em seu próprio país. Em pouco tempo de governo ele deu uma “banana” à globalização, mostrando que ela só é boa quando beneficia os Estados Unidos mas é péssima quando beneficia os demais países. Globalizem-se os mais pobres porque a grande potência se fecha em copas. Pergunto-me onde andarão agora os arautos da globalização, pregoeiros de suas formidáveis “vantagens”. Por que Delfim e Maílson nada dizem sobre isso?

Estamos no fundo do poço!

Escrito por Enéas Athanázio, 20/02/2017 às 11h12 | e.atha@terra.com.br

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